ARTE

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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Coisas que eu aprendi no meu jardim... ou Caraca!! Cuidado com os Caracóis!!




    Quando pensamos num jardim pensamos num lugar de beleza e de tranquilidade. Lá não há barulho, há calma, e parece haver uma harmonia entre os seres vivos ali: abelhas colhem o néctar das flores, ao mesmo tempo que fazem a polinização viabilizando a fertilização e o consequente surgimento dos frutos, beija-flores voejam equilibrando-se misteriosamente no ar enquanto se alimentam do mesmo pólen... formiguinhas aqui e ali carregam folhas para seu abrigo localizado em algum lugar subterrâneo.
      Recentemente meu jardim me ensinou que nesse clima idílico e bucólico pode surgir uma ameaça calma, silenciosa, para muitos “bonita”, parecendo plenamente harmônica, mas altamente destruidora!
    Entre as plantas do meu jardim está a conhecida “Trapoeraba roxa” (Tradescantia pallida purpúrea), uma plantinha rasteira com suas folhas roxas grossas, suculentas. Plantamos porque traz um colorido novo para o jardim. Quebra a monotonia do verde. Ela espalha-se preguiçosamente até onde for permitido levando seu roxo vivo!

    Um dia desses percebi que havia caracóis no jardim. Achei bonitinho, além do mais temos  um risonho caracol de barro pintado com cores vivas, obra de algum artesão caprichoso, lá no jardim... coisa muita apropriada: se há uma representação inanimada de um caracol, então por que não termos um original, vivo?
    Decidi deixar os caracóis seguirem o curso de sua existência molusca.
     Não demorou muito para que eu percebesse que minha parte roxa do jardim estava sendo devastada! Rapidamente a “Trapoeraba roxa” estava perdendo as folhas, ficando só os talos das plantas.
      Foi aí que eu percebi que os recém-chegados não eram tão inofensivos assim. Quando fui investigar melhor no jardim, os poucos caracóis  que eu tinha visto há algumas semanas haviam se transformado em centenas! Eles eram uma praga no meu jardim! Fui pesquisar e descobri que eram hermafroditas, tinham dois sexos embora precisassem de um parceiro para o “ato sexual”.

    Decidi então ter o meu jardim de volta, e a beleza das cores da minha “Traperoaba roxa”. Como? Matando os caracóis. Decidido a exterminar os moluscos fofinhos fui à caça. Passei horas de alguns dias juntando um por um num saco e jogando-os no lixo. Isso a partir do final da tarde, porque durante o período do calor do sol eles estão abrigados em seus esconderijos.
   Depois da primeira centena de indivíduos exterminados parei de contar... mas percebi que no meu pequeno jardim os caracóis haviam se tornado uma praga, e se eu não me empenhasse em tirá-los... meu jardim perderia por completo sua beleza.

   Mortos os caracóis, algumas semanas depois o roxo da Traperoaba foi timidamente retornando. As folhas suculentas puderam voltar a crescer e colorir o jardim.
    Aprendi que coisas aparentemente gentis, inofensivas e silenciosas que acolhemos conscientemente em nossa mente podem nos oferecer perigo, e podem se proliferar e iniciar um processo de autodestruição, que se não for freado causará nossa ruína! Caraca!! Cuidado com os caracóis!

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Como nós, romanticamente, abrimos mão do “amor” eterno


    O soneto 116 de Shakespeare vale a pena ser relembrado:
Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento,
Ou se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo.
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.

     O poeta maior britânico escreveu esse poema no início do século XVII. Em suas palavras que cantam o amor eterno, encontramos ecos dos filósofos gregos, mas não apenas da sabedoria clássica, mas também da sabedoria hebraica, contida no Cântico dos Cânticos onde o amor é forte como a morte (Cant 8.6), ou nos ideais cristãos também encontrados na bíblia, nos quais o amor tudo espera, tudo sofre, tudo suporta, o amor nunca perece (I Co 13.4-8).
   A sabedoria antiga, grega, judaico-cristã concordava plenamente nesse ponto: O amor é eterno! Shakespeare de forma tão inspirada o retratou no Soneto 116!
   Mas os ventos de mudança sopraram fortemente sobre o amor, sobre seu atributo de eternidade.
   Em 1946, Vinícius de Morais publicava em São Paulo o seu “Soneto de Fidelidade”. Ganhou logo fama, e veio para definitivamente substituir o Soneto 116 de Shakespeare:

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.



     Diferente do amor em Shakespeare, o amor em Vinícius é chama fugaz, de forma nenhum imortal, com tempo previsto para acabar. Infinito somente enquanto durar.
    O poeta brasileiro descreveu nesses versos a sua forma de ver o mundo e o amor. Não mais um amor sagrado, eterno. Mas um amor intenso, fugaz... e passageiro! Ele viveu essa realidade:  “casou-se” nove vezes.
     Interessante que é o soneto de Vinícius que os nubentes citam um para o outro em seu matrimônio. E juram amor... não eterno! Enquanto que um padre ou um pastor declara: O que Deus uniu não separe o homem, e talvez leia o texto de 1º Coríntios 13.
    E a música popular empenhou-se em propagar o novo conceito desse amor intenso e fugaz. Música baiana, pagode, sertanejo, samba... pode procurar, alguém vai estar cantando “Eu quero que esse amor seja eterno enquanto dure...”
     É assim que um conceito muda... é assim que um atributo é perdido.  É assim que o amor eterna, torna-se finito, fugaz e passageiro!
     Gosto do "poetinha"... mas quanto à perenidade do amor, prefiro Shakespeare!



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Eu só quero o leve da vida... E o que faço com a dureza da vida?

