domingo, 15 de julho de 2012

Uma cidade chamada Jerusalém

   Na árida paisagem da Judéia, aninhada nas montanhas do Planalto Central de Israel, encontramos a milenar cidade de Jerusalém.  Nem sempre ela foi conhecida por esse nome. Chamava-se Jebus (I Cr 11.4), e os seus habitantes eram os jebuseus. Quando Josué empreendeu a conquista da terra de Canaã muitas cidades ficaram por ser conquistadas (Jos 13.1), entre as quais Jebus.
   Quando Davi foi coroado rei sobre todo o Israel, sentiu necessidade de ter uma capital que fosse geograficamente central, e também segura sob o ponto de vista militar. Uma cidade lhe vinha à mente, por sua localização, sua dificuldade de acesso, que lhe assegurava o título de Fortaleza de Sião (II Sm 5.7): Jebus, Jerusalém.
   Pôs então, no seu coração o desejo de conquistá-la. Escolheu-a para ser sua capital, antes mesmo de conquistá-la. Mas a cidade era soberba, orgulhosa, ciente de suas defesas naturais, que faziam com que suas muralhas estivessem sobre abismos montanhosos. Quem se atreveria a atacá-la? E  mesmo se a atacasse com certeza não lograria êxito em conquistá-la. Tal era sua autoconfiança que se dizia: “Davi, não entrarás aqui; os cegos e aleijados te impedirão...” (II Sm 5.6). Isto é, apenas cegos e aleijados eram necessários para defender a cidade. Em termos de força bélica nada significavam. Em outras palavras, a cidade sequer necessitaria de alguém que a defendesse. De forma alguma Davi entraria lá.
   Quando Davi ofereceu o posto de comandante do exército àquele que conseguisse tomá-la (I Cr 11.6), seu sobrinho Joabe conseguiu conduzir as tropas com êxito e conquistar a cidade, possivelmente pelos túneis que abasteciam de água a cidade (II Sm 5.8). De repente a cidade orgulhosa e cheia de si, que seria defendida apenas por cegos e aleijados, é tomada por Davi.
    Mas é importante registrarmos que, a conquista de Jerusalém não visava apenas um fim político ou militar. Mas, enfim qual o propósito de Davi em conquistar a cidade? Tão logo a cidade é conquistada e o reino de Davi é confirmado sobre Israel, uma coisa é feita, que deixa claro pra nós qual o propósito da conquista da cidade:
    Davi manda trazer a arca de Deus... a arca não era apenas um utensílio, um objeto especial... era a arca de Deus, sobre a qual se invoca o Nome, o nome do Senhor dos Exércitos, entronizado sobre os querubins (II Sm 6.2). A presença da arca em Jerusalém transformava a cidade em habitação de Deus. Esse era o propósito da conquista de Jerusalém, transformar uma fortaleza jebuséia em lugar da habitação de Deus.
     Mas um lugar de habitação de Deus é consequentemente um lugar de adoração. E Davi, convocou Asafe e seus irmãos para ministrarem louvores ao Senhor (I Cr 16.7). Jerusalém tornava-se assim num lugar de adoração ao Senhor dos Exércitos!
Naquela época Israel ainda cultuava a Deus num tabernáculo, uma tenda, uma estrutura transitória, desmontável que não tinha local fixo. Davi então propõe em seu coração a construção de um templo, um lugar de adoração definitivo, não transitório, permanente.
    Mas construir um templo exige direcionamento de recursos, exige esforço, exige disposição, exige comprometimento. E embora não tenha sido responsável por erguê-lo, Davi preparou grande parte dos recursos para que tal empreendimento se tornasse possível (I Cr 22.14-16). Mas tudo isso valia a pena, em se tratando da construção de um lugar definitivo de adoração.
    Jerusalém não era mais a fortaleza de Jebus, era agora habitação de Deus, lugar de adoração, em breve sediaria um lugar definitivo de adoração. Mas uma cidade assim sofreria algum tipo de dificuldade? Não seria totalmente isenta de males? Deus não a tornaria livre de toda possibilidade de sofrimento?
   Não, mesmo sendo habitação de Deus, lugar de adoração, Jerusalém foi uma cidade afrontada, assediada. Das diversas vezes em que foi cercada, combatida, afrontada, desafiada, uma delas vale a pena analisarmos com mais cuidado:
    Era na época do Rei Ezequias... os assírios eram a grande ameaça de todos os povos do Oriente. Formaram o primeiro grande império globalizado. Sua fama de agressividade e crueldade fazia tremer nações inteiras. Seus reis eram famosos como os reis caçadores de leões. Os baixo-relevo das paredes dos palácios de Nínive contavam a história de conquista e poder dos assírios (hoje se acham expostos no Museu Britânico, em Londres).
    Os assírios tomaram o reino-irmão de Israel, cuja capital Samaria caiu sob o poder dos exércitos do Rei Senaqueribe. Em sua política os assírios costumavam destruir a cultura dos povos subjugados, misturando as etnias, trazendo gente de outros lugares para habitar as cidades israelitas (II Rs 17.24).  Quando as crenças não eram destruídas passavam por um processo de sincretismo religioso, assim os samaritanos tornaram-se pessoas que adoravam ao Senhor, mas também cultuavam outros deuses (II Rs 17.33). Agora os assírios se aproximavam de Judá, e não apenas isso, já haviam atacado algumas cidades e levado seus habitantes como cativos, como foi o caso de Laquis (II Rs 18.13).
    Diante da ameaça assíria, Ezequias toma três providências, que vão se mostrar acertadas:
   1) Tapou as fontes das águas que ficavam fora da cidade, privando o inimigo de ser saciado com as águas de Jerusalém (II Cr 32.3-4);
  2) Fortificou o muro, reconstruindo o que estava demolido e levantando novos muros e torres (II Cr 32.5);
  3) Desafiou o povo a confiar no Senhor (II Cr 32.6-8).
     O Rei da Assíria encaminhou um embaixador para negociar a rendição de Jerusalém, chamava-se Rabsaqué. Sua estratégia também consistia em três ações:
    1) Ameaças e amedrontamento: “Que confiança é essa que tens? Em quem tens confiado para te revoltares contra mim?” (II Rs 18.19-21);
   2) Falsas promessas: “Fazei paz comigo e vinde a mim. Assim cada um comerá da sua vide e da sua figueira e beberá a água da sua cisterna; até que eu venha e vos leve para uma terra semelhante à vossa, terra de trigo e de vinho, terra de pão e de mel; para que vivais e não morrais...” (II Rs 18.31-32);
    3) Profecia mentirosa: “Por acaso eu teria vindo atacar e destruir este lugar sem o Senhor? Foi o Senhor que me ordenou: Ataca e destrói esta terra.” (II Rs 18.25)
   Diante da estratégia inimiga, após ter feito sua parte, Ezequias orienta o povo a ficar em silêncio, não responder nada (II Rs 18.36), e orar ao Senhor (II Rs 19.1-19), apresentando-lhe as palavra de afronta ao Senhor, o Deus vivo.
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Jerusalém, não está no passado! Não é uma história antiga. Jerusalém é você, caro leitor temente a Deus!
Você não é fruto do acaso: O Senhor te escolheu, te conquistou, apesar de seu orgulho, de sua autosuficiência. Mas ele te escolheu para que fosses sua habitação, para que se tornasse em lugar de adoração. E este lugar não pode ser passageiro, temporário. É preciso construir em sua vida um lugar definitivo de adoração ao Senhor, para isso é preciso direcionar recursos, comprometimento, e esforços, pois Ele quer um lugar definitivo em sua vida. Chega de andar de um lugar para o outro, buscando Deus aqui ou ali. Construa um lugar permanente de adoração, ainda que isso lhe custe esforço.
Não é porque somos habitação e lugar de adoração de Deus, que estamos isentos de todas as dificuldades. Os nossos problemas não acabaram. Não temos uma história tabajara, nem uma relação tabajara com a divindade. Apesar de tudo, somos afrontados, desafiados, atacados... O que fazer então? Aprendamos com o Rei Ezequias: Tapemos as fontes que alimentam o inimigo, fortifiquemos os muros e confiemos no Senhor!
O inimigo virá com suas estratégias, ameaçando, fazendo falsas promessas e até mesmo com profecias mentirosas. Não discutiremos, ficaremos em silêncio, em oração, apresentando ao Senhor tudo, pois a afronta não é contra nós, não é contra Jerusalém, é contra o Deus vivo. O Senhor concede vitória a Jerusalém, para que todos saibam que só Ele é Deus!!!
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Gostaria de finalizar este post com este vídeo que traz uma música inesquecível: JERUSALÉM....

