domingo, 20 de dezembro de 2015

Companheiro...

     Etimologia é a ciência que estuda a origem e desenvolvimento das palavras até chegar ao ETIMOS (ao real, ao verdadeiro). O que realmente em sua origem aquela palavra quer dizer? O que ela comunica?
    Numa época onde os significados são totalmente fluidos, ou sequer existem, acho que a etimologia se torna uma âncora, uma coluna, uma bandeira de esperança e solidez em nossa modernidade líquida. Deveríamos nos interessar mais por etimologia! Ou até querer ser etimólogos!

     Em tempos de fim de ano, olho pra vocês e os vejo como companheiros. Requisito a etimologia para esclarecer melhor o que quero dizer: Companheiro, aquele que come o pão junto. Do Latim cumpanis: cum (com, junto) + panis (pão). Na história antiga, era bastante frequente que uma tropa, isto é, um conjunto de pessoas agrupadas, parassem de cavalgar para descansar, e restaurar as forças numa estalagem, num boteco qualquer na estrada, comendo o pão servido que era compartilhado com todos. Daí saiu a palavra companheiro... aquele que come pão junto.


     Depois que comem pão junto, eles não são mais os mesmos. Alguma coisa especial acontece nesse tempo no qual é necessário usar uma palavra, uma nova palavra para designar as mesmas pessoas. Eles agora são cumpanis. Não são apenas viajantes, não são meros conhecidos, são cumpanis. Eles comem pão junto... companheiros.
     No Brasil a semântica nos trouxe significados vários para companheiro:
     O amancebado, a concubina, a hoje chamada união estável, antigamente era apenas companheiro(a);
     A esquerda brasileira requisitou o termo para que os integrantes ou simpatizantes do movimento pudessem se saudar entre si. Hoje é um termo comum no sindicalismo em busca de autenticidade do Brasil. Lembro-me da vovó, que me contou que na década de 60, no auge da ebulição socialista no país, alguém a chamou de “companheira Noêmia”. Ela então com toda a gravidade disse: Meu companheiro é o meu marido!!!
     Quero seguir a etimologia e pensar em vocês como companheiros. Comemos pão junto e não somos os mesmos, pois nos tornamos companheiros de caminhada, de luta, de alegrias, de esperança.   
    Lembro de Luiz de Carvalho, que partiu para junto do Divino Companheiro, esse ano. Desde garoto que eu me lembro não apenas da música, mas da cena: Divino Companheiro no caminho, sua presença sinto logo... O caminho de Emaús é uma das cenas mais lindas e mais tocantes do texto sagrado... Caminhava com eles, e fez como quem ia para mais longe, e os amigos disseram: Fica conosco... o dia já declina. E ele entrou para ficar com eles.
    Companheiro é alguém que caminha junto, e sente-se sua presença, pode-se contar com ele. Pode-se comer junto com ele à mesa. E no comer à mesa sabe-se quem é, pelos gestos, pelo timbre da voz, pelo riso. E percebe-se que arde nosso coração quando falamos, quando caminhamos juntos...

     Caminhemos juntos, e não tenhamos cerimônia em dizer para o outro, companheiro, seja este humano ou divino: Fica conosco... o dia já declina.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Sola Scriptura versus Pentecostalismo Popular

    Antes de qualquer coisa quero afirmar que sou pentecostal. Filho e neto de pentecostais, portanto, pentecostal de pentecostais. Falo em línguas, expulso demônios, oro pela cura de enfermos, creio em profecias, enfim, acredito na atualidade dos dons espirituais.
    Falo portanto, de dentro de uma igreja pentecostal histórica, da qual sou ministro. Acho que esta apresentação breve é suficiente, para afastar ideias equivocadas que possam chegar à cabeça do meu leitor.
    Ando pensando muito nesses últimos dias sobre um fenômeno que eu mesmo estou denominando de pentecostalismo popular.  Vou  até patentear essa expressão.  Por favor quem utilizá-la doravante cite a fonte(!). Lógico não estou sendo original.  Também não é um plágio. Explico:
    Busco essa ideia dos teólogos e estudiosos católicos. Eles cunharam a expressão catolicismo popular. O catolicismo popular é resultado das expressões religiosas do povo que embora almejando identificar-se com a fé católica institucional, no caso brasileiro, sofre de graves carências teológicas e pastorais. Nele são evidentes ranços de superstição, magia, ritualismo, arcaísmo; à pessoa de Jesus Cristo nem sempre se atribui o lugar que lhe cabe, como centro da fé cristã... (A Evangelização no Brasil, Dimensões Teológicas e Desafios Pastorais, Antônio Alves de Melo, Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, 1996, pág.235-238).
      Trazendo esse mesmo conceito  para um universo evangélico pentecostal, posso afirmar sem medo de errar que estamos diante de situações muito parecidas com as que ocorrem no  mundo católico. E aqui não se trata de pentecostalismo histórico e neo-pentecostalismo. Trata-se de um fenômeno relativamente novo, que envolve o pentecostalismo brasileiro, proponho portanto que o chamemos de pentecostalismo popular.
    O mundo protestante e evangélico como um todo sempre foi muito mais impermeável às expressões populares livres, do que o mundo católico, por três motivos: Em primeiro lugar pela sua ênfase nas Escrituras, uma herança do “Sola Scriptura” da Reforma, o que evitou muitos desvios e disparates, pois havia a ênfase no direcionamento Escriturístico, mesmo tratando-se de líderes leigos; em segundo lugar, por não constituir uma massa tão grande de pessoas, cuja participação no meio se dava por conversão, normalmente genuína, e não por adesão como ora, muitas vezes se vê; e em último lugar, por ainda não haver o domínio do mercado evangélico por empresas com grande voracidade pelo lucro, e com pouco ou nenhum compromisso com a herança do “Sola Scriptura”.
   
     Mas agora... o universo evangélico se tornou um mercado interessante, as Escrituras estão sendo substituídas pelos jargões pragmáticos e frases de efeito... é um tempo em que as expressões da religiosidade popular começam a tomar conta das mentes e competir, ou às vezes substituir,  as expressões institucionais da fé, e tendo em vista as facilidades da comunicação, espalham-se muito rapidamente e tomam os púlpitos e as assistências das igrejas.
      Trago alguns poucos exemplos, mas que nos dão uma noção bem clara do que estamos falando.  Consultei no Google algumas expressões desse pentecostalismo popular, e vejam o que encontrei:
·         Sapato de fogo    (Aproximadamente 534.000 resultados);
·         Divisa de Fogo  (Aproximadamente 517.000 resultados) e
·         Varão de Fogo (Aproximadamente 388.000 resultados).
     Em primeiro lugar surpreende um tão grande número de hinos, discussões, apresentações, questionamentos, defesas,  argumentações sobre expressões apócrifas, inexistentes no contexto bíblico e na doutrina cristã tradicional.  Sinceramente me esforcei para lembrar se no meu tempo de Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, estudando com o venerável mestre canadense Thomas W. Fodor, velho missionário pentecostal, em algum momento falamos dessas expressões ditas “pentecostais”. Não consigo me lembrar de nada parecido!
    Andei  folheando a bíblia, até em versões pentecostais, e não me foi oferecida alternativa para tais expressões. Só tem uma explicação: estamos diante de um fenômeno, o pentecostalismo popular.
    Olhei mais detidamente (no Google) e percebi que um irmão canta o hino “Sapato de fogo”, e numa das estrofes ele diz:
Eu calcei sapato de fogo, não posso me controlar!
É que o varão do movimento chegou pra movimentar!
   Sinceramente me esforcei para encontrar pelo menos uma distante analogia bíblica que me permitisse explicar o dito “sapato de fogo”, não consegui. Não tenho dúvida que alguém vai orar por mim para que os meus olhos espirituais sejam abertos, como os do moço de Eliseu (II Rs 6.17). Mas se os meus olhos forem abertos verei cavalos e carros de fogo! Exceto se os cavalos estiverem calçados com sapatos de fogo!!! E isso não posso inferir do texto!




