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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Ouvistes o que foi dito... Eu, porém, vos digo



  

   Parte do sermão do monte é destinada a uma seção com esta estrutura: Ouvistes o que foi dito... eu, porém, vos digo (Mt 5 21-48). Esse trecho do sermão de Jesus é precedido de um esclarecimento acerca do cumprimento da lei de Moisés, ou da possibilidade de Jesus estar ali com a missão de abolir a lei: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas, não vim abolir, mas cumprir...” (Mt 5.17)
    A lei foi um estágio importante de nosso aprendizado, e não pode ser simplesmente ignorada, ou abolida. Jesus veio ampliar o seu entendimento e aplicação.
   Esse trecho do sermão é finalizado com uma exortação: Sede vós teleioi (perfeitos, adultos, maduros) como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus (Mt 5.48). O sentido natural de teleios é adulto, aquele que atingiu o pleno estágio de desenvolvimento, em contraponto aos bebês, garotos.
    O caminho para o teleios passa necessariamente pelo “ouvistes que foi dito”. Foi o próprio Deus que idealizou o “estágio seguinte”, tendo em vista o descumprimento da aliança por parte de Israel:
    Eis que dias vêm, diz o Senhor, em que farei um concerto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá... Mas este é o concerto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: porei a minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Jer 31.31-33).
    Enquanto a lei estava escrita em tábuas de pedra, num novo estágio a lei estaria escrita no coração de cada homem.
   Ao recapitular algumas ordenanças da lei, Jesus vai ampliando necessariamente a sua aplicação:
   Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela (Mt 5.27-28).
    Alguns dos maiores problemas dos leitores da bíblia hoje tem a ver com ignorar este princípio estabelecido por Jesus:  Ouvistes que foi dito... eu, porém, vos digo. No Antigo Testamento temos a palavra de Deus, que não foi abolida, mas precisa ser entendida à luz deste princípio: Ouvistes que foi dito... eu, porém, vos digo.  Se ignorarmos esse princípio teremos posicionamentos errados,  atitudes equivocadas, entendimentos falhos, e ainda estaremos afirmando sermos bíblicos!
    Vejamos alguns exemplos:
    Ouvistes que foi dito... que Elias quando ameaçado pelos soldados do rei Acazias pediu que descesse fogo do céu e consumisse o capitão que veio prendê-lo e os seus 50 soldados, tendo isto acontecido por duas vezes (II Rs 1.9-12).
  Ouvistes que foi dito... o sacerdote Joiada foi o mentor espiritual e conselheiro do jovem Rei Joás, que inclusive, sob sua orientação  promoveu uma reforma no templo de Deus. Após a morte de Joiada, Joás deu ouvidos a conselhos ímpios e desviou-se do Senhor. O Espírito de Deus revestiu a Zacarias, filho de Joiada e profetizou trazendo a palavra de juízo de Deus. O rei Joás mandou apedrejar Zacarias no templo:
     Assim o rei Joás não se lembrou da beneficência que Joiada, pai de Zacarias, lhe fizera; porém matou-lhe o filho, o qual, morrendo disse: O Senhor o verá e o requererá (II Cr 24.22).

    Ouvistes que foi dito... Salmos imprecatórios! Entre os salmos de louvor, de gratidão, estão alguns salmos classificados como salmos imprecatórios. Estes salmos são clamores por vingança. São pedidos que a justiça de Deus se manifeste sobre os ímpios. Algo parecido com o clamor final do profeta Zacarias ao ser apedrejado.
   Consome-os na tua indignação, consome-os de modo que não existam mais, para que saibam que Deus reina em Jacó até aos confins da terra (Sl 59.13).
    Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente (Mt 5.38).
     Pelos exemplos que estamos trazendo, percebe-se que o homem do Antigo Testamento tinha uma noção muito elementar da misericórdia e da graça de Deus. Seu estágio de aprendizagem ainda é muito rudimentar. Mas, importante, necessário, válido!
    Antes de chegarmos ao “Eu porém vos digo”, de Cristo,  precisamos citar dois livros do Antigo Testamento que nos apontam um avanço significativo dessa aprendizagem: Oséias e Jonas.
    Em Oséias veremos algo totalmente novo. Um profeta é mandado para casar com uma moça de reputação moral comprometida, após o casamento e os filhos que se sucedem, ela volta aos costumes de prostituição, e adultério, então ele retorna, a acolhe novamente, recebe-a novamente como sua esposa, a perdoa e ama. O que havia sido dito, olho por olho, dente por dente, previa a morte por apedrejamento daquela mulher adúltera. Não o perdão, e a reconciliação.