sábado, 9 de junho de 2012

O Adorador

Estamos vivendo um momento especial no mundo evangélico, aliás, por que não dizer cristão? Um grande movimento adoracionista levanta-se de todos os lados. Dos padres cantores ao gospel pentecostal, todos estão se dando o título de “Adoradores”. E as adorações vão desde as manifestações extravagantes originadas da Bênção de Toronto (tomadas lugar na Igreja Comunhão da Videira do Aeroporto de Toronto, Canadá) , onde após a ministração da palavra, os obreiros oram com imposição de mãos pelas pessoas, e a maioria "cai" para trás, e são aparadas imediatamente pelos "apanhadores". Então as pessoas recebem a unção do riso, e outras manifestações do gênero.
   Outras manifestações surgem um pouco mais extravagantes já classificadas como exóticas, tais como a “unção do leão”... não vou mais além, mas se alguém pesquisar um pouco mais vai ver coisas no mínimo, exdrúxulas, inacreditáveis.
   Enfim, todos estão no grupo de Adoradores. Me preocupa ainda mais os adoradores que estão na mídia, cujos trabalhos vendem milhares de cópias. Tornam-se referência para milhões de jovens cristãos neste país. Muitos tornaram-se celebridades. Vivem hoje para o seu trabalho, a divulgação de sua obra, o lançamento de novos produtos. Fiquei chocado um dia desses quando entrei no site de uma “adoradora” de grande sucesso no momento. Um hot site levava para sua loja virtual... Onde canecas, camisas, mouse-pad são ofertados, ilustrados com trechos dos “louvores”. Fiquei pensando onde entra a adoração na venda daquela caneca...
    São os adoradores da hora... comunidades evangélicas pagam a peso de ouro sua participação nos eventos das igrejas, e atraem milhares de pessoas. E estes adoradores vão forjando novos adoradores, à sua imagem e semelhança. Todos sonhando com sucesso... muito sucesso. Se possível milhões de CDs vendidos, discos de ouro, platina... e tantos metais preciosos quanto houver...
    Quando pensei sobre um adorador nas Escrituras, só um homem me veio à mente: Não foi Davi, com sua harpa, cajado e coroa... não foi Asafe com seus instrumentos... foi um homem solitário, sem um staff, sem instrumentos elaborados... mas um homem seguido por uma grande multidão. Como diriam nossos jovens “uma galera” enorme foi atrás dele, em determinado momento sua mensagem estava “bombando”...
 