Hoje cedo fui ao velório de uma pessoa de nossa comunidade. Muito pranto na terrível hora da despedida... Quando vim no carro estava tocando Trevo, da Anavitória. Gosto especialmente do trecho que diz "Eu só quero o leve da vida pra te levar..." É um trocadilho interessante.
   Fiquei pensando na dureza daquele velório. Se eu só quero o leve da vida, o que fazer com a dureza da existência? Realmente eu gostaria de que só houvesse o leve (soft) da vida, mas também tem o duro (hard). O que fazer com ele?
   Já percebeu que o Instagram é o espaço onde o leve da vida acontece? Ali compartilhamos momentos de descontração, de alegria, de realização. Outro dia postei algo sobre o sofrimento de meu pai com Mal de Alzheimer. Teve pelo menos a metade das curtidas de algo engraçado que compartilhei. É melhor ignorar o duro, e celebrar o leve.
  Parece-me que nossa tendência é negar as coisas duras. Nega-se até enquanto pode, a realidade de um diagnóstico fatídico ou os sintomas já esperados de um mal em andamento.
   Não é somente a realidade da doença e da morte que são duras. Duro é o cotidiano. Dura é a realidade que nos cerca. Duro é o trabalho. Duras são as decisões que precisam ser tomadas. Duro é o momento em que somos confrontados...
Os filhos se chateiam com os pais porque às vezes eles são muito duros. Tem pais que não conseguem mais ser duros, porque também só querem o leve da vida. Quem não é duro hoje, pode ter a dureza da vida contra si amanhã. Ser duro faz parte!
   A garotada quer ficar com todo(a)s, pra não ter que decidir um compromisso com alguém. Isso é duro! E a gente só quer o leve da vida.
   Talvez não dê pra querer só o leve da vida pra te levar...
   Dizer que algo está certo e outro errado é duro. Melhor dizer que ninguém pode afirmar nada, é muito mais leve. Acho que é politicamente correto o leve da vida. O duro é politicamente incorreto.
    Pensa-se no cristianismo como algo leve, porque Jesus disse que o meu jugo é suave e meu fardo é leve. De fato, Jesus disse isso comparando com o pesado jugo religioso dos fariseus. Mas o discurso de Jesus teve sua dureza. Alguns até questionaram: Duro é esse discurso. Quem o pode ouvir? (Jo 6.60).
   Jesus tinha total consciência da dureza da vida. O sofrimento, as dificuldades, a humilhação, a decepção, o abandono, a cruz... tudo muito hard.
Imagino que por isso mesmo Jesus tenha dito algo intensamente hard: Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me (Lc 9.23).
A sabedoria popular também nos lembra: Rapadura é doce mas não é mole, não! Nos lembra em forma de canção o amigo João Alexandre...

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Falando em Eleições...



  O país ferve na semana decisiva das eleições que definirão os ocupantes do Poder Executivo e Legislativo, tanto federal quanto Estadual. Em meio ao frenesi emocionado desse momento quero pensar em eleições. Propor reflexão para o brasileiro num momento como esse, é um desafio e tanto. Isso porque, o brasileiro é um povo da emoção, do coração, muito menos que do intelecto, da reflexão, da racionalidade. Obviamente isso não é uma conclusão minha. Há 80 anos, analisando o Brasil e os brasileiros, o historiador Sérgio Buarque de Holanda escreveu um capítulo do seu livro “Raízes do Brasil” (1936), denominado “Homem Cordial”. Vale ressaltar que a palavra cordial, vem de cor, cordis – coração, em latim –, e empregada em seu sentido etimológico, ou seja, "do coração". O homem cordial é então aquele que, dotado de "um fundo emotivo extremamente rico e transbordante", nas palavras de Sérgio Buarque, age e reage sob a influência dominadora do coração.

    Portanto, contra a nossa natureza emotiva e efusiva uma breve reflexão a partir do texto bíblico.
  A palavra eleição, eleito,  é greco-latina. Em grego koinê (que é a língua em que o Novo Testamento foi escrito) teremos Eklogê (eleição), Eklektos, Eklegomai (eleito), do prefixo ek (para fora) + verbo legô (chamado, passado de kaleô, chamar). No latim encontraremos Electus, Eligere, cuja ideia é sempre a mesma, escolhido, selecionado.
  Sendo o texto do Antigo Testamento escrito em hebraico, e anterior à civilização greco-romana, não podemos falar dessa palavra no mesmo. Entretanto, encontraremos a mesma ideia expressa no verbo hebraico bachar (escolher, decidir). Então o povo de Deus é o povo bachir (escolhido). A maioria das versões do texto bíblico trazem “Filhos de Jacó, seus eleitos (bachir)” (I Cr 16.13). Um noivo é um bechir-libah (eleito do coração dela) ou simplesmente bachur (eleito), como encontramos em Is 62.5.
  Falar de eleições entre os semitas seria um anacronismo estranho. Os líderes políticos são escolhidos pelo próprio Deus (Teocracia), inclusive o primeiro rei, e a partir daí recebem a autoridade dinástica na monarquia hebraica. Os líderes religiosos também são escolhidos por Deus a partir da tribo de Levi e da família de Aarão.
  Apesar disso, há uma brecha para que o povo pudesse escolher, eleger (para usarmos um anacronismo ‘adequado’). Quando Moisés decide compartilhar a sua liderança com chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez, conforme orientação de seu sogro Jetro, a escolha desses líderes “operacionais” dar-se-ia por escolha do próprio povo, uma espécie de proto-eleição.
  “Como posso suportar sozinho o peso das vossas dificuldades e das vossas discórdias? Escolhei homens sábios, inteligentes e experientes das vossas tribos, e eu os porei como chefes sobre vós” (Dt 1.12-13). A Bíblia de Jerusalém traz o segundo versículo da seguinte forma: “Elegei homens sábios, inteligentes e competentes...”
  Assim, parece-nos que os chefes, anciãos, príncipes das tribos eram escolhidos através de eleições. Não podemos afirmar se diretas ou indiretas.
  Ressalte-se porém, da qualificação que esses homens precisam ter: Sábios, inteligentes e experientes.
  No período Inter-testamentário surgem no cenário da história ocidental os gregos, que ainda no século V ou VI a.C, em Atenas, realizaram as primeiras eleições. Por isso o vocábulo é originalmente grego. Os romanos copiaram os gregos e a palavra veio para o latim Electus, Eligere.


  Então, é no Novo Testamento, escrito em grego comum, que abundantemente encontraremos a ideia de Eleição, Eleitos.
  Jesus diz aos seus discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes; pelo contrário, eu vos escolhi e vos designei a ir e dar fruto...” (Jo 15.16). O apóstolo Paulo afirma: “Como também nos elegeu nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4).
  Curiosamente, a comunidade cristã é teocrática, entretanto, tem liberdade para fazer suas escolhas e votar a partir de determinados critérios, submetendo no final à vontade divina. Observamos ainda nos primeiros dias dessa comunidade, fazia-se necessário que alguém fosse nomeado apóstolo no lugar de Judas Iscariotes, o traidor.
  Foi apontado o critério da escolha “homens que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós” (At 1.21). Foram apresentados dois: José, chamado Barsabás, e Matias. Oraram e tiraram sortes, sendo sorteado Matias.
  Mas é na escolha dos diáconos que o processo eleitoral se configura de forma muito clara:
  “Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarreguemos deste serviço... A proposta agradou a todos, e elegeram.. Estêvão... Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau. E apresentaram perante os apóstolos, os quais depois de orar, impuseram-lhes as mãos.” (At 6.3-7)
  Foram determinadas as características que os postulantes à função deveriam possuir “de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria”, e iniciaram-se os trabalhos para eleição. A comunidade elegeu os sete homens, cujos nomes foram submetidos ao Colégio Apostólico, que funcionava também como Tribunal Eleitoral.
  Depois de orar, que seria de fato submeter os eleitos à soberana vontade de Deus, foram investidos nas suas funções através da imposição de mãos.
  Em vésperas de eleições é importante perguntar-nos sobre a serenidade que temos (ou não temos) ao fazer nossas escolhas. Estamos escolhendo apaixonadamente como homo brasilis cordialis que somos? Estamos nos deixando ser conduzidos pelo turbilhão de emoções produzidos pelas ruidosas e apelativas campanhas eleitorais?
  Estamos certos que as características de nosso candidato são compatíveis com o cargo para o qual o estamos elegendo? Acho que a recomendação de Moisés ainda é válida: “Elegei homens sábios, inteligentes e experientes”. Para isso é preciso mais racionalidade, e menos emoção!
 