    Um outro campeão de registros é “Divisa de Fogo”. Parece-me que um grupo denominado Fogo no Pé, tem os direitos autorais dessa canção. Imagino que estejam todos vinculados, porque quem tem Fogo no Pé, é porque calçou Sapato de Fogo!!
 Deus de fogo, Deus de fogo
Que abriu o Mar Vermelho
Deus de fogo, Deus de fogo
Que não deixa ninguém tocar
Num fio do teu cabelo
Deus de fogo, Deus de fogo
Que te chama pelo nome
Eu nunca vi, o justo mendigar um pão
Nem sua descendência passar fome

Divisa de fogo
Varão de guerra
Ele desceu na Terra
Ele chegou pra guerrear

      Ainda estou tentando entender o nexo semântico da expressão “Divisa de Fogo”. Cheguei à conclusão que no pentecostalismo popular não é necessário a busca de sentido e nexo das coisas. Desisti de entender. É a expressão em si, Divisa de Fogo, que na verdade não quer dizer nada, mas quer apenas incendiar  a imaginação de quem canta. Uma espécie de isqueiro espiritual.
      Cumpre-nos ainda comentar sobre o “Varão de Fogo”. Uma irmã canta esse hino, que vale a pena reproduzir, pelo menos um trecho:
Varão de fogo, varão de guerra,
Sinta o toque desses anjos que acabam de chegar
Olha ai quem vem chegando e tem fogo em suas mãos
E com ele vem marchando um exército de anjos,
Eles cantam santo, santo, santo é o SENHOR!

Sinta o toque desses anjos que acabam de chegar
Muitos anjos estão marchando em meio a multidão,
Canta agora no espirito e profetiza meu irmão,
A bandeira da vitória o anjo traz em suas mãos.
     Alguns encontram a base bíblica para um varão de fogo em Dn 3.25,o Quarto Homem da Fornalha de Fogo Ardente. Mas a característica desse homem, segundo Nabucudonozor é que Ele é semelhante ao filho dos deuses. Não precisa estar de posse de um comentário bíblico para se intuir que semelhante ao filho dos deuses não quer dizer Varão de Fogo. Seria forçar demais o significado do texto em sua simplicidade.
    Se a canção quer reproduzir alguma coisa da Visão de Isaías, no capítulo 6, estamos de uma salada mais maluca do mundo, e mais uma vez nem dá para caminhar nas comparações porque a minha capacidade intelectual é muito restrita para forçar a barra nos textos sagrados.
   Citar-me-ão Hebreus 12.29: “Porque o nosso Deus é um fogo consumidor”. Trata-se de uma metáfora, Deus como inspirador de santo temor.
    Vou parar por aqui. Não vejo problema que o pentecostalismo se vincule ao símbolo do fogo pela ênfase na ação do Espírito Santo, que desde Zacarias (cap 4) é simbolizado no azeite e no fogo. O problema está na exacerbação da temática “fogo”. E isto sim, é uma manifestação de um pentecostalismo popular.
     Para quem lê o texto bíblico, encontraremos, em qualquer versão utilizada algo muito próximo disso:
   - E foram vistas por eles línguas repartidas como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles (At 2.3);
- E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os olhos, como chamas de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivesse sido refinado numa fornalha... (Ap 1.14-15)
    Comparações, símiles, são figuras de linguagem, não devem ser entendidas em sua literalidade.  Cheguei a duas explicações plausíveis acerca do aparecimento e crescimento do pentecostalismo popular,  o primeiro é de natureza intelectual, e o segundo de natureza econômica:
a)       Os especialistas em desenvolvimento infantil e educação tem pesquisado exaustivamente acerca de dificuldades com a linguagem figurada, e o pensamento de forma concreta, presente em crianças e até adultos com determinados problemas de desenvolvimento. Eles interpretam toda a  linguagem literalmente, se disser que algo é “moleza” ele vai entender que há algum objeto mole ali, quando o que se quis dizer foi que  “aquilo será uma coisa fácil de fazer”. Quando se diz que “está chovendo canivetes”, ele acredita que canivetes possam cair do céu. Figuras de linguagem, metáforas, comparações não são compreensíveis. Quando se fala em fogo, o infante espiritual concretiza seu raciocínio nas chamas, e ainda agrega acessórios como sapatos de fogo;
b)      Infelizmente se explica muita coisa pela lógica de mercado. Alguma coisa vende? Vai ter lucros? Não importa se vão ser “500° de Puro Fogo Santo e Poder” (só não sei se utilizo a escala em Celsius ou em Fahrenheit, isto não ficou claro na proposta),  se intitulamos “Varão de Fogo”, “Sapato de Fogo” ou “Divisa de Fogo”. O que importa é que vende, e que o cantor vai ser contratado a peso de ouro, nos eventos pentecostais pelo Brasil inteiro.


       Não queria ser engraçado, nem sarcástico, reconheço que fui irônico, mas com objetivo didático. Não estou com vontade de rir. Estou com vontade de chorar. Chorar muito.  Isso quer dizer que precisamos erguer, não a “Divisa de Fogo”, mas a Divisa reformada do “Sola Scriptura”. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A Vida na Sarjeta, A Roupa Nova do Rei e o Rock in Rio 2015

     Em mais uma dolorosa crise de hérnia de disco, que me obrigou a tirar licença do trabalho, e ficar deitado por muitas e muitas horas, fiz algumas leituras, dentre as quais o livro “A Vida na Sarjeta – O Círculo Vicioso da Miséria Moral”, do médico inglês Theodore Dalrymple. É uma leitura instigante, provocante, da qual não se sai ileso, me vejo obrigado a escrever algumas linhas a respeito dessa obra corajosa e verdadeira.
   Digo que é um livro corajoso porque ousa falar do que está posto, de forma crítica e cristalina, me fez lembrar a criança do conto "A roupa nova do rei", de Hans Christian Andersen, que grita espontaneamente: O Rei está nu!!!