               JOÃO BATISTA !!!
    Um adorador tem a consciência de quem ele NÃO É:
    Embora estivesse ali para dar testemunho da luz, João NÃO ERA A LUZ (Jo 1.7-8). Quando se fala muito de algo é perigoso começar a se confundir com ele. 
    Por mais que as pessoas insistissem que ele deveria ser uma grande figura: Talvez o Messias, ou Elias, ou o Profeta (que equivaleria ao Messias novamente), ele sabia que não era nada disso (Jo 1.20-22).
     Por mais que as pessoas insistam na sua importância, na sua capacidade de arregimentar multidões, de fazer estremecer as pessoas...
   UM ADORADOR TEM A CONSCIÊNCIA DE QUE ELE É APENAS:
    A VOZ... (Jo 1.23) A voz que é usada pelo Senhor, para a proclamação da verdade, para testemunhar da luz, para louvor, para glorificação... Nada estava centrado em João, ele era apenas a Voz.
     UM ADORADOR SABE O SEU LUGAR NO MUNDO ESPIRITUAL:
     Por mais intimidade que ele tenha com Jesus, no caso de João, eles eram primos, o Adorador reconhece que: “Não é digno de desamarrar as correias das sandálias... do seu Senhor.” (Jo 1.27)
    E é isto que o faz um adorador. O reconhecimento do seu papel, da sua insignificância, da sua pequenez. De que ele existe para promover o engrandecimento do seu Senhor, portanto pode dizer constantemente: “É necessário que Ele cresça, e eu diminua” (Jo 3.30).
    Um Adorador ouve as insinuações sobre si, e seu ministério e não se incomoda, porque sabe exatamente porque e para que está ali:
    Por que batizas se não és uma figura importante (nem o Cristo, nem Elias, nem o profeta...)? João não estava ali como celebridade, estava apenas como A VOZ, e esta era a sua missão: abrir o caminho do Senhor e batizar com água (Jo 1.23-26).
Um adorador existe para apontar a Cristo e glorificá-lo através de sua vida e de sua Voz
     A tarefa de João, pregar e batizar não era um fim em si mesma. Muitas vezes achamos que nossas atividades religiosas e eclesiásticas tem um fim em si mesma. E então passamos a atribuir grande importância a elas, e passamos a cuidar que nada mude em nossas rotinas religiosas. João sabia que sua tarefa apontava para Cristo, era apenas uma ponte. Os discípulos que o seguiam não eram seus, as pessoas que ele batizava e o seguiam também  não tinham a finalidade de se fechar em torno de si mesmo, como uma comunidade religiosa particular.
    Quando Jesus surge, João aponta para o Mestre e diz: Este é o Cordeiro de Deus! E os discípulos o abandonam e vão seguir Jesus (Jo 1.35-37). João não fica triste, nem ressentido... afinal ele era apenas a Voz... que já cumprira o seu papel.
       Um adorador tem consciência de que ele não é a atração: Ele é o Amigo do Noivo
     As pessoas viram João perdendo Ibope, as multidões o trocando por Jesus, e imediatamente foram conversar com ele. Talvez ele precisasse tomar providências para rever seus discípulos, para retornar sua audiência (Jo 3.26-29).
      João tinha consciência de que ele era apenas a Voz. Na festa, não fazia o papel do noivo, apenas do Amigo do Noivo. Não era a atração. Era amigo da atração. O amigo do noivo fica feliz ao ouvir a voz do noivo, e participa da festa, não como atração da mesma, pois só o noivo o é... Diante do noivo, sua alegria é completa... O adorador é apenas a Voz, mas se sente realizado no papel de amigo do Noivo!!!!     
     Agora estou preocupado... Não vejo muitas pessoas com esse perfil. São adoradores ou imitações?
      E você? Pode dizer como João Batista: Importa que ele cresça e eu diminua?
    

domingo, 20 de maio de 2012

Uma comparação desigual: "Porventura não são Abana e Farpar, rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel?" Parte 2