 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Blasfêmia e Respeito

   Blasfêmia é uma palavra quase em desuso. Poucos conhecem seu significado. O dicionário Aurélio clarifica acerca do seu significado: “Dito ímpio ou insultante contra o que se considera como sagrado.”
     Para muitos a definição não ajuda muito pois traz outro vocábulo também com significado pouco claro nestes tempos de discursos inflamados para ouvintes pouco informados: sagrado.  Blasfêmia é um insulto contra o que se considera como sagrado. (Propositadamente vou ignorar o “dito ímpio”, porque já seria exigir demais do repertório vocabular da maior parte das pessoas).
    E o que é o sagrado? O dicionário Caldas Aulete nos diz que “se refere às coisas divinas, aos cultos religiosos”.  Então, Blasfêmia é um insulto contra o que se considera como divino, religioso.
     E o que é um insulto? Embora todos entendamos claramente o que seja um insulto, vamos recorrer ao dicionário pela última vez para que não fiquem dúvidas:  “Palavra, gesto ou atitude ofensiva, desrespeitosa”.




     Blasfêmia é uma palavra, uma ação, uma atitude muito conhecida e discutida nas sociedades religiosas, nos grupos humanos onde a divindade integra o cotidiano das pessoas. Os gregos eram profundamente religiosos, o apóstolo Paulo constatou isso quando foi a Atenas (At 17.22), e na mesma Atenas, há mais de 400 anos, Sócrates havia sido condenado  à morte por blasfêmia.
    Na antiga sociedade israelita, profundamente embebida do senso do sagrado, a blasfêmia também era punida com a morte. Foi assim com Nabote, que injustamente acusado de blasfêmia, foi apedrejado (I Rs 21.13).
    A mais conhecida acusação de blasfêmia, com certeza é do próprio Jesus Cristo. Foi acusado de blasfêmia, pelo grupo religioso dominante de Israel no tempo da dominação dos romanos, e condenado à morte (Mt 26.63-66).
      Século XXI, 2017. Como falar de blasfêmia em tempos de descrença? Como falar de blasfêmia quando a crença religiosa não mais faz parte do cotidiano das pessoas? A crença no divino tornou-se algo privado, que não se deve enunciar.
      E o que é o divino? Na sociedade grega, falar do divino era falar dos deuses do panteão grego, de Zeus a Eros. A sociedade romana absorveu o panteão grego e adaptou seus nomes. Numa sociedade cristã, seja ela antiga, medieval, moderna ou contemporânea, falar do divino é falar da Trindade: Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
     Numa sociedade islâmica, Alá é Deus, e Maomé o seu profeta.
      Por ocasião da Revolução Francesa, a Razão foi divinizada. Na época de Augusto Comte, foram erigidas igrejas positivistas, inclusive no Brasil. As igrejas positivistas não vingaram, mas a divindade da Razão, sim.
      O homem do século XXI, cultua a razão, a liberdade, e ignora as crenças tradicionais religiosas, sejam elas cristãs, islâmicas ou judaicas.
      Por isso, vive-se tempos onde se pode fazer ou dizer qualquer coisa, e não será visto como blasfêmia. Relembrando: Dito ímpio ou insultante contra o que se considera como sagrado. Quem considera como sagrado (divino, religioso ou algo do tipo)? O homem culto do século XXI não considera como sagrado crenças religiosas tradicionais. Portanto, para ele não existe blasfêmia. Por isso ele se acha no direito de ridicularizar, humilhar, e ofender aquilo que outros consideram como sagrado.

      Em 2015, um atentado terrorista matou várias pessoas do jornal francês Charlie Hebdo, em Paris. Alá foi achincalhado e Maomé foi exposto ao ridículo nas charges do jornal satírico francês. Para os irmãos muçulmanos Said e Cherif Kouachi, aquela blasfêmia deveria ser respondida com a morte.
    Quem tiver curiosidade de ver o trabalho do Charlie Hebdo, vai constatar que não apenas crenças muçulmanas são ridicularizadas, e ofendidas...
   Manifestações públicas no mundo inteiro resultaram da indignação do esclarecido homem culto ocidental, pela liberdade de expressão contra o Massacre do Charlie Hebdo.
    Os chargistas franceses só quiseram utilizar sua liberdade de expressão. Por que entender que era um insulto? Relembrando, Insulto: Palavra, gesto ou atitude ofensiva, desrespeitosa.
     Se numa sociedade arreligiosa não se reconhece a existência de blasfêmia, mas seria possível entender o significado de insulto? Atitude ofensiva, desrespeitosa?
     Abstraindo crenças religiosas, fé, divindade, porventura o homem culto do século XXI não deveria manter com o outro uma atitude de respeito?
      E essa atitude de respeito, porventura não é superior à liberdade de expressão?

      Na época em que a sociedade dava ouvidos aos ditos religiosos, amar ao próximo como a si mesmo, era um valor da sociedade cristã... mas isso é coisa do passado!
     Uma liberdade que não respeita o outro, é anárquica, destrutiva, ofensiva.
     Diante dos deuses gregos, o missionário cristão Paulo, não os ridicularizou ou ofendeu. Falou deles com respeito, num discurso que chegou até nós através do livro de Atos dos Apóstolos. Mas querer tirar lições de um livro como a Bíblia é querer muito do homem culto do século XXI.
     O recente episódio da exposição Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre, mostra que conta com incentivo financeiro do Ministério da Cultura reabriu a discussão no Brasil acerca da liberdade de expressão.
    A Revista Veja utilizou 7 páginas de sua edição de 20/09 para expor o assunto. As duas reportagens publicadas tratam sobre a liberdade de expressão, com os temas: A Vitória das Trevas (pág.74 a 78) e A Censura das Redes (pág. 80 e 81).
    Acho interessante os seres humanos, só conseguem ver o que querem ver. Talvez conseguíssemos ser uma sociedade menos belicosa, se puséssemos o respeito acima da liberdade de expressão.  Se um pouco de humildade nos fizesse ouvir a voz de Cristo: “Tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei vós também a eles” (Mt 7.12).
        Seria pedir demais, não?
    Ontem Cristo e sua mensagem encontrada nos evangelhos nos inspirava, agora Sartre e seu existencialismo, e sua máxima “O Inferno são os outros”, norteiam a sociedade. Posso afirmar que baseado nessa realidade nosso futuro será sombrio, e não adianta clamar pela liberdade de expressão!