  Vale a pena relembrar:

. Um dia, um alfaiate espertalhão deu-lhe o seguinte conselho:
- Majestade, é do meu conhecimento que apreciais andar sempre muito bem vestido, como ninguém; e bem o mereceis! Descobri um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um manto assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes das pessoas tolas, parvas e estúpidas que não servirão para a vossa corte.
- Oh! Mas é uma descoberta espantosa! - respondeu o rei. - Traga-me já esse tecido e faça-me a roupa; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.
    O alfaiate aldrabão tirou as medidas do rei e, daí a umas semanas, apresentou-se, dizendo:
   - Aqui está o manto de Vossa Majestade. 
   O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu:
    - Oh! Como é belo!
   Então o alfaiate fez de conta que estava vestindo o manto no rei, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas:
    -  Vossa Majestade está tão elegante! Todos vos invejarão!
    A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um manto que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia, o rei decidiu sair para se mostrar ao povo, desfilando pela cidade, com sua comitiva real acompanhando.
    Toda a gente fingia admirar a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:
   - Olha, olha! O rei está nu!”

     O psiquiatra inglês aposentado, que na verdade se chama Anthony Daniels, mas escreve sob o pseudônimo de Theodore Dalrymple,  já exerceu a medicina em situações extremas em áreas de risco na África, América do Sul, e em seu país, a Grã Bretanha. Seus escritos são o resultado de sua reflexão na lide diária com pacientes a quem ele prestou atendimento e acompanhamento.
     Dalrymple constata que estamos numa sociedade que retira a responsabilidade da maior parte das ações dos indivíduos. Tudo tem uma explicação oriunda nas ciências sociais, seja na história (de preferência de viés marxista), na sociologia, ou na psicologia. Adolescentes grávidas, filhos ilegítimos, mulheres que apanham de seus parceiros, o insucesso escolar e consequentemente profissional, a criminalidade, a vida nas ruas, a plena e ampla desestrutura familiar... tudo isto já foi explicado por alguma tese, ou por uma “escola” que busca “amparar” o ser humano totalmente frágil, débil e à mercê das forças sociais que agem sobre ele.
     As pessoas e suas ações são, na nossa sociedade, vítimas das elites, das desigualdades, das injustiças.  Se uma adolescente engravida ainda na idade escolar, a culpa é da sociedade que não a apoiou corretamente. Se um assaltante lhe rouba e lhe fere, ele é uma vítima das forças históricas desse país de 300 anos de colonialismo português.
   Tudo pode ser academicamente explicado. Pilhas de livros se somam às centenas de teses inéditas que entopem as prateleiras das bibliotecas de pós graduação das universidades, fruto do debruçar constante sobre esses temas que nos angustiam e comovem.
   A proposta de modernidade, lançada na Revolução Francesa norteia a maior parte do raciocínio dos nossos intelectuais, cujas ideias predominam não apenas na academia, mas na mídia em geral, e são assimiladas prontamente por uma multidão de pessoas incapazes de esboçar o mínimo de senso crítico.  A educação tradicional, a fé, o universo familiar tradicional, os valores  absolutos... tudo isto deve ser lançado na lata de lixo da história, como uma baboseira retrógrada. Um novo mundo não comporta mais essas velharias.
    Um mundo novo, conforme pensava Rousseau, vê o homem com sua essência de bondade, que precisa se desfazer dos padrões tradicionais para viver em sua plena liberdade e potencialidade.

    Mas o homem bom dos iluministas, guiado pela razão, que passa a ser sua única religião, o homem que desdenha da divindade e de suas leis, o homem cujos valores são relativos e dependem da situação, o homem cujo desejo é o que dita seu “estar no mundo”, não interessa quem o rodeia... Este homem moderno guiado pelas ideias de nossos intelectuais não parece que criou um mundo ideal.
    Mas o caos no qual nos encontramos, não é culpa deste homem. O caos é culpa das forças da história, ou talvez  do Estado que não cuida do povo como dizia.
   O grito infantil de Dalrymple, como o menino do conto de Andersen, O Rei Está Nu, ecoa incomodando todo mundo. Há sim, responsabilidade de cada indivíduo. Não se deve ir buscar os responsáveis pelos erros e equívocos na sociedade ou no passado histórico, deve-se buscar em primeiro lugar a responsabilidade de cada indivíduo.
   Um intelectual diria que estamos falando do óbvio ululante, mas este óbvio não é mais tão óbvio assim. As explicações acadêmicas e cultas protegem os indivíduos que argumentam que foram arrastados para determinada situação, que A, B, ou C são os verdadeiros culpados. Os protagonistas não agem, são agidos. São pobres marionetes passivos puxados pelos cordões inexoráveis do destino.
   Me identifiquei de uma forma muito forte com o argumento de Dalrymple, porque a minha história valida o seu raciocínio. Eu venho de uma família muito pobre dos morros da zona norte do Recife. Minhas duas avós eram lavadeiras. Ocupação inexistente nos dias de hoje. Meu avô paterno limpava os esgotos da cidade, foi o melhor que ele conseguiu como migrante pobre da área rural de Alagoas para Recife. Meu avô materno era trabalhador na construção civil.
    Meus pais se casaram e compraram uma casinha no Córrego da Jaqueira. Na minha infância e adolescência a ruazinha tranquila foi se tornando violenta. As drogas e a delinquência de forma geral se instalaram brutalmente em nossa periferia. Não havia muita expectativa em torno de nós. Garotos muito cedo abandonavam a escola e aderiam à vagabundagem e marginalidade. Alguns foram assassinados em plena adolescência.
    Mas valores hoje ultrapassados eram cuidadosamente cultivados em nosso lar. Em primeiro lugar tínhamos pais, ambos. Mas isso parece muito careta não é? Uma família tradicional. Depois tínhamos valores. A educação era um deles. Eu estudava próximo ao centro da cidade. Tomava o ônibus de manhã cedo. O ônibus vinha lotado, muito lotado mesmo. Mas nunca me passou pela cabeça abandonar os estudos.  O trabalho era outro valor inegociável. Minha mãe começou a trabalhar quando eu tinha 12 anos, para ajudar na renda familiar. Nunca esperamos que alguém nos desse qualquer coisa. O que conseguimos era sempre fruto de nosso trabalho. Nunca esperamos nada do Governo. E tínhamos a fé. Nossas crenças eram resultado de nossas experiências de fé, que nos impulsionavam a ir adiante confiando em Deus, e temendo a Ele. Não havia espaço para fazermos as coisas erradas. Mas falar de fé em tempos modernos é complicado, não é?

