domingo, 11 de junho de 2017

Pombos: romantismo e convivência, o que a sabedoria hebraica nos ensina

     Época dos namorados, o romantismo está no ar. Comprei um mimo altamente calórico para minha namorada, numa chocolateria famosa da cidade, ganhei um óculos esporte de presente, porque ela não suporta o meu óculos escuro, disse que é de surfista... Fui convidado a falar num jantar de namorados numa de nossas igrejas e me veio ao coração uma reflexão a partir das pombas.
   Bichinho gracioso, tão lindo que é abundantemente citado no livro mais romântico das Escrituras, Cantares de Salomão. Salomão derrama-se em galanteio para sua amada chamando-a “Pomba minha” (Cant 2.14, 5.2, 6.9), além do mais os olhos da sua amada são tão lindos que são comparados aos olhos das pombas (Cant 1.15).
    Casais românticos (e ricos, claro!), vão a Veneza para fazer o seu álbum de noivado ou de casamento. E o que encontram na praça mais famosa da cidade mais romântica do mundo? Pombos, pombos e mais pombos. Assim, pombinhos humanos misturam-se aos pombos nativos na paisagem da Piazza San Marco.
   


     Quando fomos a Veneza, há exatos 10 anos, nossa visão dos pombos era assim. Romântica, idealizada: bichinhos lindos, meigos, fofos...
     Essa visão mudou bastante, quando algumas famílias de pombos resolveram se instalar em nosso telhado. Olha que sujeira fazem! Parece que fazer pose com os pombinhos na Piazza San Marco é muito diferente de conviver com eles em nossa própria casa. A convivência, o cotidiano, o dia a dia muda nossa ideia das coisas.
     Parece que não somente nós, conseguimos perceber isso, os profetas bíblicos também. Os profetas apontam coisas que aparentemente o romântico Salomão parece ignorar (!?)
    Isaías é o profeta que mais cita nossos românticos bichinhos alados. Mas o que percebe Isaías? A beleza das pombas? A graça de seu voo?
    Você já testemunhou o incessante arrulhar das pombas a ecoar no silêncio da noite? “Gru... gru... gru...” É bem essa figura que Isaías usa para o gemido dos aflitos. Ele escreve: ... gemia  como uma pomba chorosa... (38.14) e ... gememos como pombas. Procuramos justiça, e nada! Buscamos livramento, mas está longe (59.11).
    O profeta Isaías traz o gemido queixoso, (e chato!) das pombas. Somente quem divide o espaço com os pombos se incomoda com o seu arrulhar abusado. Naum também faz referência a esse gemido atribulado (e atribulante!) das pombas (Na 2.7).
    Outro profeta a citar as pombas é o profeta Oséias: “Efraim é como uma pomba enganada, sem entendimento” (Os 7.11). A pomba é lembrada como uma ave insensata, facilmente seduzida, lograda, enganada, presa fácil.
    


        Aos pombinhos de plantão, namorados ou noivos, preparem-se para um tempo especial após o casamento: a convivência. O cotidiano, o dia a dia, a convivência, vai além da contemplação apaixonada dos belos olhos do seu pombinho ou da sua pombinha. No dia a dia você descobrirá que seu pombinho querido às vezes age como um pombo insensato. Você se surpreenderá ao descobrir que sua pomba amada reclama e atribula a si própria e a você.
       Será isto motivo para perda do encanto? Dos galanteios românticos?
       Talvez não. Será que Salomão de fato ignorava a insensatez das pombas e seu gemido angustiante? Não nos parece! Salomão não era apenas um romântico incurável e apaixonado pelas mulheres. Ele também era um cientista. Vejamos o que se diz sobre ele:
      “Também falou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce na parede; também falou dos animais, e das aves, e dos répteis e dos peixes” (I Rs 4.33).
       Para um especialista em botânica e zoologia, seria muito estranho ignorar certas características de uma ave que ele tão bem conhecia, pois era abundante em seu país. Então sou forçado a concordar que Salomão era ciente dos gemidos e da insensatez das pombas.
      Mas por que ele olha para sua amada como “Pomba minha” e a galanteia comparando-a com a beleza dos olhos das pombas?
      Salomão nos responde do alto de sua sabedoria. Parte da resposta ele próprio nos dá no livro de Cantares: “O amor é forte como a morte” (Cant 8.6). A outra parte ele nos dá no livro de Provérbios: “O amor cobre todas as transgressões” (Pv 10.12). Essa é uma verdade que Pedro registra em sua epístola: “O amor cobre um grande número de pecados” (I Pe 4.8). Wayne Gruden nos diz: “Onde falta amor cada palavra é vista como suspeita, cada ato é passível de incompreensão e sobram conflitos.”

