sábado, 31 de dezembro de 2011

Ritual da virada: Qual o seu?

   
    Esta semana vi num programa de televisão um ator sendo entrevistado e indagado acerca da virada do ano. A entrevistadora perguntou: “Alguma superstição na virada do ano?” Pergunta já feita aos outros com obtenção de várias respostas do tipo “vestir branco, pular sete ondas...” A resposta do jovem ator foi: “Faço minhas orações.”
   Achei interessante a colocação da oração no âmbito da superstição.  Estaria de fato a oração integrando o universo da superstição?
    A palavra superstição vem do latim superstitio, é  utilizada desde o século XIII ou XIV, inicialmente na França, se espalhou por toda Europa.
    Nos diz o dicionário que a palavra significa:  "crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associados". Ou seja, é acreditar em fatos ou relações sobrenaturais, mágicas, fantásticas ou extraordinárias e que também não encontram apoio nas religiões ou no pensamento religioso.
   Parece estranho que num mundo pós-moderno, dominado pela ciência e tecnologia, tanta superstição ainda esteja em voga.  Na verdade, muita gente tem abandonado a crença religiosa por conceituá-la não-científica, não racional, etc. Mas são estas mesmas pessoas que na virada do ano se apegam às superstições... vestem branco, pulam 7 ondas...
   A virada do ano é um momento emblemático. Está o ser humano cara a cara com o seu futuro. Um ano que se inicia, e não se sabe o que ele nos trará. Não há a garantia que se fomos pessoas saudáveis este ano, no próximo não adoeceremos. O futuro é uma incógnita. Não há cálculos que nos permitam garantir absolutamente nada no novo ano. É o Novo, o Desconhecido em toda a sua plenitude.
   Quem imaginaria na virada do ano de 2010 para 2011 que o ator Reinaldo Gianecchini e o Presidente Lula estivessem um ano depois num tratamento de quimioterapia lutando contra um câncer?
   E é neste momento de encontro com o Desconhecido que chega, que o homem pós moderno se curva à superstição. Muitos rituais supersticiosos tem origem nas religiões primitivas:    Pular as 7 ondas significa cortar obstáculos materiais e espirituais, sob a bênção de Iemanjá - divindade rainha das águas e mãe de todos os deuses africanos. Cada pulo deve ser acompanhado por um pedido. Para os mais “crentes”, oferendas de flores e outros mimos tendem agradar à Deusa e garantir sua simpatia. Muita gente repete superstições sem saber qual a idéia por trás das mesmas.
 


      
       O hábito de bater na madeira para afugentar o azar apareceu milhares de anos atrás entre os pagãos, que acreditavam que as árvores serviam de moradia dos deuses. Para chamar o poder das divindades, povos como os celtas batiam nos troncos, afugentando maus espíritos.
     No texto bíblico encontramos em At. 17.22, a palavra grega deisidaimonesterous, traduzida nas versões mais antigas como “supersticiosos”, e nas mais recentes como “muito religiosos”. Curiosamente a palavra pode ser usada de forma ambígua, tanto para significar confiança em crendices irracionais ou presságios (traduzindo-se como supersticiosos), quanto um apego exagerado a crença religiosa  (traduzindo-se como muito religiosos).
   Ao constatar essa ambigüidade preciso fazer algumas considerações:
   Como o ator entrevistado, na virada do ano faço minhas orações, mas minhas orações não podem ser classificadas como superstição. Porque são resultado de minha relação pessoal com Deus, de minha fé no Senhor Jesus, o Deus que irrompeu na História humana, padecendo sob Pôncio Pilatos. E meu culto é racional... Diante do Desconhecido que chega hoje à meia-noite, busco o meu Deus, que cuida de mim e me assegura não um ano sem surpresas ou dificuldades... mas que Ele estará comigo!!!
    Se Ele estará comigo, não preciso ter medo de gato preto, passar por baixo de escada, das sextas-feiras 13... também não é necessário vestir branco para me garantir paz, nem fazer oferendas à rainha do mar...
   Enfim, na chegada do Novo Ano manifesto a minha confiança inteiramente no Senhor... Estarei orando... se você quiser chamar isso de superstição... Feliz Ano Novo!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2011, Última Semana... Nosso Ebenezer