   Pensar que em Damasco, os rios Abana e Farpar corriam límpidos e brilhantes, semeando fertilidade por onde passavam e embelezando a paisagem, e a ordem do profeta era mergulhar sete vezes no Jordão...
    A comparação foi inevitável: “Não são porventura Abana e Farpar, rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel?”.
    Como mergulhar naquelas águas barrentas quando os cursos dágua da Síria eram muito mais límpidos e translúcidos?
    A objeção do general Naamã é perfeita: Inegavelmente os rios de Damasco eram superiores ao Jordão, em beleza, em qualidade da água, em limpeza aparente... Mas o milagre não estava lá, estava nas águas barrentas do Jordão.
    Alguém, de repente, resolve lembrar ao general que seu objetivo ali não era tomar um banho no Jordão para refrescar-se, se assim o fosse, melhor seria fazê-lo em Damasco. Ele estava ali não como o general, ele estava ali como o leproso precisando de tratamento, de cura.
    Todos nós somos encaminhados para o Jordão, para lá sermos tratados. A Igreja, a comunidade de cristãos a qual pertencemos não se parece com Abana e Farpar, assemelha-se ao Rio Jordão.
    Inevitavelmente acontecem comparações: A comunidade científica a qual pertenço é mais culta, mais esclarecida... minha equipe de trabalho é mais coesa, mais entrosada, mais comprometida... meus amigos de discussão artística são mais sensíveis, mais abertos ao belo, mais criativos... meu grupo de aventuras e de caminhada e trilhas é mais ousado, mais disposto a correr riscos... meu grupo de discussão filosófica é mais racional, mais rigoroso... meus colegas de faculdade são mais despojados, mais abertos às novidades...
    Ninguém em sã consciência diria que Naamã estava errado. Sua objeção tinha rigor lógico, era óbvio, incontestável. Os rios Abana e Farpar eram melhores que as águas barrentas do Jordão.
  Os grupos que frequentamos, conhecemos, interagimos podem sim, ser equiparados ao Abana e Farpar... podem ser em qualidade, melhores do que o nosso Jordão!
   A Igreja não é uma sociedade filosófica, ou científica, ou de esportes de aventura, ou de conhecimento... Igreja é um lugar para onde são encaminhados os leprosos, os doentes, os sujos, os carentes de tratamento. Não é um lugar de encontro de generais, ou de grandes expoentes da sociedade. É um lugar onde os generais são simplesmente leprosos, os professores transformam-se em pessoas carentes de conhecimento, os médicos viram enfermos em convalescença... todos com suas sujeiras, suas mazelas... por isso as águas do Jordão são tão barrentas... é a sujeira de cada um...
    ... e quem de nós não temos as nossas sujeiras? Como ter nojo de mergulhar num lugar onde as sujeiras estão em efervescência saindo da pele das pessoas, se a água está suja também por nosso mal, o sujo que existia em nós?
    O Abana e Farpar são mais limpos, mais aprazíveis, mas neles os leprosos continuam leprosos. É no Jordão onde a limpeza acontece.
    Mas como chegar ao Jordão? É preciso descer... (II Rs 5.14). Samaria ficava  situada a meio caminho do Jordão ao Grande Mar, ao oriente da planície de Sarom, no alto de um monte oblongo, a mais de 100 metros acima do nível do mar. Para chegar ao Jordão era necessário enfrentar um desnível de mais de 300 metros, afinal, na linha de Samaria o rio corria em seu vale a mais de 200 metros abaixo do nível do mar.
    A descida para o Jordão também tinha um significado... durante a descida Naamã vai se despindo de sua autoimagem orgulhosa de General vencedor, para assumir a de um leproso carente. É assim também conosco, descemos de nossas posições sociais e nos vemos apenas como pecadores perdidos necessitando da salvação de Deus. Corremos para mergulhar no Jordão, onde está a limpeza, a cura, a pureza milagrosa da justiça de Cristo.
    Não foi à toda que séculos depois, João Batista encontrou-se no mesmo Jordão batizando as pessoas que se arrependiam de seus pecados. Outro tipo de lepra, mas sempre a enfermidade que precisa de cura... Estavam chegando saduceus e fariseus (Mt 3.7) e vinham, como o general Naamã confiantes pelo lugar que ocupavam na sociedade, esquecidos de sua lepra... Novamente alguém tem que lhes lembrar que eles não estão ali como figuras de destaque... São raça de víboras fugindo da ira vindoura, desafiados a produzir frutos dignos de arrependimento (Mt 3.7-8)...
    Embora outros rios pudessem ser melhores, é no Jordão que as pessoas são batizadas, confessam seus pecados e saem purificadas para uma nova vida (Mt 3.6).
    Deixemos que o general Naamã, os saduceus e os fariseus usufruam das belezas do Abana e Farpar... mas nós, leprosos e raça de víboras em fuga da ira vindoura, desçamos e mergulhemos em humildade no Jordão e alcancemos a salvação de Deus.
   E neste Jordão sejamos todos trabalhados pelo Senhor em nossas mazelas, em nossas fraquezas, em nosso pecado, em nossa maldade!

Uma comparação desigual: “Porventura, não são Abana e Farpar, rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel?” Parte 1

     É conhecida a história do general sírio Naamã, que vai à Samaria, capital do reino de Israel, em busca de cura para a sua lepra. A pequena escrava israelita lhe trouxera um raio de esperança quando avisou a sua esposa que em Israel havia um profeta que poderia restaurar sua saúde (II Rs 5.1-3).

    Agora ele chegara de Damasco em Samaria, com a carta do seu Rei, Ben-Hadad (Filho de Hadad), direcionada para o Rei de Israel, bem como  muitos presentes e riquezas,  inexplicavelmente o rei israelita leu com terror a carta do monarca sírio, e rasgou seus vestidos. Estranhos estes hebreus, não?                                    
   Ora, o Rei sírio, Ben-Hadad, isto é, Filho de Hadad, o deus sírio das tempestades (chamado pelos hebreus de Rimmon, II Rs 5.18), cujo templo estavam em Damasco, através daquela carta fazia um pedido ao rei de Israel, filho de Yahweh. Ambos os reis fariam uma ponte entre seus respectivos deuses em prol da cura do general sírio. Nada mais comum, se existia algo que poderia ser feito pela divindade, naturalmente o rei, filho do deus iria fazê-lo!

