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sábado, 23 de março de 2019

Nem tudo o que é belo, é bom!


   Quando o mundo foi criado Deus viu que tudo era bom, no original hebraico towb  טוֹב. Essa bondade da criação inclui também o belo, essa palavra pode significar bom e belo!


   A árvore proibida é a árvore do conhecimento do bem, do towb, contrário do mal. Towb é o que é correto, certo, moral e eticamente. Ester e Abigail são bonitas, são towb. Estética, Ética e moral caminham num mesmo sentido, no pensamento hebraico bíblico.

   No Israel Antigo algo errado não poderia ser bonito. O que é bom é bonito! Assim, o caso de amor de Davi com a bonita (towb) Bate Seba, não é algo a ser apreciado e aplaudido, por mais bonito casal que os dois pudessem formar. Isso é mal, é feio (II Sm 12.9).

   Hoje, parece-nos que tudo o que é bonito, torna-se também sinônimo de bom, de certo. Há beleza em filmes, em poesias, em discursos, mas nem sempre isso é bom! Isso ocorre porque quem determina o que está certo, o que é bom é cada pessoa de forma arbitrária.
   Somos conquistados pela beleza estética de obras de arte que nos passam mensagens erradas. Porque são bonitas, são boas... Nem sempre! É importante utilizarmos os referenciais bíblicos para discernirmos o que é bom. Na verdade, precisamos voltar aos princípios bíblicos, onde somente o que é bom, é belo. Se parece belo, mas não é bom, então é mal, como o adultério de Davi.

   Acho que foi pensando nisso que Paulo, sabendo que na sociedade grega de Filipos, nem tudo o que era belo era bom, nos disse: “Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Fp 4.8).

domingo, 6 de março de 2016

Conheça aquele que não é obrigado a nada... e seja alguém que não é obrigado a nada...

  Estou finalizando agora essa conversa sobre “não sou obrigado a nada”. Ficou claro que o bordão “não sou obrigado a nada” é infantil, bobo. Portanto, não o repita porque todo o mundo está falando. Nas relações entre os homens seremos sempre obrigados a alguma coisa, mesmo contra a nossa vontade.
   Mas há outras relações onde essa obrigatoriedade não é observada. Falo em primeiro lugar da relação de Deus com o homem, depois falo da relação do homem com Deus.
    Começando no livro dos princípios, o Gênesis, vamos encontrar o que teologicamente chamamos de Queda. Embora criado à imagem de Deus para o louvor e glória do Criador, o homem desobedece e seu pecado essa imagem do Criador, afasta o homem de Deus, e cria desordem no mundo físico e espiritual. Isto é a Queda.
    Deus poderia ter deixado de lado o homem desobediente e caído. Mas  não o faz. O busca na viração da tarde, providencia-lhe vestimenta, e registra a promessa de redenção, no protoevangelho de Gn 3.15. Ele não era obrigado a nada, mas o fez!
  Tempos depois diante de uma humanidade pervertida e iníqua, Deus provê salvação através da arca para Noé e sua família, e a história do homem recomeça... Deus não era obrigado a nada, mas o fez!
  Deus se revela a um mesopotâmio da cidade de Ur, chamado Abrão. No meio de uma sociedade caldéia que adorava a lua, e construía templos em formas de pirâmides, conhecidos como zigurates, Deus escolhe Abrão e lhe faz promessas.
  Uma aliança, cuja celebração tem como modelo os rituais de suserania e vassalagem da época, é firmada entre Deus e Abraão (Gn 15.1-19). Deus firma a aliança e faz promessas a Abraão. Ele não era obrigado a nada, mas o fez!
    Da descendência de Abraão surge o povo de Israel. Escravizado no Egito, é milagrosamente tirado de lá através da ação sobrenatural de Deus. Peregrinando no deserto, é tempo de pensar: Por que nós? Por que fomos escolhidos?
    Moisés responde e esclarece ao povo esta questão. Não é porque Ele fosse obrigado a alguma coisa. Mas Moisés afirma: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava e,  para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus mandamentos.” Dt 7.7-9

      Foi iniciativa divina firmar a aliança com Abraão, e Ele cumpriu integralmente a aliança, por AMOR. O amor é a resposta para entender a ação de um Deus que não é obrigado a nada, mas o faz!
   O povo de Israel se mostra desobediente, arredio, rebelde. Se Deus fosse homem, a nação seria totalmente extinta, mas ele é Deus, e não homem. Ele não era obrigado a tolerar as infidelidades sem fim de Israel. Mas Ele o faz, não porque é obrigado a nada. Vejamos as próprias palavras do Senhor (Os 11.1-9):
Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho.
Mas, como os chamavam, assim se iam da sua face; sacrificavam a baalins, e queimavam incenso às imagens de escultura.
Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomando-os pelos seus braços, mas não entenderam que eu os curava.
Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor, e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e lhes dei mantimento.
Não voltará para a terra do Egito, mas a Assíria será seu rei; porque recusam converter-se.
E cairá a espada sobre as suas cidades, e consumirá os seus ramos, e os devorará, por causa dos seus próprios conselhos.
Porque o meu povo é inclinado a desviar-se de mim; ainda que chamam ao Altíssimo, nenhum deles o exalta.
Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Te poria como Zeboim? Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem.
Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade.
     O amor é a grande explicação da forma como Deus age. Talvez o bordão bobo circulante pudesse ser aqui utilizado para falar de um conceito teológico muito caro para o mundo cristão: o conceito de graça. Graça significa a atitude de um Deus que não é obrigado a nada, mesmo assim nos alcança em seu inexplicável amor.

    Os escritos joaninos vão enfocar esse amor de forma clara e bela: Porque Deus amou o mundo de tal maneira que DEU o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). Ele  não era obrigado a enviar o seu Filho para salvar a humanidade, mas o fez por AMOR.

   Esta ação da graça de Deus, que não trabalha com a ideia de obrigação, e sim de amor, nos confronta a um posicionamento. Ainda nos escritos joaninos encontraremos: Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro. (I Jo 4.19)
    Um Deus que não é obrigado a nada, mas tudo faz por amor, cria no coração do recebedor de sua graça uma dívida de amor. E então, passamos amá-lo, a obedecê-lo, a segui-lo. Não porque somos obrigados a nada, mas porque Ele nos amou primeiro.