   Mas tudo o que acontece em Oséias não é iniciativa do profeta, é ordenança de Deus. Então nós teremos de fato algo novo, mas não porque no coração desse homem tenha perdão ou misericórdia, mas porque ele estava sendo obediente a voz de Deus.
    Em Jonas fica mais claro ainda a resistência do homem em operacionalizar a graça e misericórdia de Deus. Um povo idólatra, só merecia a destruição. Deus em seu amor e graça envia Jonas para despertar o povo de seu erro. Jonas não quer  trazer a mensagem porque quer ver o cumprimento do “olho por olho, dente por dente”. Fica então frustrado quando o povo se arrepende e Deus não destrói a cidade.
    Eu porém vos digo...
    Quando Jesus enviou alguns discípulos para preparar pousada numa aldeia de samaritanos, estes não foram recebidos pois o seu aspecto era de quem ia a Jerusalém. João e Tiago então disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Jesus os repreende e diz: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia (Lc 9.51-56).
   Os discípulos estavam vivendo um outro momento, mas continuavam apegados ao “ouvistes o que foi dito”. Pedir fogo do céu para consumir alguém parece ser tanto mais espiritual, quanto bíblico, afinal Elias o havia feito! Mas não é este o espírito que Jesus foi enviado. Não de destruição, mas de restauração.
    Discutindo sobre o perdão, Pedro pergunta a Jesus:
    Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete (Mt 18.21-22).
    Perdão parece ser algo muito novo para Pedro, acostumado aos salmos imprecatórios! Então ele propõe que possa perdoar sete vezes o seu irmão. Sendo isso um avanço impensável! Jesus então diz, não sete, mas setenta vezes sete. Este número é uma inversão da vingança encontrada em Gn 4.24... Eu, porém,  vos digo!
     Pedro diz que dará a sua vida por Jesus, Jesus então lhe diz que “não cantará o galo enquanto Pedro não tiver lhe negado três vezes” (Jo 13.37-38).
     Pedro nega a Jesus três vezes, como fora predito. Lucas registra que:
     E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe tinha dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes. E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente.  (Lc 22.61-62)

      Como poderia ser ele perdoado depois de tão grande pecado contra seu Senhor?
     Ouvistes o que foi dito... Eu, porém, vos digo.
     Zacarias ao ser apedrejado clamou pela vingança divina: O Senhor o verá e o requererá. Jesus crucificado entre dois ladrões, com uma coroa de espinhos em sua cabeça, vendo suas vestes sendo repartidas, sofrendo o escárnio da multidão, bradou:
     Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. (Lc 21.34)
     Após sua ressurreição Jesus encontra Pedro e os demais discípulos no Mar da Galileia, conversa com Pedro e indaga se ele o ama. A pergunta é feita por três vezes, a mesma quantidade de vezes que Pedro negara Jesus. Ao final Jesus diz a Pedro: Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21.15-17).

    Jesus não apenas enuncia uma ordenança, ele o faz. Ele não apenas diz a Pedro que devemos perdoar tantas vezes sejam necessárias. Ele perdoa Pedro, e restabelece a amizade de ambos. É o Deus-Homem que entre nós está, vivendo nossas decepções, frustrações, sendo negado, traído e humilhado, que tem toda a propriedade para dizer: Pai perdoa-lhes.
     Jesus não apenas é o exemplo. Ele, através do seu Espírito Santo, nos capacita a agirmos como ele. Pois o seu concerto está nos nossos corações. Não agimos apenas porque fomos ordenados a agir, como Jonas ou Oséias, agimos porque nosso coração é habilitado para assim fazê-lo.
    Ouvistes o que foi dito... Quando Zacarias estava morrendo apedrejado bradou: Deus o verá e o requererá.
    Estêvão foi injustamente acusado de blasfêmia, após ter pregado um dos mais belos sermões da história. Ao ser apedrejado, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado (At 7.60).