      

domingo, 11 de junho de 2017

Pombos: romantismo e convivência, o que a sabedoria hebraica nos ensina

     Época dos namorados, o romantismo está no ar. Comprei um mimo altamente calórico para minha namorada, numa chocolateria famosa da cidade, ganhei um óculos esporte de presente, porque ela não suporta o meu óculos escuro, disse que é de surfista... Fui convidado a falar num jantar de namorados numa de nossas igrejas e me veio ao coração uma reflexão a partir das pombas.
   Bichinho gracioso, tão lindo que é abundantemente citado no livro mais romântico das Escrituras, Cantares de Salomão. Salomão derrama-se em galanteio para sua amada chamando-a “Pomba minha” (Cant 2.14, 5.2, 6.9), além do mais os olhos da sua amada são tão lindos que são comparados aos olhos das pombas (Cant 1.15).
    Casais românticos (e ricos, claro!), vão a Veneza para fazer o seu álbum de noivado ou de casamento. E o que encontram na praça mais famosa da cidade mais romântica do mundo? Pombos, pombos e mais pombos. Assim, pombinhos humanos misturam-se aos pombos nativos na paisagem da Piazza San Marco.
   


     Quando fomos a Veneza, há exatos 10 anos, nossa visão dos pombos era assim. Romântica, idealizada: bichinhos lindos, meigos, fofos...
     Essa visão mudou bastante, quando algumas famílias de pombos resolveram se instalar em nosso telhado. Olha que sujeira fazem! Parece que fazer pose com os pombinhos na Piazza San Marco é muito diferente de conviver com eles em nossa própria casa. A convivência, o cotidiano, o dia a dia muda nossa ideia das coisas.
     Parece que não somente nós, conseguimos perceber isso, os profetas bíblicos também. Os profetas apontam coisas que aparentemente o romântico Salomão parece ignorar (!?)
    Isaías é o profeta que mais cita nossos românticos bichinhos alados. Mas o que percebe Isaías? A beleza das pombas? A graça de seu voo?
    Você já testemunhou o incessante arrulhar das pombas a ecoar no silêncio da noite? “Gru... gru... gru...” É bem essa figura que Isaías usa para o gemido dos aflitos. Ele escreve: ... gemia  como uma pomba chorosa... (38.14) e ... gememos como pombas. Procuramos justiça, e nada! Buscamos livramento, mas está longe (59.11).
    O profeta Isaías traz o gemido queixoso, (e chato!) das pombas. Somente quem divide o espaço com os pombos se incomoda com o seu arrulhar abusado. Naum também faz referência a esse gemido atribulado (e atribulante!) das pombas (Na 2.7).
    Outro profeta a citar as pombas é o profeta Oséias: “Efraim é como uma pomba enganada, sem entendimento” (Os 7.11). A pomba é lembrada como uma ave insensata, facilmente seduzida, lograda, enganada, presa fácil.
    


        Aos pombinhos de plantão, namorados ou noivos, preparem-se para um tempo especial após o casamento: a convivência. O cotidiano, o dia a dia, a convivência, vai além da contemplação apaixonada dos belos olhos do seu pombinho ou da sua pombinha. No dia a dia você descobrirá que seu pombinho querido às vezes age como um pombo insensato. Você se surpreenderá ao descobrir que sua pomba amada reclama e atribula a si própria e a você.
       Será isto motivo para perda do encanto? Dos galanteios românticos?
       Talvez não. Será que Salomão de fato ignorava a insensatez das pombas e seu gemido angustiante? Não nos parece! Salomão não era apenas um romântico incurável e apaixonado pelas mulheres. Ele também era um cientista. Vejamos o que se diz sobre ele:
      “Também falou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce na parede; também falou dos animais, e das aves, e dos répteis e dos peixes” (I Rs 4.33).
       Para um especialista em botânica e zoologia, seria muito estranho ignorar certas características de uma ave que ele tão bem conhecia, pois era abundante em seu país. Então sou forçado a concordar que Salomão era ciente dos gemidos e da insensatez das pombas.
      Mas por que ele olha para sua amada como “Pomba minha” e a galanteia comparando-a com a beleza dos olhos das pombas?
      Salomão nos responde do alto de sua sabedoria. Parte da resposta ele próprio nos dá no livro de Cantares: “O amor é forte como a morte” (Cant 8.6). A outra parte ele nos dá no livro de Provérbios: “O amor cobre todas as transgressões” (Pv 10.12). Essa é uma verdade que Pedro registra em sua epístola: “O amor cobre um grande número de pecados” (I Pe 4.8). Wayne Gruden nos diz: “Onde falta amor cada palavra é vista como suspeita, cada ato é passível de incompreensão e sobram conflitos.”

       Ame sua pombinha, seu pombinho, com suas imperfeições e fragilidades. Quanto mais cedo você descobrir os gemidos e a insensatez, mais rapidamente você vai aprender a arte da convivência, e vai, como Salomão, continuar amando, pois o amor cobre multidão de defeitos.
     Feliz dia dos namorados a todos os pombinhos...
      

    

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Aprendendo sobre Pecado com a Operação Lava Jato

   O Brasil anda às voltas com o que talvez seja a maior investigação de corrupção da história da humanidade. As ações já se desenrolam há 4 anos, ou mais, mas a cada vez que ligamos a TV novos desdobramentos surgem. Utilizando uma expressão chula conhecida “quanto mais se mexe, mais fede”. A operação já derrubou presidentes (ou presidentas), expôs uma face desconhecida de muitos políticos, funcionários públicos, executivos e empresários. Já mandou alguns para atrás das grades e mudou o status de muita gente: Gente acima de qualquer suspeita agora entende-se que é “criminoso”.