     Talvez devêssemos concluir esta reflexão com as palavras de Paulo, em II Co 5.13-21. Não precisa acrescentar mais nada. Apenas podemos concluir, que em nossa relação com Deus, também não somos obrigados a nada. Mas tudo o que fazemos provém da reconciliação em amor e graça que Ele nos outorgou. E este amor nos constrange. Assim, em nossa relação com Ele, não somos obrigados a nada, caso contrário nos tornaríamos apenas religiosos e cumpridores de normas e regras. Mas o amor de Cristo nos constrange a sermos nova criatura, a sermos embaixadores do ministério da reconciliação:

“Pois, se enlouquecemos, é por amor a Deus; se conservamos o juízo, é porque vos amamos. Porquanto o amor de Cristo nos constrange, porque estamos plenamente convencidos de que Um morreu por todos; logo, todos morreram. E Ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou.
Assim, de agora em diante, a ninguém mais consideramos do ponto de vista meramente humano. Ainda que outrora tivéssemos considerado a Cristo assim, agora, contudo, já não o conhecemos mais desse modo. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas antigas já passaram, eis que tudo se fez novo! Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por intermédio de Cristo e nos outorgou o ministério da reconciliação. Pois Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta as transgressões dos seres humanos, e nos encarregou da mensagem da reconciliação.

Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus vos encorajasse por nosso intermédio. Assim, vos suplicamos em nome de Cristo que vos reconcilieis com Deus. Deus fez daquele que não tinha pecado algum a oferta por todos os nossos pecados, a fim de que nele nos tornássemos justiça de Deus.”

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Sola Scriptura versus Pentecostalismo Popular

    Antes de qualquer coisa quero afirmar que sou pentecostal. Filho e neto de pentecostais, portanto, pentecostal de pentecostais. Falo em línguas, expulso demônios, oro pela cura de enfermos, creio em profecias, enfim, acredito na atualidade dos dons espirituais.
    Falo portanto, de dentro de uma igreja pentecostal histórica, da qual sou ministro. Acho que esta apresentação breve é suficiente, para afastar ideias equivocadas que possam chegar à cabeça do meu leitor.
    Ando pensando muito nesses últimos dias sobre um fenômeno que eu mesmo estou denominando de pentecostalismo popular.  Vou  até patentear essa expressão.  Por favor quem utilizá-la doravante cite a fonte(!). Lógico não estou sendo original.  Também não é um plágio. Explico:
    Busco essa ideia dos teólogos e estudiosos católicos. Eles cunharam a expressão catolicismo popular. O catolicismo popular é resultado das expressões religiosas do povo que embora almejando identificar-se com a fé católica institucional, no caso brasileiro, sofre de graves carências teológicas e pastorais. Nele são evidentes ranços de superstição, magia, ritualismo, arcaísmo; à pessoa de Jesus Cristo nem sempre se atribui o lugar que lhe cabe, como centro da fé cristã... (A Evangelização no Brasil, Dimensões Teológicas e Desafios Pastorais, Antônio Alves de Melo, Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, 1996, pág.235-238).
      Trazendo esse mesmo conceito  para um universo evangélico pentecostal, posso afirmar sem medo de errar que estamos diante de situações muito parecidas com as que ocorrem no  mundo católico. E aqui não se trata de pentecostalismo histórico e neo-pentecostalismo. Trata-se de um fenômeno relativamente novo, que envolve o pentecostalismo brasileiro, proponho portanto que o chamemos de pentecostalismo popular.
    O mundo protestante e evangélico como um todo sempre foi muito mais impermeável às expressões populares livres, do que o mundo católico, por três motivos: Em primeiro lugar pela sua ênfase nas Escrituras, uma herança do “Sola Scriptura” da Reforma, o que evitou muitos desvios e disparates, pois havia a ênfase no direcionamento Escriturístico, mesmo tratando-se de líderes leigos; em segundo lugar, por não constituir uma massa tão grande de pessoas, cuja participação no meio se dava por conversão, normalmente genuína, e não por adesão como ora, muitas vezes se vê; e em último lugar, por ainda não haver o domínio do mercado evangélico por empresas com grande voracidade pelo lucro, e com pouco ou nenhum compromisso com a herança do “Sola Scriptura”.
   
     Mas agora... o universo evangélico se tornou um mercado interessante, as Escrituras estão sendo substituídas pelos jargões pragmáticos e frases de efeito... é um tempo em que as expressões da religiosidade popular começam a tomar conta das mentes e competir, ou às vezes substituir,  as expressões institucionais da fé, e tendo em vista as facilidades da comunicação, espalham-se muito rapidamente e tomam os púlpitos e as assistências das igrejas.
      Trago alguns poucos exemplos, mas que nos dão uma noção bem clara do que estamos falando.  Consultei no Google algumas expressões desse pentecostalismo popular, e vejam o que encontrei:
·         Sapato de fogo    (Aproximadamente 534.000 resultados);
·         Divisa de Fogo  (Aproximadamente 517.000 resultados) e
·         Varão de Fogo (Aproximadamente 388.000 resultados).
     Em primeiro lugar surpreende um tão grande número de hinos, discussões, apresentações, questionamentos, defesas,  argumentações sobre expressões apócrifas, inexistentes no contexto bíblico e na doutrina cristã tradicional.  Sinceramente me esforcei para lembrar se no meu tempo de Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, estudando com o venerável mestre canadense Thomas W. Fodor, velho missionário pentecostal, em algum momento falamos dessas expressões ditas “pentecostais”. Não consigo me lembrar de nada parecido!
    Andei  folheando a bíblia, até em versões pentecostais, e não me foi oferecida alternativa para tais expressões. Só tem uma explicação: estamos diante de um fenômeno, o pentecostalismo popular.
    Olhei mais detidamente (no Google) e percebi que um irmão canta o hino “Sapato de fogo”, e numa das estrofes ele diz:
Eu calcei sapato de fogo, não posso me controlar!
É que o varão do movimento chegou pra movimentar!
   Sinceramente me esforcei para encontrar pelo menos uma distante analogia bíblica que me permitisse explicar o dito “sapato de fogo”, não consegui. Não tenho dúvida que alguém vai orar por mim para que os meus olhos espirituais sejam abertos, como os do moço de Eliseu (II Rs 6.17). Mas se os meus olhos forem abertos verei cavalos e carros de fogo! Exceto se os cavalos estiverem calçados com sapatos de fogo!!! E isso não posso inferir do texto!




    Um outro campeão de registros é “Divisa de Fogo”. Parece-me que um grupo denominado Fogo no Pé, tem os direitos autorais dessa canção. Imagino que estejam todos vinculados, porque quem tem Fogo no Pé, é porque calçou Sapato de Fogo!!
 Deus de fogo, Deus de fogo
Que abriu o Mar Vermelho
Deus de fogo, Deus de fogo
Que não deixa ninguém tocar
Num fio do teu cabelo
Deus de fogo, Deus de fogo
Que te chama pelo nome
Eu nunca vi, o justo mendigar um pão
Nem sua descendência passar fome

Divisa de fogo
Varão de guerra
Ele desceu na Terra
Ele chegou pra guerrear

      Ainda estou tentando entender o nexo semântico da expressão “Divisa de Fogo”. Cheguei à conclusão que no pentecostalismo popular não é necessário a busca de sentido e nexo das coisas. Desisti de entender. É a expressão em si, Divisa de Fogo, que na verdade não quer dizer nada, mas quer apenas incendiar  a imaginação de quem canta. Uma espécie de isqueiro espiritual.
      Cumpre-nos ainda comentar sobre o “Varão de Fogo”. Uma irmã canta esse hino, que vale a pena reproduzir, pelo menos um trecho:
Varão de fogo, varão de guerra,
Sinta o toque desses anjos que acabam de chegar
Olha ai quem vem chegando e tem fogo em suas mãos
E com ele vem marchando um exército de anjos,
Eles cantam santo, santo, santo é o SENHOR!