    De repente o rei israelita transtornado fica aliviado ao receber uma notícia, e o general sírio é encaminhado à casa de um profeta.

    Naamã conhecia profetas, era uma atividade comum no mundo da época. Mas os profetas sírios buscavam descobrir o futuro para orientar os reis sobre guerras, alianças, decisões a serem tomadas... Em que um profeta israelita poderia ajudá-lo?

   Ele imaginou então que o profeta iria sair à porta para recebê-lo, na qualidade de um alto emissário do reino sírio, se colocaria de pé, e invocaria o nome do Senhor seu Deus, passaria a mão sobre a sua pele e restauraria a sua lepra (II Rs 5.11).

   Qual não foi sua surpresa quando foi recebido à porta por um servo, um mensageiro, que lhe disse sem rodeios: “Vai e lava-te sete vezes no Jordão, e a tua carne te tornará e ficarás purificado.” (II Rs 5.10)   

 

   Nenhuma honra, nenhuma deferência, nenhuma referência à sua importância, seu cargo... sua eminência. Uma verdadeira humilhação, pouco caso... um absurdo total e pleno.
   Possesso de raiva Naamã esqueceu qual tinha sido o objetivo daquela viagem. Ele não estava ali como comandante do exército sírio para vencer mais uma batalha contra os israelitas. Nem como representante do alto escalão do Governo de Damasco. Ele estava ali como um leproso em busca de cura, um condenado em busca de salvação...
   Mas seu orgulho escondia dele toda essa realidade. Então ele toma consciência de que a ordem é para lavar-se no Rio Jordão! O Rio Jordão... não pode ser, lavar-se sete vezes no Rio Jordão! É demais para o entendimento de um homem!
    
    Claro que o General conhecia o Jordão. Era um curso dágua que se originava do degelo do Monte Hermon, nos recantos fronteiriços do seu país, a Síria, com o Líbano. O nome Jordão significa aquele que desce. E aquele rio não fazia outra coisa a não ser descer. Na fronteira com a Síria, o Jordão atravessa o lago de Hule. Um pouco abaixo do lago de Hule era necessário cruzar o Jordão para penetrar em território sírio. Mais ao sul estava o lago de Genezaré, que já está a 210 metros abaixo do nível marítimo, e 110 km abaixo, estava a foz do Jordão, a 390 metros abaixo do nível do Grande Mar, no Mar Salgado.
    Além de configurar uma forte descida, o Jordão era também um rio de muitos meandros, muita sinuosidade, muitas curvas... a conjunção destas duas características fazia do Jordão uma turbulenta corrente barrenta.
   

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Confissões (Parte 1)

    Ando ausente de postagens por tantos afazeres. Mas acho que em datas marcantes, preciso deixar algum registro. Daqui a algumas horas estarei completando mais um ano de vida... Quarenta anos, para ser mais exato.  Este final de semana estive com meus familiares no casamento do meu primo Ivson Erick, lá no sertão do meu Pernambuco. Minha mãe me abraçou e disse surpresa: Já tenho um filho com 40 anos! É isso aí, mainha... já se vão 39 anos dessa época aí, lembra?
    
     Navegando na internet, descobri surpreso que posso ser classificado como um ex-favelado (ou quem sabe um ex-futuro-favelado).  No site da CUFA,  Central  Única de Favelas, constatei  a existência da Favela do Córrego da Jaqueira, na Linha do Tiro. Nós residimos lá, boa parte da nossa infância, no número 241.
     A qualificação geográfica correspondia à realidade: Córrego. Recorro ao dicionário que esclarece: rego por onde corre água, caminho apertado entre montes...  A periferia do Recife tem muitos córregos, eu me lembro do Córrego do Ouro, Córrego do Botijão...  lá no bairro ainda tínhamos o Córrego das Negras, Córrego Central, Córrego do Curió, Córrego do Tiro... As montanhas invadidas de forma desordenada e urbanizadas à força, tornaram-se Altos.  Entre os Altos ficavam os Córregos.  Nós morávamos embaixo, no Córrego. Atrás de casa uma barreira demarcava as encostas do Alto dos Coqueiros. No final da rua, uma ladeira bastante íngreme (à época não pavimentada)  era o caminho que nos levava à casa dos nossos avós, no Alto do Deodato.
     No “pé da ladeira” existia um chafariz. Naquela época não tinha água encanada para todos. Então se ia buscar água no chafariz público. Nosso chafariz era funcional, não tinha nenhuma arte barroca ou moderna que o adornasse.  Guardávamos água num tonel (para higiene de forma geral) ,e  numa jarra (para consumo). Meu pai foi um dos que batalharam para que fosse instalada a água encanada nas casas de nossa rua.
     Era uma vida difícil, apertada... me lembro quando chovia. Descia água, muita água de todas as encostas e o nosso Córrego transformava-se em rio.  Só saíamos de casa quando a água escoava e recebíamos o nosso córrego de volta.
   Aos três anos fui para a Escola da Tia Lu. Até um dia desses minha mãe ainda guardava os meus cadernos... “a” uma bolinha e uma perninha. No dia em que o filho de Tia Lu, Flávio, teve sarampo, dizem que eu cheguei em casa contando que “ele estava com uma febre... e com a cara cheia de mofo”.
    Se eu fechar os olhos me lembro de todo mundo. Dos ricos da rua, aqueles que tinham carro e alguns muito poucos que tinham linha telefônica, própria ou alugada. Dos meninos da rua... que passavam o dia vagabundando e jogando bola. Dos jogos de bola de gude, das brincadeiras inocentes de “fruta”, “Boca de Forno”... e outras que tomavam lugar na calçada de casa quando anoitecia.  Da vizinha que morava na barreira na rua de trás de nossa casa e tinha 10 filhos. De tio João Batista e Vina, sua mulher. Das músicas de Amado Batista que enchiam o Córrego nos dias de domingo. Do pessoal que frequentava os hospitais psiquiátricos. Daqueles que foram assassinados por envolvimento com droga, roubo...
    Saímos por um tempo de nossa casa, que foi alugada e fomos morar de aluguel, um tempo em Abreu e Lima, e depois em Ouro Preto, Olinda. Nesse período morávamos todos juntos, meus pais, tios e avós. 
   