    Ninguém ordenou a Estêvão que assim o dissesse, mas o seu coração cheio de amor pelo Senhor Jesus, pôde expressar livremente essas palavras.
    Que seja assim conosco, em pleno século XXI... que no nosso coração fale mais alto “eu, porém, vos digo”.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Episódio da Mulher Adúltera ilustra texto de Gálatas

     Estudando a epístola aos gálatas para expor no culto de ensino da igreja revejo o trecho já mui conhecido:
     “Então, para que serve a lei? Ela foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem a promessa havia sido feita... (Gl 3.19) Mas a Escritura colocou tudo debaixo do pecado, para que a promessa fosse dada aos que creem pela fé em Jesus Cristo. Mas, antes que viesse a fé, éramos mantidos debaixo da lei, nela confinados para a fé que haveria de ser revelada. Desse modo, a lei se tornou nosso guia para os conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas tendo chegado a fé, já não estamos sujeitos a esse guia. Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gl 3.22-26).  

     A leitura desse trecho paulino me faz lembrar o episódio registrado por João em seu evangelho, no capítulo 8:
    “Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras. Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo. Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos e disseram a Jesus: "Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz? "

     Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: "Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela". Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão.
     Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando com os mais velhos. Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele.
     Então Jesus pôs-se de pé e perguntou-lhe: "Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?”  "Ninguém, Senhor", disse ela. Declarou Jesus: "Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado.” (Jo 8:1-11)
    Agora vejamos como o episódio da Mulher Adúltera ilustra as explicações paulinas:
    Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher flagrada em adultério.  Indaga Paulo, para que serve a lei?  E ele mesmo responde “por causa das transgressões”. A resposta é muito sucinta e talvez não esclareça plenamente. Então pode-se usar outro texto paulino para lançar mais luz sobre a questão: “Eu não conheci o pecado senão através da lei, pois eu não teria conhecido a concupiscência se a Lei não tivesse dito: Não cobiçarás.” (Rm 7.7)

   Os fariseus sabiam que a mulher havia pecado porque a lei afirmava isso. Eles não chegariam a essa conclusão por si mesmos.  A lei indicou que havia pecado, e esse pecado conduzia à morte. Naquele caso, o apedrejamento. A punição que a lei previa era para que o homem assimilasse a gravidade da transgressão.
    Mas pecado não era apenas o adultério da mulher. Dizia Paulo:  “A Escritura colocou tudo debaixo do pecado”.  Jesus se levantou, olhou para os homens que traziam a mulher e indagou: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez começando com os mais velhos.

    A lei apontava claramente o pecado não apenas da mulher, mas de todo o homem.  E aqueles fariseus e homens da lei entenderam isso. Nesse episódio fica claro qual era o objetivo da lei, e também que ela cumprira satisfatoriamente sua finalidade: Deixar claro, que todo o homem é pecador diante de Deus!
   Agora a mulher estava ali, diante de Cristo, trazida pelos ditames da lei. Sem nada que pudesse falar a seu favor, a não ser a fé no homem que tinha nas mãos o seu destino, pois a lei previa seu apedrejamento. Mas Jesus a perdoou, dizendo: Vá em paz e não peques mais.  Paulo resumiria o que aconteceu com as seguintes palavras:  Desse modo, a lei se tornou nosso guia para os conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas tendo chegado a fé, já não estamos sujeitos a esse guia.
   Vivamos pela fé, na Salvação graciosa do Senhor que nos libertou da maldição da Lei!!