Sinta o toque desses anjos que acabam de chegar
Muitos anjos estão marchando em meio a multidão,
Canta agora no espirito e profetiza meu irmão,
A bandeira da vitória o anjo traz em suas mãos.
     Alguns encontram a base bíblica para um varão de fogo em Dn 3.25,o Quarto Homem da Fornalha de Fogo Ardente. Mas a característica desse homem, segundo Nabucudonozor é que Ele é semelhante ao filho dos deuses. Não precisa estar de posse de um comentário bíblico para se intuir que semelhante ao filho dos deuses não quer dizer Varão de Fogo. Seria forçar demais o significado do texto em sua simplicidade.
    Se a canção quer reproduzir alguma coisa da Visão de Isaías, no capítulo 6, estamos de uma salada mais maluca do mundo, e mais uma vez nem dá para caminhar nas comparações porque a minha capacidade intelectual é muito restrita para forçar a barra nos textos sagrados.
   Citar-me-ão Hebreus 12.29: “Porque o nosso Deus é um fogo consumidor”. Trata-se de uma metáfora, Deus como inspirador de santo temor.
    Vou parar por aqui. Não vejo problema que o pentecostalismo se vincule ao símbolo do fogo pela ênfase na ação do Espírito Santo, que desde Zacarias (cap 4) é simbolizado no azeite e no fogo. O problema está na exacerbação da temática “fogo”. E isto sim, é uma manifestação de um pentecostalismo popular.
     Para quem lê o texto bíblico, encontraremos, em qualquer versão utilizada algo muito próximo disso:
   - E foram vistas por eles línguas repartidas como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles (At 2.3);
- E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os olhos, como chamas de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivesse sido refinado numa fornalha... (Ap 1.14-15)
    Comparações, símiles, são figuras de linguagem, não devem ser entendidas em sua literalidade.  Cheguei a duas explicações plausíveis acerca do aparecimento e crescimento do pentecostalismo popular,  o primeiro é de natureza intelectual, e o segundo de natureza econômica:
a)       Os especialistas em desenvolvimento infantil e educação tem pesquisado exaustivamente acerca de dificuldades com a linguagem figurada, e o pensamento de forma concreta, presente em crianças e até adultos com determinados problemas de desenvolvimento. Eles interpretam toda a  linguagem literalmente, se disser que algo é “moleza” ele vai entender que há algum objeto mole ali, quando o que se quis dizer foi que  “aquilo será uma coisa fácil de fazer”. Quando se diz que “está chovendo canivetes”, ele acredita que canivetes possam cair do céu. Figuras de linguagem, metáforas, comparações não são compreensíveis. Quando se fala em fogo, o infante espiritual concretiza seu raciocínio nas chamas, e ainda agrega acessórios como sapatos de fogo;
b)      Infelizmente se explica muita coisa pela lógica de mercado. Alguma coisa vende? Vai ter lucros? Não importa se vão ser “500° de Puro Fogo Santo e Poder” (só não sei se utilizo a escala em Celsius ou em Fahrenheit, isto não ficou claro na proposta),  se intitulamos “Varão de Fogo”, “Sapato de Fogo” ou “Divisa de Fogo”. O que importa é que vende, e que o cantor vai ser contratado a peso de ouro, nos eventos pentecostais pelo Brasil inteiro.


       Não queria ser engraçado, nem sarcástico, reconheço que fui irônico, mas com objetivo didático. Não estou com vontade de rir. Estou com vontade de chorar. Chorar muito.  Isso quer dizer que precisamos erguer, não a “Divisa de Fogo”, mas a Divisa reformada do “Sola Scriptura”. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

Epichoregein, entendendo o nosso papel na Economia da Salvação


Em tempos de discussões acaloradas sobre posições soteriológicas, que fazem a festa dos seminaristas ávidos por uma boa causa, e dividem grupos anteriormente unidos tornando-os de repente combatendo em campos distintos, sem saber exatamente qual o motivo da beligerância e qual o inimigo a combater, trago do início da história da Igreja uma palavra da Segunda Epístola de Pedro, que definitivamente não conhecia de grego como nossos teólogos e exegetas modernos conhecem. Pelo menos a primeira carta ditada por Pedro foi escrita por Silvano (I Pe 5.12), a segunda não sabemos. Pelo estilo definitivamente não foi o mesmo copista.
                                           (Pedro na prisão, Rembrandt, Israel Museum)