     Dalrymple você está certo: A maior pobreza de nossa sociedade é a pobreza moral e espiritual. Não fui um caso de insucesso por ter nascido pobre.  Fizemos escolhas certas a partir de valores que nos foram passados por nossos pais.  Frequentei a universidade, em cursos de graduação e pós graduação. Fui aprovado em concurso. Conquistei um espaço no mundo. Casei, tive filhos, constitui uma nova família. Meus filhos estão seguindo nossos passos. Estou escrevendo estas linhas, porque tenho uma habilidade mínima para concatenar ideias e pensar por mim mesmo. Nós somos protagonistas da nossa história, responsáveis pelos erros e acertos.
    Enquanto escrevo estas poucas palavras, uma multidão de pessoas se acotovela no Rio de Janeiro para o grande evento Rock in Rio 2015. A imprensa nacional e internacional faz ampla cobertura do evento. Gente do país inteiro correu para o Rio para ouvir de perto sua banda favorita.
    Ficamos escandalizados porque muitos jovens da atualidade são verdadeiros bárbaros, sem qualquer resquício de educação ou civilidade. Falamos tanto em tolerância, mas experimentamos os mais diversos tipos de intolerância por nossas diferenças, sejam elas de gênero, de raça ou de fé. Queremos uma sociedade mais justa, e mais sensível.
     Mas quem vai ao Rock in Rio 2015, vai ouvir a banda nacional “Ultraje a Rigor”, ultrajando a educação tradicional e os bons modos.  Vai se deliciar com o visual demônio louco da banda americana Motley Crue... Fico imaginando o que esse povo vai transmitir para seus ouvintes... Mas como um mundo moderno decreta o fim da fé, eis a proposta da banda “Faith no More”. Para estremecer as estruturas de alguém que esboce algum cristianismo, a expressão cristã “Cordeiro de Deus” dá nome à banda americana “Lamb of God”, em uma de suas canções “Walk with me in hell”, alguém é convidado a “andar com o outro no inferno”.



     Eu e Dalrymple nos perguntamos: Alguém acha que essas ideias são somente ideias? Nunca se transformarão em ação na mente de alguém menos equilibrado? O Rei está Nu, mas o Rock in Rio é o grande evento do ano... deixará marcas indeléveis em quem foi, ou em quem está acompanhando pela televisão. Semana que vem teremos os primeiros resultados: de gravidez indesejada a suicídio. É muita pobreza moral... 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Uma Lógica inversa: Um novo toque

     Todos os evangelhos sinóticos narram a história da mulher do fluxo de sangue, que constitui um incidente no caminho de Jesus para a casa de Jairo, príncipe da Sinagoga. Uma mulher que sofre por 12 anos de uma hemorragia. Que gasta tudo com médicos em busca de sua cura... sem sucesso.
     Para entender o sofrimento daquela mulher, que não é apenas físico, mas também psicológico, precisamos entender o que a Lei de Moisés previa para uma mulher numa situação daquele tipo, isto é, com fluxo constante de sangue:
   “Também a mulher, quando manar o fluxo de seu sangue, por muitos dias fora do tempo da sua separação ou quando tiver fluxo de sangue por mais tempo do que a sua separação, todos os dias do fluxo da sua imundícia será imunda, como nos dias da sua separação. Toda cama sobre que se deitar todos os dias do seu fluxo ser-lhe-á como a cama da sua separação; e toda coisa sobre que se assentar será imunda, conforme a imundícia de sua separação. E qualquer que as tocar será imundo; portanto, lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.” Lev 15.25-27

    A doença tinha um caráter de impureza, para cujas leis de higiene era exigido que a pessoa com tais sintomas tivesse que se isolar. Quem a tocasse ou em que ela tocasse seria imundo. O isolamento social traz uma angústia, uma tristeza por ter suas potencialidades tolhidas. E o seu toque transformava tudo em impuro, imundo.

   Ela então “ouve falar de Jesus”. A fama do Mestre de Nazaré em sua simplicidade, mas em seu testemunho de “Mestre vindo da parte de Deus”, chega aos ouvidos da mulher sofrida e esgotada. Surge então uma nova esperança. Stenio Marcius capta a expectativa da mulher na canção “Alegria sem medida”:
Eu vou poder amar de novo como antes
E celebrar a recompensa dos amantes
Tomar no colo os meus filhos sem receio
Voltar a ser de minha casa adorno e esteio

Quero correr feito menina entre as parreiras
E me deixar levar nas velhas corredeiras
Quero esquecer os doze anos e os tormentos
E que gastei inutilmente os meus proventos

Sinto chegar uma alegria sem medida
Sinto que agora vou saber o que é vida
Serei curada de maneira inconteste
Se eu com fé tocar na orla de suas vestes”
      A fé descortina a possibilidade do sobrenatural, abre caminho para uma nova lógica, até então nunca cogitada. A mulher crê que será curada se tocar na orla das vestes de Jesus. Ora como seria possível um toque que possibilitaria a cura, se até então tudo que ela tocasse se tornava impuro?
        Uma lógica nova, um toque que purifica, transforma, cura... o toque em Cristo.
     Os leprosos constituíam um outro grupo de pessoas isoladas. Não podiam ter contato com as pessoas, muito menos tocá-las. Jesus tocou o leproso e o curou (Mt 8.3).
     Cristo estabelece uma nova lógica: Toques que curam, que transformam, que saram... quando o que se espera são toques que transmitem impureza, imundície.
     O que transmite o nosso toque? Ou quando somos tocados, o que acontece conosco? Somos corrompidos? Nos tornamos sujos tal qual aquele que nos tocou? Somos contaminados pela impureza da maldade, maledicência, imoralidade, incredulidade...?
    Não era assim com Jesus! O seu toque ou o toque de alguém que o tocava, não mudava sua natureza e característica, isto é, não o tornava impuro, ou doente. Pelo contrário, quem o tocava, ou quem ele tocava é quem era transformado! Por isso ele podia ir à casa de Zaqueu, ou comer com os amigos publicanos de Mateus e não se transformar em um deles, em vez disso, mudar suas vidas.
     Mas Jesus sabia exatamente quem ele era, e qual era sua missão! E nós? Sabemos quem somos? Sabemos qual a nossa missão neste mundo? Isto é definitivo para o resultado de nosso toque, ou do toque de alguém. Nosso toque ou transforma alguém ou resulta em nossa transformação. O verdadeiro seguidor de Cristo pode tocar e ser tocado, porque é alguém transformado para transformar o mundo!
      

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Raabe, uma mulher de fé... precisando entender a graça


  A história de Raabe é muito conhecida entre os estudantes ou curiosos que leem a Bíblia, tanto aqueles que creem na Bíblia como Escrituras Sagradas, quanto aqueles que a estudam como Literatura Antiga. O capítulo 2 do livro de Josué relata uma história inusitada:
  Dois homens são enviados por Josué para espiarem a cidade de Jericó.  Foram e entraram na casa de uma mulher prostituta (zanah, em hebraico), cujo nome era Raabe, e dormiram ali. Embora não haja sugestão no texto que os espias israelitas tenham usufruído  dos favores sexuais da anfitriã, fica claro que o local deveria ser movimentado, por isso os espias o escolheram para passar a noite, pensando não serem percebidos na cidade.
    Mas alguém deu notícia ao Rei, de que estrangeiros israelitas estiveram na cidade e pernoitavam na casa de Raabe. Enviou então o Rei a Raabe em busca dos espias hebreus.  Ela então os escondeu no telhado, e disse aos homens do Rei que  homens estrangeiros, que ela de fato não sabia de onde eram, haviam estado em sua casa, mas haviam se retirado antes que as portas da cidade se fechassem.