       Ame sua pombinha, seu pombinho, com suas imperfeições e fragilidades. Quanto mais cedo você descobrir os gemidos e a insensatez, mais rapidamente você vai aprender a arte da convivência, e vai, como Salomão, continuar amando, pois o amor cobre multidão de defeitos.
     Feliz dia dos namorados a todos os pombinhos...
      

    

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aprendendo sobre Pecado com a Operação Lava Jato

   O Brasil anda às voltas com o que talvez seja a maior investigação de corrupção da história da humanidade. As ações já se desenrolam há 4 anos, ou mais, mas a cada vez que ligamos a TV novos desdobramentos surgem. Utilizando uma expressão chula conhecida “quanto mais se mexe, mais fede”. A operação já derrubou presidentes (ou presidentas), expôs uma face desconhecida de muitos políticos, funcionários públicos, executivos e empresários. Já mandou alguns para atrás das grades e mudou o status de muita gente: Gente acima de qualquer suspeita agora entende-se que é “criminoso”.

    Os nomes escolhidos para certas operações são sugestivos, além do próprio “Lava Jato”, que aponta para remoção da sujeira, temos outros cognomes como “Fratura Exposta”, quando o que está quebrado é trazido à luz. Uma operação recente que abalou o mercado de carne bovina do mundo era denominada “Carne Fraca”. Imagino que seria uma velada referência ao texto bíblico Mt 26.41: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
     É interessante observarmos a reação das pessoas quando o que estava oculto vai sendo trazido à luz. Os envolvidos diretamente normalmente negam peremptoriamente. Os familiares são capazes de jurar inocência dos seus parentes acusados de algum ilícito. Os simpatizantes, amigos, correligionários ou partidários se indignam a tal ponto que chegam à conclusão que tudo se resume a um complô orquestrado contra aquela pessoa querida totalmente inocente e injustiçada.
    É difícil admitir que a “carne é fraca”, e é capaz de Hamartia (errar o alvo, pecar), bem como de Anomia (descumprimento dos preceitos, iniquidade). A Lava Jato é uma aula de Hamartiologia, Doutrina do Pecado!
    Os sistemas soteriológicos tradicionais enfocam a Depravação Total do Homem, tanto calvinistas quanto arminianos afirmam a deterioração da natureza humana decorrente da Queda. A Lava Jato está aí para atestar a Depravação Total do Homem, nem precisa ler os dois primeiros capítulos da epístola de Paulo aos Romanos.
   Mas é complicado para o homem do século XXI admitir que é um pecador, confessar seus pecados, tirar a máscara de respeitabilidade. E é difícil também para aqueles que depositaram suas esperanças nesses mesmos homens, admitir que fracassaram plenamente.
   De fato, nunca foi muito simples para o homem expor seu erro, sua culpa. De alguma forma as Escrituras Sagradas estão o tempo todo fazendo uma operação Lava Jato em nossas vidas. Adão e Eva pecaram e se esconderam. Deus expôs a sua ANOMIA, descumprimento dos preceitos (Gn 3.11), e os julgou.
    Caim matou Abel e Deus lhe perguntou “Onde está Abel, teu irmão?” (Gn 4.9). Acã apropriou-se de objetos que lhe haviam sido proibidos, e os escondeu num buraco na sua tenda (Jos 7.21). Uma derrota na batalha provocou a exposição do erro de Acã e seu julgamento.

    É conhecido o caso do Rei Davi que para ficar com a mulher de seu soldado, provocou a morte do soldado. O profeta Natã não era um juiz de Curitiba, mas enfrentou o velho Rei e expôs o seu pecado (II Sm 12.9).
    Para finalizar lembramos da mulher de Samaria que encontra Jesus junto ao poço. É uma senhora respeitável até que Cristo lhe diz: Vai, chama o teu marido e vem cá (Jo 4.16). Ela traz uma meia informação que o mestre complementa refrescando-lhe a memória: Disseste bem, não tenho marido. Porque tiveste cinco maridos e o que agora tens não é teu marido (Jo 4.17-18).
    Não há como as mudanças acontecerem sem que a verdade não venha à tona. Não há como as coisas ficarem limpas, se a sujeira não for exposta. O homem só conhece a purificação quando reconhece seu estado de depravação total e sua total carência de um Redentor, que lhe justifica, e pela fé lhe atribui a justiça.
        Mesmo que você e eu não estejamos citados na Lava Jato, lembremos que:
    “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.” Rm 3.23-24