      Epichoregein é traduzido pela ordem “associai”, em II Pe 1.5: “vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, associai à vossa fé a virtude, e à virtude, a ciência... ”  Para entendermos o que Pedro quer nos ensinar precisamos iniciar lendo o texto a partir do versículo 3:
“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude,
Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo,
E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, associais à vossa fé a virtude, e à virtude, a ciência...”
     Permita-nos continuar no versículo 10:
“Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis.
Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.”
     Não é necessário fazer nenhum tipo de malabarismo semântico ou hermenêutico para entender que a eleição falada no versículo 10 está descrita cuidadosamente no versículo 3: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude”. Eis um conceito simples e direto do que seja eleição. Ele nos chamou e nos deu tudo o necessário para a salvação. Não acho que Eleição seja uma palavra perigosa, ou que deva ser evitada, afinal é utilizada claramente no texto bíblico, obviamente em sintonia com os escritos paulinos de Romanos 9, Efésios 1, e outros.
      Para esclarecer melhor o termo, utilizo um trecho (pag. 53) do livro de D.A.Carson “A Difícil Doutrina do Amor de Deus” (2012), editado pela Casa Publicadora da minha denominação, com aprovação pelo Conselho de Doutrina:
 A soberania de Deus se estende à eleição. A eleição pode se referir à escolha de Deus da nação de Israel, ou à sua escolha do povo de Israel ou à escolha dos indivíduos. A escolha de Deus dos indivíduos pode ser para uma missão específica. A eleição é tão importante para Deus que ele preferiu escolher o mais jovens dos dois irmãos, Jacó e Esaú, antes deles nascerem e, portanto, antes que um deles tivesse feito algo de bom ou de ruim, “para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme” (Rm 9.11).
Até mesmo as maneiras altamente diversas pelas quais os novos convertidos são descritos no livro de Atos, refletem o modo confortável e desembaraçado pelo qual os escritores do Novo Testamento se referem à eleição. Frequentemente falamos sobre pessoas que “aceitam a Jesus como seu Salvador pessoal” palavras não encontradas nas Escrituras, embora não seja necessariamente errada como uma expressão sintética. Mas o livro de Atos pode sintetizar algum evangelismo estratégico relatando que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (At 13.48). Escrevendo sobre os cristãos, Paulo diz que Deus “nos elegeu nEle [isto é, em Cristo] antes da fundação do mundo... [Ele] nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo”(Ef 1.4,5; cf. Ap 13.7,8; 17.8). Certamente, Deus escolheu os convertidos tessalonicenses desde o princípio para serem salvos (II Ts 2.13).
     Parece-nos claro que Pedro falava que os irmãos para os quais ele destinara a carta foram eleitos. E não apenas foram eleitos, mas receberam uma vocação, descrita nas “grandíssimas e preciosas promessas, para que por ela fiqueis participantes da natureza divina”. A eleição tem por finalidade a vocação. Vocação de ser participante da natureza divina. Parece-nos familiar com o “Cristo que vive em mim paulino” (Gl 2.20).
     Na Economia da Salvação, Pedro está esclarecendo o que Deus faz. Praticamente tudo! Aliás é esta palavra usada pelo autor: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida...”  Elege, vocaciona, concede promessas, torna-nos participantes da natureza divina.
     Pedro então se volta para os eleitos: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e a virtude, a ciência...” Eis a parte que nos cabe neste latifúndio (no dizer de um poeta, meu conterrâneo). Algo se espera de nós, e não de forma desleixada, mas com toda a diligência: Epichoregein (Acrescentai).
     Os estudiosos fazem questão de que esclarecimentos sejam feitos a esta palavra estranha. É uma palavra que tem uma história interessante, e remonta aos tempos de Atenas. O estudioso britânico do Novo Testamento William Barclay nos esclarece no seu livro “The Promise of the Spirit” (pág. 59), que uma das maiores de todas as glórias da antiga Atenas era a apresentação das peças produzidas por grandes escritores como Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e Eurípedes. Para a montagem de tais peças altos custos eram envolvidos: os figurinos, as maquiagens, os ensaios de coral, que envolviam até cinquenta pessoas. A disponibilização para patrocinar o evento era chamada de choregia. O voluntário que se disponibilizava a ajudar era o choregos. Epichoregein, portanto era uma ação de generosidade realizada conjuntamente, entre os atores, diretores da peça, o Estado e os patrocinadores. Uma busca de suprir o necessário para a realização de algo.

        Paulo utiliza esta expressão em suas epístolas, normalmente relacionando Deus como o choregos: Em Gl 3.5 “Ele nos concede (epichoregon) o Espírito, (do verbo epichoregein)”; Em Fp 1.19 temos o “socorro (epichoregias) do Espírito de Jesus Cristo, (do substantivo epichoregia)”; Em II Co 9.10 “Aquele que dá (epichoregon) a semente”...
    Epichoregein é algo necessário a ser acrescentado, suprido. Pedro diz que Deus nos deu tudo, mas é necessário que atuemos em cooperação com ele, em epichoregein. Nossa parte não pode ser terceirizada ou esquecida.   E qual é a nossa parte?
     Acrescentar, suprir, adicionar, epichoregein à fé a virtude, à virtude a ciência... e assim continua a lista petrina. A fé já nos foi dada junto ao tudo que nos foi suprido, isto está bem de acordo com Paulo em Ef 2.8  “Porque pela graça sois salvos por meio da fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus”. Mas precisamos com toda a diligência acrescentar à fé a virtude, e à virtude a ciência... É o momento de agirmos como choregos, é a hora de fazermos a choregia. Epichoregein é a ação do cristão na Economia da Salvação. É a pequena parte que nos cabe, pequena mas muito importante.
     Se assim o fizermos estaremos firmando a nossa vocação e eleição (II Pe 1.10). A Epichoregein confirma nossa eleição. Fica claro que se diligentemente não fizermos nossa parte, isto é, Epichoregein, a eleição não se confirma. Michael Green sabiamente ressalta: “Nossa vida radiante deve ser a prova silenciosa da eleição divina” (II Pedro e Judas, Introdução e Comentário, Vida Nova, pág. 71). Quem sabe se aqui, Pedro não está esclarecendo uma passagem paulina não tão fácil de entendimento quanto “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor...” (Fp 2.12)?

      Curiosamente, o escritor sagrado usa novamente a mesma palavra no versículo seguinte (1.11): “Porque assim vos será generosamente concedida (Epichoregethesetai) a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” Quando diligentemente nos empenhamos em nosso Epichoregein, Ele  generosamente nos concede (Epichoregethesetai) a entrada no reino celeste!
      O capítulo 2 de II Pedro, traz exemplos de pessoas que foram resgatadas mas não fizeram sua parte, Epichoregein, não confirmaram sua eleição e vocação, ou nas palavras de Paulo, não desenvolveram sua salvação. Estes negarão ao Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição (2.1). Durante todo o capítulo Pedro vai falar sobre a situação destes agora falsos doutores, os quais anteriormente haviam sido resgatados pelo Senhor (2.1), haviam escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor (2.20). Aqui vale uma ressalva. Este conhecimento do Senhor (epignosei tou Kyriou) encontrado aqui, é a mesma expressão encontrada no cap. 1.3 “o conhecimento daquele que nos chamou...” (epignoseos tou kalesantos). Epignosis é um substantivo composto, diferente do simples gnosis, utilizado para conhecimento. Os especialistas concluem que epignosis é um conhecimento maior e mais eficiente do que gnosis. Estamos falando de um conhecimento mais profundo da Pessoa de Jesus!
     Concluímos portanto que, pessoas que receberam tudo, pelo divino poder e pela epignosis (conhecimento profundo) do Senhor, chamadas pela glória e virtude do Senhor, recipientes de suas promessas,  que escaparam da corrupção do mundo (II Pe 1.3-4), mas que não atentaram para Epichoregein (para acrescentar à fé a virtude, e à virtude, a ciência, e à ciência, a temperança, a paciência, e à paciência, a piedade, e à piedade, a fraternidade, e à fraternidade, o amor...II Pe 1.5-7) Enfim, não buscaram fazer firme a sua vocação e eleição (1.10)  [parece-nos que eles haviam sido eleitos!?]; O fim destes foi o envolvimento na corrupção do mundo, e seu estado foi pior do que o primeiro (2.20). Mais uma vez Pedro utiliza o termo epignousin (conhecimento profundo do Senhor) para sentenciar: “Porque melhor lhes fora não conhecerem (epignousin) o caminho da justiça do que, conhecendo-o, desviaram-se do santo mandamento que lhes fora dado” (2.21). Estamos falando de gente que de fato conhecia o Senhor, e que por não ter feito sua parte, Epichoregein, desviaram-se do santo mandamento.