    Os nomes escolhidos para certas operações são sugestivos, além do próprio “Lava Jato”, que aponta para remoção da sujeira, temos outros cognomes como “Fratura Exposta”, quando o que está quebrado é trazido à luz. Uma operação recente que abalou o mercado de carne bovina do mundo era denominada “Carne Fraca”. Imagino que seria uma velada referência ao texto bíblico Mt 26.41: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
     É interessante observarmos a reação das pessoas quando o que estava oculto vai sendo trazido à luz. Os envolvidos diretamente normalmente negam peremptoriamente. Os familiares são capazes de jurar inocência dos seus parentes acusados de algum ilícito. Os simpatizantes, amigos, correligionários ou partidários se indignam a tal ponto que chegam à conclusão que tudo se resume a um complô orquestrado contra aquela pessoa querida totalmente inocente e injustiçada.
    É difícil admitir que a “carne é fraca”, e é capaz de Hamartia (errar o alvo, pecar), bem como de Anomia (descumprimento dos preceitos, iniquidade). A Lava Jato é uma aula de Hamartiologia, Doutrina do Pecado!
    Os sistemas soteriológicos tradicionais enfocam a Depravação Total do Homem, tanto calvinistas quanto arminianos afirmam a deterioração da natureza humana decorrente da Queda. A Lava Jato está aí para atestar a Depravação Total do Homem, nem precisa ler os dois primeiros capítulos da epístola de Paulo aos Romanos.
   Mas é complicado para o homem do século XXI admitir que é um pecador, confessar seus pecados, tirar a máscara de respeitabilidade. E é difícil também para aqueles que depositaram suas esperanças nesses mesmos homens, admitir que fracassaram plenamente.
   De fato, nunca foi muito simples para o homem expor seu erro, sua culpa. De alguma forma as Escrituras Sagradas estão o tempo todo fazendo uma operação Lava Jato em nossas vidas. Adão e Eva pecaram e se esconderam. Deus expôs a sua ANOMIA, descumprimento dos preceitos (Gn 3.11), e os julgou.
    Caim matou Abel e Deus lhe perguntou “Onde está Abel, teu irmão?” (Gn 4.9). Acã apropriou-se de objetos que lhe haviam sido proibidos, e os escondeu num buraco na sua tenda (Jos 7.21). Uma derrota na batalha provocou a exposição do erro de Acã e seu julgamento.

    É conhecido o caso do Rei Davi que para ficar com a mulher de seu soldado, provocou a morte do soldado. O profeta Natã não era um juiz de Curitiba, mas enfrentou o velho Rei e expôs o seu pecado (II Sm 12.9).
    Para finalizar lembramos da mulher de Samaria que encontra Jesus junto ao poço. É uma senhora respeitável até que Cristo lhe diz: Vai, chama o teu marido e vem cá (Jo 4.16). Ela traz uma meia informação que o mestre complementa refrescando-lhe a memória: Disseste bem, não tenho marido. Porque tiveste cinco maridos e o que agora tens não é teu marido (Jo 4.17-18).
    Não há como as mudanças acontecerem sem que a verdade não venha à tona. Não há como as coisas ficarem limpas, se a sujeira não for exposta. O homem só conhece a purificação quando reconhece seu estado de depravação total e sua total carência de um Redentor, que lhe justifica, e pela fé lhe atribui a justiça.
        Mesmo que você e eu não estejamos citados na Lava Jato, lembremos que:
    “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.” Rm 3.23-24


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ator, Ídolo, Hypocrites: José Mayer e uma reflexão sobre hipocrisia

     Estes dias o ator José Mayer, galã da principal emissora de TV do país se viu às voltas com um escândalo que pode significar o fim de sua brilhante carreira. O ator sexagenário, mas bonitão,  que faz o sexo feminino delirar com seu charme, mostrou o outro lado de si, que as câmeras não focam, ou melhor o verdadeiro lado de si: Assediou de forma grosseira uma figurinista da empresa. Em tempos de redes sociais casos como esse não passam mais em branco.
     A mulher assediada botou a boca no mundo, o caso ganhou notoriedade, e a própria emissora teve que noticiar o caso de um dos seus mais caros galãs. Tornou-se o assunto da semana na mídia nacional.

     A revista VEJA esclarece que “Em uma primeira e desastrada declaração, José Mayer disse que as atitudes denunciadas eram próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra, não minhas!” (VEJA, 12/04/2017, pág. 76)    
     Ninguém engoliu a explicação, mas a saída encontrada pelo ator também precisa ser analisada.
     Sendo um ator de grande projeção José Mayer tornou-se o ídolo de muita gente. Idealizações e fantasias rondam o imaginário daqueles e daquelas que o põem num pedestal. Trata-se de um ator. A arte da representação nos veio da Grécia. O antigo teatro grego tinha seus atores, que usavam máscaras.  O ator era o hypocrites, o respondedor.
    É da realidade da representação do papel que não corresponde a si mesmo, do fingimento, que hypocrites se torna uma palavra pejorativa, com significado desagradável. E essa palavra é conhecida por nós no texto bíblico, mas também de uma forma ampla, transliterada para o português hipócrita: fingido, falso, dissimulado!

    Esta palavra é encontrada várias vezes nos Evangelhos na boca de Jesus: Hipócritas!!! Os religiosos da época eram rotulados por Cristo como hipócritas.
    Mas o caso José Mayer indica-nos claramente que hipocrisia não é um adjetivo restrito aos religiosos fingidos de ontem e de hoje. Ao desempenhar seu papel como hypocrites, como ator, segundo ele, o fingimento sai das telas e invade o seu verdadeiro ser. Então quanto ele assedia a moça, não é o cidadão José Mayer, é o hypocrites, é o ator na pele do personagem-cafajeste Tião Bezerra!
    Quando terminava a peça no antigo teatro grego, que os hypocrites tiravam suas máscaras, se reconhecia exatamente quem era o homem por trás da máscara!
    Parece-nos que caiu a máscara de José Mayer, literalmente foi desmascarado, e por trás do hypocrites/ator galã nos demos conta que está um homem equivocado, sem o devido respeito pelo próximo, que explica suas ações como “fruto de sua geração” (VEJA, 12/04/2017, pág. 78).
     Para quem endeusou o ator, e fez dele seu ídolo, é triste admitir que era apenas um hipócrita!
      Mas não fique triste. O maior drama que aconteceu na história não foi na Grécia. Aconteceu no Monte Calvário, em Jerusalém. Jesus Cristo, o filho de Deus foi crucificado  entre dois malfeitores. Mas o drama do Calvário não envolvida máscaras, nem hypocrites. Jesus vergonhosamente despido levava sobre si nossos pecados.

    Em tempos de hipocrisia, a voz de Cristo ressoa num Brasil cansado de tanto fingimento: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim.” Ele precisa estar no lugar onde colocamos nossos ídolos hipócritas!

sábado, 26 de novembro de 2016

Pastor Russell Shedd... uma perda

            É duro acordar com a notícia da morte de uma pessoa querida. E esta pessoa querida não é um parente próximo, não é um familiar consanguíneo, mas me é muito familiar: Pastor Russell Shedd.
            Meu primeiro contato com ele aconteceu no início dos anos 90, através de sua primeira publicação de grande repercussão no país, a Bíblia Vida Nova, na qual ele é o editor responsável. A minha é daquela versão grande, de púlpito. Eu ainda era um seminarista. E no meu querido Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, comecei a ser influenciado por esse homem sem nunca tê-lo visto.
   Quando fui fazer o Mestrado na Faculdade Teológica de São Paulo, em 2002, ele já não era mais o titular da Cátedra de Novo Testamento.