    Faltam poucos dias para dizermos adeus ao ano de 2011. Depois da intensa correria do Natal, da troca de presentes, das confraternizações, celebrações, da disputa pelas compras nos shoppings lotados... esta semana instala-se certa calmaria para que dentro em breve recebamos um novo ano.
  Nas empresas o momento é de férias coletivas ou de levantamentos para inventários e balanços. Inventários para se saber o que se tem, o que foi quebrado, destruído, perdido, danificado, o que será necessário comprar novamente, para reposição. Balanço para se ter idéia do que se produziu, quanto, a que custo, e a que resultado se chegou: positivo ou negativo. A quantificação do resultado de todo o empenho, se foi atingido o alvo almejado, qual  palavra será  utilizada para descrever o período que se finda: lucro ou prejuízo?
  É tempo para um inventário pessoal, um balanço íntimo  para pensar no que foi perdido, danificado, adquirido... refletir sobre o que conseguimos produzir, construir, e a que custo. Analisar sobre as perdas que nos foram infligidas pelas dificuldades da vida, mas também sobre os ganhos que obtivemos, amizades que adquirimos, alegrias que tivemos... gargalhadas que soltamos.
    Pensar nos nossos relacionamentos, o quanto foram danificados, quanto se conseguiu refazer, restaurar... quanto se conseguiu aperfeiçoar. Definitivamente não estamos terminando o ano da mesma forma que o iniciamos. Estamos vendo o mundo, as pessoas e nós mesmos de outra forma. Você já pensou nisso? Olhamos no espelho e achamos que é a mesma pessoa, embora as marcas do tempo teimem em aparecer, na forma de rugas, de cabelos brancos, de espinhas, de barba... Mas mudamos ao longo do ano... Pouco ou muito, mudamos!
    Para além do brilho das luzes natalinas ou dos fogos de artifício do Ano Novo, precisamos inventariar o nosso relacionamento espiritual. A nossa vida com Deus: Quais experiências tivemos este ano? Em que estas experiências nos fizeram crescer no Senhor? Confiamos mais em Deus? Estamos descansando mais nele? Ou nossa ansiedade está nos dominando? O que tem mudado na nossa relação com Deus?
   As dificuldades tem se tornado obstáculos à nossa trajetória espiritual ou estamos confiando ainda mais no Senhor? Nosso balanço espiritual depende de nossa atitude de fé diante do Senhor. Se alguém seguiu o exemplo da mulher de Jó, que diante das circunstâncias adversas distanciou-se do Senhor, isto lhe trouxe a morte espiritual. Mas mesmo para quem percebe um balanço espiritual negativo, há uma promessa de restauração, no livro de Jó  14.7-9:
     “Pois para uma árvore há esperança; mesmo quando cortada, volta a brotar, e os seus brotos não deixam de existir. Ainda que a sua raiz apodreça na terra, e o seu tronco morra no pó, ela brotará ao cheiro das águas e lançará ramos como uma planta nova.”
  Para quem descobriu nos desafios e sofrimentos um Deus presente em sua vida, o ano foi de crescimento. Talvez você ainda possa estar enfrentando grandes dificuldades, mas dirá como Jó: “Eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra.” (19.25)
   Houve um momento na história de Israel em que Samuel fez um inventário e um grande balanço. Fora um período de grandes dificuldades. Olhando para trás Samuel pôde relembrar de acontecimentos terríveis, os quais ele vivenciara e acompanhara de perto. Podia elencar a morte do velho líder Eli, bem como dos seus filhos, Hofni e Finéias, no mesmo momento em que a arca da aliança caiu nas mãos dos filisteus. Fora um golpe tão duro que deu nome ao filho de Finéias, Icabode, que significa “Foi-se a Glória de Israel”. A arca da aliança, sinal visível da Glória de Deus levada de Israel parecia indicar o fim de tudo. Mas “há esperança, mesmo quando a árvore for cortada, ou a sua raiz apodreça no pó, ela brotará ao cheiro das águas”. E Samuel podia recordar o retorno da Arca, o arrependimento do povo, a sincera confissão coletiva, a rejeição e o abandono dos ídolos, um novo pacto de fidelidade com Deus, um grande clamor ao Senhor por livramento da mão dos inimigos filisteus... e a tremenda resposta do Deus dos Exércitos, trovejando desde os céus, propiciando a vitória dos israelitas. Qual o resultado deste grande balanço?
    Relembrando tudo isso, Samuel tomou uma pedra, para servir como marco, como registro, como memorial. Os acontecimentos daquele período mereciam um monumento. Mas o homenageado deste monumento não seria Samuel, nem o próprio povo de Israel. Às vezes atribuímos a nós as nossas conquistas, as vitórias, as superações, e queremos erguer memoriais a nós mesmos. Quem for a Roma, ainda verá de pé os Arcos construídos em homenagem aos imperadores romanos e suas vitórias. Ainda se mantem de pé no Forum Romano os Arcos de Tito, Diocleciano e Constantino. Em Paris, os franceses querendo fazer de sua cidade uma nova Roma, construíram um Arco de Triunfo para celebrar as vitórias de seu imperador, Napoleão Bonaparte. Porém,  aquela pedra que Samuel tomou, tinha um nome, aquele memorial celebrava todos os acontecimentos recentes, e chamava-se EBENEZER: Até aqui nos ajudou o Senhor (I Samuel 7.12). Literalmente a expressão hebraica Ebenezer significa “Pedra da Ajuda, do Socorro”. Depois o poeta ergueria sua Pedra do Socorro num poema que nós conhecemos como o Salmo 46: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia.”
  Neste final de ano, eu e você somos desafiados a levantar um marco, um balanço de gratidão, um inventário de alegria, ainda que as lágrimas ainda fluam do rosto, erguendo com Samuel, em meio aos desafios, que vieram e que virão, com muita fé, uma Pedra da Ajuda, EBENEZER, até aqui nos ajudou o Senhor! Ele é a nossa ajuda, nosso socorro.
   Temos uma decisão a tomar neste final de ano. Chorar com amargura como a mulher de Jó, e nos afastarmos de Deus, ou erguermos nossa Pedra da Ajuda e reafirmarmos com fé, como Samuel: Até aqui nos ajudou o Senhor!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Feliz Natal!!! Remexendo na memória, lembrando de outros natais...

Feliz Natal,

   Antigamente, na véspera de Natal eu ligava para os amigos para desejar Feliz Natal, para dizê-los que eu não os havia esquecido. Naquela época a rede mundial de computadores, hoje chamada simplesmente net, não desfrutava do prestígio nem da acessibilidade que hoje conhecemos e usufruímos.
   Discava, espera atender e então falava.  Ouvia-se a voz, e ao ouvir a voz a memória relembrava alguma coisa que havíamos enfrentado juntos ou compartilhado no trajeto da vida, ou mais especificamente naquele ano.
   Mas em meus “antigamente” eu ainda vou me permitir lembrar da época em que nós oferecíamos cartões de Natal. Não estou falando de cartões virtuais. Estou falando de cartões em papel, cartolina, que nós comprávamos nas livrarias ou nos camelôs de Recife. No fim do ano chovia de bancas vendendo cartões de Natal. Tinha dos mais simples, normalmente era desses que eu adquiria para dar para os amigos, aos mais elaborados, aqueles que quando abertos tocavam música natalina. Cheguei a ganhar alguns desses, dos amigos mais abastados. Era preciso enfrentar as filas na loja das Edições Paulinas, na esquina da Rua da Palma, para adquirir os cartões simples porém cheios de estilo, alguns simples marcadores de páginas... No Natal trocavam-se os cartões. Alguns tinham intenções duplas que iam além do Feliz Natal. Caprichava-se na letra... era um tempo que as pessoas se conheciam também pela caligrafia.
   Ainda hoje guardo os cartões de Natal que ganhei na adolescência e juventude... Olhando a letra visualizávamos o remetente, e seus laços conosco.


