quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A verdadeira prosperidade

                                          
“...para que o coração deles seja animado, estando vós unidos em amor e enriquecidos da plenitude do entendimento para o pleno conhecimento do mistério de Deus, Cristo, em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e da ciência. (Cl 2.2-3)”
   Quando alguém fala “o verdadeiro” alguma coisa, todo mundo se interessa para saber o que há de novo. O que há de novo na verdadeira prosperidade?
   É interessante como os significados e conceitos mudam ao longo do tempo. O conceito de prosperidade, por exemplo, tem sofrido grandes alterações ao longo da história. Para a sociedade capitalista do século XXI a idéia de um homem próspero é absolutamente diferente de um homem próspero da antiguidade. A sociedade muda e com ela mudam os conceitos, os valores.
    Numa rápida caminhada pela história bíblica poderemos iniciar com um homem próspero chamado Jó:  Era próspero pois tinha muito gado, estamos falando de uma época em que a riqueza vinha da pecuária, foi assim o período patriarcal no qual viveram Abraão, Isaque e Jacó, na maior parte das vezes não tinham terras fixas, eram nômades.. .
 
    Tempos depois, encontraremos um outro homem próspero, chamado Nabal, cuja descrição encontramo-la em I Sm 25.2. Este já não era nômade, ele tinha terras, fazendas, propriedades num local específico, o Carmelo, embora possuísse muito gado. O homem próspero já não é mais nômade, torna-se sedentário, tem terras, que também servirão para a agricultura.
   No livro de Ester vamos encontrar Hamã um político persa muito influente, se vangloriando de sua prosperidade, refletida nos seus muitos filhos, em sua riqueza e no seu status (5.11).

    Diferente dos persas, os gregos não habitavam um país com grandes extensões de terras. Além de serem poucas as terras gregas também eram muito montanhosas. Aos poucos os gregos desenvolveram uma nova noção diferente de prosperidade. Uma prosperidade sem muito gado, sem tantas terras...
    Na Grécia um cidadão próspero era um homem dotado de conhecimento, com trânsito nas artes e nas letras. Os homens de destaque da Grécia não eram homens de muitas posses materiais, Sócrates, Platão, Aristóteles, Arquimedes... foram homens do conhecimento. Foram gregos prósperos em sua sabedoria!

    Paulo evidenciou claramente isto quando escreveu em sua primeira carta aos irmãos de Corinto (uma cidade grega): “Os gregos buscam sabedoria” (I Co 1.22).  A sabedoria grega era um distintivo para a prosperidade dos homens, e marcou profundamente a história da humanidade e muito do que somos na civilização ocidental herdamos dos gregos.
    Quando o apóstolo Paulo dirigia-se aos gregos falando-lhes de Cristo, ele tinha plena consciência de que a mensagem da cruz lhes parecia absurda, loucura. Para tais cidadãos que prezavam o conhecimento e a razão acima de tudo, a idéia de um enviado divino que é crucificado para tirar o pecado dos homens lhes parecia por demais absurda. Homens prósperos em seu saber, em sua cultura, em sua arte... não abriam facilmente o seu coração à vontade do Deus das coisas impossíveis. Quando Paulo em Atenas falou aos filósofos do areópago acerca da ressurreição, eles imediatamente negaram-se a continuar escutando (At 17.32). Em sua prosperidade se achavam auto-suficientes. Em seus corações ricos de conhecimento não havia lugar para o homem da Galiléia que andou com o povo simples às margens do Lago de Tiberíades.
    Apesar de tudo, muitos gregos, não obstante sua prosperidade cultural, foram humildes o suficiente para “negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir Jesus”. Em Colossos, uma pequena cidade grega, na província romana da Ásia, um grupo de crentes se debatia com alguns que gostariam de fazer da fé, mera filosofia, e viviam às voltas com especulações de caráter religioso (conforme Colossenses 2.8).   
    O apóstolo Paulo então escreve a estes irmãos, para esclarecer-lhes acerca da verdadeira prosperidade. A verdadeira prosperidade não está nas ovelhas, camelos, juntas de bois e jumentas de Jó. A verdadeira prosperidade não está nas terras de Nabal no Carmelo, nem nos rebanhos de cabras e ovelhas que ele lá criava. A verdadeira prosperidade não está na grande descendência de Hamã, nem nas suas riquezas, nem em seu status de homem de confiança do Rei da Pérsia.
    A verdadeira prosperidade não está no muito conhecimento de filosofia, nem nas artes gregas, não obstante tudo isso seja importante, e o homem busque, ambicione, esforce-se por obter, nisto não está a verdadeira prosperidade.
        Quando Paulo escreve aos Irmãos da cidade de Colossos, ele próprio está numa delicada situação. Ele está preso, possivelmente em Roma, em companhia de Timóteo, Aristarco, Marcos, Lucas e outros irmãos. Curiosamente ele escreve aos irmãos acerca de prosperidade, de riquezas, de tesouros...
     O que um missionário, fazedor de tendas de profissão, e agora feito prisioneiro, teria a falar sobre prosperidade? Talvez ele não fosse a pessoa ideal para falar desse tema!
    Num mundo de trevas espirituais, no qual o entendimento de muitos foi cegado, permitindo que a prosperidade material e cultural bloqueasse o acesso da mensagem da salvação ao coração do homem, Paulo podia se alegrar com os irmãos de Colossos, e repetir a eles o que dissera aos irmãos de Corinto:
   “A palavra da cruz é insensatez para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos é o poder de Deus. (I Co 1.18)
    A revelação desta verdade, a iluminação divina da palavra da cruz, o entendimento dos propósitos de Deus, isto é a verdadeira prosperidade.  Algo que vai muito além da sabedoria humana dos gregos, ou de quaisquer bens e riquezas materiais deste mundo.
    Quando Pedro testemunhou ser Jesus o Cristo, o Filho do Deus Vivo. Jesus lhe disse: Bem aventurado és tu, Simão Barjonas, pois não foi carne nem sangue que to revelou, mas meu Pai que está nos céus.(Mt 16.15-17)
    Jesus estava dizendo: Pedro você acabou de experimentar a verdadeira prosperidade.  Depois que este glorioso entendimento é alcançado nossa alma percebe que teve acesso a um grande tesouro. Indagado certa vez se queria deixar de seguir a Jesus, Pedro disse: Senhor para onde iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. E nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus (Jo 6.67-69).