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ator, Ídolo, Hypocrites: José Mayer e uma reflexão sobre hipocrisia

     Estes dias o ator José Mayer, galã da principal emissora de TV do país se viu às voltas com um escândalo que pode significar o fim de sua brilhante carreira. O ator sexagenário, mas bonitão,  que faz o sexo feminino delirar com seu charme, mostrou o outro lado de si, que as câmeras não focam, ou melhor o verdadeiro lado de si: Assediou de forma grosseira uma figurinista da empresa. Em tempos de redes sociais casos como esse não passam mais em branco.
     A mulher assediada botou a boca no mundo, o caso ganhou notoriedade, e a própria emissora teve que noticiar o caso de um dos seus mais caros galãs. Tornou-se o assunto da semana na mídia nacional.

     A revista VEJA esclarece que “Em uma primeira e desastrada declaração, José Mayer disse que as atitudes denunciadas eram próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra, não minhas!” (VEJA, 12/04/2017, pág. 76)    
     Ninguém engoliu a explicação, mas a saída encontrada pelo ator também precisa ser analisada.
     Sendo um ator de grande projeção José Mayer tornou-se o ídolo de muita gente. Idealizações e fantasias rondam o imaginário daqueles e daquelas que o põem num pedestal. Trata-se de um ator. A arte da representação nos veio da Grécia. O antigo teatro grego tinha seus atores, que usavam máscaras.  O ator era o hypocrites, o respondedor.
    É da realidade da representação do papel que não corresponde a si mesmo, do fingimento, que hypocrites se torna uma palavra pejorativa, com significado desagradável. E essa palavra é conhecida por nós no texto bíblico, mas também de uma forma ampla, transliterada para o português hipócrita: fingido, falso, dissimulado!

    Esta palavra é encontrada várias vezes nos Evangelhos na boca de Jesus: Hipócritas!!! Os religiosos da época eram rotulados por Cristo como hipócritas.
    Mas o caso José Mayer indica-nos claramente que hipocrisia não é um adjetivo restrito aos religiosos fingidos de ontem e de hoje. Ao desempenhar seu papel como hypocrites, como ator, segundo ele, o fingimento sai das telas e invade o seu verdadeiro ser. Então quanto ele assedia a moça, não é o cidadão José Mayer, é o hypocrites, é o ator na pele do personagem-cafajeste Tião Bezerra!
    Quando terminava a peça no antigo teatro grego, que os hypocrites tiravam suas máscaras, se reconhecia exatamente quem era o homem por trás da máscara!
    Parece-nos que caiu a máscara de José Mayer, literalmente foi desmascarado, e por trás do hypocrites/ator galã nos demos conta que está um homem equivocado, sem o devido respeito pelo próximo, que explica suas ações como “fruto de sua geração” (VEJA, 12/04/2017, pág. 78).
     Para quem endeusou o ator, e fez dele seu ídolo, é triste admitir que era apenas um hipócrita!
      Mas não fique triste. O maior drama que aconteceu na história não foi na Grécia. Aconteceu no Monte Calvário, em Jerusalém. Jesus Cristo, o filho de Deus foi crucificado  entre dois malfeitores. Mas o drama do Calvário não envolvida máscaras, nem hypocrites. Jesus vergonhosamente despido levava sobre si nossos pecados.

    Em tempos de hipocrisia, a voz de Cristo ressoa num Brasil cansado de tanto fingimento: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” Ele precisa estar no lugar onde colocamos nossos ídolos hipócritas!

sábado, 26 de novembro de 2016

Pastor Russell Shedd... uma perda

            É duro acordar com a notícia da morte de uma pessoa querida. E esta pessoa querida não é um parente próximo, não é um familiar consanguíneo, mas me é muito familiar: Pastor Russell Shedd.
            Meu primeiro contato com ele aconteceu no início dos anos 90, através de sua primeira publicação de grande repercussão no país, a Bíblia Vida Nova, na qual ele é o editor responsável. A minha é daquela versão grande, de púlpito. Eu ainda era um seminarista. E no meu querido Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, comecei a ser influenciado por esse homem sem nunca tê-lo visto.
   Quando fui fazer o Mestrado na Faculdade Teológica de São Paulo, em 2002, ele já não era mais o titular da Cátedra de Novo Testamento.