   É...   Agora nem ligações nem cartões natalinos... São tantos amigos espalhados por todo este Brasil: Recife, Petrolina, Natal, São Paulo, Rio de Janeiro... na Europa, Estados Unidos...  Porém temos outras maravilhas da modernidade. Temos os torpedos, SMS... Não dá pra reconhecer a caligrafia de quem enviou, é claro! Temos os cartões virtuais... e temos as mensagens massificadas que enviamos de uma só vez para todos os contatos cadastrados. Talvez muitos nem sejam lidos, pois ficaram na caixa de spam...
   É... Não dá pra voltar ao passado, mas também não quero repetir a obviedade da multidão. Quero mandar-lhes uma mensagem que vem do coração, como as ditas em poucas linhas de um velho cartão, ou numa apressada ligação telefônica.
   Feliz Natal a todos os amigos, ouvintes, leitores. Aqueles com os quais compartilhei idéias quer seja numa sala de aula, ou numa palestra, ou de púlpito... ou de uma conversa no blog, orkut, facebook, MSN... aqueles com os quais vivi e convivi ou com quem compartilhei algum momento da minha história.  
   Na troca de presentes não esqueçam do maior de todos os presentes: Jesus, O Grande Presente de Deus para nós... Afinal Ele amou-nos de tal maneira que DEU o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça mas tenha a vida eterna.
   Feliz Natal... Paz entre os homens, pois Deus fez-se homem e habitou entre nós!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Trânsito em Fortaleza: Uma festa à fantasia

   Hoje eu estava dirigindo, no meu trajeto de casa para o trabalho e tive uma idéia que, inicialmente reputei como louca, depois refletindo melhor achei-a original, embora que ainda meio doida! Motoristas em seus carros no trânsito formam uma espécie de festa  à fantasia...

   Vejamos o que os meus neurônios construíram:
    No trânsito não estamos fantasiados ou mascarados, porém, estamos todos  escondidos dentro de um veículo que permite se ver muito pouco de quem o ocupa (especialmente numa cidade como Fortaleza onde o calor e a luminosidade exigem fumês cada vez mais potentes, e ar condicionado ligado no máximo).   Quem vai para um baile à fantasia  pretende ocultar-se por trás de um disfarce ou uma máscara cuidadosamente escolhida, que normalmente corresponderá  à fantasia do mascarado.
    Nosso carro, cuidadosamente escolhido, pode ser nossa fantasia... Será que não é? Fantasia de poder, de beleza,  de status... Dentro de um carro lindo tem cada motorista feio! Mas numa festa  à fantasia só o disfarce se percebe, e é lindo! Deixa todo mundo de queixo caído: Que beleza! A feiúra fica escondida... só o espelho do retrovisor interno teima em revelá-la!

   Fantasia de parecer ser pobre quando se tem demais. Não posso deixar de me lembrar do finado Henrique W. Um engenheiro judeu aposentado do Banco do Brasil podre de rico. Lenda viva no mundo dos unha-de-fome.  Nunca casou. No fim da vida noivou com uma moça mas não teve coragem de casar, afinal seria muito gasto!  Ia todos os dias ao Banco para comer do lanche dos funcionários, mas diziam as más línguas que realmente ele tomava ali o seu café da manhã.  E... Sr. Henrique andava num fusca velho caindo os pedaços. Dava até dó. O rico em sua fantasia de pobre. Na verdade para afastar qualquer um que pudesse ameaçar sua riqueza, mesmo que fosse para pedir uma esmola!
    Numa festa à fantasia  loucuras são cometidas, afinal ninguém descobre a identidade do mascarado/fantasiado, e de fato por trás do disfarce  o indivíduo age sem reservas mostrando quem realmente ele é, sempre com a desculpa do personagem da fantasia. Seja através de ações descontroladas, provocações... agressões.
    No trânsito, pelo menos o que eu vivencio diariamente na ensolarada metrópole alencarina, muita gente põe as “garras de fora” ocultada pelos vidros fumês com visibilidade cada dia mais reduzida.  É o desrespeito nu e cru. É a esperteza de entrar na contra-mão numa rua estreita desrespeitando os demais motoristas que estão na fila do engarrafamento, e depois entrar sorrateiramente na frente dos demais quanto confrontado com um caminhão à sua frente. É a atitude essencial de um bárbaro, que não podendo despejar sua barbárie de peito aberto, para não se tornar motivo da crítica social, o faz de dentro de seu carro, onde está coberto pelo anonimato e protegido pela máscara do seu automóvel.
   É... acho que a alegoria não é tão louca assim, faz algum sentido.  E eu participo diariamente desta festa à fantasia, aberta democraticamente a todos que se dispõem a dirigir nas ruas das  grandes metrópoles. Em meu carrinho popular, resolvi participar fantasiado de Ezion!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Estas crianças já foram disciplinadas com palmadas?



    Estes são os meus filhos, e foram sim, disciplinados com palmadas, e chineladas!
    No meu horário de almoço costumo acompanhar as notícias dos Telejornais do Meio-Dia. Qual não foi a minha surpresa quando ouvi  que nos próximos dias a Câmara dos Deputados vai votar o projeto de lei 7.672/10, que proíbe usar a força física para disciplinar ou punir crianças e adolescentes. A proposta é conhecida como Lei da Palmada.
   Caso a proposta seja aprovada, os pais que baterem nos filhos poderão ser encaminhados para programas comunitários de proteção à família, para tratamento psicológico ou psiquiátrico, para cursos ou programas de orientação, ou ainda receber uma advertência.
    Fiquei me imaginando sendo encaminhado a um programa de reabilitação para pais,  com uma guia para ser examinado por um psiquiatra, que quem sabe me prescreverá um Aldol... ou talvez até algo mais radical: Por que não uma prisão por alguns dias?
    Senhores, é demais para o entendimento de um pobre mortal.  Um país que não consegue dar conta dos milhares de drogados, assaltantes, traficantes e todo o tipo de meliante que assola a população dispõe-se a  legislar proibições sobre educação dos filhos. Eu mereço!
      E uma sorridente psicóloga do alto de sua autoridade de especialista afirmou que “uma criança que recebe palmadas vai perpetrar a violência... será violento com outros também.”  É muito para minha cabeça!
     Fui criança e levei palmadas à beça. Nem por isso nunca saí agredindo ninguém  por aí, como é a tese da nobre psicóloga. Sempre fui um cidadão pacato e pacífico. Amo meus pais, e os respeito, e sei que se me disciplinaram um dia era porque me amavam.
    Sou pai de dois filhos. Pai extremado até.  Participo da educação dos meus filhos em todos os aspectos. Sei que bater não é o primeiro recurso que me vem à cabeça, mas é um recurso necessário para algumas crianças e em algumas fases de suas vidas. Um pai ser denunciado por estar disciplinando seus filhos... é demais! Que Estado é este? Parece até que suas funções estão tão plenamente atendidas que acha tempo para se imiscuir em como os pais criam seus filhos.
     Claro que existem excessos por aí. Mas promulgar uma lei proibindo palmadas porque algum desequilibrado espanca seus filhos, não resolve o problema. Desde quando as pessoas com sério comprometimento psicológico agirão diferente porque o Planalto assim o quis? Não acham que é ingenuidade demais?
    É claro que alguém pode estar no Planalto e ter seus traumas de infância.  Mas daí proibir a TODOS OS PAIS do Brasil disciplinarem seus filhos com palmadas, é outra conversa!  Não ignoro quem tem posição contrária a disciplinar os filhos com palmadas. Somos diferentes, pensamos diferentes, temos opiniões distintas.  Isto é democracia. Mas, pasmem, esta lei disfarçada de preocupações com os direitos humanos é uma sinalização de grave  autoritarismo, pois nos obriga a pensar e a agir igual aos senhores tecnocratas do Planalto. Quem viveu em regimes totalitários conta que as coisas começaram assim, com leis aparentemente inofensivas, depois vieram proibições cada vez mais severas. Estaremos a meio caminho de um novo totalitarismo? É o fim da democracia!
    Gostaria de esclarecer que não sou um ultra-fundamentalista xiita radical semi-analfabeto.  Sou educador de uma grande universidade corporativa, tenho algumas graduações e pós-graduações, sou gestor de pessoas.  Já viajei por muitos países... acho que sou uma pessoa esclarecida!
    Sendo assim terei uma cela especial, e você poderá me visitar. Farei muito gosto em ser sustentado pelo Estado numa prisão ao pagar pelo crime de amar meus filhos, e discipliná-los com palmadas.  É uma metáfora do Brasil: os cidadãos presos com medo em suas casas, e os meliantes  com ou sem colarinho branco soltos ameaçando todo mundo. 
     Sempre tive orgulho de ser brasileiro... hoje este orgulho foi embotado. Fiquei triste. Pra onde caminha nosso país?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Betesda: Queres ficar são?