    Indo embora os emissários reais, Raabe subiu ao telhado onde havia escondido os espias israelitas e fez uma declaração de fé tão profunda, que garantiu a uma prostituta cananéia um lugar entre os heróis da fé da crença judaico-cristã. Ainda hoje, cristãos lembram-se de Raabe, ao lerem o seu exemplo no livro de Hebreus (11.31):
     Pela fé, Raabe, a meretriz (he pornê, em grego) não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias.
     Vale a pena analisar novamente a argumentação de Raabe, que na verdade, é uma grande profissão de fé de uma gentia, que não acompanhara os atos de Yahweh no Egito ou no deserto, que não conhecia os meandros da lei e do culto israelita, cujo conhecimento do Deus de Israel era tão somente das notícias que se tinha acerca dos seus feitos:
    “Bem sei que o Senhor vos deu esta terra e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desfalecidos diante de vós.
    Porque temos ouvido que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito, e o que fizestes aos dois reis dos amorreus, a Siom e a Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.
    O que ouvindo, desfaleceu o nosso coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque  Yahweh vosso Deus é Deus em cima nos céus e em baixo na terra.” (Jos 2.9-11)
   Estas mesmas palavras são utilizadas por Moisés, no final de um discurso no qual ele lembrou que a Israel Yahweh foi revelado, fez ouvir a sua voz desde os céus, e através da reflexão eles chegariam à conclusão que Yahweh é Deus em cima no céu e embaixo na terra (Dt 4. 35-39).
    A fé é um elemento absolutamente claro e presente no discurso de Raabe. Ela crê, num Deus invisível, e que não houve nenhuma revelação especial dele a ela, ou a seu povo. Apenas ela ouviu dos seus feitos e creu. Que Yahweh, o Deus de Israel é Deus em cima nos céus e em baixo na terra. Que era fato que a cidade de Jericó seria capturada pelos filhos de Israel, pois Yahweh estava com eles. A demonstração de fé de Raabe foi tão marcante que o escritor da epístola aos Hebreus fez questão de relembrar sua atitude, que tão claramente ilustra o conceito de fé:  A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem (Heb 11.1).
     A história prossegue e seu desenrolar deixa-nos claro que a mulher de fé também é uma mulher de negócios. Acostumada a negociar favores sexuais, e transacionar diariamente no mercado do sexo, Raabe busca fechar um negócio com os espias israelitas. Já tinha um trunfo em sua mãos, que foi ter salvado suas vidas das mãos do Rei de Jericó.  E o negócio em questão não era sexo, nem dinheiro. Era a vida. A vida dela e de sua família estava em jogo!
     E Raabe, a meretriz, a mulher de negócios, apresenta sua proposta:
     “Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo Senhor, que, como usei de hesed/misericórdia convosco, vós também usareis de  hesed/misericórdia para com a casa de meu pai, e dai-me um sinal seguro, de que conservareis com a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos e a minhas irmãs, com tudo o que têm e de que livrareis as nossas vidas da morte”. ( Jos 2.12,13)
      Algumas traduções não utilizam misericórdia, e sim beneficência para hesed, nesse texto. Talvez beneficência seja mais adequado mesmo, porque estamos falando de um ato de bondade, mas que tem em mente um retorno, uma paga.  Raabe é uma mulher de fé, mas não entendia muito de graça!
     Talvez acostumada a receber antecipadamente por seus serviços, para fechar aquele negócio ela precisava de um sinal seguro, de verdade (emet).  Usando o mesmo linguajar de Raabe, os espias fecham o acordo, informando que usariam com Raabe de hesed/misericórdia e fidelidade (emet).

     A operosidade de Raabe chama a atenção de Tiago que registra em sua epístola, Raabe como autêntico exemplo de alguém que agrega às obras, à fé: “Vedes, então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé. E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários e os despediu por outro caminho?” (Tg 2.24-25)
    Curiosamente ela tanto consta na lista de pessoas de fé, como é exemplo de praticante de obras e ação. Fica claro que suas ações decorrem de sua fé. Não poderíamos esperar de uma cananeia cuja compreensão teológica restringia-se à religião politeísta e “sensual” dos baalins, um entendimento mais amplo do que ela demonstrou de hesed, a palavra por ela usada para explicar o que  ela mesmo fez, e o que ela esperava dos espias.
     Na concepção de Raabe, a salvação de suas vidas era uma questão de troca. Eu ajo com hesed, e como retorno, você age com hesed comigo, ainda que o que esteja em questão sejam vidas. Essa é uma concepção tradicional de religiosidade.
    Mas os espias dizem uma coisa que vai além de um negócio entre pessoas humanas. Informam que para que sua contraparte no acordo seja cumprida, eles dependem de uma ação divina: Dando-nos o Senhor esta terra (Jos 2.14).
    Os homens de Israel tinham uma noção teológica mais aprofundada, que eles estariam agindo, buscando fazer sua parte, mas que havia uma dependência maior da permissão e do favor de Yahweh. Parece-nos que este entendimento faltava à meretriz cananeia, que no entanto creu, e agiu. E creu de tal forma, que confiou sua vida numa promessa atrelada a um cordão de fio de escarlata pendente à janela, no muro da cidade (Jos 2.18-21). Na destruição de Jericó, Raabe foi salva!


      Alguns pais da Igreja diziam que Raabe é uma figura da Igreja. Gentia, zanah ou porné, com concepções muitas vezes equivocada, mas cheia de fé, e pronta a agir, a abandonar o seu povo, como o Pai Abraão. Embora a salvação não esteja atrelada a um entendimento teológico plenamente correto, e sim à fé em nossos corações, e à graça daquele que a concede; que possamos ir além da compreensão de Raabe, de uma troca de hesed, e uma busca de emet (verdade, fidelidade). O relacionamento com Yahweh leva-nos a uma dependência tal com a divindade que nos faz compreender que nossa salvação advém  do fato de que “Achamos graça (hen) aos olhos do Senhor” (Gen 6.8)...  Esta noção Raabe não tinha, e sobre isto, poderemos falar depois...

terça-feira, 7 de julho de 2015

Como teremos borboletas, se não suportarmos as lagartas?

     Lagartas são bichos asquerosos. Feias. Destruidoras. Só comem tudo que está pela frente. Algumas têm aspecto bem terrível. Umas têm chifrinhos, outras têm pelos que queimam... Algumas pessoas apresentam verdadeiro pavor por lagartas. Minha tia Ruth é uma delas. E contam que no casamento da minha mãe, quando ela foi calçar o sapato tinha lagartas de coqueiro lá dentro. Como elas chegaram ali? Ninguém sabe. Mas foi uma loucura de gritos pavorosos.  Quase que não tinha casamento.