   

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O Brasil nas palavras do profeta, por Thalison Evangelista

Profeta de Judá, da cidade de Morosete-Gate, teve sua atividade profética entre a ascensão ao trono de Jotão (740 a.C) e a morte do rei Ezequias (686 a.C). Seu nome é Miqueias.




Por que um profeta que viveu a aproximadamente 2700 anos atrás teria relevância para nós? Porque sua voz é mais atual do que nunca, “sua mensagem é contundente, oportuna e absolutamente necessária. Miqueias está vivo, ele está nas ruas. Sua mensagem deveria estar estampada nos jornais mais conceituados e mais lidos, nos corredores das câmaras de mandatos populares, nos tribunais de justiça e nos púlpitos evangélicos. ” (Hernandes Dias Lopes, Miqueias, Ed. Hagnos, 2008). Apesar de Miqueias não ser popular hoje em dia, ele foi lembrado em um púlpito evangélico ontem (26/06/2016). Este pequeno texto é baseado em uma exposição de Miqueias capítulo 7, versos 1 a 7, que foi feita na igreja Assembleia de Deus Quintino Cunha, pelo pastor Ezion.
No tempo do profeta que estamos falando, houve um rei chamado Ezequias, que reinou em Judá e empreendeu uma grande reforma no templo, e pode-se observar uma renovação do culto a Deus (Levitas e Sacerdotes foram reconsagrados; buscou-se eliminar a idolatria reinante; os dízimos e ofertas foram novamente restabelecidos, etc....). Mas será que esse fervor espiritual se manifestou também por todas as esferas da vida, como na família e nos negócios, ou ele ficou somente preso aos templos?  Essa resposta Miqueias nos dá:
Ai de mim! Porque estou como quem colhe as frutas do verão, como os que rebuscam na vinha; não há cacho de uvas para comer, nem figo novo que tanto desejo. (1)

O homem piedoso foi aniquilado da terra; não há sequer um justo entre os homens; todos armam ciladas para derramar sangue; cada um caça seu irmão com uma armadilha. (2)

As suas mãos estão aptas para fazer o mal. O príncipe e o juiz exigem suborno; os nobres impõem seu próprio desejo. Todos eles tramam o crime. (3)

O melhor deles é como um espinheiro; o mais justo é pior que uma cerca de espinhos. Chegou o dia anunciado por seus vigias, o dia de castigo; agora começará a sua confusão. (4)

Não creiais no amigo, nem confieis no companheiro; tende cuidado com o que dizeis até para aquela que vos abraça. (5)

Pois o filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, e a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os da própria casa. (6) (Miquéias 7.1-6)

Certamente esse fervor não estava visível para Miqueias, a justiça e a misericórdia estavam ausentes dos corações das pessoas. Para o profeta a injustiça não passa desapercebida, ele brada no verso 1 se identificando com o sofrimento visível e cruel de seu tempo. O avivamento não havia saído das paredes do templo. É incrível como nós observamos isso hoje, quando o crescimento dos evangélicos é cada vez mais notável, mas a violência e a corrupção não cessam. Nossos dias são marcados por “avivamentos” presos aos templos, onde grandes igrejas estão mais preocupadas em engrandecer o seu nome no meio da sociedade, do que em proclamar o Evangelho do Senhor Jesus Cristo. Isso é espelhado em “crentes” que buscam cada vez mais a “vitória” a todo custo, inclusive por meios ilícitos (Quantas vezes você não viu na TV, que vários dos que foram presos ou que são alvo de alguma investigação, são de igrejas evangélicas?).