    É um mistério oculto a tantos, mas a nós foi-nos revelado. Que bênção, que riqueza, além das glórias terrenas. Paulo resume poeticamente, no primeiro capítulo de sua carta aos irmãos de Colossos a mensagem de Deus revelada:  “Ele nos tirou do domínio das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, isto é, o perdão dos pecados... Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra... Ele é o mistério que esteve oculto durante séculos e gerações, mas que agora foi manifesto aos seus santos, a quem Deus, entre os gentios, quis dar a conhecer as riquezas da glória deste mistério, a saber, Cristo em vós a esperança da glória...”
    Foi a nós que ele se deu a conhecer, se manifestou. Por isso mesmo estando em cadeias, Paulo podia falar de riquezas, de tesouros, de prosperidade...
“...para que o coração deles seja animado, estando vós unidos em amor e enriquecidos da plenitude do entendimento para o pleno conhecimento do mistério de Deus, Cristo, em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.” 2.2-3
    Falar de prosperidade é falar de riquezas, as riquezas da glória,  a plenitude do entendimento para o pleno conhecimento do mistério de Deus, Cristo, isto é a verdadeira prosperidade!
    E esta prosperidade não desaparece, não se vai com as crises econômicas, ou com o mau humor de alguém. E para você que ainda não usufrui desta prosperidade, tenho-lhe um conselho: Torne-se um pobre de espírito... entenda-se carente das riquezas de Deus, necessitado da graça e misericórdia do Senhor. Os pobres de espírito são bem aventurados, pois deles é o reino dos céus.
    Para você que já goza da verdadeira prosperidade, o entendimento do mistério de Deus, Cristo, seja fiel e guarde o que tens para que ninguém tome a tua coroa!

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ritual da virada: Qual o seu?