     Em 2008 fui ao Congresso Vida Nova pela primeira vez. Lá nos inesquecíveis devocionais que antecediam as palestras, pude entender o significado de fazer teologia com o pastor Russell Shedd. É um mix de erudição bíblica, amor ao Senhor e à sua Palavra, e  serviço à Igreja. Na falta de qualquer desses itens teologia pode se tornar sinônimo de arrogância, ou de pragmatismo utilitarista.
         Novamente participei do Congresso de 2012, e por último em março de 2016. Era minha despedida do doutor Shedd. Num intervalo de uma das palestras, o ladeamos e registramos aquele momento numa foto,  eu e meu irmão-amigo Thalison.

        Lembro-me das copiosas lágrimas que me escorriam pelas faces quando o ouvia falar, exposições sempre entremeadas de exemplos práticos de sua experiência pastoral... ainda hoje me ardem o coração, aquelas lembranças!
      Quando esse ano fizemos a Exposição na congregação  da Carta aos Filipenses, pude novamente voltar aos pés do Mestre, através do seu livro Epístolas da Prisão. Às vezes temas áridos eram tratados por ele com singeleza e clareza que nos faziam entender a profundidade dos mistérios do Senhor.
     Por isso, Russell Shedd me é tão familiar. O Senhor toma para si, hoje, um homem que se tornou referencial para mim, de teólogo e servo de Deus. Não existe teólogo sem amor, temor e submissão a Deus. E não existe teólogo sem disposição para servir à obra de Deus.
   Hoje o Brasil tem muitos expoentes da teologia, e das Escrituras. Mas poucos com a humildade, sinceridade, e fidelidade do pastor Russell Shedd. Desde os tempos em que estudei no Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, com pessoas de muitas denominações distintas, aprendi a viver o Evangelho respeitando nossas diferenças doutrinárias, sem proselitismo ou ar de superioridade.
    Pastor Russell Shedd nos mostrou isso, a cada momento. A possibilidade de convivermos como irmãos e enfatizarmos o que nos une, e não o que nos diferencia. Ele proferiu palestras em Seminários e Igrejas de todas as denominações. Fui ouvi-lo na AD Cidade, na Sede da IEADTC. Ainda lembro do Congresso Vida Nova de 2008, que reunia batistas como Pr. Israel Belo de Azevedo, Professor Lourenço Rega, presbiterianos como Pr. Augustus Nicodemus e, o bispo episcopal Robinson Cavalcanti. Pastor Russell Shedd nos ensinou que podemos estar unidos para glória de Deus, e em torno da sua Palavra.

    Continuarei dizendo que Pastor Shedd é um dos meus referenciais, embora não mais o tenhamos entre nós. E Deus me convoca a, do meu simples lugar, tornar-me um referencial para as novas gerações. Que o Senhor me ajude... 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Minha consciência negra...

   Minha cidade, Recife, é um lugar de muitos negros. Os engenhos de cana-de-açúcar que a região abrigou desde o tempo de Duarte Coelho exigiram uma quantidade razoável de mão de obra escrava... e esta mão de obra era africana, negra. Vinha nos navios negreiros da África para o Porto de Recife. Estudo da Universidade de Emory, coloca o Porto do Recife como o quinto mais movimentado de todo o mundo no quesito desembarque de escravos. E quando o mercado de escravos foi proibido, o fluxo foi mantido às escondidas, num, literalmente, mercado negro. Os navios não aportavam no Porto de Recife, ficavam um pouco ao sul, e vinham carregados de negros, mas diziam que estavam trazendo “galinhas d’Angola”, por isso o nome de uma das mais belas praias da minha terra: Porto de Galinhas.

  Bem, a cor da pele nunca foi um problema pra nós. Meu avô, Justo José, que todos nós, filhos e netos, o chamávamos carinhosamente de Meu Pai, não era um negro autêntico, era mulato. Sua mãe era branca, mas meu bisavô, o Velho Sansão, era um negro de verdade. Imagino que meu trisavô deva ter sido escravo em algum engenho de cana do litoral pernambucano.

   Por artes da genética, nasci branco. Meus irmãos tiveram a pele mais tostada, trazendo mais próximo os resquícios da mãe África. E quem é mais escurinho a gente sempre chamava de “nego”. Meu irmão Heber, era, e ainda deve ser, “o meu Nego” da tia Moisa, que era a mais morena das filhas do meu avô. Temos uma idade próxima, e eu me lembro de desde criança admirar sua morenice, com lindos cabelos negros escorridos. Levava à loucura os rapazes, quando era solteira!
   Tia Moisa casou com um homem branco, e teve dois filhos, um negro e um branco. O “nego Clevson”, é o nego mais lindo dessa parte do Equador!  Chamar o outro de “nego”, pode ser um xingamento, mas também uma forma carinhosa de se dirigir a alguém que se ama.

   Nos dias de hoje, penso que posso ser preso, pelo que estou escrevendo.
 Na escola, nunca precisamos de um dia de consciência negra, para reconhecer a importância de nossos colegas pretinhos. E naquela época ninguém sofria “bullying”. Então a gente podia chamar o outro de “nego feio”. Como me chamavam de “baleia-fora-da-água” (eu era um garoto gordo).  E ninguém morria.
   Além das relações familiares, a igreja foi outro lugar onde nossa convivência nunca esbarrou com questões ligadas à cor da pele. Na maior parte das décadas de 80 e 90, nosso pastor era um negro, Pr. José Leôncio da Silva. O negro mais amável e carismático que alguém pudesse imaginar. Sua lembrança continua viva na minha memória, e de tantos outros que puderam ser sua ovelha, por algum tempo.
    Lembro que, em nossa congregação na periferia de Recife tinha muitos irmãos negros. Gente tão querida, tão especial, que a cor nunca fez diferença em nossos relacionamentos. Me lembro da irmã “Roxinha”. Imagino que a apelidaram de Roxinha porque era tão pretinha que parecia roxinha. 
    Na minha rede de amigos, nunca separei, estes são os brancos, e aqueles são os negros. Foram sempre meus amigos.
   Hoje as coisas estão diferentes. Outro dia alguém propôs que precisa catequizar quem for negro para que volte às práticas religiosas africanas. Que coisa estranha!!!
   Sempre achei interessante nosso país, onde negros e brancos caminhavam juntos sem enfatizarem a diferença racial. As coisas parece que estão mudando.
    Posso aqui gritar minha origem africana e me definir como afrodescendente. Posso dizer aos meus filhos que busquem as cotas na universidade pois lhes cabe de direito.
    Somos homens, somos seres criados à imagem e semelhança do Criador. Por que enfatizar o que nos distingue? Enfatizemos o que é comum em nós: Somos todos pecadores, carentes da graça do Senhor! 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Em tempos de ebulição política...