    Posso ouvir Paulo dizendo a mesma coisa de outra forma: Aquele que está em pé, olhe não caia (I Co 10.12)... Não é somente uma hipótese, é uma possibilidade real! Está acontecendo hoje! Basta olhar ao redor... Que triste. Portanto, nos empenhemos na nossa Epichoregein!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Cargos e Funções X Títulos, ou entre Pastores e Barões

  Eu me lembro quando era garoto do subúrbio de Recife, lá no Córrego da Jaqueira... éramos pobres, mas tinha gente perto de nós que era muito mais pobre ainda... porém os livros me permitiam adentrar outro mundo... o da nobreza européia! Muito cedo eu conheci o Salão dos Espelhos, do Palácio de Versailles,  e fui me familiarizando com os Lordes britânicos, os condes franceses, os arquiduques da Áustria... Ah e eu sonhava com a corte, com a nobreza!
   Logo, logo eu sabia a hierarquia dos títulos de nobreza:  Barões, Viscondes, Condes, Marqueses, Duques...  Muito lindo tudo aquilo! E em meus sonhos, eu ficava pensando que um título de nobreza me cairia bem... um dia descobri no Museu do Estado um quadro com a imagem do Barão de Beberibe, que era o bairro onde morávamos! Eu ficaria bem recebendo uma honraria do tipo!
    Títulos eram outorgados pelos reis aos súditos que lhe agradavam e que com a honraria tornavam-se nobres, distintos dos demais. Lembrava-se da amante de D. Pedro I, Dona Domitila de Castro Canto e Melo, que recebeu o título de Marquesa de Santos. Militares recebiam títulos por suas façanhas no Campo de Batalha, como o nosso Duque de Caxias, o Duque de Wellington, que derrotou Napoleão.

    Na minha cabeça de garoto ingênuo eu olhava para a igreja onde me congregava e ficava outorgando títulos de nobreza aos irmãos... Eu e outros rapazes éramos os condes, alguns líderes seriam os duques...e por aí vai.
     O tempo passou... e eu tive oportunidade de entrar, de verdade, no Salão de Espelhos do Palácio de Versailles, e também em vários outros lugares que antes eram reservados unicamente à nobreza, e que um plebeu como eu nunca chegaria perto, se não houvessem sido transformados em museus... foi assim que eu pude conhecer o Schombrunn, a casa dos Habsburgs d’Áustria, o Palácio do Louvre, o  domicílio dos Valois da França...
   E agora, já um tanto crescido... vejo minhas imaginações de criança tornando-se realidade no mundo eclesiástico!  Há uma corrida por títulos sem precedentes... Todo tempo se ouve que alguém foi ungido apóstolo, ou bispa... ser pastor já não é mais suficiente! É preciso mais...

    É como se um simples título de Visconde fosse pouco (me lembrei de Monteiro Lobato, e o seu nobre Visconde de Sabugosa...) seria preciso  algo mais nobre... como um Marquês (ah...  marcantes lembranças da literatura: veio-me à memória o Marquês de Carabás, o título outorgado pelo Gato de Botas ao seu amo! E no Sítio também tinha o Marquês de Rabicó). Não basta ser pastor, isto é muito comum, é preciso ser intitulado bispo, de repente, bispo é pouco, ascende-se ao apostolado.
Mas esse sonho pela nobreza eclesiástica não paira unicamente na cabeça dos Príncipes da Fé. Entre a plebe espalha-se o desejo por títulos. Membros de igreja sonham  com o Diaconato, Diáconos sonham com o Presbitério, Presbíteros sonham  em ser Ministros... E assim caminha o mundo eclesiástico em seu devaneio pela nobreza... do mesmo jeito que eu imaginava quando era garoto: barões, viscondes, condes, marqueses e duques!
       Em minha necessidade de entender o mundo ao meu redor, voltei-me para a bíblia, tentando compreender  se as designações eclesiásticas de fato dizem respeito a títulos...
   Nos tempos vetero-testamentários encontraremos  sacerdotes, sumo-sacerdotes, videntes, profetas...  Percebo, porém, que não se tratava de um título de honra, embora um profeta ou sacerdote fosse tratado com honraria e distinção (I Sm 16.4) mas sim uma função, um encargo, uma missão, como o próprio Deus disse a Jeremias: Te designei como profeta às nações (Jr 1.5), ou a Amós: Vai profetiza ao meu povo, Israel (Am 7.15).
    Isso não quer dizer que não havia graves deturpações, como os profetas reais, pagos pelo rei para fazer uso da palavra divina (I Rs 22.6). Talvez para estes, muito mais que uma função, profeta significava um título de nobreza, que lhes permitia viver regaladamente do palácio. Bem que poderíamos chamá-los dos Barões do Israel Antigo, preocupados apenas em conservar seu status quo.
    E o que dizer dos sacerdotes? Tendo recebido o encargo de sacrificar e serem mediadores entre o povo e Deus, alguns também perderam totalmente a noção de sua missão e encargo divino. Como os filhos de Eli, que aproveitavam-se de sua nobre posição para se deitarem com as mulheres que serviam à porta do tabernáculo (I Sm 2.22), sem falar em outros desmandos (I Sm 2.13-14). Viam-se a si mesmos como os nobres condes da Religião de Israel.