        A espiritualidade verdadeira não está restrita ao templo. A espiritualidade verdadeira ganha as ruas, as casas, os colégios, as faculdades, as instituições onde frequentam aqueles que passaram por um avivamento, através de um agir transformado, de uma atitude nova, de uma nova postura.
Encontrar um homem benigno, ou piedoso, nos tempos dele era uma tarefa praticamente impossível, pois a corrupção era generalizada. Os grandes tramavam o mal e articulavam como iriam sair da lava-jato... não, quero dizer que os grandes tramavam o mal e planejavam como iriam ganhar mais.
Quando Miqueias fala que ainda virá “o dia anunciado por seus vigias, o dia de castigo; ” e que “agora começará a sua confusão”, é inevitável que nos venha a mente a situação do Brasil. Todos os dias ao abrirmos os jornais somos bombardeados por uma enxurrada de notícias de políticos, empresários, e outros sendo presos ou planejando fugir das investigações.... Certamente o dia de castigo chegou, e começou a confusão de todos os corruptos! Somos gratos ao juiz Sérgio Moro e sua equipe (#somostodosMORO!), mas também sabemos que, na verdade, o próprio Deus os tem levantado para tal obra.

O profeta ainda nos faz mais alertas, e nos diz que até mesmo aqueles mais próximos também não são confiáveis. Nós precisamos nos percebermos, e não só chamarmos todos os outros de corruptos. Somos o povo do “jeitinho”, e a todo momento estamos planejando como enganar o nosso próximo para obter alguma vantagem. Às vezes não cometemos algum crime somente porque não temos oportunidade, mas nosso coração está cheio de corrupção e maldade.

É hora de clamarmos por misericórdia ao nosso Deus, e confiar nEle. Imitar Miqueias, ao dizer: “Eu, porém, olharei para o Senhor; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá. ” (Miqueias 7.7). Que possamos ter vivo em nosso coração a esperança, e saber que ela não pode ficar presa as quatro paredes do templo, mas sim refletir em todas as nossas atitudes, de todas as esferas da vida.
Gostaria de cantar com você essa canção/oração, ainda tão atual como há algumas décadas. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O caminho do Evangelho: a saída necessária

      "Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério." Heb 13:13


     Ser cristão é assumir o desafio da não acomodação, é entrar pela porta estreita, é entender que precisa negar a si mesmo e levar a sua cruz diária, é levar na vida a vergonha da cruz. Coisa difícil de se falar no mundo de hoje onde se prega e se vive o evangelho da acomodação, do bem-estar e da realização pessoal.
   Quando um jovem veio se prontificar a seguir Jesus, o mestre não lhe mostrou as alegrias do discipulado, e sim, as agruras e obstáculos do mesmo, e a outro ele mostrou que seguir a Cristo é uma questão de prioridade (Mt 8.18-20).
    Os ensinos de Jesus foram testados na prática tão logo as dificuldades começaram a surgir. No caso da comunidade de judeus cristãos, quando perseguida pelas autoridades romanas pensaram em voltar à prática do judaísmo. O judaísmo era uma religião lícita, dentro da legalidade, no império romano. Abraçar o cristianismo já era outra história, significava abraçar uma fé ilegal, uma crença não reconhecida pelo Estado, e portanto, perseguida e marginalizada. É nesse contexto que a epístola aos Hebreus é escrita.  Seu autor mostra que não houve uma ruptura entre os profetas da Velha Aliança e os ensinos de Jesus. Ele começa sua carta afirmando:
     "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho..." (Heb 1.1)
     E a carta é uma defesa da superioridade do novo concerto, e que a lei e suas ordenanças eram sombras do que seria definitivo (Heb 10.1). Já no final da carta, o missivista lança um desafio aos seus leitores:
   "Porque os corpos dos animais, cujo sangue é, pelo pecado, trazido pelo sumo sacerdote para o santuário, são queimados fora do arraial. E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério." Heb 13:11-13
     Para os cristãos judeus que estão relutando em se expor ao seguir Jesus, que estão protegidos no arraial do judaísmo, lhes é lançado um desafio: Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando a sua vergonha!
    Porque os corpos são queimados fora do arraial, e Cristo padeceu fora da porta. Vamos também nos expor fora das portas.
    O arraial ou acampamento ao qual se refere o escritor aos Hebreus remonta aos tempos de peregrinação de Israel no deserto. Fora do arraial era o lugar da sujeira, de algo que podia contaminar. Foi por isso que ao ser vista como leprosa, Miriã é conduzida para fora do arraial (Nm 12.14). Lugar de leprosos é fora do arraial, fora das portas da cidade, por isso que eles foram os primeiros a descobrir que os sírios haviam fugido do cerco a Samaria (II Rs 7.3-8).