     Em 1978, obtive uma vaga no Colégio da Polícia Militar de Pernambuco, pouco tempo depois meu irmão também ingressou no Colégio.
   Voltamos para nossa velha casa, agora só nós, desta feita com um irmão mais novo.  Éramos cinco. Nossa casa era de taipa. As portas e janelas eram frágeis, e mais de uma vez fomos roubados à noite, por ladrões que destelhavam a casa ou conseguiam entrar forçando as janelas.
   Meu pai resolveu então construir nossa casa de alvenaria, ainda que para isso tivesse que se endividar muito. Ao longo de dez anos nossa casa foi lentamente... muito lentamente tomando forma. Servi de ajudante de pedreiro, muitas vezes. Peneirava a areia, carregava tijolo.
   Não tínhamos televisão, nem recursos para viajar e conhecer muitos lugares novos. Então eu descobri que se abrisse um livro eu podia viajar, conhecer, explorar... Fui me tornando aos poucos um leitor compulsivo, apaixonado. Este hábito se refletia nos destaques que fui acumulando ao longo dos anos no Colégio, e eu comecei a marcar época entre os meus colegas e professores.
    Nesse tempo aconteceu uma coisa curiosa: O BANDEPE - Banco do Estado de Pernambuco resolveu promover uma semana de aprendizado do mundo bancário, abrindo uma mini-agência no Colégio. Por dois anos seguidos eu fui escolhido para integrar a direção da mini-agência: no primeiro ano como Gerente, e no segundo como Coordenador.  Estas fotos são com a jornalista Lola e o Comandante do Colégio Coronel Ferraz, e a pose de gerente é com o Presidente do Bandepe. 

    No casamento de Ivson pude constatar o que é a passagem do tempo. As marcas do tempo em toda a parte... nas rugas de cada rosto, na flacidez da pele outrora firme, nos cabelos brancos que sobressaem quando não encobertos pela tinta escurecedora, no sobressalto ao se constatar que as crianças transformaram-se em moças e rapazes... na ausência dos avós que nos deixaram para estarem juntos no descanso eterno.  Houve um tempo em que eu coloquei o noivo nos braços e passeei com ele no Zoológico de Recife. Ele era um garotinho lourinho, e eu um jovem cheio de sonhos...
  