     Em 2008 fui ao Congresso Vida Nova pela primeira vez. Lá nos inesquecíveis devocionais que antecediam as palestras, pude entender o significado de fazer teologia com o pastor Russell Shedd. É um mix de erudição bíblica, amor ao Senhor e à sua Palavra, e  serviço à Igreja. Na falta de qualquer desses itens teologia pode se tornar sinônimo de arrogância, ou de pragmatismo utilitarista.
         Novamente participei do Congresso de 2012, e por último em março de 2016. Era minha despedida do doutor Shedd. Num intervalo de uma das palestras, o ladeamos e registramos aquele momento numa foto,  eu e meu irmão-amigo Thalison.

        Lembro-me das copiosas lágrimas que me escorriam pelas faces quando o ouvia falar, exposições sempre entremeadas de exemplos práticos de sua experiência pastoral... ainda hoje me ardem o coração, aquelas lembranças!
      Quando esse ano fizemos a Exposição na congregação  da Carta aos Filipenses, pude novamente voltar aos pés do Mestre, através do seu livro Epístolas da Prisão. Às vezes temas áridos eram tratados por ele com singeleza e clareza que nos faziam entender a profundidade dos mistérios do Senhor.
     Por isso, Russell Shedd me é tão familiar. O Senhor toma para si, hoje, um homem que se tornou referencial para mim, de teólogo e servo de Deus. Não existe teólogo sem amor, temor e submissão a Deus. E não existe teólogo sem disposição para servir à obra de Deus.
   Hoje o Brasil tem muitos expoentes da teologia, e das Escrituras. Mas poucos com a humildade, sinceridade, e fidelidade do pastor Russell Shedd. Desde os tempos em que estudei no Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, com pessoas de muitas denominações distintas, aprendi a viver o Evangelho respeitando nossas diferenças doutrinárias, sem proselitismo ou ar de superioridade.
    Pastor Russell Shedd nos mostrou isso, a cada momento. A possibilidade de convivermos como irmãos e enfatizarmos o que nos une, e não o que nos diferencia. Ele proferiu palestras em Seminários e Igrejas de todas as denominações. Fui ouvi-lo na AD Cidade, na Sede da IEADTC. Ainda lembro do Congresso Vida Nova de 2008, que reunia batistas como Pr. Israel Belo de Azevedo, Professor Lourenço Rega, presbiterianos como Pr. Augustus Nicodemus e, o bispo episcopal Robinson Cavalcanti. Pastor Russell Shedd nos ensinou que podemos estar unidos para glória de Deus, e em torno da sua Palavra.

    Continuarei dizendo que Pastor Shedd é um dos meus referenciais, embora não mais o tenhamos entre nós. E Deus me convoca a, do meu simples lugar, tornar-me um referencial para as novas gerações. Que o Senhor me ajude... 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Minha consciência negra...

   Minha cidade, Recife, é um lugar de muitos negros. Os engenhos de cana-de-açúcar que a região abrigou desde o tempo de Duarte Coelho exigiram uma quantidade razoável de mão de obra escrava... e esta mão de obra era africana, negra. Vinha nos navios negreiros da África para o Porto de Recife. Estudo da Universidade de Emory, coloca o Porto do Recife como o quinto mais movimentado de todo o mundo no quesito desembarque de escravos. E quando o mercado de escravos foi proibido, o fluxo foi mantido às escondidas, num, literalmente, mercado negro. Os navios não aportavam no Porto de Recife, ficavam um pouco ao sul, e vinham carregados de negros, mas diziam que estavam trazendo “galinhas d’Angola”, por isso o nome de uma das mais belas praias da minha terra: Porto de Galinhas.

  Bem, a cor da pele nunca foi um problema pra nós. Meu avô, Justo José, que todos nós, filhos e netos, o chamávamos carinhosamente de Meu Pai, não era um negro autêntico, era mulato. Sua mãe era branca, mas meu bisavô, o Velho Sansão, era um negro de verdade. Imagino que meu trisavô deva ter sido escravo em algum engenho de cana do litoral pernambucano.