     Caminhando pelo lado árabe das ruas da Cidade Velha de Jerusalém muitas coisas chamam a atenção do  viajante: O colorido das lojas de tapetes árabes, o cheiro forte do suco de romã vendido a dez shekels (NIS 10), as procissões compostas pelos grupos de peregrinos que se dirigem à Igreja do Santo Sepulcro (alguns levando uma cruz, não muito pesada, mas uma cruz!) e caminham pelas estações da Via Dolorosa...
    No lado judeu da Cidade Velha dezenas de lojinhas vendendo os principais suvenirs de Jerusalém: menorás (candelabros), kipás... para quem não sabe o kipá é aquele pequeno chapéu usado no alto da cabeça dos judeus. Seu uso diz respeito ao temor a Deus, pois a Divina Presença está sempre acima de nós, e foi estabelecido no Talmude há muito tempo.

    Para quem crê a cidade de Jerusalém é um ambiente de catarse. Ali está o Muro Ocidental, conhecido como Muro das Lamentações, que é uma parte do Muro do Templo, no Tempo de Herodes. É um lugar sagrado do judaísmo. Um ponto de contato do Eterno com o seu povo na sua Santa Cidade.
    As escavações aqui e ali apontam para um fato narrado nas Escrituras, como o Túnel de Ezequias (II Rs 20.20)... num outro momento falaremos sobre isso.
   Ali também foi o lugar em que o Senhor Jesus viveu sua paixão e morte. O Mestre Galileu que exerceu um profícuo ministério na região em torno do Mar da Galiléia, vem à Jerusalém, onde os grandes eventos da nação de Israel ocorrem...
     Em minhas caminhadas por Jerusalém um lugar foi muito marcante para mim.  Perto da Porta de Santo Estêvão, também conhecida como Porta dos Leões, está a Basílica de Santa Ana. À frente da Basílica uma grande escavação, indicando que ali já fora um balneário, uma piscina, um tanque... O Tanque de Bestesda!

       No capítulo 5 do Evangelho de João podemos ler:
   “Em Jerusalém, perto da porta das Ovelhas, há um tanque, chamado Betesda na língua dos hebreus, o qual tem cinco pórticos. Neles ficava uma grande multidão de doentes, cegos, mancos e paralíticos, deitados... Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos. Vendo-o deitado e sabendo que vivia assim havia muito tempo, Jesus lhe perguntou: Queres ficar são?” (Jo 5.1-6)
    Muita gente já questionou a legitimidade da narrativa do Evangelho de João, bem como suas descrições e os discursos nele contidos.  Este documento já foi acusado de ser carregado de influência grega (começando pelo Logos, que era Deus e estava com Deus), já foi proposto que os dados existentes no mesmo não poderiam ser levados muito a sério. Na melhor das hipóteses, seria um documento puramente teológico sem qualquer embasamento histórico.
    A precisão em que o Evangelho de João fala de lugares e de situações, inclusive sem qualquer paralelo nos sinóticos, é digna de nota. Entretanto, críticos afirmavam que este acontecimento, bem como outros registrados neste Evangelho, não passavam de ficção, afinal, não havia indícios arqueológicos ou em qualquer fonte extra-bíblica da existência do tal Poço de Betesda.
    Embora a tradição afirmasse que ali teria sido o Poço de Betesda muitos contestavam. Entretanto, cuidadosas escavações no século XX trouxeram à luz as piscinas da época de Jesus. Eram duas piscinas separadas por um pórtico, ou alpendre, totalizando assim os cinco alpendres citados pelo Evangelho. Tempos depois um Rolo de Cobre descoberto nas Cavernas de Qumran trazia a citação de um lugar denominado Bethesdataym (Casa dos Dois Derramamentos), uma variante de Betesda e aludia às suas cisternas.