Os sinais da Idolatria Política
  (Timothy Keller, em Deuses Falsos, pág. 96 a 98)

Obs. Trata-se de um escritor norte-americano. Qualquer semelhança com o que vemos em nosso país é mera coincidência...

   Um dos sinais de que um objeto está funcionando como um ídolo é que o medo se torna uma das características principais da vida. Quando centralizamos nossa vida em um ídolo, tornamo-nos dependentes dele Se nosso falso deus é ameaçado de alguma forma, nossa resposta é o pânico completo. Não dizemos "Que vergonha! Que dificuldade!", mas sim: "É o fim! Não há esperança!"
    Talvez seja por essa razão que tantas pessoas hoje respondem às tendências políticas dos Estados Unidos de forma tão extrema. Quando um partido ganha uma eleição, certa fração do lado perdedor começa a falar abertamente em deixar o país. Essas pessoas se tornam agitadas e temerosas em relação ao futuro. Elas colocaram em suas agendas e líderes políticos o tipo de esperança que antes era reservado a Deus e à obra do evangelho.Quando seus líderes políticos estão fora do poder, elas experimentam a morte. Acreditam que, se as pessoas e políticas delas não estiverem em ação, tudo irá pelos ares. Recusam-se a admitir as semelhanças entre seu partido e o adversário, concentrando-se em vez disso nos pontos de desacordo. Os pontos de contenda obscurecem todo o resto, e um ambiente venenoso é criado.

     Outro sinal de idolatria em nossa política é que os oponentes não são vistos como simplesmente errados, mas sim maus. Depois da última eleição presidencial, minha mãe de 84 anos observou: "Antigamente, quem quer que fosse eleito como presidente, mesmo que você não tivesse votado nele, era seu presidente. Hoje em dia não é mais assim." Depois de cada eleição, há um número significativo de pessoas que veem o presidente eleito como alguém sem legitimidade moral. A crescente polarização e amargura que vemos na política americana de hoje é um sinal de que transformamos o ativismo político em uma forma de religião. Como a idolatria produz o medo e a demonização?

   O filósofo holandês-canadense Al Wolters ensinou que, na visão bíblica das coisas, o principal problema da vida é o pecado, e a única solução é Deus e sua graça. A alternativa a essa visão é identificar algo além do pecado como o principal problema no mundo e algo além de Deus como o principal remédio. Isso demoniza algo que não é de todo ruim e transforma em ídolo que não pode ser o bem último. Wolters escreve:
    O grande perigo é isolar algum aspecto ou fenômeno da boa criação de Deus e identificá-lo, em vez da intrusão do pecado, como o vilão no drama da vida humana. [...] A Bíblia é única em sua rejeição intransigente de todas as tentativas de [..] identificar uma parte da criação como vilã ou salvadora.
   Isso explica os constantes ciclos políticos de esperanças e desilusões exageradas, os discursos políticos cada vez mais venenosos e o medo e desespero desproporcionais quando um partido perde o poder. Mas por que endeusamos e demonizamos causas e ideias políticas? Reinhold Niebuhr respondeu que, na idolatria política, transformamos o poder em um deus.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A cara do Brasil que não é retratada pelo IBGE e a responsabilidade de cada um

* Obs. Todos os nomes são fictícios

    Mais uma vez trabalhei como mesário nas eleições. Parece um trabalho repetitivo e desinteressante, mas não é. Para mim é sempre uma experiência sociológica única. Nenhuma aula de antropologia na universidade poderia me trazer um retrato tão vívido do povo da cidade, e em menor escala do país.
   O vaivém constante do cara-crachá, da checagem de rotina “documento de identificação com foto” – rosto do eleitor, é um sermão da implacabilidade do tempo. Mas por que o tempo é mais implacável pra uns do que pra outros?
   Sr. H é um homem jovem, a data de nascimento informa. Mas estamos diante de um velho. Um velho trêmulo, que já pela manhã cheira a cachaça. Como no dia da eleição não se vende bebida alcoólica, desconfio que tenha um estoque em sua casa. A bebida se encarregou de debilitar sua saúde e apressar sua velhice.
    O documento de identificação  da Sra. M também nos indica uma mulher jovem. Mas estamos diante de uma idosa. Mais do que isso, alguém com marcas intensas do trabalho e de sofrimento. Fez biometria, mas os dedos estão tão grossos de calos decorrentes do trabalho pesado, que o leitor biométrico se recusa a reconhecer aquele polegar deformado, ou indicador estranho.  

    É.... há labores que não constam nos registros do Ministério do Trabalho, mas não são fictícios. Talvez sejam mais reais do que aqueles que estão sendo contabilizados pela Previdência Social.
   É verdade que o calor de Fortaleza não é para os fracos! Mas isso explica os trajes mínimos das adolescentes e jovens? Normalmente apenas os glúteos das garotas são cobertos; E muitas vezes com peças excessivamente apertadas com o objetivo de despertar os olhares cobiçosos dos homens jovens e velhos.
    Pode-se observar também que boa parte delas vem acompanhadas de crianças. Garotas com menos de 20 anos trazendo crianças que nem são mais de colo, as quais ficam ao lado, puxando pela peça ínfima que cobre os glúteos da garota-mãe.

    Claro que alguns daqueles rapazes que votaram na mesma seção devem ter sido os machos que geraram aquelas criancinhas... e nunca reconhecerão a paternidade. Isso ficará a cargo dos avós... e eles estarão livres para gerar outras crianças, que também não conhecerão o pai!
   Em pequeno número tem aqueles que desistiram do gênero que nasceram. Não é fácil identificar Maria Fernanda, a bonita garota da foto da identidade, que em nada se parece com o garoto musculoso  à sua frente. Ou ainda, fazer a identificação de Carlos Eduardo, o adolescente sério e com cara de macho retratado no documento de identificação com a moça peituda e melosa à sua frente.
    Pensa-se no futuro do país a partir dos governantes eleitos. E se pensarmos a partir do povo? E se cada brasileiro anônimo entender que o futuro desse país depende de cada um de nós? Que há consequências macro e micro para os vícios, os atos irresponsáveis!
    Eu sei que é politicamente incorreto dizer isso. Melhor pensar que são todos vítimas do sistema cruel e opressor. Eu insisto em dizer que há sim, responsabilidade em cada um dos eleitores que compareceram na minha seção para eleger o novo prefeito da cidade!

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Ideologias políticas: Ídolos e utopias

                                                              por Thalison Evangelista

Estamos às vésperas das eleições, e os debates entre candidatos acontecem em todas as grandes emissoras do país. Muita gente assiste, outros não. Alguns se empolgam, outros, na verdade, se horrorizam com a falta de conhecimento, comprometimento, ética e outras virtudes nos candidatos.
O Brasil vem passando por uma espécie de despertar (pouco, diga-se de passagem) no aspecto político. Talvez diante do fato de tantos escândalos de corrupção e também de uma crise financeira enorme, as pessoas procuram saber o motivo por trás de tudo isso. Mas esse tipo de despertar nos esclarece, ou pelo menos nos alerta, para outro tipo de problema, a saber, a esperança depositada na política (ideologias, partidos, etc.).