   
    Esta semana vi num programa de televisão um ator sendo entrevistado e indagado acerca da virada do ano. A entrevistadora perguntou: “Alguma superstição na virada do ano?” Pergunta já feita aos outros com obtenção de várias respostas do tipo “vestir branco, pular sete ondas...” A resposta do jovem ator foi: “Faço minhas orações.”
   Achei interessante a colocação da oração no âmbito da superstição.  Estaria de fato a oração integrando o universo da superstição?
    A palavra superstição vem do latim superstitio, é  utilizada desde o século XIII ou XIV, inicialmente na França, se espalhou por toda Europa.
    Nos diz o dicionário que a palavra significa:  "crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associados". Ou seja, é acreditar em fatos ou relações sobrenaturais, mágicas, fantásticas ou extraordinárias e que também não encontram apoio nas religiões ou no pensamento religioso.
   Parece estranho que num mundo pós-moderno, dominado pela ciência e tecnologia, tanta superstição ainda esteja em voga.  Na verdade, muita gente tem abandonado a crença religiosa por conceituá-la não-científica, não racional, etc. Mas são estas mesmas pessoas que na virada do ano se apegam às superstições... vestem branco, pulam 7 ondas...
   A virada do ano é um momento emblemático. Está o ser humano cara a cara com o seu futuro. Um ano que se inicia, e não se sabe o que ele nos trará. Não há a garantia que se fomos pessoas saudáveis este ano, no próximo não adoeceremos. O futuro é uma incógnita. Não há cálculos que nos permitam garantir absolutamente nada no novo ano. É o Novo, o Desconhecido em toda a sua plenitude.
   Quem imaginaria na virada do ano de 2010 para 2011 que o ator Reinaldo Gianecchini e o Presidente Lula estivessem um ano depois num tratamento de quimioterapia lutando contra um câncer?
   E é neste momento de encontro com o Desconhecido que chega, que o homem pós moderno se curva à superstição. Muitos rituais supersticiosos tem origem nas religiões primitivas:    Pular as 7 ondas significa cortar obstáculos materiais e espirituais, sob a bênção de Iemanjá - divindade rainha das águas e mãe de todos os deuses africanos. Cada pulo deve ser acompanhado por um pedido. Para os mais “crentes”, oferendas de flores e outros mimos tendem agradar à Deusa e garantir sua simpatia. Muita gente repete superstições sem saber qual a idéia por trás das mesmas.
 


      
       O hábito de bater na madeira para afugentar o azar apareceu milhares de anos atrás entre os pagãos, que acreditavam que as árvores serviam de moradia dos deuses. Para chamar o poder das divindades, povos como os celtas batiam nos troncos, afugentando maus espíritos.
     No texto bíblico encontramos em At. 17.22, a palavra grega deisidaimonesterous, traduzida nas versões mais antigas como “supersticiosos”, e nas mais recentes como “muito religiosos”. Curiosamente a palavra pode ser usada de forma ambígua, tanto para significar confiança em crendices irracionais ou presságios (traduzindo-se como supersticiosos), quanto um apego exagerado a crença religiosa  (traduzindo-se como muito religiosos).
   Ao constatar essa ambigüidade preciso fazer algumas considerações:
   Como o ator entrevistado, na virada do ano faço minhas orações, mas minhas orações não podem ser classificadas como superstição. Porque são resultado de minha relação pessoal com Deus, de minha fé no Senhor Jesus, o Deus que irrompeu na História humana, padecendo sob Pôncio Pilatos. E meu culto é racional... Diante do Desconhecido que chega hoje à meia-noite, busco o meu Deus, que cuida de mim e me assegura não um ano sem surpresas ou dificuldades... mas que Ele estará comigo!!!
    Se Ele estará comigo, não preciso ter medo de gato preto, passar por baixo de escada, das sextas-feiras 13... também não é necessário vestir branco para me garantir paz, nem fazer oferendas à rainha do mar...
   Enfim, na chegada do Novo Ano manifesto a minha confiança inteiramente no Senhor... Estarei orando... se você quiser chamar isso de superstição... Feliz Ano Novo!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2011, Última Semana... Nosso Ebenezer