   Diante do Poço de Betesda meu coração bate mais forte. Visualizo o Senhor em diálogo com o enfermo... e há uma coisa que me intriga muito mais do que as minúcias arqueológicas...  é a pergunta de Jesus feita ao homem paralítico: Queres ficar são?
    Não seria uma pergunta sem propósito para um homem doente há 38 anos?
    A pergunta não é descabida quando entendemos que a ação de Cristo está ligada ao desejo humano, à vontade do homem. O cego de Jericó grita por Jesus, e o Mestre pergunta: O que queres que eu te faça? (Lc 18.41).
    Não são todos que desejam emergir de um processo de adoecimento, isto porque existem ganhos aparentes, vantagens efêmeras decorrentes da manutenção do sofrimento. Desde a forma como se é visto: um coitado, um necessitado, alguém que desperta a compaixão alheia... como também a forma como o homem se vê: dependente, não responsável por si... Ainda hoje há muitos doentes que não querem abrir mão de sua doença para não perderem o benefício eventual do INSS. É a vontade de que o benefício temporário torne-se permanente à custa de uma enfermidade, que precisa ser real... ainda que de fato, tenha se tornado imaginária!
   Muitas vezes não se consegue sair das compulsões, dos medos, das reações desproporcionais, dos mecanismos de defesa, do processo em geral de adoecimento, porque não se quer perder os lucros passageiros decorrentes da dor.
    Queres ficar são? É preciso abrir mão dos ganhos aparentes, é preciso mudar... é preciso querer para que haja a cura. É preciso deixar de lado a vantagem ou o benefício (seja este do INSS ou de outra fonte) que se está tirando disso. É preciso querer ficar são !!!
   Mas enfermidades não são apenas do corpo... São também da alma, do espírito. É preciso querer ficar são.
    A história de Zaqueu é paradigmática para ilustrar esta verdade. Um publicano desonesto, que enriqueceu por suas práticas ilícitas tornou-se marginalizado pela sociedade por sua conduta detestável... e também ficou à margem de um relacionamento com Deus... Um doente... uma alma mendicante... Mas como abrir mão de todas as vantagens adquiridas com aquele tipo de vida? Ficar são significaria abrir mão do dinheiro fácil desonestamente conquistado.  Não há como ficar são sem encarar as perdas decorrentes do fim dos benefícios do adoecimento!
     Zaqueu decide que ficar são vale a pena, e todas as efêmeras vantagens decorrentes de sua vida doentia poderiam ser deixadas para trás. Vai então procurar Jesus! Ao encontrar com o Senhor, Zaqueu abre mão dos seus bens (desonestamente conquistados) e decide restituir com folga aos que por ele foram prejudicados... Agora ele está são... e Jesus sorri, pois veio “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.1-10).  
    Infelizmente, nem todos querem ficar sãos, como Zaqueu... os benefícios da enfermidade falam mais forte, as estruturas já se acomodaram e se adequaram ao sofrimento, à dor, à solidão espiritual...
    Em Betesda, ouvi de novo Jesus indagando: “Queres ficar são?”

        Pensei em tornar mais viva esta nossa conversa através de um vídeo, com as imagens do que falamos ao som da música Betesda, de Sérgio Lopes:

sábado, 1 de outubro de 2011

Um lugar chamado Ein Gedi

   Há muitos lugares surpreendentes no mundo. Um deles eu tive a oportunidade de conhecê-lo agora, em nosso retorno a Israel. Trata-se de Ein-Gedi, nome hebraico para “Fonte dos Cabritos”.  Além do nome pomposo, o lugar é fartamente citado na Bíblia, e em situações que atiçam nossa imaginação.
    Ein Gedi é um lugar de povoação muito antiga, o que é atestado por sua citação entre as cidades de Judá ainda nos tempos da conquista de Canaã (Jos 15.62).  Escavações conduzidas desde 1949 confirmam a antiguidade do sítio. Arqueólogos encontraram nas imediações um templo antigo e o dataram do período calcolítico (entre 4.300 a 3.300 a.C). Ossos e cinzas de animais encontrados em covas circulares eram os remanescentes dos sacrifícios ali oferecidos.
     Onde seria esse lugar? Onde se situa Ein Gedi?
     Há pistas no texto bíblico sobre sua localização. O profeta Ezequiel é quem nos fornece a primeira dica:
   Na visão das águas purificadoras, registradas no capítulo 47, Ezequiel vê águas que fluem do Templo se derramarem, saírem pelas portas de Jerusalém, e descerem até o Mar Morto (Ez 47.8). Ali, um lugar onde não há qualquer tipo de vida, as águas cheias de minerais do mar tornar-se-iam doces,  e enxames de peixes povoariam o Mar, o que atrairia pescadores e estes estenderiam suas redes “desde Ein Gedi até Ein Eglaim” (Ez 47.10).  
   Na descrição de sua visão, Ezequiel situa Ein Gedi na região do Mar Morto.
   Estávamos em Tiberíades, às margens do Mar da Galiléia, e dirigimos aproximadamente 200 km rumo ao Sul, seguindo a Rodovia 90, que corta o país de Norte a Sul (da fronteira com o Líbano, até a fronteira com o Egito, em Eilat, no Mar Vermelho).

   No Mar da Galiléia já estávamos a pouco mais de 200 metros abaixo do nível do mar, em pleno “Vale da Grande Fenda da África”. Este é um dos grandes caprichos do Criador:  uma gigantesca falha geológica que estende-se desde o vale do Jordão, no norte de Israel, até Moçambique, num incrível total de 6.400 quilômetros!
   A Rodovia 90, contorna a margem ocidental do Mar da Galiléia e continua seguindo a Grande Fenda, através do Vale do Jordão, que enfim deságua no Mar Morto. Do mar da Galiléia ao Mar Morto descemos mais 200 metros e atingimos o ponto mais profundo da Terra, 400 metros abaixo do nível do mar!
   Seguimos margeando o Mar Morto por alguns quilômetros e pudemos perceber o quão inóspito é aquele lugar.  O sol é intenso, a estrada corre espremida entre o Mar Morto e os penhascos marrons que caracterizam os paredões da Grande Fenda em sua região de maior profundidade.
    Porém, seguindo as indicações do profeta Ezequiel estamos próximos a Ein Gedi.

    Se hoje o Deserto de Judá é pouco povoado, imagine na época de Davi! Era quase totalmente desocupado... Seria então o lugar ideal para um homem esconder-se, desde que houvesse água disponível... O Primeiro Livro de Samuel então nos dá outras dicas da localização de Ein Gedi:
    Um lugar de fortalezas (I Sm 23.29), no deserto (I Sm 24.1), um lugar de penhascos e de cabras monteses (I Sm 24.2), onde havia caverna (I Sm 24.3).
    Se existe um lugar no deserto onde podemos encontrar seres vivos, no caso, cabras monteses, e seres humanos que fizeram dali seu lugar de habitação, então este lugar tem água. Estamos falando de um oásis, o maior oásis na margem ocidental do Mar Morto: Ein Gedi.
    Chegamos então em Ein Gedi, onde nos encontramos com o passado! Fiz o registro no hotel, municiei a mochila com água e paguei a entrada na Reserva Natural Ein Gedi.
    Muito cedo entendi o porquê do nome do lugar: “Fonte dos Cabritos”. Pude ver cabras monteses, pequenas ou maiores caminhando e pastando tranquilamente... Pastando? Sim, no cenário quente e seco, uma corrente permanente de água garante vegetação que quebra a monotonia marrom da paisagem e irrompe um verde que alimenta as cabras monteses.

    O cenário corresponde perfeitamente à descrição do texto de I Samuel. Fugindo de Saul, Davi procura esconderijo nestes penhascos cheios de cabras monteses (I Sm 24.2).