    Fora das portas aconteciam algumas abominações e rituais de idolatria, como os sacrifícios de crianças, que ocorriam no Vale do Filho de Hinom (II Cr 33.6), ao sul das muralhas de Jerusalém.

     Fora dos muros era o lugar das crucificações, onde eram expostos para todas as pessoas os indivíduos que se tornaram persona non grata para o império romano, onde se executavam ladrões, rebeldes, pessoas perigosas para a sociedade. A lei de Moisés previa a execução por crucificação, mas informava que o pendurado era maldito (Dt 21.22-23).
    Para nos santificar, Cristo padeceu fora dos muros, tornou-se maldito, foi condenado como criminoso.

   Imagino que para o judeu do primeiro século declarar-se seguidor de um criminoso deve ter sido coisa muito complicada. Sou adepto do crucificado. Não existia vergonha maior. Mas a cruz que ele levou não era sua. Como diz um velho hino, a cruz que ele levou não era sua, era minha, era tua, era de Barrabás! E muitos anos antes, o profeta bradava: "Ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras, fomos sarados" (Is 53.5).
     Para santificar o seu povo pelo seu próprio sangue, ele padeceu, fora da porta! Saiamos, pois a ele, fora do arraial, levando a sua vergonha.

    Ainda durante o julgamento de Jesus, os seguidores de Cristo tiveram dificuldade em cumprir esse desafio. Mateus é o único que registra o que está implícito nos outros evangelhos: Por ocasião da prisão do Senhor, "todos os seus discípulos, deixando-o, fugiram" (Mt 26.56), com exceção de Pedro, que o segue de longe (Mt 26.58), mas não quer sair e levar a sua vergonha, por isso o nega três vezes (Mt 26.69-75). Este fato, sim, registrado em todos os evangelhos, talvez para nos alertar, quão difícil é "sair a ele fora do arraial, levando a sua vergonha".
    Os primeiros dias após a ressurreição, os discípulos ficam no cenáculo orando. É a descida do Espírito santo que lhes capacita a sair fora do cenáculo, e se expor no dia da grande festa de pentecostes, levando a sua vergonha. E o mesmo Pedro que o negara, agora em alto e bom som se identifica com a vergonha do crucificado, afirmando: "A Jesus Nazareno... a este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos; ao qual Deus ressuscitou..." (At 2.22-24).
    Porém, era seguro, era cômodo, era providencial, continuar em Jerusalém. Pra que se expor fora das portas? Fora do arraial tem samaritanos misturados, tem gentios pecadores... enfim, toda sorte de leprosos espirituais e idólatras!
   É uma perseguição que vai fazê-los sair fora das portas levando a vergonha de Cristo (At 8.1). Tudo bem, que judeus fora da Palestina possam ser cristãos, mas gentios? Isso nunca! Não tinha sentido a igreja sair fora das portas do judaísmo. Quem quisesse abraçar a fé cristã precisava entrar pelas portas do judaísmo, se circuncidando, guardando a lei...
   É preciso que Pedro tenha uma visão que lhe faça mudar de ideia (At 10.9-16), e que um Concílio em Jerusalém (At 15) ratifique que o desafio da igreja é "Sairmos a ele fora do arraial levando a sua vergonha!"
   O apóstolo Paulo foi um dos primeiros a entenderem plenamente essa verdade. Mas houve momentos em que não foi fácil cumpri-la. Ninguém imagine que sair fora do arraial levando a sua vergonha é algo simples. Explico:
   Paulo realizou sua primeira viagem missionária pelas regiões da Cilícia (sua terra natal), Chipre, Pisídia e Galácia. Não enfrentou nenhum grande centro grego, nenhuma grande metrópole universitária, nenhum grande centro filosófico.
   Em sua segunda viagem missionária ele visita as igrejas fundadas anteriormente, e então pensa em ir para a Bitínia (At 16.7), ao norte, onde continuaria pregando em médias e pequenas cidades, utilizando o apoio inicial dos judeus que fossem convertidos, e que talvez não vissem na mensagem do evangelho motivo de grande afronta.