   Por artes da genética, nasci branco. Meus irmãos tiveram a pele mais tostada, trazendo mais próximo os resquícios da mãe África. E quem é mais escurinho a gente sempre chamava de “nego”. Meu irmão Heber, era, e ainda deve ser, “o meu Nego” da tia Moisa, que era a mais morena das filhas do meu avô. Temos uma idade próxima, e eu me lembro de desde criança admirar sua morenice, com lindos cabelos negros escorridos. Levava à loucura os rapazes, quando era solteira!
   Tia Moisa casou com um homem branco, e teve dois filhos, um negro e um branco. O “nego Clevson”, é o nego mais lindo dessa parte do Equador!  Chamar o outro de “nego”, pode ser um xingamento, mas também uma forma carinhosa de se dirigir a alguém que se ama.

   Nos dias de hoje, penso que posso ser preso, pelo que estou escrevendo.
 Na escola, nunca precisamos de um dia de consciência negra, para reconhecer a importância de nossos colegas pretinhos. E naquela época ninguém sofria “bullying”. Então a gente podia chamar o outro de “nego feio”. Como me chamavam de “baleia-fora-da-água” (eu era um garoto gordo).  E ninguém morria.
   Além das relações familiares, a igreja foi outro lugar onde nossa convivência nunca esbarrou com questões ligadas à cor da pele. Na maior parte das décadas de 80 e 90, nosso pastor era um negro, Pr. José Leôncio da Silva. O negro mais amável e carismático que alguém pudesse imaginar. Sua lembrança continua viva na minha memória, e de tantos outros que puderam ser sua ovelha, por algum tempo.
    Lembro que, em nossa congregação na periferia de Recife tinha muitos irmãos negros. Gente tão querida, tão especial, que a cor nunca fez diferença em nossos relacionamentos. Me lembro da irmã “Roxinha”. Imagino que a apelidaram de Roxinha porque era tão pretinha que parecia roxinha. 
    Na minha rede de amigos, nunca separei, estes são os brancos, e aqueles são os negros. Foram sempre meus amigos.
   Hoje as coisas estão diferentes. Outro dia alguém propôs que precisa catequizar quem for negro para que volte às práticas religiosas africanas. Que coisa estranha!!!
   Sempre achei interessante nosso país, onde negros e brancos caminhavam juntos sem enfatizarem a diferença racial. As coisas parece que estão mudando.
    Posso aqui gritar minha origem africana e me definir como afrodescendente. Posso dizer aos meus filhos que busquem as cotas na universidade pois lhes cabe de direito.
    Somos homens, somos seres criados à imagem e semelhança do Criador. Por que enfatizar o que nos distingue? Enfatizemos o que é comum em nós: Somos todos pecadores, carentes da graça do Senhor! 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Em tempos de ebulição política...

Os sinais da Idolatria Política
  (Timothy Keller, em Deuses Falsos, pág. 96 a 98)

Obs. Trata-se de um escritor norte-americano. Qualquer semelhança com o que vemos em nosso país é mera coincidência...

   Um dos sinais de que um objeto está funcionando como um ídolo é que o medo se torna uma das características principais da vida. Quando centralizamos nossa vida em um ídolo, tornamo-nos dependentes dele Se nosso falso deus é ameaçado de alguma forma, nossa resposta é o pânico completo. Não dizemos "Que vergonha! Que dificuldade!", mas sim: "É o fim! Não há esperança!"
    Talvez seja por essa razão que tantas pessoas hoje respondem às tendências políticas dos Estados Unidos de forma tão extrema. Quando um partido ganha uma eleição, certa fração do lado perdedor começa a falar abertamente em deixar o país. Essas pessoas se tornam agitadas e temerosas em relação ao futuro. Elas colocaram em suas agendas e líderes políticos o tipo de esperança que antes era reservado a Deus e à obra do evangelho.Quando seus líderes políticos estão fora do poder, elas experimentam a morte. Acreditam que, se as pessoas e políticas delas não estiverem em ação, tudo irá pelos ares. Recusam-se a admitir as semelhanças entre seu partido e o adversário, concentrando-se em vez disso nos pontos de desacordo. Os pontos de contenda obscurecem todo o resto, e um ambiente venenoso é criado.

     Outro sinal de idolatria em nossa política é que os oponentes não são vistos como simplesmente errados, mas sim maus. Depois da última eleição presidencial, minha mãe de 84 anos observou: "Antigamente, quem quer que fosse eleito como presidente, mesmo que você não tivesse votado nele, era seu presidente. Hoje em dia não é mais assim." Depois de cada eleição, há um número significativo de pessoas que veem o presidente eleito como alguém sem legitimidade moral. A crescente polarização e amargura que vemos na política americana de hoje é um sinal de que transformamos o ativismo político em uma forma de religião. Como a idolatria produz o medo e a demonização?