     Vou seguindo o caminho da água através do Wadi David pois acredita-se que foi por aqui que Davi com seus homens procurou esconderijo. Quando se lê I Sm 23.29, encontramos: “Davi subiu e permaneceu nas fortalezas de Ein-Gedi”. O que seriam estas fortalezas? Uma cidade murada? Algum tipo de estrutura militar? Não, não. Olho em torno e percebo que as fortalezas de Ein Gedi eram os inacessíveis refúgios nas rochas da montanha!

    Aqui, posso entender muito melhor as palavras do jovem Davi expressas no Salmo 18.2. Para Davi, Ein Gedi significou livramento, proteção, cuidado de Deus através daquela perene fonte de água, fortaleza, refúgio:
   “O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo, em quem me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação e a minha torre de proteção.”
    Aqui em Ein Gedi, estas palavras assumem um sentido ainda mais forte!   

      Mais acima da pequena Cascata de Davi está a Caverna de Dodim. Lembro então da narrativa pitoresca e interessante, que bem pode ter acontecido aqui:

    Buscando um lugar para aliviar uma aguda pressão intestinal, o Rei Saul fez uma breve pausa em sua caça ao seu genro Davi, ao encontrar uma caverna nos penhascos de Ein Gedi. Entrou na caverna,  e imediatamente, aproveitou a privacidade e escuridão do lugar para satisfazer suas necessidades fisiológicas (I Sm 24.3), sem saber que era assistido por Davi e seus soldados!!!!!!! Que dureza!  Muitas testemunhas para a defecada real... Enquanto realizava sua obra fecal, Saul não percebeu que seu manto estendido no solo teve um pedaço de sua orla cortado por uma espada misteriosa.  
  Ao sair, o Rei Saul foi supreendido pelo grito de Davi que com uma ponta de seu manto na mão, ratificava sua lealdade e fidelidade (I Sm 24.8-15).

    Não podemos deixar de falar sobre outra citação importante feita no texto bíblico acerca de Ein Gedi. Trata-se de um trecho do Cântico dos Cânticos: “O meu amado é para mim como um ramalhete de flores de hena das vinhas de Ein Gedi” (Cant 1.14).
   As vinhas incluem uvas, mas não se limitam a essas frutas. Segundo o texto havia em Ein Gedi plantações de hena, cujas flores juntas num ramalhete eram sinônimo de beleza, o que mais alto poderia existir em padrão estético.  Hena é uma especiaria ainda hoje utilizada como matéria prima para produção de cosméticos. As flores de Hena de Ein Gedi eram as melhores das melhores...
   Escavações em Ein Gedi encontraram instalações industriais nas casas, as quais foram interpretadas pelos arqueólogos como oficinas para preparação de um produto exclusivo – talvez um perfume de bálsamo, o qual, pelo que se sabe, foi o produto mais importante dessa região durante o período do segundo templo.
   Além de tudo, Ein Gedi era a Paris dos cosméticos de Israel... a Sulamita sabia o que dizia, em comparar as flores de Ein Gedi com a beleza do seu amado. Ninguém melhor de que uma mulher para avaliar tais coisas!


domingo, 31 de julho de 2011

Dia 27: Triste Colheita...

    Dia 27 de Abril, faleceu no Texas vítima de um acidente automobilístico o Rev. David Wilkerson. Exatamente três meses depois, no dia 27 de Julho, morreu na Inglaterra o Rev. John Stott. Mas o que estes estrangeiros têm a ver comigo? Muita coisa... Ambos fizeram parte da minha formação espiritual. Nunca os vi e nunca souberam de minha existência, claro. Mas ambos foram de fundamental importância para o meu entendimento dos desígnios divinos, e da ação presente de Deus na Terra.
   David Wilkerson...

   Quando eu tinha 14 anos me tornei colportor (para quem não sabe, colportor é alguém que vende livros de conteúdo religioso) da Editora Betânia. O livro mais procurado do meu catálogo naquela época era "A Cruz e o Punhal", que já ia na sua 14ª edição (o meu velho e surrado exemplar é dessa época). Líamos, e vibrávamos com as aventuras do Rev. Wilkerson no Brooklin violento dos anos 60. Depois queríamos acompanhar o que aconteceu com os jovens saídos das drogas como o portoriquenho Nicky Cruz. A história de Nicky estava num outro livro: "Foge, Nicky, Foge". Tudo o que o Rev. Wilkerson escrevia nós absorvíamos avidamente. Outros livros vieram como "Depois de A Cruz e o Punhal", "Não Estou com raiva de Deus". Depois a história foi lançada em filme, que assisti numa sessão no Colégio Americano Batista, ao lado da Igreja da Capunga.

    O tempo passou, mas não perdi o Rev. Wilkerson de vista. Li também o testemunho de sua esposa, Gwen Wilkerson, um livro de inestimável valor "Na Força do Senhor" (editora Vida), no qual ela conta seus conflitos com o esposo e sua luta contra o câncer.
    Depois me tornei colportor também da CPAD, que tinha os direitos autorais de um outro livro famoso do Rev. Wilkerson,  "Toca a Trombeta em Sião". Era uma denúncia corajosa dos desafios do cristianismo da época. Foi um best-seller, em 1 ano se esgotaram 5 edições.   
    Rev. Wilkerson tornou presente para todos nós o significado de chamado missionário, de obediência e dependência de Deus. Era como se o livro de Atos estivesse sendo vivido novamente. Sua voz profética foi ouvida em todo o mundo! Todos fomos chamados a Tocar com ele a Trombeta.
     John Stott...