    Paulo porém, foi impedido pelo Espírito Santo de ir à Bitínia.  Numa visão é chamado a passar à Macedônia, adentrar a Europa, pisar em solo grego, pregar nas metrópoles cultas e famosas da Grécia. Como esse povo receberia a mensagem do crucificado? Esse era o grande temos de Paulo. Não tendo outra opção Paulo vai à Europa, saindo fora do arraial, levando a vergonha de Cristo.
     Seus temores em parte se confirmam, quando sua pregação no areópago ateniense é bruscamente finalizada pois muitos intelectuais gregos não se interessam em ouvir sobre um crucificado que morre e ressuscita (At 17.32-34).  Alguns porém creem. Paulo é assaltado por um temor (I Co 2.3), vontade de não sair fora mais, temor de levar a vergonha de Cristo e se tornar ridículo diante da intelectualidade grega... Já comprovou que o evangelho é loucura para os gregos e escândalo para os judeus (I Co 1.23). O que fazer? Toma então uma decisão:
   Nada vou pregar, a não ser a Jesus Cristo, e este crucificado! (I Co 2.2). Em outras palavras, vou sair fora do arraial levando a sua vergonha, custe o que custar! É assim que Paulo evangeliza a grande cidade grega de Corinto, e depois Éfeso... É assim que cada um de nós poderá realizar o desafio que nos é proposto. Saiamos a ele fora do arraial, levando a sua vergonha!

segunda-feira, 28 de março de 2016

Governistas e pastores são os últimos a reconhecerem que estamos em crise...

   Admitir que há uma crise em andamento é doloroso para algumas pessoas ou classe de pessoas especificamente. Para quem compõe a base governista, por exemplo, admitir que há uma crise estabelecida é duro, por razões óbvias. Tenta-se disfarçar, camuflar, despistar, enfim mudar de conversa, de forma que não haja uma admissão pública da existência da crise. E acredito que deve haver muita torcida para que tudo não passe de uma “marolinha”, para usar um termo utilizado há anos num momento turbulento.
     Mas há um outro grupo que também resiste bravamente a admitir o contexto de crise. Este é o grupo dos pastores.
      Quando os ventos da instabilidade, da falta de credibilidade, do desgoverno e da desconfiança começaram a soprar com toda a força fazendo balançar a grande nave da economia brasileira, a curva do desemprego teimando em seguir uma curva ascendente, muitos pastores, ministros de louvor e líderes do mundo evangélico difundiram o chavão “nós não estamos em crise, estamos em Cristo”.

    Essas frases de efeito levam as multidões ao delírio, e deixam nos pastores um senso de que a multidão está sendo abençoada, ainda que o chavão seja enganoso. E o tempo encarregou-se de provar que o chavão era demagógico, e enganoso, ainda que fosse utilizado com a melhor das intenções.
       Quando já estava claro que a crise estava instalada, e somente os governistas e alguns pastores teimavam em não admiti-la, subi ao púlpito e com todas as letras preguei acerca da existência da crise. Ainda me lembro que utilizei o texto do profeta Joel 1.3-14:
 Fazei sobre isto uma narração a vossos filhos, e vossos filhos a seus filhos, e os filhos destes à outra geração.
O que ficou da lagarta, o gafanhoto o comeu, e o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu, e o que ficou da locusta, o pulgão o comeu.
Despertai-vos, bêbados, e chorai; gemei, todos os que bebeis vinho, por causa do mosto, porque tirado é da vossa boca.
Porque subiu contra a minha terra uma nação poderosa e sem número; os seus dentes são dentes de leão, e têm queixadas de um leão velho.
Fez da minha vide uma assolação, e tirou a casca da minha figueira; despiu-a toda, e a lançou por terra; os seus sarmentos se embranqueceram.
Lamenta como a virgem que está cingida de saco, pelo marido da sua mocidade.
Foi cortada a oferta de alimentos e a libação da casa do Senhor; os sacerdotes, ministros do Senhor, estão entristecidos.
O campo está assolado, e a terra triste; porque o trigo está destruído, o mosto se secou, o azeite acabou.
Envergonhai-vos, lavradores, gemei, vinhateiros, sobre o trigo e a cevada; porque a colheita do campo pereceu.
A vide se secou, a figueira se murchou, a romeira também, e a palmeira e a macieira; todas as árvores do campo se secaram, e já não há alegria entre os filhos dos homens.
Cingi-vos e lamentai-vos, sacerdotes; gemei, ministros do altar; entrai e passai a noite vestidos de saco, ministros do meu Deus; porque a oferta de alimentos, e a libação, foram cortadas da casa de vosso Deus.
Santificai um jejum, convocai uma assembleia solene, congregai os anciãos, e todos os moradores desta terra, na casa do Senhor vosso Deus, e clamai ao Senhor.
    Joel profetizou num tempo de crise sem precedentes. Ele não fechou os olhos à gravidade da situação. Expôs claramente todas as mazelas e suas consequências, e convocou o povo à santidade e a clamar ao Senhor.