   Hoje de manhã eu fui caminhar no nosso jardinzinho, ouvindo os passarinhos e sentindo os raios de sol do alvorecer. Observei meu “pezinho” de limão com muitas folhas devoradas. Me aproximei mais cuidadosamente e vi, pelo menos três ou quatro. Naquela hora da manhã estavam dormindo. Possivelmente digerindo as folhas que tinham devorado durante a madrugada. Feias, meu Deus! Pelo amarronzado, pareciam pequenas serpentes.
    Fiquei lembrando quando eu era garoto. Influenciado por minha tia, que tinha horror a lagartas, sempre que via uma, eu corria para matá-la. Agora, compreendendo melhor a natureza e os homens, vejo que não faz sentido destruir aquele pequeno ser asqueroso. Porque há um mistério na natureza chamado metamorfose, e aquela lagarta nojenta vai se transformar numa linda borboleta... questão de tempo! Mas quem quer esperar pra ver? Melhor se livrar logo da lagarta feiosa.
     Fui pesquisar e descobri que as lagartas de nosso pequeno limoeiro são do gênero Heraclides, e de fato seu aspecto lembra pequenos répteis ou seres de ficção científica. Descobri também que aquela lagarta horrorosa vai se transformar (se ninguém intervir desastrosamente no seu curso) numa borboleta do gênero  Papilio, família Papilionidae. Quando eu era garoto, lá em casa tinha um quadro de borboletas empalhadas. Fiquei pensando, nunca vi falar de um quadro de lagartas empalhadas.
    Me veio então uma pergunta: Como teremos borboletas se não suportarmos as lagartas? A metamorfose não se encontra apenas entre as lagartas. Há metamorfose também no mundo dos homens. Há mudança, há transformação. Podemos ter esperança porque metamorfoses ainda são testemunhadas. Nós todos em algum momento somos gente-lagarta. Lagartas que ao fazerem coisas feias se tornam asquerosas. Outras lagartas querem distância de nós. Alguns (que se dizem mais evoluídos) querem tirar logo as lagartas do seu campo de visão.
     Pergunto novamente: Como teremos borboletas se não suportarmos as lagartas?
    Para quem é cristão, sabe muito bem que o ensino paulino é que até a Parousia, vivemos num corpo corruptível qual lagartas nojentas, mas a metamorfose ocorrerá e o que é mortal se revestirá de imortalidade (I Co 15.50-57).  Quem está na igreja sabe muito bem que somos lagartas entre lagartas, mas a natureza divina está silenciosamente sendo gerada em nós através do Espírito Santo, e nos transformando naquilo que somos “Imago Dei”. Tempo de lagarta é um período, breve. Entretanto, para que tenhamos borboletas, suportemos as lagartas!


sábado, 6 de junho de 2015

O desafio da tolerância: O retorno de Hagar

    Ambiente familiar é o lugar onde se desenrolam os mais diversos dramas humanas. Tanto os mais sublimes sentimentos e atitudes são observados na intimidade dos lares, quanto as mais terríveis picuinhas e demonstrações de mesquinhez e maldade, os quais  são capazes a alma humana de natureza adâmica.
   O livro dos começos, Bereshit, na língua hebraica, ou simplesmente Gênesis, como o conhecemos do grego, é cheio de narrativas familiares. As primeiras narrativas bíblicas pintam cenas que antecederam a existência de cidades e aglomerações humanas, cenas familiares. Encontraremos cenas de profunda delicadeza, na qual o homem contempla sua mulher e diz “Esta agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne...” (Gn 2.23), romântico e sensível!  Mas encontraremos a seguir um irmão invejoso matando o seu irmão mais novo, tornando-se o primeiro homicida (Gn 4.8). O texto sagrado nos mostra que atentar contra a vida do próximo é sempre atentar contra a vida do seu irmão, afinal somos todos filhos de Adão.
     Mas não se imagine que apenas a primeira família teve seus desastres. A família de Noé também teve suas confusões (Gn 9.22). Chegamos então à família de Abraão. Tensões decorrentes de infertilidade, um sobrinho rico cujos rebanhos compartilhavam os mesmos recursos naturais (Gn 13.6)... As famílias patriarcais não podiam reclamar de tédio!

    Para resolver seu problema de infertilidade e garantir descendência a Abraão, Sara decide que sua escrava egípcia Hagar seria dada a Abraão como mulher e teria um filho em nome dela (Gn 16.1-3).

    Moça nova e bonita, com os hormônios à flor da pele, e sadia sob o ponto de vista do seu aparelho reprodutor, Hagar logo engravida.  Guardando o filho de seu senhor no ventre, coisa que sua senhora nunca havia logrado êxito, Hagar agora não se via mais como uma simples escrava, ou dama de companhia de Sara. Ela agora era tão senhora como sua senhora! Afinal trazia o filho de seu senhor dentro de si. Aquele que um dia seria herdeiro de tudo aquilo.
    Ferida em seu orgulho, Sara se sentiu diminuída, humilhada por sua escrava, que em sua juventude e prenhez lhe desprezava com o olhar (Gn 16.4). Indignada vai falar com Abraão. Grita, xinga, diz que a culpa é toda dele  (que também agora só queria ficar com a escrava novinha). Põe o seu erro no colo de Abraão (meu agravo seja sobre ti). Pede que Deus julgue entre os dois (Gn 16.5).
    Abraão conhecendo a alma feminina sabia que não valeria a pena discutir nem argumentar com a fera ferida. Devolve Hagar pra Sara, e diz que ela faça com a escrava o que bem entendesse. Furiosa, Sara aflige Hagar. Uma mulher sabe como provocar sofrimento em outra. Uma mulher sentindo-se ofendida tem muitos recursos para humilhar e fazer sofrer alguém. Não suportando as humilhações, Hagar foge de casa. 
     Um anjo do Senhor a encontra no deserto, junto à fonte no caminho de Sur (Gn 16.7), e lhe dá uma ordem pouco animadora:  “Torna-te para tua senhora e humilha-te debaixo de suas mãos”.  Como voltar para casa? Um lugar que havia se tornado de difícil convivência! Sara tornara sua vida um inferno! Como voltar? Melhor morrer que voltar ao palco do sofrimento! Mas o anjo insiste! Volta para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos.
    Uma Hagar bem resolvida e decidida precisava se humilhar. O orgulho de sua gravidez precisava dar lugar a uma humildade sincera de respeito a sua senhora. E isto tornaria possível a convivência entre as duas mulheres. Hagar retorna...
   O retorno de Hagar é sinônimo do desafio da tolerância. Viver no mesmo espaço com alguém que no passado já lhe humilhou. Viver no mesmo espaço com alguém que tem grandes reservas a sua pessoa. Esse foi o desafio imposto a Hagar, que só se tornou possível mediante a humilhação.
    Por outro lado, não foi muito simples Sara receber de volta a mulher que seria mãe de um filho que agora, ela já não mais considerava que seria seu, mas o filho de Abraão com a “Sirigaita” da Hagar. Ver Hagar andando para cima e para baixo carregando o filho que ela nunca pôde ter, continuava sendo humilhante. E constatar que a barriga estava crescendo, e Abraão de vez em quando queria notícias do “seu filho”. Para Sara também foi um exercício de tolerância. 
   Fico imaginando Abraão, ter que tolerar essas duas mulheres. Não deve ter sido fácil! Tempos depois o filho de Abraão e Hagar nasceu. Ainda conviveram juntos por mais de 15 anos... Tolerando um ao outro.
    Somos família de Deus, não muito diferente das famílias patriarcais. O apóstolo Paulo em mais de uma epístola nos traz a exortação de “suportar uns aos outros  em amor” (Ef 4.2) e Colossenses 3.  É o desafio da tolerância em pleno século XXI.
   Em nossos rompantes de mesquinhez e carnalidade, façamos como Hagar, que deu ouvidos à voz do Anjo “Volta para tua senhora, e humilha-te debaixo das suas mãos.” 
      Concluo com o texto de Paulo aos Colossenses, não precisa comentar:
    “Revesti-vos, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como Cristo os perdoou, assim fazei vós também. E sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” (Col 3.12-14)