    Faltam poucos dias para dizermos adeus ao ano de 2011. Depois da intensa correria do Natal, da troca de presentes, das confraternizações, celebrações, da disputa pelas compras nos shoppings lotados... esta semana instala-se certa calmaria para que dentro em breve recebamos um novo ano.
  Nas empresas o momento é de férias coletivas ou de levantamentos para inventários e balanços. Inventários para se saber o que se tem, o que foi quebrado, destruído, perdido, danificado, o que será necessário comprar novamente, para reposição. Balanço para se ter idéia do que se produziu, quanto, a que custo, e a que resultado se chegou: positivo ou negativo. A quantificação do resultado de todo o empenho, se foi atingido o alvo almejado, qual  palavra será  utilizada para descrever o período que se finda: lucro ou prejuízo?
  É tempo para um inventário pessoal, um balanço íntimo  para pensar no que foi perdido, danificado, adquirido... refletir sobre o que conseguimos produzir, construir, e a que custo. Analisar sobre as perdas que nos foram infligidas pelas dificuldades da vida, mas também sobre os ganhos que obtivemos, amizades que adquirimos, alegrias que tivemos... gargalhadas que soltamos.
    Pensar nos nossos relacionamentos, o quanto foram danificados, quanto se conseguiu refazer, restaurar... quanto se conseguiu aperfeiçoar. Definitivamente não estamos terminando o ano da mesma forma que o iniciamos. Estamos vendo o mundo, as pessoas e nós mesmos de outra forma. Você já pensou nisso? Olhamos no espelho e achamos que é a mesma pessoa, embora as marcas do tempo teimem em aparecer, na forma de rugas, de cabelos brancos, de espinhas, de barba... Mas mudamos ao longo do ano... Pouco ou muito, mudamos!
    Para além do brilho das luzes natalinas ou dos fogos de artifício do Ano Novo, precisamos inventariar o nosso relacionamento espiritual. A nossa vida com Deus: Quais experiências tivemos este ano? Em que estas experiências nos fizeram crescer no Senhor? Confiamos mais em Deus? Estamos descansando mais nele? Ou nossa ansiedade está nos dominando? O que tem mudado na nossa relação com Deus?
   As dificuldades tem se tornado obstáculos à nossa trajetória espiritual ou estamos confiando ainda mais no Senhor? Nosso balanço espiritual depende de nossa atitude de fé diante do Senhor. Se alguém seguiu o exemplo da mulher de Jó, que diante das circunstâncias adversas distanciou-se do Senhor, isto lhe trouxe a morte espiritual. Mas mesmo para quem percebe um balanço espiritual negativo, há uma promessa de restauração, no livro de Jó  14.7-9:
     “Pois para uma árvore há esperança; mesmo quando cortada, volta a brotar, e os seus brotos não deixam de existir. Ainda que a sua raiz apodreça na terra, e o seu tronco morra no pó, ela brotará ao cheiro das águas e lançará ramos como uma planta nova.”
  Para quem descobriu nos desafios e sofrimentos um Deus presente em sua vida, o ano foi de crescimento. Talvez você ainda possa estar enfrentando grandes dificuldades, mas dirá como Jó: “Eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra.” (19.25)
   Houve um momento na história de Israel em que Samuel fez um inventário e um grande balanço. Fora um período de grandes dificuldades. Olhando para trás Samuel pôde relembrar de acontecimentos terríveis, os quais ele vivenciara e acompanhara de perto. Podia elencar a morte do velho líder Eli, bem como dos seus filhos, Hofni e Finéias, no mesmo momento em que a arca da aliança caiu nas mãos dos filisteus. Fora um golpe tão duro que deu nome ao filho de Finéias, Icabode, que significa “Foi-se a Glória de Israel”. A arca da aliança, sinal visível da Glória de Deus levada de Israel parecia indicar o fim de tudo. Mas “há esperança, mesmo quando a árvore for cortada, ou a sua raiz apodreça no pó, ela brotará ao cheiro das águas”. E Samuel podia recordar o retorno da Arca, o arrependimento do povo, a sincera confissão coletiva, a rejeição e o abandono dos ídolos, um novo pacto de fidelidade com Deus, um grande clamor ao Senhor por livramento da mão dos inimigos filisteus... e a tremenda resposta do Deus dos Exércitos, trovejando desde os céus, propiciando a vitória dos israelitas. Qual o resultado deste grande balanço?
    Relembrando tudo isso, Samuel tomou uma pedra, para servir como marco, como registro, como memorial. Os acontecimentos daquele período mereciam um monumento. Mas o homenageado deste monumento não seria Samuel, nem o próprio povo de Israel. Às vezes atribuímos a nós as nossas conquistas, as vitórias, as superações, e queremos erguer memoriais a nós mesmos. Quem for a Roma, ainda verá de pé os Arcos construídos em homenagem aos imperadores romanos e suas vitórias. Ainda se mantem de pé no Forum Romano os Arcos de Tito, Diocleciano e Constantino. Em Paris, os franceses querendo fazer de sua cidade uma nova Roma, construíram um Arco de Triunfo para celebrar as vitórias de seu imperador, Napoleão Bonaparte. Porém,  aquela pedra que Samuel tomou, tinha um nome, aquele memorial celebrava todos os acontecimentos recentes, e chamava-se EBENEZER: Até aqui nos ajudou o Senhor (I Samuel 7.12). Literalmente a expressão hebraica Ebenezer significa “Pedra da Ajuda, do Socorro”. Depois o poeta ergueria sua Pedra do Socorro num poema que nós conhecemos como o Salmo 46: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia.”
  Neste final de ano, eu e você somos desafiados a levantar um marco, um balanço de gratidão, um inventário de alegria, ainda que as lágrimas ainda fluam do rosto, erguendo com Samuel, em meio aos desafios, que vieram e que virão, com muita fé, uma Pedra da Ajuda, EBENEZER, até aqui nos ajudou o Senhor! Ele é a nossa ajuda, nosso socorro.
   Temos uma decisão a tomar neste final de ano. Chorar com amargura como a mulher de Jó, e nos afastarmos de Deus, ou erguermos nossa Pedra da Ajuda e reafirmarmos com fé, como Samuel: Até aqui nos ajudou o Senhor!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Feliz Natal!!! Remexendo na memória, lembrando de outros natais...