quinta-feira, 15 de março de 2012

Sobre subir em árvores, pobreza e choro

    Estou tendo a alegria de participar do 8º Congresso de Teologia Vida Nova. Estive ausente em algumas edições do evento, e senti imensamente. É importante para mim esse tempo...
    Sinto necessidade de, em algum momento, parar de correr na floresta, subir numa árvore e contemplar a imensidão lá de cima... Refletir sobre os caminhos percorridos, visualizar lá de cima os obstáculos que eu hei de enfrentar quando descer da árvore... enxergar que tipo de trilha estou conseguindo abrir no meio da floresta. Será um caminho tortuoso?  Às vezes o caminhante só se preocupa em abrir a trilha, não importa se ela seja tortuosa, cheia de equívocos... subir na árvore ajuda a corrigir algumas coisas. O Congresso é a árvore na qual me proponho a subir de tempos em tempos.
     Dr. Shedd tem ministrado as reflexões nos devocionais, pela manhã e à noite. Aos oitenta e dois anos, o velho missionário, fundador das Edições Vida Nova (que ora comemora seus 50 anos de existência), com sua sabedoria e calma característicos tem trazido aos corações dos congressistas mensagens do coração de Deus.
    O desafio da santidade, a partir das bem-aventuranças tem sido o tema das mensagens. O sermão do monte (Mateus 5) é vivificado e nos incomoda e constrange, em pleno século XXI  (Estive ano passado na Galiléia, e lá de cima do provável monte das bem-aventuradas, contemplei o Lago de Tiberíades, e as praias tão familiares ao Mestre). Alguns detalhes trazidos pela sensibilidade pastoral do Dr. Shedd são tão fortes que não permitem a ninguém ficar alheio à Palavra do Senhor.
   Bem-aventurados os pobres de espírito (Mt 5.3)...  pobre de espírito é alguém capaz de aceitar a avaliação que Deus faz de nós. E qual a avaliação que Deus faz de nós?
    Ele não precisa de nós, ele não depende de nós. Nós não somos indispensáveis para ele. Ele se utiliza de nós por sua misericórdia, ele nos escolhe por sua graça, ele nos alcança por seu amor. Nossa  justiça não passa de trapo de imundícia.  Nós é que necessitamos dele, carecemos dele. Em toda a nossa “importância”, nosso “saber”, nossa “espiritualidade”... somos nada, nossa sabedoria é loucura para Deus. Nosso saber é apenas aflição de espírito. Quando aceitamos essa avaliação feita pelo Senhor de nós mesmos... somos pobres de espírito. Carentes... necessitados...
    Bem-aventurados os que choram (Mt 5.4)...  não é o choro por uma dor, não é o choro de raiva, de indignação, é outro choro. É o choro do pesar pelo pecado, é o choro do coração contrito. São as lágrimas que devem ter escorrido das faces de Davi enquanto escrevia o Salmo 51, e registrava:  ó Deus, tu não desprezarás o coração quebrantado e arrependido” (v. 17).
    É a tristeza decorrente da ação do Espírito Santo, que ao convencer-nos do pecado, nos entristece. Nos entristece por termos transgredido, por termos entristecido nosso Senhor, amigo, Salvador, Pai...  É sobre isso que Paulo fala em II Co 5: “pois a tristeza segundo a vontade de Deus produz o arrependimento que conduz à salvação (v.8-11)”. É a contrição, o quebrantamento... quantos de nós não sabemos mais o que significa o quebrantamento? Talvez hoje outra coisa tenha tomado o lugar da contrição, do pesar, do choro, das lágrimas, da tristeza segundo a vontade de Deus...
      Não estaria a arrogância tomando o lugar do quebrantamento? A arrogância de um Saul, que encontra sempre uma desculpa para o pecado...  É muito mais fácil sermos arrogantes do que contritos...
     Mas nestes dias... em que homens são amantes de si mesmos, gananciosos, arrogantes, presunçosos, blasfemos... (II Tm 3.1-6) A voz do Senhor ecoa novamente, e lá de cima do monte nas longínquas terras da Galiléia nos diz: Bem-aventurados os que choram porque eles serão consolados!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A verdadeira prosperidade

                                          
“...para que o coração deles seja animado, estando vós unidos em amor e enriquecidos da plenitude do entendimento para o pleno conhecimento do mistério de Deus, Cristo, em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e da ciência. (Cl 2.2-3)”
   Quando alguém fala “o verdadeiro” alguma coisa, todo mundo se interessa para saber o que há de novo. O que há de novo na verdadeira prosperidade?
   É interessante como os significados e conceitos mudam ao longo do tempo. O conceito de prosperidade, por exemplo, tem sofrido grandes alterações ao longo da história. Para a sociedade capitalista do século XXI a idéia de um homem próspero é absolutamente diferente de um homem próspero da antiguidade. A sociedade muda e com ela mudam os conceitos, os valores.
    Numa rápida caminhada pela história bíblica poderemos iniciar com um homem próspero chamado Jó:  Era próspero pois tinha muito gado, estamos falando de uma época em que a riqueza vinha da pecuária, foi assim o período patriarcal no qual viveram Abraão, Isaque e Jacó, na maior parte das vezes não tinham terras fixas, eram nômades.. .
 
    Tempos depois, encontraremos um outro homem próspero, chamado Nabal, cuja descrição encontramo-la em I Sm 25.2. Este já não era nômade, ele tinha terras, fazendas, propriedades num local específico, o Carmelo, embora possuísse muito gado. O homem próspero já não é mais nômade, torna-se sedentário, tem terras, que também servirão para a agricultura.
   No livro de Ester vamos encontrar Hamã um político persa muito influente, se vangloriando de sua prosperidade, refletida nos seus muitos filhos, em sua riqueza e no seu status (5.11).

    Diferente dos persas, os gregos não habitavam um país com grandes extensões de terras. Além de serem poucas as terras gregas também eram muito montanhosas. Aos poucos os gregos desenvolveram uma nova noção diferente de prosperidade. Uma prosperidade sem muito gado, sem tantas terras...
    Na Grécia um cidadão próspero era um homem dotado de conhecimento, com trânsito nas artes e nas letras. Os homens de destaque da Grécia não eram homens de muitas posses materiais, Sócrates, Platão, Aristóteles, Arquimedes... foram homens do conhecimento. Foram gregos prósperos em sua sabedoria!