    Em 1990 terminei o ensino médio no Colégio da Polícia Militar de Pernambuco, e no ano seguinte comecei o curso teológico no querido Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste. Lá fui apresentado aos escritos de um  ilustre inglês, Rev. John Stott, clérigo anglicano, capelão da Coroa britânica.
    Quando pensávamos em alguém que se citado, traria peso ao nosso argumento, pensávamos em John Stott. Não se poderia estudar Soteriologia sem a leitura de "A Cruz de Cristo", clássico sempre. Suas exposições de "Atos" e "Romanos" eram imprescindíveis. Quando fui lecionar Atos dos Apóstolos, indicava sem medo de errar o livro de John Stott, publicado pela ABU. Ajudou-nos com sua clareza e simplicidade habituais em questões polêmicas como sexo, em "Grande Questões sobre Sexo", publicado pela Vinde.
     Parte da minha biblioteca foi financiada indiretamente por ele. Como? Através do "Evangelical Literature Program and Langhamk Scholarship Program", um projeto para fornecimento de livros e bolsas de estudos para seminaristas e pastores, criado por John Stott. Enquanto aluno e professor do seminário adquiri muitos livros subsidiados pelo projeto do Rev. Stott.
    Quando fui o professor homenageado pela turma concluinte do ano 2000, no STPN, comprei e presenteei cada um dos formandos com outro clássico do Rev. John Stott, "O Cristão em uma Sociedade não cristã".  Ele escreveu e deixou claro para nós que "Crer é também pensar".
      Em 27 de julho, John Stott partiu para a Eternidade. Fico triste porque meus referenciais estão indo embora. Mas fico feliz porque tenho referenciais. E sinto grande responsabilidade também, porque hoje me transformo em referencial para muitos... Que eu trilhe os caminhos destes grandes homens, que inculcaram em mim, mesmo à distância, através de seus escritos e testemunhos, uma fé verdadeira e firme em Jesus Cristo que é o mesmo ontem, hoje e eternamente!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Conversas sobre o Livro de Habacuque

1.       Os questionamentos de uma pessoa de fé
    Muitos textos bíblicos apresentam uma atualidade que surpreendem os mais céticos e incrédulos. O livro do profeta Habacuque é um deles. O nome exótico, sonoro e pouco utilizado (Quem conhece alguém chamado Habacuque?), esconde um texto riquíssimo em beleza estética, profundidade espiritual e atualidade teológica.
   Em nossa conversa sobre Habacuque, começamos com os questionamentos do profeta, encontrados no primeiro capítulo:
   “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Por que razão me mostras a iniqüidade, e me fazes ver a opressão?” (Hab 1.2-3) “Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo que ele? E por que farias os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?” (Hab 1.13-14)  
   O questionamento surge quando os fatos aparentam alguma incoerência. Quando a lógica do cotidiano parece comprometida. Quando o raciocínio humano não encontra razoabilidade nos fatos com os quais se depara. Habacuque questiona porque não há resposta divina ao seu clamor. Ora, diante do clamor humano espera-se a resposta do céu. Quando a resposta não vem, surge o questionamento: “Até quanto, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?”
    Diante da inércia do Eterno Regente do mundo, ante às injustiças e desmandos da sociedade humana, a lógica do crente brada: “Por que calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo que ele?
    Indagações... questionamentos...

    Para muita gente a definição bíblica de fé parece estar calcada em certezas, em impossibilidade de questionamento: “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem...” (Hb 11.1). Este conceito, belo, apropriado e suficiente por sinal, nos indica que a fé confere sentido à crença de coisas futuras e invisíveis.  Garante-nos que não estamos loucos quando afirmamos que cremos no mundo porvir, bem como que Cristo está assentado à direita de Deus intercedendo por nós. A fé é o que confere sensatez e coerência às nossas afirmações, mesmo que estas não encontrem amparo na metodologia científica.
    Mas esta definição não indica que o crente (aquele que tem fé) não questione, não faça indagações. É importante que tenhamos em mente que existem indagações e indagações. Existem indagações basilares, que caso existam é indicativo que o indivíduo ainda não tem consolidada a sua fé, a sua crença. Por exemplo, quem questiona a própria existência de Deus não pode estar nos domínios da fé, ainda encontra-se no universo da incredulidade. Afinal, “é necessário que quem se aproxima de Deus creia que ele existe...”(Hb 11.6).
    Existem indagações que surgem de um coração cheio de fé. Existem questionamentos que partem da pureza e sinceridade de quem confia no Senhor e quer manter sua fé no Todo-Poderoso. Habacuque era assim... Não entendia por que certas coisas eram do jeito que eram, e não tendo as respostas indagava ao Todo-Poderoso.
     Por que temos tanta certeza da fé de Habacuque?
     Por causa de sua atitude no versículo 1 do capítulo 2. Após uma saraivada de questionamentos, Habacuque toma uma decisão:  Eu me colocarei sobre a minha torre de vigia; ficarei sobre a fortaleza e vigiarei, para ver o que Ele me dirá e o que terei como resposta à minha queixa”.
     Humildade, sinceridade, fé, eis o que está por trás desta atitude. Alguma coisa Deus me dirá, algo para manter coerente o meu pensamento, algo para acalmar meu espírito em ebulição, algo para confirmar que eu não estou enlouquecendo. Vou esperar... vou esperar pela resposta divina.
     E a resposta veio. Não com as respostas ao questionário de Habacuque, mas com uma clareza fora do comum, com uma simplicidade óbvia, um óbvio ululante (como ele não tinha entendido isto ainda?): “O Justo viverá por sua fé” (Hab 2.4). A fé confere ao crente um sentido à existência que dispensa as explicações e respostas aos questionamentos. As indagações considerar-se-ão satisfeitas pela afirmação da fé. Por isso, o justo, vive por sua fé.
     Lembrei do meu avô, Justo... já não está mais conosco... viveu por sua fé, deixando-nos o exemplo!

sábado, 16 de abril de 2011

Relacionamento e tempo: uma constatação

Naquele dia ela me chamará meu marido (meu homem especial); não me chamará mais meu Baal (meu amo, meu senhor) (Os 2.16)