Feliz Natal,

   Antigamente, na véspera de Natal eu ligava para os amigos para desejar Feliz Natal, para dizê-los que eu não os havia esquecido. Naquela época a rede mundial de computadores, hoje chamada simplesmente net, não desfrutava do prestígio nem da acessibilidade que hoje conhecemos e usufruímos.
   Discava, espera atender e então falava.  Ouvia-se a voz, e ao ouvir a voz a memória relembrava alguma coisa que havíamos enfrentado juntos ou compartilhado no trajeto da vida, ou mais especificamente naquele ano.
   Mas em meus “antigamente” eu ainda vou me permitir lembrar da época em que nós oferecíamos cartões de Natal. Não estou falando de cartões virtuais. Estou falando de cartões em papel, cartolina, que nós comprávamos nas livrarias ou nos camelôs de Recife. No fim do ano chovia de bancas vendendo cartões de Natal. Tinha dos mais simples, normalmente era desses que eu adquiria para dar para os amigos, aos mais elaborados, aqueles que quando abertos tocavam música natalina. Cheguei a ganhar alguns desses, dos amigos mais abastados. Era preciso enfrentar as filas na loja das Edições Paulinas, na esquina da Rua da Palma, para adquirir os cartões simples porém cheios de estilo, alguns simples marcadores de páginas... No Natal trocavam-se os cartões. Alguns tinham intenções duplas que iam além do Feliz Natal. Caprichava-se na letra... era um tempo que as pessoas se conheciam também pela caligrafia.
   Ainda hoje guardo os cartões de Natal que ganhei na adolescência e juventude... Olhando a letra visualizávamos o remetente, e seus laços conosco.


   É...   Agora nem ligações nem cartões natalinos... São tantos amigos espalhados por todo este Brasil: Recife, Petrolina, Natal, São Paulo, Rio de Janeiro... na Europa, Estados Unidos...  Porém temos outras maravilhas da modernidade. Temos os torpedos, SMS... Não dá pra reconhecer a caligrafia de quem enviou, é claro! Temos os cartões virtuais... e temos as mensagens massificadas que enviamos de uma só vez para todos os contatos cadastrados. Talvez muitos nem sejam lidos, pois ficaram na caixa de spam...
   É... Não dá pra voltar ao passado, mas também não quero repetir a obviedade da multidão. Quero mandar-lhes uma mensagem que vem do coração, como as ditas em poucas linhas de um velho cartão, ou numa apressada ligação telefônica.
   Feliz Natal a todos os amigos, ouvintes, leitores. Aqueles com os quais compartilhei idéias quer seja numa sala de aula, ou numa palestra, ou de púlpito... ou de uma conversa no blog, orkut, facebook, MSN... aqueles com os quais vivi e convivi ou com quem compartilhei algum momento da minha história.  
   Na troca de presentes não esqueçam do maior de todos os presentes: Jesus, O Grande Presente de Deus para nós... Afinal Ele amou-nos de tal maneira que DEU o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça mas tenha a vida eterna.
   Feliz Natal... Paz entre os homens, pois Deus fez-se homem e habitou entre nós!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Trânsito em Fortaleza: Uma festa à fantasia

   Hoje eu estava dirigindo, no meu trajeto de casa para o trabalho e tive uma idéia que, inicialmente reputei como louca, depois refletindo melhor achei-a original, embora que ainda meio doida! Motoristas em seus carros no trânsito formam uma espécie de festa  à fantasia...

   Vejamos o que os meus neurônios construíram:
    No trânsito não estamos fantasiados ou mascarados, porém, estamos todos  escondidos dentro de um veículo que permite se ver muito pouco de quem o ocupa (especialmente numa cidade como Fortaleza onde o calor e a luminosidade exigem fumês cada vez mais potentes, e ar condicionado ligado no máximo).   Quem vai para um baile à fantasia  pretende ocultar-se por trás de um disfarce ou uma máscara cuidadosamente escolhida, que normalmente corresponderá  à fantasia do mascarado.
    Nosso carro, cuidadosamente escolhido, pode ser nossa fantasia... Será que não é? Fantasia de poder, de beleza,  de status... Dentro de um carro lindo tem cada motorista feio! Mas numa festa  à fantasia só o disfarce se percebe, e é lindo! Deixa todo mundo de queixo caído: Que beleza! A feiúra fica escondida... só o espelho do retrovisor interno teima em revelá-la!