terça-feira, 26 de maio de 2015

Epichoregein, entendendo o nosso papel na Economia da Salvação


Em tempos de discussões acaloradas sobre posições soteriológicas, que fazem a festa dos seminaristas ávidos por uma boa causa, e dividem grupos anteriormente unidos tornando-os de repente combatendo em campos distintos, sem saber exatamente qual o motivo da beligerância e qual o inimigo a combater, trago do início da história da Igreja uma palavra da Segunda Epístola de Pedro, que definitivamente não conhecia de grego como nossos teólogos e exegetas modernos conhecem. Pelo menos a primeira carta ditada por Pedro foi escrita por Silvano (I Pe 5.12), a segunda não sabemos. Pelo estilo definitivamente não foi o mesmo copista.
                                           (Pedro na prisão, Rembrandt, Israel Museum)

      Epichoregein é traduzido pela ordem “associai”, em II Pe 1.5: “vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, associai à vossa fé a virtude, e à virtude, a ciência... ”  Para entendermos o que Pedro quer nos ensinar precisamos iniciar lendo o texto a partir do versículo 3:
“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude,
Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo,
E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, associais à vossa fé a virtude, e à virtude, a ciência...”
     Permita-nos continuar no versículo 10:
“Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis.
Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.”
     Não é necessário fazer nenhum tipo de malabarismo semântico ou hermenêutico para entender que a eleição falada no versículo 10 está descrita cuidadosamente no versículo 3: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude”. Eis um conceito simples e direto do que seja eleição. Ele nos chamou e nos deu tudo o necessário para a salvação. Não acho que Eleição seja uma palavra perigosa, ou que deva ser evitada, afinal é utilizada claramente no texto bíblico, obviamente em sintonia com os escritos paulinos de Romanos 9, Efésios 1, e outros.
      Para esclarecer melhor o termo, utilizo um trecho (pag. 53) do livro de D.A.Carson “A Difícil Doutrina do Amor de Deus” (2012), editado pela Casa Publicadora da minha denominação, com aprovação pelo Conselho de Doutrina:
 A soberania de Deus se estende à eleição. A eleição pode se referir à escolha de Deus da nação de Israel, ou à sua escolha do povo de Israel ou à escolha dos indivíduos. A escolha de Deus dos indivíduos pode ser para uma missão específica. A eleição é tão importante para Deus que ele preferiu escolher o mais jovens dos dois irmãos, Jacó e Esaú, antes deles nascerem e, portanto, antes que um deles tivesse feito algo de bom ou de ruim, “para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme” (Rm 9.11).
Até mesmo as maneiras altamente diversas pelas quais os novos convertidos são descritos no livro de Atos, refletem o modo confortável e desembaraçado pelo qual os escritores do Novo Testamento se referem à eleição. Frequentemente falamos sobre pessoas que “aceitam a Jesus como seu Salvador pessoal” palavras não encontradas nas Escrituras, embora não seja necessariamente errada como uma expressão sintética. Mas o livro de Atos pode sintetizar algum evangelismo estratégico relatando que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (At 13.48). Escrevendo sobre os cristãos, Paulo diz que Deus “nos elegeu nEle [isto é, em Cristo] antes da fundação do mundo... [Ele] nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo”(Ef 1.4,5; cf. Ap 13.7,8; 17.8). Certamente, Deus escolheu os convertidos tessalonicenses desde o princípio para serem salvos (II Ts 2.13).
     Parece-nos claro que Pedro falava que os irmãos para os quais ele destinara a carta foram eleitos. E não apenas foram eleitos, mas receberam uma vocação, descrita nas “grandíssimas e preciosas promessas, para que por ela fiqueis participantes da natureza divina”. A eleição tem por finalidade a vocação. Vocação de ser participante da natureza divina. Parece-nos familiar com o “Cristo que vive em mim paulino” (Gl 2.20).
     Na Economia da Salvação, Pedro está esclarecendo o que Deus faz. Praticamente tudo! Aliás é esta palavra usada pelo autor: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida...”  Elege, vocaciona, concede promessas, torna-nos participantes da natureza divina.
     Pedro então se volta para os eleitos: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e a virtude, a ciência...” Eis a parte que nos cabe neste latifúndio (no dizer de um poeta, meu conterrâneo). Algo se espera de nós, e não de forma desleixada, mas com toda a diligência: Epichoregein (Acrescentai).
     Os estudiosos fazem questão de que esclarecimentos sejam feitos a esta palavra estranha. É uma palavra que tem uma história interessante, e remonta aos tempos de Atenas. O estudioso britânico do Novo Testamento William Barclay nos esclarece no seu livro “The Promise of the Spirit” (pág. 59), que uma das maiores de todas as glórias da antiga Atenas era a apresentação das peças produzidas por grandes escritores como Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e Eurípedes. Para a montagem de tais peças altos custos eram envolvidos: os figurinos, as maquiagens, os ensaios de coral, que envolviam até cinquenta pessoas. A disponibilização para patrocinar o evento era chamada de choregia. O voluntário que se disponibilizava a ajudar era o choregos. Epichoregein, portanto era uma ação de generosidade realizada conjuntamente, entre os atores, diretores da peça, o Estado e os patrocinadores. Uma busca de suprir o necessário para a realização de algo.