   O filósofo holandês-canadense Al Wolters ensinou que, na visão bíblica das coisas, o principal problema da vida é o pecado, e a única solução é Deus e sua graça. A alternativa a essa visão é identificar algo além do pecado como o principal problema no mundo e algo além de Deus como o principal remédio. Isso demoniza algo que não é de todo ruim e transforma em ídolo que não pode ser o bem último. Wolters escreve:
    O grande perigo é isolar algum aspecto ou fenômeno da boa criação de Deus e identificá-lo, em vez da intrusão do pecado, como o vilão no drama da vida humana. [...] A Bíblia é única em sua rejeição intransigente de todas as tentativas de [..] identificar uma parte da criação como vilã ou salvadora.
   Isso explica os constantes ciclos políticos de esperanças e desilusões exageradas, os discursos políticos cada vez mais venenosos e o medo e desespero desproporcionais quando um partido perde o poder. Mas por que endeusamos e demonizamos causas e ideias políticas? Reinhold Niebuhr respondeu que, na idolatria política, transformamos o poder em um deus.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A cara do Brasil que não é retratada pelo IBGE e a responsabilidade de cada um

* Obs. Todos os nomes são fictícios

    Mais uma vez trabalhei como mesário nas eleições. Parece um trabalho repetitivo e desinteressante, mas não é. Para mim é sempre uma experiência sociológica única. Nenhuma aula de antropologia na universidade poderia me trazer um retrato tão vívido do povo da cidade, e em menor escala do país.
   O vaivém constante do cara-crachá, da checagem de rotina “documento de identificação com foto” – rosto do eleitor, é um sermão da implacabilidade do tempo. Mas por que o tempo é mais implacável pra uns do que pra outros?
   Sr. H é um homem jovem, a data de nascimento informa. Mas estamos diante de um velho. Um velho trêmulo, que já pela manhã cheira a cachaça. Como no dia da eleição não se vende bebida alcoólica, desconfio que tenha um estoque em sua casa. A bebida se encarregou de debilitar sua saúde e apressar sua velhice.
    O documento de identificação  da Sra. M também nos indica uma mulher jovem. Mas estamos diante de uma idosa. Mais do que isso, alguém com marcas intensas do trabalho e de sofrimento. Fez biometria, mas os dedos estão tão grossos de calos decorrentes do trabalho pesado, que o leitor biométrico se recusa a reconhecer aquele polegar deformado, ou indicador estranho.  

    É.... há labores que não constam nos registros do Ministério do Trabalho, mas não são fictícios. Talvez sejam mais reais do que aqueles que estão sendo contabilizados pela Previdência Social.
   É verdade que o calor de Fortaleza não é para os fracos! Mas isso explica os trajes mínimos das adolescentes e jovens? Normalmente apenas os glúteos das garotas são cobertos; E muitas vezes com peças excessivamente apertadas com o objetivo de despertar os olhares cobiçosos dos homens jovens e velhos.
    Pode-se observar também que boa parte delas vem acompanhadas de crianças. Garotas com menos de 20 anos trazendo crianças que nem são mais de colo, as quais ficam ao lado, puxando pela peça ínfima que cobre os glúteos da garota-mãe.

    Claro que alguns daqueles rapazes que votaram na mesma seção devem ter sido os machos que geraram aquelas criancinhas... e nunca reconhecerão a paternidade. Isso ficará a cargo dos avós... e eles estarão livres para gerar outras crianças, que também não conhecerão o pai!
   Em pequeno número tem aqueles que desistiram do gênero que nasceram. Não é fácil identificar Maria Fernanda, a bonita garota da foto da identidade, que em nada se parece com o garoto musculoso  à sua frente. Ou ainda, fazer a identificação de Carlos Eduardo, o adolescente sério e com cara de macho retratado no documento de identificação com a moça peituda e melosa à sua frente.
    Pensa-se no futuro do país a partir dos governantes eleitos. E se pensarmos a partir do povo? E se cada brasileiro anônimo entender que o futuro desse país depende de cada um de nós? Que há consequências macro e micro para os vícios, os atos irresponsáveis!
    Eu sei que é politicamente incorreto dizer isso. Melhor pensar que são todos vítimas do sistema cruel e opressor. Eu insisto em dizer que há sim, responsabilidade em cada um dos eleitores que compareceram na minha seção para eleger o novo prefeito da cidade!