   Fantasia de parecer ser pobre quando se tem demais. Não posso deixar de me lembrar do finado Henrique W. Um engenheiro judeu aposentado do Banco do Brasil podre de rico. Lenda viva no mundo dos unha-de-fome.  Nunca casou. No fim da vida noivou com uma moça mas não teve coragem de casar, afinal seria muito gasto!  Ia todos os dias ao Banco para comer do lanche dos funcionários, mas diziam as más línguas que realmente ele tomava ali o seu café da manhã.  E... Sr. Henrique andava num fusca velho caindo os pedaços. Dava até dó. O rico em sua fantasia de pobre. Na verdade para afastar qualquer um que pudesse ameaçar sua riqueza, mesmo que fosse para pedir uma esmola!
    Numa festa à fantasia  loucuras são cometidas, afinal ninguém descobre a identidade do mascarado/fantasiado, e de fato por trás do disfarce  o indivíduo age sem reservas mostrando quem realmente ele é, sempre com a desculpa do personagem da fantasia. Seja através de ações descontroladas, provocações... agressões.
    No trânsito, pelo menos o que eu vivencio diariamente na ensolarada metrópole alencarina, muita gente põe as “garras de fora” ocultada pelos vidros fumês com visibilidade cada dia mais reduzida.  É o desrespeito nu e cru. É a esperteza de entrar na contra-mão numa rua estreita desrespeitando os demais motoristas que estão na fila do engarrafamento, e depois entrar sorrateiramente na frente dos demais quanto confrontado com um caminhão à sua frente. É a atitude essencial de um bárbaro, que não podendo despejar sua barbárie de peito aberto, para não se tornar motivo da crítica social, o faz de dentro de seu carro, onde está coberto pelo anonimato e protegido pela máscara do seu automóvel.
   É... acho que a alegoria não é tão louca assim, faz algum sentido.  E eu participo diariamente desta festa à fantasia, aberta democraticamente a todos que se dispõem a dirigir nas ruas das  grandes metrópoles. Em meu carrinho popular, resolvi participar fantasiado de Ezion!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Estas crianças já foram disciplinadas com palmadas?