    Quando eu terminei de pregar alguns irmãos vieram falar comigo porque eu tivera muita coragem de pregar dessa forma e admitir que estávamos vivendo uma crise, porque esse parecia ser um assunto tabu para muitos. Melhor pregar que “não estamos em crise, estamos em Cristo”.
     Falei que me espelho nos profetas bíblicos, e tenho um especial apreço pelos profetas menores, que em seus pequenos registros literários trazem uma enorme riqueza de ensinamento. Me lembro que foi com uma citação de outro deles que eu concluí a mensagem, Habacuque 3.17-18:
Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado;
Todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação.
    Estamos em crise, sim, mas Deus está conosco e ele nos ajudará a vencer todas as dificuldades que virão pela frente.

    Fiquei pensando qual o motivo da dificuldade de muitos pastores não admitirem a existência da crise. Me ocorreram duas coisas: Falta de fé, e enamoramento com a teologia da prosperidade. Falta de fé, porque não se consegue imaginar dando conta de todas as obrigações e compromisso num cenário adverso. Melhor acreditar que a adversidade não vai bater nossa parte, e levar os outros a crerem assim também.
    Enamoramento com a teologia da prosperidade... Há muito que a “boa teologia” condena a teologia da prosperidade. Está nos manuais, nas revistas de EBD, nos bons livros teológicos, no discurso institucional das denominações sérias... Mas há um canto da sereia na teologia da prosperidade que atrai até mesmo os mais ortodoxos. Os auditórios querem ser abençoados, querem ouvir uma promessa de vitória e de prosperidade. E é aí, que flertamos com a teologia da prosperidade. E quando se admite que a crise existe, fica mais difícil trazer a promessa da bênção e da vitória para hoje, ou mesmo para amanhã. E acreditem, nos púlpitos não predomina o discurso institucional da denominação, nem da revista da EBD... ali saem as palavras de que está cheio o coração de um pastor... que às vezes é de agradar ao rebanho e atrair novos membros...
     Em tempos de crise, sugiro a todos que aprendam a ler o texto bíblico em seu contexto, e por  favor, deixem de citar isoladamente Filipenses 4.13 “Posso todas as coisas naquele que me fortalece”. Leiam o capítulo inteiro, mas se não conseguem comecem pelo menos no versículo 11:
 Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância.
Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.
Tudo posso naquele que me fortalece.
    Talvez muitos de nossos irmãos, e nós mesmos precisamos reaprender a contentar-nos com o que temos, e a passar aperto, dizendo com alegria: Posso todas as coisas naquele que me fortalece.

     Hoje eu posso falar com tranquilidade que nós estamos em crise, sim. Se alguém discordar de mim, leia pelo menos o título do editorial do jornal da minha denominação: “A bênção de Deus não nos abandona mesmo nos momentos de crise”. Amém, pastor José Wellington.