    Paulo evidenciou claramente isto quando escreveu em sua primeira carta aos irmãos de Corinto (uma cidade grega): “Os gregos buscam sabedoria” (I Co 1.22).  A sabedoria grega era um distintivo para a prosperidade dos homens, e marcou profundamente a história da humanidade e muito do que somos na civilização ocidental herdamos dos gregos.
    Quando o apóstolo Paulo dirigia-se aos gregos falando-lhes de Cristo, ele tinha plena consciência de que a mensagem da cruz lhes parecia absurda, loucura. Para tais cidadãos que prezavam o conhecimento e a razão acima de tudo, a idéia de um enviado divino que é crucificado para tirar o pecado dos homens lhes parecia por demais absurda. Homens prósperos em seu saber, em sua cultura, em sua arte... não abriam facilmente o seu coração à vontade do Deus das coisas impossíveis. Quando Paulo em Atenas falou aos filósofos do areópago acerca da ressurreição, eles imediatamente negaram-se a continuar escutando (At 17.32). Em sua prosperidade se achavam auto-suficientes. Em seus corações ricos de conhecimento não havia lugar para o homem da Galiléia que andou com o povo simples às margens do Lago de Tiberíades.
    Apesar de tudo, muitos gregos, não obstante sua prosperidade cultural, foram humildes o suficiente para “negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir Jesus”. Em Colossos, uma pequena cidade grega, na província romana da Ásia, um grupo de crentes se debatia com alguns que gostariam de fazer da fé, mera filosofia, e viviam às voltas com especulações de caráter religioso (conforme Colossenses 2.8).   
    O apóstolo Paulo então escreve a estes irmãos, para esclarecer-lhes acerca da verdadeira prosperidade. A verdadeira prosperidade não está nas ovelhas, camelos, juntas de bois e jumentas de Jó. A verdadeira prosperidade não está nas terras de Nabal no Carmelo, nem nos rebanhos de cabras e ovelhas que ele lá criava. A verdadeira prosperidade não está na grande descendência de Hamã, nem nas suas riquezas, nem em seu status de homem de confiança do Rei da Pérsia.
    A verdadeira prosperidade não está no muito conhecimento de filosofia, nem nas artes gregas, não obstante tudo isso seja importante, e o homem busque, ambicione, esforce-se por obter, nisto não está a verdadeira prosperidade.
        Quando Paulo escreve aos Irmãos da cidade de Colossos, ele próprio está numa delicada situação. Ele está preso, possivelmente em Roma, em companhia de Timóteo, Aristarco, Marcos, Lucas e outros irmãos. Curiosamente ele escreve aos irmãos acerca de prosperidade, de riquezas, de tesouros...
     O que um missionário, fazedor de tendas de profissão, e agora feito prisioneiro, teria a falar sobre prosperidade? Talvez ele não fosse a pessoa ideal para falar desse tema!
    Num mundo de trevas espirituais, no qual o entendimento de muitos foi cegado, permitindo que a prosperidade material e cultural bloqueasse o acesso da mensagem da salvação ao coração do homem, Paulo podia se alegrar com os irmãos de Colossos, e repetir a eles o que dissera aos irmãos de Corinto:
   “A palavra da cruz é insensatez para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos é o poder de Deus. (I Co 1.18)
    A revelação desta verdade, a iluminação divina da palavra da cruz, o entendimento dos propósitos de Deus, isto é a verdadeira prosperidade.  Algo que vai muito além da sabedoria humana dos gregos, ou de quaisquer bens e riquezas materiais deste mundo.
    Quando Pedro testemunhou ser Jesus o Cristo, o Filho do Deus Vivo. Jesus lhe disse: Bem aventurado és tu, Simão Barjonas, pois não foi carne nem sangue que to revelou, mas meu Pai que está nos céus.(Mt 16.15-17)
    Jesus estava dizendo: Pedro você acabou de experimentar a verdadeira prosperidade.  Depois que este glorioso entendimento é alcançado nossa alma percebe que teve acesso a um grande tesouro. Indagado certa vez se queria deixar de seguir a Jesus, Pedro disse: Senhor para onde iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus (Jo 6.67-69).

    É um mistério oculto a tantos, mas a nós foi-nos revelado. Que bênção, que riqueza, além das glórias terrenas. Paulo resume poeticamente, no primeiro capítulo de sua carta aos irmãos de Colossos a mensagem de Deus revelada:  “Ele nos tirou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, isto é, o perdão dos pecados... Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra... Ele é o mistério que esteve oculto durante séculos e gerações, mas que agora foi manifesto aos seus santos, a quem Deus, entre os gentios, quis dar a conhecer as riquezas da glória deste mistério, a saber, Cristo em vós a esperança da glória...”
    Foi a nós que ele se deu a conhecer, se manifestou. Por isso mesmo estando em cadeias, Paulo podia falar de riquezas, de tesouros, de prosperidade...
“...para que o coração deles seja animado, estando vós unidos em amor e enriquecidos da plenitude do entendimento para o pleno conhecimento do mistério de Deus, Cristo, em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.” 2.2-3
    Falar de prosperidade é falar de riquezas, as riquezas da glória,  a plenitude do entendimento para o pleno conhecimento do mistério de Deus, Cristo, isto é a verdadeira prosperidade!
    E esta prosperidade não desaparece, não se vai com as crises econômicas, ou com o mau humor de alguém. E para você que ainda não usufrui desta prosperidade, tenho-lhe um conselho: Torne-se um pobre de espírito... entenda-se carente das riquezas de Deus, necessitado da graça e misericórdia do Senhor. Os pobres de espírito são bem aventurados, pois deles é o reino dos céus.
    Para você que já goza da verdadeira prosperidade, o entendimento do mistério de Deus, Cristo, seja fiel e guarde o que tens para que ninguém tome a tua coroa!