   No tempo de Jesus a classe judaica dirigente, parceira do Império Romano era a elite sacerdotal do partido dos saduceus. De fato, naquela época o sacerdócio estava bem longe de ser encarado como missão, encargo ou função. Era título de nobreza obtido às custas de favores na relação política com os romanos. O sumo sacerdócio era fruto de negociações, e a preocupação era em buscar a manutenção do lugar conquistado (Jo 11.47-49). Eram os duques e arquiduques da Corte de Jerusalém.  Dá pra entender claramente a indignação de Jesus com tal situação. Advertências claras foram feitas contra os falsos profetas (Mt 7.15-23).
   Naquele ambiente onde funções haviam sido transformadas em títulos, e esvaziadas de seu significado original, João Batista e Jesus recusam-se a serem chamados de Profeta (Jo 1.21), embora de fato, o fossem.  Indagado acerca de sua identidade, João Batista afirma: “Eu sou a voz do que clama no deserto” (Jo 1.23), e Jesus aceitou ficar conhecido apenas como “Mestre” (Jo 13.13).
   Já era tempo de ser redescoberto o ofício profético e sacerdotal, totalmente esquecidos na vaidade louca dos títulos negociados e ostentados com orgulho por toda sorte de pessoas. Era necessária a vinda de um profeta semelhante a Moisés (Dt 18.18)! Jesus era o Mestre e seus seguidores apenas discípulos. O mestre não estimulou a competição entre os aprendizes, nem iniciou nenhum ensaio de distribuição de títulos que os fizessem sentir uns melhores do que outros. Embora essa fosse, em algum momento, a proposta dos discípulos. Eles pensavam em inaugurar uma pequena corte em torno do Rei-Messias: Tiago e João candidataram-se a Arquiduques do Império de Jesus. Grande decepção. Diante da proposta de que lhes fossem dados títulos de destaque no seu Reino, Jesus lhes disse:
     “Sabeis que os que são reconhecidos como governantes dos gentios têm domínio sobre eles, e os seus poderosos exercem autoridade sobre eles. Mas entre vós não será assim. Antes quem entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos servirá; e quem entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a vida em resgate de muitos.” (Mc 10.35-45) 
   Talvez este tenha sido o maior balde de água fria da história!! E aquela bacia fez-lhes ver o mundo de outra forma. Entre os discípulos não deve haver busca de destaque ou competição, apenas todos servindo uns aos outros.
    A igreja inicia-se com os doze assumindo a função de apóstolos, agregando-se depois a figura dos diáconos, que parece-nos um pleonasmo, afinal ser cristão já pressupõe o servir. Depois Barnabé e Saulo recebem a incumbência do encargo da missionário (At 13.2). Não recebem um título, uma honraria para se destacarem dos demais... recebem um fardo, uma missão árdua, que Paulo encara da seguinte forma:
   “Mas em nada considero a minha vida preciosa para mim mesmo, contanto que eu complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.” (At 20.24)
   Fica muito claro que há uma continuidade dos encargos confiados aos homens da Velha Aliança, no Israel Antigo, como Jeremias, para os chamados da Nova Aliança:
  “E ele designou uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e ainda outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos para a obra do ministério e para a edificação do corpo de Cristo...” (Ef 4.11-12)
   Fica difícil pensar nas funções de pastores, apóstolos, evangelistas, mestres como títulos de nobreza, como prêmios por serviços prestados, como forma de reconhecer o trabalho de alguém, como uma maneira de destacar alguém frente aos demais. Estamos falando de fardos pesados, encargos difíceis de carregar...
     O que dizer das palavras de Paulo: Se alguém almeja ser bispo, deseja algo excelente! (I Tm 3.1)??
    Vou pedir auxílio ao Bispo de Hipona, Agostinho para nos ajudar no entendimento dessa passagem:
    “Sua intenção era dar a entender que o episcopado é nome designativo de trabalho [cargo], não de dignidade [honraria]. A palavra é grega e significa que quem está à frente é superintendente deu seus subordinados, quer dizer, tem de olhar por eles. Epi significa “sobre” e skopos, “intenção”, cuidado; portanto, podemos traduzir episkopein por “superintender”, zelar por. Dessa forma, aquele que quer comandar sem se devotar não deve pensar em ser um bispo.” Cidade de Deus, XIX, 19, pág. 410 (Ed. Vozes)
    Apenas em períodos de grave apostasia os cristãos fizeram dos cargos, títulos de nobreza, como no final da Idade Média, quando as famílias poderosas da Europa negociavam a púrpura cardinalícia para seus filhos. Foi assim com os Médici de Florença, os Bórgia... Tempos negros aqueles... Espero que não voltem mais... Mas a história tem alguns espasmos de repetição... 