        Paulo utiliza esta expressão em suas epístolas, normalmente relacionando Deus como o choregos: Em Gl 3.5 “Ele nos concede (epichoregon) o Espírito, (do verbo epichoregein)”; Em Fp 1.19 temos o “socorro (epichoregias) do Espírito de Jesus Cristo, (do substantivo epichoregia)”; Em II Co 9.10 “Aquele que dá (epichoregon) a semente”...
    Epichoregein é algo necessário a ser acrescentado, suprido. Pedro diz que Deus nos deu tudo, mas é necessário que atuemos em cooperação com ele, em epichoregein. Nossa parte não pode ser terceirizada ou esquecida.   E qual é a nossa parte?
     Acrescentar, suprir, adicionar, epichoregein à fé a virtude, à virtude a ciência... e assim continua a lista petrina. A fé já nos foi dada junto ao tudo que nos foi suprido, isto está bem de acordo com Paulo em Ef 2.8  “Porque pela graça sois salvos por meio da fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus”. Mas precisamos com toda a diligência acrescentar à fé a virtude, e à virtude a ciência... É o momento de agirmos como choregos, é a hora de fazermos a choregia. Epichoregein é a ação do cristão na Economia da Salvação. É a pequena parte que nos cabe, pequena mas muito importante.
     Se assim o fizermos estaremos firmando a nossa vocação e eleição (II Pe 1.10). A Epichoregein confirma nossa eleição. Fica claro que se diligentemente não fizermos nossa parte, isto é, Epichoregein, a eleição não se confirma. Michael Green sabiamente ressalta: “Nossa vida radiante deve ser a prova silenciosa da eleição divina” (II Pedro e Judas, Introdução e Comentário, Vida Nova, pág. 71). Quem sabe se aqui, Pedro não está esclarecendo uma passagem paulina não tão fácil de entendimento quanto “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor...” (Fp 2.12)?

      Curiosamente, o escritor sagrado usa novamente a mesma palavra no versículo seguinte (1.11): “Porque assim vos será generosamente concedida (Epichoregethesetai) a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” Quando diligentemente nos empenhamos em nosso Epichoregein, Ele  generosamente nos concede (Epichoregethesetai) a entrada no reino celeste!
      O capítulo 2 de II Pedro, traz exemplos de pessoas que foram resgatadas mas não fizeram sua parte, Epichoregein, não confirmaram sua eleição e vocação, ou nas palavras de Paulo, não desenvolveram sua salvação. Estes negarão ao Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição (2.1). Durante todo o capítulo Pedro vai falar sobre a situação destes agora falsos doutores, os quais anteriormente haviam sido resgatados pelo Senhor (2.1), haviam escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor (2.20). Aqui vale uma ressalva. Este conhecimento do Senhor (epignosei tou Kyriou) encontrado aqui, é a mesma expressão encontrada no cap. 1.3 “o conhecimento daquele que nos chamou...” (epignoseos tou kalesantos). Epignosis é um substantivo composto, diferente do simples gnosis, utilizado para conhecimento. Os especialistas concluem que epignosis é um conhecimento maior e mais eficiente do que gnosis. Estamos falando de um conhecimento mais profundo da Pessoa de Jesus!
     Concluímos portanto que, pessoas que receberam tudo, pelo divino poder e pela epignosis (conhecimento profundo) do Senhor, chamadas pela glória e virtude do Senhor, recipientes de suas promessas,  que escaparam da corrupção do mundo (II Pe 1.3-4), mas que não atentaram para Epichoregein (para acrescentar à fé a virtude, e à virtude, a ciência, e à ciência, a temperança, a paciência, e à paciência, a piedade, e à piedade, a fraternidade, e à fraternidade, o amor...II Pe 1.5-7) Enfim, não buscaram fazer firme a sua vocação e eleição (1.10)  [parece-nos que eles haviam sido eleitos!?]; O fim destes foi o envolvimento na corrupção do mundo, e seu estado foi pior do que o primeiro (2.20). Mais uma vez Pedro utiliza o termo epignousin (conhecimento profundo do Senhor) para sentenciar: “Porque melhor lhes fora não conhecerem (epignousin) o caminho da justiça do que, conhecendo-o, desviaram-se do santo mandamento que lhes fora dado” (2.21). Estamos falando de gente que de fato conhecia o Senhor, e que por não ter feito sua parte, Epichoregein, desviaram-se do santo mandamento.


    Posso ouvir Paulo dizendo a mesma coisa de outra forma: Aquele que está em pé, olhe não caia (I Co 10.12)... Não é somente uma hipótese, é uma possibilidade real! Está acontecendo hoje! Basta olhar ao redor... Que triste. Portanto, nos empenhemos na nossa Epichoregein!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Em Algum Lugar do Passado

  Fui a Recife e revi muita gente querida. Gente que me viu garoto, gente que me viu crescer. Outros que cresceram comigo. Minhas idas a Recife me deixam sempre nostálgico. O cheiro da água fedorenta do Capibaribe e a visão das pontes centenárias exercem sobre mim um efeito entorpecente e perturbador. Algo como a Sinfonia de Gustav Mahler no personagem de “Em Algum Lugar do Passado”.  Parece que de repente o passado guardado no baú das memórias num quarto dos fundos na minha casa em Fortaleza, ressurge com todo o vigor, ressuscita...

     
                                                         Em algum lugar do Passado

   Olhando o anúncio virtual de um toca-discos retrô, no embalo dessa moda que a cada dia ganha mais espaço, de produtos  visualmente antigos e tecnologicamente modernos, de repente eu senti o cheiro do toca-discos portátil PHILIPS novinho em folha que com muito orgulho meu pai trouxe para casa um dia. Era uma engenhoca fantástica. A tampa do equipamento continha o alto falante. Uma alça camuflada podia ser erguida e facilitar o transporte... Tínhamos uma radiola portátil. Eu me senti importante. Tinha uma radiola na minha casa, onde podíamos ouvir nossos próprios discos. Antes só tínhamos um gravador de fita k7. Para ouvir de novo uma mesma música era necessário apertar a tecla de recuo da fita e ficar testando até checar se estava no ponto.  A radiola era outra coisa...



      Era uma coisa mágica puxar o braço da radiola e o disco de vinil preto começar a girar. Quando quisesse ouvir uma canção novamente bastava colocar a agulha na faixa.  É dessa época que eu tenho lembrança de muitas canções tocadas em nossa radiola. Meu pai tornou-se cliente assíduo da livraria da igreja. Os sucessos evangélicos vinham rapidamente para nossa radiola. São daquela época os LPs “Sigo Cantando”, de Mara Dalila; “Jardim de Deus”, de Matheus Iensen e Irmãs Falavinha; Otoniel e Oziel...


   Lá em casa os discos de vinil estremeciam quando meu irmão Heber aparecia. Com dois ou três anos, ele era uma espécie de Gargamel que aterrorizava, não os azuizinhos, mas os negros LPs  escondidos em suas capas de papelão.  Quando os discos estavam arranhados, então a agulha topava no arranhão e a música parava e ficava repetindo o tempo todo a mesma coisa. Heber adorava esse acidente de percurso. Descobriu então que ele próprio poderia produzir essa maravilha. Então, munido de um grampo de cabelo da minha mãe, atacava os indefesos discos e arranhava-os cuidadosamente. Quando íamos ouvir as canções... Como esquecer a voz adolescente e fresca de Mara Dalila topando no estribilho da canção-tema do seu disco: Sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo... ? Era para seguir cantando, mas era muito mais interessante o sigo, sigo, sigo.


   Todo mundo em casa já sabia, artes do Heber!  Está vendo? Me lembrei de detalhes de coisas que aconteceram “Em algum lugar do passado”! Ir ao Recife tem esse efeito em mim...