Nós vivemos em um mundo profundamente secularizado, apesar de ouvirmos muito a palavra “espiritualidade”, na verdade ela hoje é usada em muitos sentidos, menos no sentido real. Mas, embora secularizado, o homem jamais deixou de ser um “ser religioso”, pois é da sua natureza adorar. Mesmo o mais ateu dos ateus adora alguma coisa, seja o objeto de adoração um animal, dinheiro, sexo, poder ou ideias.
David Koyzis argumenta em seu excelente livro “Visões e Ilusões Políticas”, que “a ideologia provém do comprometimento religioso (idólatra) de uma pessoa ou comunidade”. Talvez soe estranho para nós, modernos, essa afirmação. Afinal, estamos acostumados a ver política totalmente separada de religião, e enquanto no meio cristão se vive uma espécie de esquizofrenia em que no contexto da vida “secular” somos movidos por pensamentos diferentes em várias situações, vivendo uma dicotomia, no meio não cristão costumamos ouvir: “Não se discute religião, política e futebol”. Mesmo parecendo estranho, queremos apontar alguns argumentos que mostrarão fazer muito sentido o que Koyzis diz.
A “ideologia é religião invertida”, diz o historiador Russell Kirk. Nós diríamos ainda que ideologia é uma religião reducionista. Ela nasce primeiro no imaginário do ideólogo, e depois tenta se encaixar na realidade. Assim, para poder fazer sentido, necessariamente precisará descartar algumas verdades da criação, criar outras, e distorcer outras tantas. Dessa maneira, ela acabará formando uma visão errada da criação, criando formas distintas de enxergar o que é o mal, e mostrando formas ruins de redenção para esse tipo de mal.

Alguns pensadores, ao analisarem os totalitarismos políticos, percebem que na raiz do pensamento dos totalitários, está sua maneira equivocada de perceber quem é o homem. Mas, poderíamos ir além, percebendo que, na verdade, suas maneiras de enxergar a criação são distorcidas. Por exemplo, na ideologia socialista/comunista, a liberdade individual e grupos que pensam de forma diferente (opressores) são vistos como o mal da criação a ser combatido, por isso, o próprio Marx percebia que era necessário a ditadura do proletário, e necessário também a luta armada, para o fim dos “opressores”, que atrapalham a paz e a prosperidade mundial. Essa forma de ideologia, apesar de mostrar sua ineficiência em vários países, ainda é almejada por muitos, como uma esperança utópica, uma “religião”. Mas não só ela, como todas as outras ideologias são vistas também como esperança política para a humanidade.
Existe um perigo enorme na adoção dessas ideologias, pois como afirma o professor Francisco Razzo, em sua obra "A Imaginação Totalitária",  “na articulação conceitual, uma variável pode ser eliminada com a força do raciocínio, [mas] no mundo da vida, que é o mundo de pessoas vivas e reais, eliminar variáveis pode significar eliminar pessoas”, ou seja, nossas ideias têm consequências práticas, e elas podem ser catastróficas. Quando se delimita o pensamento a um âmbito restrito, podemos pensar o que for. Porém, quando se tenta levar as mais variadas formas de pensamentos para a realidade, e transforma-las em verdade absoluta, as consequências podem ser terríveis e irreparáveis. O homem insuficiente, tenta criar uma maneira de pensar que corresponde a tudo, e falha por ser justamente insuficiente, e não conseguir visualizar tudo. Apesar das falhas, as ideologias tomam o coração humano com a força de um ídolo, que por sua vez exigirá nosso sacrifício, e também dos outros.

A ideologia surge da nossa estiagem espiritual. Trocamos o Deus cristão por diversos ídolos, incluindo nossas próprias ideias absurdas. A confiança na graça salvadora através de Cristo, é substituída pela confiança ideológica-política. O escatológico dia do juízo final, onde a justiça será manifesta de forma perfeita por Deus, agora é realizado aqui e agora, onde são julgados e aniquilados aqueles que são contrários e atrapalham a imposição de nossa ideologia.  A esperança no porvir, nos novos céus e nova terra, é alterada pela utopia da “Sião terrena”, a perfeição na terra. Como diria Kirk, “a ideologia, em suma, é uma fórmula política que promete um paraíso terreno à humanidade; mas, de fato, o que ela criou foi uma série de infernos na terra. ”
É possível que o ideólogo questione se o Cristianismo não funciona também como uma ideologia. A resposta é simples: Não. O Cristianismo é, na verdade, revelação de Deus. Não é produto de uma imaginação de ideias feita por alguns intelectuais, portanto não pode ser chamado de ideologia. A ideologia é materialista e naturalista, e por ser reducionista desse modo, não levando em consideração toda a realidade criada, sempre vai errar em sua visão total, apesar de acertar em alguns aspectos. O Cristianismo não é materialista, nem naturalista, mas percebe que existe Alguém absoluto de onde temos o referencial para afirmar o que é a criação, o que é o homem, o que é mal e o que é bom. A ideologia, no entanto, não tem referencial absoluto para afirmar o que é bom, ou o que é mal, utilizando somente a razão como forma final de avaliação. O conflito, por fim, será inevitável, pois, como sabemos, cada ideologia tem suas ideias do que é bom e do que não é, cada uma afirmando que algo deve ser combatido e aniquilado, apontando cada qual à uma redenção diferente e ineficaz. Assim, os meios para alcançar os objetivos redentores não são levados em conta, e no sentido mais maquiavélico, os “ideolatras” levarão suas ideias adiante, rumo ao inconcebível.

É preciso perceber qual cosmovisão estamos utilizando para avaliar nossas decisões. É necessário analisar nossa maneira de pensar, e perguntar a nós mesmos por que julgamos tal ação mais valiosa que outra.
Os Cristãos devem ter sua mente cativa à Palavra de Deus, que é o referencial para toda forma de julgamento de visões. É através dela que analisamos cada ação, cada ideia proposta, cada ideologia, em seus aspectos bons e ruins. Qualquer candidato que fale a verdade, seja ele ateu ou não, fala por Deus, pois, “toda verdade, é verdade de Deus”, mas, se fala mentira, seja cristão ou não, não fala por Deus, pois, “seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso”.

Que a nossa esperança seja aquela que ainda não podemos ver, como escreve o Apóstolo Paulo. Que ela seja depositada em Jesus Cristo, Filho de Deus, nosso Salvador, Redentor e Senhor, e não nos governantes desta terra, tão falhos como qualquer um de nós, e busquemos àquele a que toda forma de governo deve estar sujeita.