    Estes são os meus filhos, e foram sim, disciplinados com palmadas, e chineladas!
    No meu horário de almoço costumo acompanhar as notícias dos Telejornais do Meio-Dia. Qual não foi a minha surpresa quando ouvi  que nos próximos dias a Câmara dos Deputados vai votar o projeto de lei 7.672/10, que proíbe usar a força física para disciplinar ou punir crianças e adolescentes. A proposta é conhecida como Lei da Palmada.
   Caso a proposta seja aprovada, os pais que baterem nos filhos poderão ser encaminhados para programas comunitários de proteção à família, para tratamento psicológico ou psiquiátrico, para cursos ou programas de orientação, ou ainda receber uma advertência.
    Fiquei me imaginando sendo encaminhado a um programa de reabilitação para pais,  com uma guia para ser examinado por um psiquiatra, que quem sabe me prescreverá um Aldol... ou talvez até algo mais radical: Por que não uma prisão por alguns dias?
    Senhores, é demais para o entendimento de um pobre mortal.  Um país que não consegue dar conta dos milhares de drogados, assaltantes, traficantes e todo o tipo de meliante que assola a população dispõe-se a  legislar proibições sobre educação dos filhos. Eu mereço!
      E uma sorridente psicóloga do alto de sua autoridade de especialista afirmou que “uma criança que recebe palmadas vai perpetrar a violência... será violento com outros também.”  É muito para minha cabeça!
     Fui criança e levei palmadas à beça. Nem por isso nunca saí agredindo ninguém  por aí, como é a tese da nobre psicóloga. Sempre fui um cidadão pacato e pacífico. Amo meus pais, e os respeito, e sei que se me disciplinaram um dia era porque me amavam.
    Sou pai de dois filhos. Pai extremado até.  Participo da educação dos meus filhos em todos os aspectos. Sei que bater não é o primeiro recurso que me vem à cabeça, mas é um recurso necessário para algumas crianças e em algumas fases de suas vidas. Um pai ser denunciado por estar disciplinando seus filhos... é demais! Que Estado é este? Parece até que suas funções estão tão plenamente atendidas que acha tempo para se imiscuir em como os pais criam seus filhos.
     Claro que existem excessos por aí. Mas promulgar uma lei proibindo palmadas porque algum desequilibrado espanca seus filhos, não resolve o problema. Desde quando as pessoas com sério comprometimento psicológico agirão diferente porque o Planalto assim o quis? Não acham que é ingenuidade demais?
    É claro que alguém pode estar no Planalto e ter seus traumas de infância.  Mas daí proibir a TODOS OS PAIS do Brasil disciplinarem seus filhos com palmadas, é outra conversa!  Não ignoro quem tem posição contrária a disciplinar os filhos com palmadas. Somos diferentes, pensamos diferentes, temos opiniões distintas.  Isto é democracia. Mas, pasmem, esta lei disfarçada de preocupações com os direitos humanos é uma sinalização de grave  autoritarismo, pois nos obriga a pensar e a agir igual aos senhores tecnocratas do Planalto. Quem viveu em regimes totalitários conta que as coisas começaram assim, com leis aparentemente inofensivas, depois vieram proibições cada vez mais severas. Estaremos a meio caminho de um novo totalitarismo? É o fim da democracia!
    Gostaria de esclarecer que não sou um ultra-fundamentalista xiita radical semi-analfabeto.  Sou educador de uma grande universidade corporativa, tenho algumas graduações e pós-graduações, sou gestor de pessoas.  Já viajei por muitos países... acho que sou uma pessoa esclarecida!
    Sendo assim terei uma cela especial, e você poderá me visitar. Farei muito gosto em ser sustentado pelo Estado numa prisão ao pagar pelo crime de amar meus filhos, e discipliná-los com palmadas.  É uma metáfora do Brasil: os cidadãos presos com medo em suas casas, e os meliantes  com ou sem colarinho branco soltos ameaçando todo mundo. 
     Sempre tive orgulho de ser brasileiro... hoje este orgulho foi embotado. Fiquei triste. Pra onde caminha nosso país?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Betesda: Queres ficar são?

     Caminhando pelo lado árabe das ruas da Cidade Velha de Jerusalém muitas coisas chamam a atenção do  viajante: O colorido das lojas de tapetes árabes, o cheiro forte do suco de romã vendido a dez shekels (NIS 10), as procissões compostas pelos grupos de peregrinos que se dirigem à Igreja do Santo Sepulcro (alguns levando uma cruz, não muito pesada, mas uma cruz!) e caminham pelas estações da Via Dolorosa...
    No lado judeu da Cidade Velha dezenas de lojinhas vendendo os principais suvenirs de Jerusalém: menorás (candelabros), kipás... para quem não sabe o kipá é aquele pequeno chapéu usado no alto da cabeça dos judeus. Seu uso diz respeito ao temor a Deus, pois a Divina Presença está sempre acima de nós, e foi estabelecido no Talmude há muito tempo.

    Para quem crê a cidade de Jerusalém é um ambiente de catarse. Ali está o Muro Ocidental, conhecido como Muro das Lamentações, que é uma parte do Muro do Templo, no Tempo de Herodes. É um lugar sagrado do judaísmo. Um ponto de contato do Eterno com o seu povo na sua Santa Cidade.
    As escavações aqui e ali apontam para um fato narrado nas Escrituras, como o Túnel de Ezequias (II Rs 20.20)... num outro momento falaremos sobre isso.
   Ali também foi o lugar em que o Senhor Jesus viveu sua paixão e morte. O Mestre Galileu que exerceu um profícuo ministério na região em torno do Mar da Galiléia, vem à Jerusalém, onde os grandes eventos da nação de Israel ocorrem...
     Em minhas caminhadas por Jerusalém um lugar foi muito marcante para mim.  Perto da Porta de Santo Estêvão, também conhecida como Porta dos Leões, está a Basílica de Santa Ana. À frente da Basílica uma grande escavação, indicando que ali já fora um balneário, uma piscina, um tanque... O Tanque de Bestesda!