domingo, 15 de julho de 2012

Uma cidade chamada Jerusalém

   Na árida paisagem da Judéia, aninhada nas montanhas do Planalto Central de Israel, encontramos a milenar cidade de Jerusalém.  Nem sempre ela foi conhecida por esse nome. Chamava-se Jebus (I Cr 11.4), e os seus habitantes eram os jebuseus. Quando Josué empreendeu a conquista da terra de Canaã muitas cidades ficaram por ser conquistadas (Jos 13.1), entre as quais Jebus.
   Quando Davi foi coroado rei sobre todo o Israel, sentiu necessidade de ter uma capital que fosse geograficamente central, e também segura sob o ponto de vista militar. Uma cidade lhe vinha à mente, por sua localização, sua dificuldade de acesso, que lhe assegurava o título de Fortaleza de Sião (II Sm 5.7): Jebus, Jerusalém.
   Pôs então, no seu coração o desejo de conquistá-la. Escolheu-a para ser sua capital, antes mesmo de conquistá-la. Mas a cidade era soberba, orgulhosa, ciente de suas defesas naturais, que faziam com que suas muralhas estivessem sobre abismos montanhosos. Quem se atreveria a atacá-la? E  mesmo se a atacasse com certeza não lograria êxito em conquistá-la. Tal era sua autoconfiança que se dizia: “Davi, não entrarás aqui; os cegos e aleijados te impedirão...” (II Sm 5.6). Isto é, apenas cegos e aleijados eram necessários para defender a cidade. Em termos de força bélica nada significavam. Em outras palavras, a cidade sequer necessitaria de alguém que a defendesse. De forma alguma Davi entraria lá.
   Quando Davi ofereceu o posto de comandante do exército àquele que conseguisse tomá-la (I Cr 11.6), seu sobrinho Joabe conseguiu conduzir as tropas com êxito e conquistar a cidade, possivelmente pelos túneis que abasteciam de água a cidade (II Sm 5.8). De repente a cidade orgulhosa e cheia de si, que seria defendida apenas por cegos e aleijados, é tomada por Davi.
    Mas é importante registrarmos que, a conquista de Jerusalém não visava apenas um fim político ou militar. Mas, enfim qual o propósito de Davi em conquistar a cidade? Tão logo a cidade é conquistada e o reino de Davi é confirmado sobre Israel, uma coisa é feita, que deixa claro pra nós qual o propósito da conquista da cidade:
    Davi manda trazer a arca de Deus... a arca não era apenas um utensílio, um objeto especial... era a arca de Deus, sobre a qual se invoca o Nome, o nome do Senhor dos Exércitos, entronizado sobre os querubins (II Sm 6.2). A presença da arca em Jerusalém transformava a cidade em habitação de Deus. Esse era o propósito da conquista de Jerusalém, transformar uma fortaleza jebuséia em lugar da habitação de Deus.
     Mas um lugar de habitação de Deus é consequentemente um lugar de adoração. E Davi, convocou Asafe e seus irmãos para ministrarem louvores ao Senhor (I Cr 16.7). Jerusalém tornava-se assim num lugar de adoração ao Senhor dos Exércitos!
Naquela época Israel ainda cultuava a Deus num tabernáculo, uma tenda, uma estrutura transitória, desmontável que não tinha local fixo. Davi então propõe em seu coração a construção de um templo, um lugar de adoração definitivo, não transitório, permanente.
    Mas construir um templo exige direcionamento de recursos, exige esforço, exige disposição, exige comprometimento. E embora não tenha sido responsável por erguê-lo, Davi preparou grande parte dos recursos para que tal empreendimento se tornasse possível (I Cr 22.14-16). Mas tudo isso valia a pena, em se tratando da construção de um lugar definitivo de adoração.
    Jerusalém não era mais a fortaleza de Jebus, era agora habitação de Deus, lugar de adoração, em breve sediaria um lugar definitivo de adoração. Mas uma cidade assim sofreria algum tipo de dificuldade? Não seria totalmente isenta de males? Deus não a tornaria livre de toda possibilidade de sofrimento?
   Não, mesmo sendo habitação de Deus, lugar de adoração, Jerusalém foi uma cidade afrontada, assediada. Das diversas vezes em que foi cercada, combatida, afrontada, desafiada, uma delas vale a pena analisarmos com mais cuidado:
    Era na época do Rei Ezequias... os assírios eram a grande ameaça de todos os povos do Oriente. Formaram o primeiro grande império globalizado. Sua fama de agressividade e crueldade fazia tremer nações inteiras. Seus reis eram famosos como os reis caçadores de leões. Os baixo-relevo das paredes dos palácios de Nínive contavam a história de conquista e poder dos assírios (hoje se acham expostos no Museu Britânico, em Londres).
    Os assírios tomaram o reino-irmão de Israel, cuja capital Samaria caiu sob o poder dos exércitos do Rei Senaqueribe. Em sua política os assírios costumavam destruir a cultura dos povos subjugados, misturando as etnias, trazendo gente de outros lugares para habitar as cidades israelitas (II Rs 17.24).  Quando as crenças não eram destruídas passavam por um processo de sincretismo religioso, assim os samaritanos tornaram-se pessoas que adoravam ao Senhor, mas também cultuavam outros deuses (II Rs 17.33). Agora os assírios se aproximavam de Judá, e não apenas isso, já haviam atacado algumas cidades e levado seus habitantes como cativos, como foi o caso de Laquis (II Rs 18.13).
    Diante da ameaça assíria, Ezequias toma três providências, que vão se mostrar acertadas:
   1) Tapou as fontes das águas que ficavam fora da cidade, privando o inimigo de ser saciado com as águas de Jerusalém (II Cr 32.3-4);
  2) Fortificou o muro, reconstruindo o que estava demolido e levantando novos muros e torres (II Cr 32.5);
  3) Desafiou o povo a confiar no Senhor (II Cr 32.6-8).
     O Rei da Assíria encaminhou um embaixador para negociar a rendição de Jerusalém, chamava-se Rabsaqué. Sua estratégia também consistia em três ações:
    1) Ameaças e amedrontamento: “Que confiança é essa que tens? Em quem tens confiado para te revoltares contra mim?” (II Rs 18.19-21);
   2) Falsas promessas: “Fazei paz comigo e vinde a mim. Assim cada um comerá da sua vide e da sua figueira e beberá a água da sua cisterna; até que eu venha e vos leve para uma terra semelhante à vossa, terra de trigo e de vinho, terra de pão e de mel; para que vivais e não morrais...” (II Rs 18.31-32);
    3) Profecia mentirosa: “Por acaso eu teria vindo atacar e destruir este lugar sem o Senhor? Foi o Senhor que me ordenou: Ataca e destrói esta terra.” (II Rs 18.25)
   Diante da estratégia inimiga, após ter feito sua parte, Ezequias orienta o povo a ficar em silêncio, não responder nada (II Rs 18.36), e orar ao Senhor (II Rs 19.1-19), apresentando-lhe as palavra de afronta ao Senhor, o Deus vivo.
* * * * * * *
Jerusalém, não está no passado! Não é uma história antiga. Jerusalém é você, caro leitor temente a Deus!
Você não é fruto do acaso: O Senhor te escolheu, te conquistou, apesar de seu orgulho, de sua autosuficiência. Mas ele te escolheu para que fosses sua habitação, para que se tornasse em lugar de adoração. E este lugar não pode ser passageiro, temporário. É preciso construir em sua vida um lugar definitivo de adoração ao Senhor, para isso é preciso direcionar recursos, comprometimento, e esforços, pois Ele quer um lugar definitivo em sua vida. Chega de andar de um lugar para o outro, buscando Deus aqui ou ali. Construa um lugar permanente de adoração, ainda que isso lhe custe esforço.
Não é porque somos habitação e lugar de adoração de Deus, que estamos isentos de todas as dificuldades. Os nossos problemas não acabaram. Não temos uma história tabajara, nem uma relação tabajara com a divindade. Apesar de tudo, somos afrontados, desafiados, atacados... O que fazer então? Aprendamos com o Rei Ezequias: Tapemos as fontes que alimentam o inimigo, fortifiquemos os muros e confiemos no Senhor!
O inimigo virá com suas estratégias, ameaçando, fazendo falsas promessas e até mesmo com profecias mentirosas. Não discutiremos, ficaremos em silêncio, em oração, apresentando ao Senhor tudo, pois a afronta não é contra nós, não é contra Jerusalém, é contra o Deus vivo. O Senhor concede vitória a Jerusalém, para que todos saibam que só Ele é Deus!!!
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Gostaria de finalizar este post com este vídeo que traz uma música inesquecível: JERUSALÉM....

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Comunidade cristã: pra que?

Fundamentos biblicos, antropológico, teológicos e psicológicos da vida comunitária

Antropológicos e Psicológicos

Cada rosto é um espelho e um desejo de ser, de ter,
Não é preciso uma verdade nova, uma aventura...
Pra encontrar nas luzes que se acendem um brilho eterno,
E dar as mãos e dar de si além do próprio gesto,
E descobrir feliz que o amor esconde outro universo...
(Vida, Fábio Júnior)

            Em primeiro lugar é importante que tenhamos em mente que antropólogos, sociólogos, filósofos e outros homens da ciência, desde o século XIX, prenunciavam o fim do mundo religioso. De fato, o desenvolvimento humano e o crescimento  das condições de segurança existencial conduzem à diminuição dos valores religiosos na sociedade pós-moderna, mas isso não implica o declínio da religião ou o seu fim. A autoridade religiosa, na verdade, não ocupa mais o mesmo lugar que antes... (vide Pippa Norris e Ronald Inglehart, Sacred and secular. Religion and politics worldwide, Cambridge Press, 2004)
            A secularização que vivenciamos hoje, secularização como utilizada por Peter Berger (Realidade Social da Religião), isto é, como o fim da cultura do domínio do religioso, com o concomitante crescimento da consciência do eu, possibilitou a transformação da organização das pessoas antes em comunidade para sociedade.
Os vínculos de longa duração observados na comunidade, quais sejam de parentesco e de obrigação, foram substituídos por vínculos contratuais. Tal realidade porém, gera um senso de despersonalização, coisificação. De fato, a desintegração da vida tradicional deu origem a uma espécie de anonimato, a vida é mais tolerante, em contrapartida, surge a angústia do “não ser”.
Em meio à sociedade pós-industrial, coisificante, despersonalizadora, as pessoas anseiam por relações de longa duração, menos descartáveis, menos instáveis. Busca-se comunidades. As igrejas continuam caracterizadas como grupos comunitários, onde a despersonalização dá lugar à personalização, eu tenho nome, e pertenço a uma comunidade que me conhece, re-conhece. Tem suas exigências sobre mim, sobre meu comportamento, mas isso decorre do vínculo que temos.
Na empresa somos um recurso, que precisa estar bem treinado, bem atualizado, saudável e motivado... caso isso não ocorra somos sumariamente descartados...
No casamento (o contrato de casamento), precisamos ser provedores, grandes amantes, bons pais, e manter uma bonita aparência... caso isso não ocorra... o divórcio acena constantemente...
Igreja como comunidade pode ser o lugar onde o meu desejo, antigo desejo de ser, não somente de ter, pode se materializar, quando eu der as mãos e dando  de si além do próprio gesto, descubro  feliz que o amor esconde outro universo...

Bíblicos e teológicos

Talvez quem sabe por esta cidade passe um anjo,
Que por encanto abra suas asas sobre os homens,
E dê vontade de se dá aos outros em medida,
A qualidade de poder viver, vida... vida... vida...
(Vida, Fábio Júnior)

Inicialmente Jesus não fala para uma comunidade. Ele ensina um punhado de pessoas que passam a ser seus seguidores. O seguem porque foram chamados por ele (como é o caso específico dos discípulos, os doze), o seguem porque sentem-se a ele vinculados após serem curados, ou libertos (Lc 8.2). Mas já vislumbra neles o embrião de uma comunidade, isto fica claro no Sermão do Monte (Mt 5), no qual fica claro que seus seguidores são a luz do mundo e o sal da terra (5.13), e que uma nova ética e prática lhes é confiada.
Nos instantes finais com os discípulos, antes de sua paixão e morte, Jesus delineia melhor como ele espera que seja a vida em comunidade de seus seguidores, e estabelece que deve ser uma comunidade que obedeça seus ditos (Jo 15.14) e viva verdadeiramente o amor mútuo (Jo 15.17).
O desafio de viver em comunidade é o desafio de viver o amor de Cristo, é o compromisso de perdão (Mt 18.21-22) e reconciliação (Mt 5.23,24), é o desafio de servir, considerando os outros superior a si mesmos (Mt 20.20-28)... Jesus ainda institui a Santa Ceia, que substitui a celebração hebraica da Páscoa, e esta não é celebrada na solidão, e sim em conjunto, no seio da comunidade, onde anunciamos a morte do Senhor até que Ele venha (I Co 11.26)
Quando a comunidade dos primeiros cristãos se torna realidade, primeiro em Jerusalém, depois em Samaria e Antioquia, a vivência dos desafios já anunciados por Jesus é observada no dia a dia da Igreja: Comiam juntos, louvavam a Deus e pregavam a mensagem (At 2.42-47), oravam juntos (At 4.24-31), cuidavam uns dos outros (At 6.1).
As cartas paulinas são direcionadas a comunidades, de Roma, de Corinto, de Tessalônica, de Filipos, de Éfeso, de Colossos, e cada comunidade apresenta suas necessidades e angústias próprias. Especialmente a 1ª Epístola aos Coríntios é um exemplo de que a vida em comunidade não é fácil: divisões internas, isto é, grupos ou panelinhas, uns são de Paulo, outros de Apolo, outros de Pedro, imoralidade, casos na justiça comum, enfim... problemas enfrentados por qualquer comunidade. Paulo apresenta a mesma solução apontada por Jesus, o Amor (I Co 13).
Ainda há um detalhe importante a ser mencionado. A Igreja, a comunidade é o corpo de Cristo, e cada um tem o seu papel no corpo (Rm 12.4-8), seus dons e talentos são usados complementarmente para formar a unidade do corpo. Essa temática é recorrente nas cartas paulinas, veja I Co 12 e Ef 4.
O escritor da carta aos Hebreus nos fala de uma forma muito bonita da importância da vida em comunidade:
Pensemos em como nos estimular uns aos outros ao amor e às boas obras, não abandonemos a prática de nos reunir, como é costume de alguns, mas pelo contrário, animemo-nos unos aos outros, quanto mais vedes que o Dia se aproxima...” Heb 10.24-25.
Quero finalizar com alguns parágrafos do livro “O que Cristo quer de nós”, do teólogo católico Bernard Haring, Edições Paulinas (1970):
“Os sacramentos anunciam o Evangelho e, ao mesmo tempo, impõem um dever moral que, por sua vez, é uma graça. Todas as vezes que celebramos a eucaristia anunciamos a morte do Senhor como o grande acontecimento redentor que novamente nos envolve, salva-nos e nos impõe exigências. A boa nova que o Senhor nos repete sempre através da fé da comunidade: ‘Eu morri por vós, vivo para vós e em vós’, inclui sempre, também, a exigência de ‘amar-nos uns aos outros, como ele nos amou’.  (p. 71)
Cristo proclama o mandamento novo, sentado à mesa, à volta da qual reuniu os apóstolos e sobre a qual instituiu a Eucaristia. Eles estão visivelmente reunidos á volta do Mestre e, mediante o amor que os liga, tornaram-se verdadeiramente uma família. Jesus ensina-os com um gesto tangível, que é fruto de amor humilde e servil. Tudo isto se repete, embora de modo diferente, na celebração dos sacramentos. ‘As funções litúrgicas são celebrações da Igreja, que é sacramento de unidade.’  (p.73)
A liturgia e a oração individual e comunitária tem por objetivo levar-nos a esta forma de adoração de Deus em espírito e em verdade (Jo 4.23-24). Mesmo quando oramos simplesmente, com o coração, no silêncio do nosso quarto, dizemos sempre: ‘Pai nosso’; temos diante dos nossos olhos os irmãos e incluímo-los, conscientemente na nossa súplica. Os sacramentos, e especialmente a celebração eucarística, tornam-nos ainda mais conscientes de tudo isso: quando os celebramos, estamos na presença de Deus, como família sua, unidos a Cristo. O seu amor redentor, com o qual glorificou verdadeiramente o Pai, convida-nos continuamente através da Bíblia, da liturgia e da pregação, a ‘ter uns para com os outros o mesmo sentimento, segundo o espírito de Cristo Jesus, para que, num só coração e com uma só voz, glorifiquemos a Deus, o Pai (Rm 15.5-6)...”  (p. 79)