A forma como cada cônjuge trata um ao outro retrata um pouco do atual estágio do relacionamento de ambos. Por que atual estágio? Porque todo o relacionamento muda ao longo do tempo. Isto é indiscutível.
Muda porque nós mudamos! Muda porque muda a nossa forma de ver o mundo! Muda a nossa interação com a vida. Muda o mundo, tudo muda, o mundo muda. E mudamos nós. O problema não é a mudança, o problema é quando a mudança se dá para pior.    
O tempo... O tempo é um componente implacável no nosso relacionamento. Em algum momento a pele não mais será tão fresca, as rugas insistirão em driblar o Renew e teimosamente denunciar que já não somos os garotos e garotas de outrora... E os cabelos? Insistem em novos fios brancos, que mesmo pintados insistem em crescer apontando para uma raiz branquinha... O tempo... Como dizia um jovem que não chegou a envelhecer: O tempo não pára!   
E no relacionamento o reflexo do tempo está em toda a parte. Muito além das rugas e dos cabelos brancos, ou mesmo dos quilos extras. O tempo está no humor que já não é mais o mesmo. Está na língua que pode ficar ferina. Está nos olhos que deixaram de ver apenas a beleza e passaram a valorizar os pequenos erros, os equívocos.
Dizem que com o tempo os animais crescem e mudam de espécie... O Meu Gatinho pode se transformar num “Cachorro”, e a Minha Gatinha pode se transformar numa “Jumenta”.
Como dissemos, este tratamento reflete o relacionamento. E o relacionamento muda, mas não precisa ser para pior... E se estiver ruim, pode ainda ser novamente melhorado.  
No texto de Oséias,  que retrata um relacionamento conjugal simbólico entre o povo de Israel e Deus, percebemos a promessa de uma renovação no relacionamento. Uma esposa que chama o esposo de meu senhor (meu baal), passaria a chamá-lo de meu marido, meu homem. A passagem de “meu senhor” para meu marido indica que a ênfase é colocada mais na intimidade do vínculo conjugal do que na subordinação da esposa ao esposo.
Com o tempo o relacionamento pode tornar-se insosso, uma troca de obrigações, e nestas obrigações alguém passa a ser o senhor, o amo, o proprietário... E ficam juntos, mas não por causa do carinho, mas pela obrigação...
 No texto de Oséias, o que norteia o relacionamento não deve ser a relação contratual da aliança, o foco não é a obrigação, a responsabilidade (meu senhor)... o foco é o amor, é o carinho, o vínculo amoroso (meu marido, meu homem...).
Se pudéssemos viajar no tempo... o que veríamos?
          Um casal apaixonado dizendo "sim". Estou certo? Mas o tempo...
           O tempo foi passando... O tempo, sempre o tempo... e a rotina... e a dureza da vida. E o cuidado dos filhos, que se tornaram adolescentes, jovens... e a exigência profissional, e o tempo vai ficando exíguo, passando rápido demais, e não mais se tem tempo, e se conversa pouco, se comunica pouco. E os problemas vão se avolumando. E o marido torna-se distante, e o carinho é substituído pela obrigação. Fazer amor é substituído por fazer sexo, inclusive aludindo-se à determinação bíblica para o casal: não defraudeis um ao outro...
         E agora os pronomes mudaram, o tratamento endureceu... É... parecia tudo um mar de rosas, mas descobrimos que rosas tem espinhos... E há pedras no caminho. Descobrimos que além da lua de mel, há doçura sim, mas da rapadura. E rapadura é doce, mas não é mole, não! 
 Quem foi que te disse que a vida é um mar de rosas? Estava certo! É mesmo um mar de rosas, mas não esqueça que rosas tem espinhos. E o fardo é pesado e precisamos levá-lo, a jornada é longa, e não podemos ficar no caminho. Casamos para ficar juntos... até que a morte nos separe. E rapadura é doce, mas não é mole, não!
 Hoje somos desafiados a exprimir em gestos, em atitudes, a renovação deste amor, deste relacionamento. Demonstremos com um gesto, com um olhar, e não apenas hoje, mas sempre, vivamos atitudes de amor... pois o amor tudo espera, tudo suporta...
Naquele dia me chamará meu amor, minha querida, meu amado, formosa minha, bem, benzinho... Love...

sábado, 9 de abril de 2011

Velhice x Civilização

   Chovia muito hoje de manhã. Eu estava dirigindo e na minha frente um carro andava devagar. Impaciente, pensei: deve ser um velho. Dito e feito, constatei ao ultrapassar grosseiramente o “velho lento”, e corri em busca do “tempo perdido”.
    Depois que o motorista “velho” ficou para trás comecei a pensar: Podia ser meu pai... poderia ser eu daqui a uns anos. E por que a impaciência? E por que a ponta (do iceberg) de discriminação?
   Constato que integro a parte culta da sociedade, com graduações que se enfileiram, cursos que se empilham, títulos que se sobrepõem, um status estabelecido... Definitivamente alguém que deveria ter assimilado a civilização. A etimologia nos indica que civilização vem do latim civis, que significa cidade.  Civilizado é alguém que aprendeu a viver na cidade, com outras pessoas.
    Estou sendo civilizado em minha impaciência no trânsito com o motorista idoso? Não obstante formação superior  que indica anos e anos nos bancos escolares ainda não sou um homem civilizado...  Agi como um homem das cavernas... um pré-histórico. Mas agi como alguém fruto da minha época: uma civilização que abriu mão dos valores, do respeito em troca do sucesso, da velocidade, da prosperidade a todo custo.
     É tempo de refletir e repensar.  Ainda posso pensar como jovem, agir e sentir como tal. Mas o tempo está passado. Breve perderei os reflexos, a acuidade visual não será a mesma... serei um velho. Um velho que não aprendeu a ter paciência!
    O Eclesiastes chama a velhice de dias difíceis nos quais a visão escurece, os ouvidos se fecham, as pernas não sustentam mais o corpo, os dentes caem... Mas isto dito de uma forma poética, profunda:
“...antes que o sol e a luz, a lua e as estrelas se escureçam, e as nuvens voltem depois da chuva; quando os guardas da casa tremerem, e os homens fortes andarem curvados, e cessarem os moedores por já serem poucos, e os que olham pelas janelas se escurecerem; quando as portas da rua se fecharem; quando diminuir o barulho do moinho e acordares com o canto dos pássaros e silenciar o som de todos os cânticos; quando temeres a altura e te assustares pelos caminhos; quando florescer a amendoeira, o gafanhoto for um peso e o desejo já não se despertar...”  (Ec 12.1-5)
    Pensei como critico quem joga lixo na rua do carro, quem faz manobras proibidas... e digo: não são pessoas civilizadas... Do alto da minha civilização, da minha cultura, me vejo bárbaro, ignorando a lentidão do velho. Confesso: também não sou uma pessoa civilizada.
    Sou cristão, mas neste momento estava longe de mim as palavras do Livro Sagrado: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo... Tudo o que quiserdes que os homens vos façam fazei vós também a eles...
    Constato também que é muito fácil apontar o erro alheio... como dizia Jesus: Tira primeiro a trave do teu olho, para depois olhares o argueiro do olho do teu irmão.
    Acho que estou no caminho da mudança... Confissão e arrependimento. Ver o mundo de outra forma, e dentro em breve poder dizer com o poeta:
     “Ando devagar porque já tive pressa...
     Levo este sorriso porque já chorei demais!”
     Finalizo com uma música em homenagem ao “Velho”.  É dedicado, no meu caso, ao meu Velho Pai, que no trânsito de Recife deve causar muita angústia nos motoristas impacientes e “civilizados”. Senhores, lembrem-se: Vocês irão envelhecer!!!