       No capítulo 5 do Evangelho de João podemos ler:
   “Em Jerusalém, perto da porta das Ovelhas, há um tanque, chamado Betesda na língua dos hebreus, o qual tem cinco pórticos. Neles ficava uma grande multidão de doentes, cegos, mancos e paralíticos, deitados... Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos. Vendo-o deitado e sabendo que vivia assim havia muito tempo, Jesus lhe perguntou: Queres ficar são?” (Jo 5.1-6)
    Muita gente já questionou a legitimidade da narrativa do Evangelho de João, bem como suas descrições e os discursos nele contidos.  Este documento já foi acusado de ser carregado de influência grega (começando pelo Logos, que era Deus e estava com Deus), já foi proposto que os dados existentes no mesmo não poderiam ser levados muito a sério. Na melhor das hipóteses, seria um documento puramente teológico sem qualquer embasamento histórico.
    A precisão em que o Evangelho de João fala de lugares e de situações, inclusive sem qualquer paralelo nos sinóticos, é digna de nota. Entretanto, críticos afirmavam que este acontecimento, bem como outros registrados neste Evangelho, não passavam de ficção, afinal, não havia indícios arqueológicos ou em qualquer fonte extra-bíblica da existência do tal Poço de Betesda.
    Embora a tradição afirmasse que ali teria sido o Poço de Betesda muitos contestavam. Entretanto, cuidadosas escavações no século XX trouxeram à luz as piscinas da época de Jesus. Eram duas piscinas separadas por um pórtico, ou alpendre, totalizando assim os cinco alpendres citados pelo Evangelho. Tempos depois um Rolo de Cobre descoberto nas Cavernas de Qumran trazia a citação de um lugar denominado Bethesdataym (Casa dos Dois Derramamentos), uma variante de Betesda e aludia às suas cisternas.

   Diante do Poço de Betesda meu coração bate mais forte. Visualizo o Senhor em diálogo com o enfermo... e há uma coisa que me intriga muito mais do que as minúcias arqueológicas...  é a pergunta de Jesus feita ao homem paralítico: Queres ficar são?
    Não seria uma pergunta sem propósito para um homem doente há 38 anos?
    A pergunta não é descabida quando entendemos que a ação de Cristo está ligada ao desejo humano, à vontade do homem. O cego de Jericó grita por Jesus, e o Mestre pergunta: O que queres que eu te faça? (Lc 18.41).
    Não são todos que desejam emergir de um processo de adoecimento, isto porque existem ganhos aparentes, vantagens efêmeras decorrentes da manutenção do sofrimento. Desde a forma como se é visto: um coitado, um necessitado, alguém que desperta a compaixão alheia... como também a forma como o homem se vê: dependente, não responsável por si... Ainda hoje há muitos doentes que não querem abrir mão de sua doença para não perderem o benefício eventual do INSS. É a vontade de que o benefício temporário torne-se permanente à custa de uma enfermidade, que precisa ser real... ainda que de fato, tenha se tornado imaginária!
   Muitas vezes não se consegue sair das compulsões, dos medos, das reações desproporcionais, dos mecanismos de defesa, do processo em geral de adoecimento, porque não se quer perder os lucros passageiros decorrentes da dor.
    Queres ficar são? É preciso abrir mão dos ganhos aparentes, é preciso mudar... é preciso querer para que haja a cura. É preciso deixar de lado a vantagem ou o benefício (seja este do INSS ou de outra fonte) que se está tirando disso. É preciso querer ficar são !!!
   Mas enfermidades não são apenas do corpo... São também da alma, do espírito. É preciso querer ficar são.
    A história de Zaqueu é paradigmática para ilustrar esta verdade. Um publicano desonesto, que enriqueceu por suas práticas ilícitas tornou-se marginalizado pela sociedade por sua conduta detestável... e também ficou à margem de um relacionamento com Deus... Um doente... uma alma mendicante... Mas como abrir mão de todas as vantagens adquiridas com aquele tipo de vida? Ficar são significaria abrir mão do dinheiro fácil desonestamente conquistado.  Não há como ficar são sem encarar as perdas decorrentes do fim dos benefícios do adoecimento!
     Zaqueu decide que ficar são vale a pena, e todas as efêmeras vantagens decorrentes de sua vida doentia poderiam ser deixadas para trás. Vai então procurar Jesus! Ao encontrar com o Senhor, Zaqueu abre mão dos seus bens (desonestamente conquistados) e decide restituir com folga aos que por ele foram prejudicados... Agora ele está são... e Jesus sorri, pois veio “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.1-10).  
    Infelizmente, nem todos querem ficar sãos, como Zaqueu... os benefícios da enfermidade falam mais forte, as estruturas já se acomodaram e se adequaram ao sofrimento, à dor, à solidão espiritual...
    Em Betesda, ouvi de novo Jesus indagando: “Queres ficar são?”

        Pensei em tornar mais viva esta nossa conversa através de um vídeo, com as imagens do que falamos ao som da música Betesda, de Sérgio Lopes: