sábado, 9 de abril de 2011

Velhice x Civilização

   Chovia muito hoje de manhã. Eu estava dirigindo e na minha frente um carro andava devagar. Impaciente, pensei: deve ser um velho. Dito e feito, constatei ao ultrapassar grosseiramente o “velho lento”, e corri em busca do “tempo perdido”.
    Depois que o motorista “velho” ficou para trás comecei a pensar: Podia ser meu pai... poderia ser eu daqui a uns anos. E por que a impaciência? E por que a ponta (do iceberg) de discriminação?
   Constato que integro a parte culta da sociedade, com graduações que se enfileiram, cursos que se empilham, títulos que se sobrepõem, um status estabelecido... Definitivamente alguém que deveria ter assimilado a civilização. A etimologia nos indica que civilização vem do latim civis, que significa cidade.  Civilizado é alguém que aprendeu a viver na cidade, com outras pessoas.
    Estou sendo civilizado em minha impaciência no trânsito com o motorista idoso? Não obstante formação superior  que indica anos e anos nos bancos escolares ainda não sou um homem civilizado...  Agi como um homem das cavernas... um pré-histórico. Mas agi como alguém fruto da minha época: uma civilização que abriu mão dos valores, do respeito em troca do sucesso, da velocidade, da prosperidade a todo custo.
     É tempo de refletir e repensar.  Ainda posso pensar como jovem, agir e sentir como tal. Mas o tempo está passado. Breve perderei os reflexos, a acuidade visual não será a mesma... serei um velho. Um velho que não aprendeu a ter paciência!
    O Eclesiastes chama a velhice de dias difíceis nos quais a visão escurece, os ouvidos se fecham, as pernas não sustentam mais o corpo, os dentes caem... Mas isto dito de uma forma poética, profunda:
“...antes que o sol e a luz, a lua e as estrelas se escureçam, e as nuvens voltem depois da chuva; quando os guardas da casa tremerem, e os homens fortes andarem curvados, e cessarem os moedores por já serem poucos, e os que olham pelas janelas se escurecerem; quando as portas da rua se fecharem; quando diminuir o barulho do moinho e acordares com o canto dos pássaros e silenciar o som de todos os cânticos; quando temeres a altura e te assustares pelos caminhos; quando florescer a amendoeira, o gafanhoto for um peso e o desejo já não se despertar...”  (Ec 12.1-5)
    Pensei como critico quem joga lixo na rua do carro, quem faz manobras proibidas... e digo: não são pessoas civilizadas... Do alto da minha civilização, da minha cultura, me vejo bárbaro, ignorando a lentidão do velho. Confesso: também não sou uma pessoa civilizada.
    Sou cristão, mas neste momento estava longe de mim as palavras do Livro Sagrado: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo... Tudo o que quiserdes que os homens vos façam fazei vós também a eles...
    Constato também que é muito fácil apontar o erro alheio... como dizia Jesus: Tira primeiro a trave do teu olho, para depois olhares o argueiro do olho do teu irmão.
    Acho que estou no caminho da mudança... Confissão e arrependimento. Ver o mundo de outra forma, e dentro em breve poder dizer com o poeta:
     “Ando devagar porque já tive pressa...
     Levo este sorriso porque já chorei demais!”
     Finalizo com uma música em homenagem ao “Velho”.  É dedicado, no meu caso, ao meu Velho Pai, que no trânsito de Recife deve causar muita angústia nos motoristas impacientes e “civilizados”. Senhores, lembrem-se: Vocês irão envelhecer!!!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ushuaia: Fin del Mundo, sim, “cafundó-de-judas” jamais

    Os recentes desastres naturais de proporções apocalípticas têm feito muita gente refletir sobre o fim do mundo. Fim do mundo, advérbio de tempo. Tempo em que o fim chegará... o Apocalipse. Não quero pensar no fim do mundo. Prefiro pensar no presente e o que eu posso hoje fazer para transformar este mundo. Deixo com Deus o tempo em que o mundo se findará, embora não tenha dúvida de que estamos no tempo do fim... Mas o fim do mundo também pode ser pensado como advérbio de lugar. O lugar onde o mundo finda.
   Quando minha avó pensava num lugar longe... ela falava em Manaus, ou Belém do Pará.  No imaginário da minha avó Manaus ou Belém eram o fim do mundo. Para quem estava em Recife, de fato estas cidades não ficavam tão próximas!  Minha avó era uma legítima representante do mundo pré-científico, quando ainda não se sabia sequer que a Terra era uma gigantesca esfera girando em torno do Sol. Os antigos tinham a tendência de imaginar que o fim do mundo estava além da linha do horizonte, onde os abismos tragavam os mais ousados.
   Em torno de 5 séculos depois de Copérnico e Fernão de Magalhães, sabemos exatamente onde fica o fim do mundo: O último lugar civilizado onde serem humanos nascem, dão-se em casamento, morrem e são sepultados.
   Minha avó ficaria absolutamente escandalizada se eu lhe dissesse que eu fui ao fim do mundo e não era na Amazônia! Era muito mais ao Sul. Para quem já está no hemisfério sul, como nós,  estamos a meio caminho. Primeiro um vôo para o Sul do país, depois outro vôo para a capital argentina, e finalmente um novo vôo para o extremo sul da Argentina. Ufa! Longe? Claro. O Fim do mundo: Ushuaia. Mais abaixo apenas a base naval chilena de Porto Williams, e os pinguins do Continente Antártico.
    Final da Ruta 3, 3.000 km ao Sul de Buenos Aires cruzando a Patagônia erma e fria: Ushuaia, na língua indígena significa “baía interna olhando para o Oeste”. Uma baía no canal de Beagle, ao Sul do Estreito de Magalhães. O canal tem este nome em homenagem a embarcação  que adentrou esses fins de mundo na primeira metade do século XIX, o navio de Sua Majestade Beagle. Em missão de reconhecimento, o navio levava o jovem naturalista Charles Darwin. Sua viagem ao redor do mundo propiciou-lhe reflexões que o levaram a formular a Teoria da Seleção Natural.
     No século XIX, os britânicos vitorianos em seu ardor pela mensagem do evangelho, enviaram missionários para distantes regiões da Índia, Birmânia, China (como não lembrar de Hudson Taylor?), ao coração da África (não dá para esquecer David Livingstone)... mas faltava alguma coisa... Nas palavras de Jesus seus seguidores seriam suas testemunhas até os confins da Terra... até o fim do mundo.  A Junta de Missões da Igreja da Inglaterra enviou missionários aos confins da Terra: Ushuaia teve seus começos numa casa de missão, pré-fabricada, levantada em 1869 pelo reverendo W.H.Stirling, ao lado das habitações dos índios yaghan.   
    De uma simples aldeia evoluiu para base militar, depois Colônia Penal de Segurança Máxima... agora não encontramos mais índios, nem degredados... apenas viajantes de lugares longínquos querendo conhecer o fim do mundo... antes que venha o fim do mundo!

     Thomas Bridges, outro missionário inglês, no final do século XIX, solicitou ao governo argentino, e foi atendido, uma concessão de terras onde o mesmo pudesse trabalhar e estabelecer-se. Ainda hoje sua família habita aquelas terras, é a “Estância Haberton”, a 50 km de Ushuaia.  Lá é o ponto de partida para uma excursão à Isla Yacapsela, onde vemos os bichinhos mais elegantes da fauna terrestre: os pinguins.  

       O dicionário aponta o vocábulo “cafundó” como um sinônimo para fim de mundo.  É difícil pensar em Ushuaia como um “cafundó”... Fin del Mundo sim, cafundó-de-judas, jamais!
     No vídeo abaixo, um pouco desse interessantíssimo "fim de mundo": Eu estive lá...

terça-feira, 1 de março de 2011

O preço da coerência

     Coerência, do latim cohaerentia, derivado de cohaerens (manter junto) e cohaerere (ser consistente, coeso). Talvez para elucidar ainda mais o sentido da palavra, o uso do antônimo, do contrário, seja válido. Pensemos em fragmentário, despedaçado... incoerente!
      Fala-se muito em ética, em conduta, em atitude, em ação... fala-se. Mas vive-se tanto quanto se fala? Se houver muita falação e pouca realidade, ou numa linguagem filosoficamente mais adequada, muita teoria e pouca práxis... então faltará coerência (cohaerentia)!
       Talvez nunca na história da humanidade se tenha vivido num ambiente de incoerência tal como vivemos hoje. Nunca se falou tanto na valorização do homem e na preservação da natureza, como nos dias de hoje. E nunca se devastou tanto a natureza e se desvalorizou tanto o ser humano como nos dias de hoje. Falta coerência...
      Nunca se falou tanto em amor como na atualidade... e nunca se viveu tão pouco o amor como hoje. Incoerência...
      Pensemos por um momento numa coisa:
  1. Por que somos incoerentes?
      O que nos leva à inconsistência? À falta de coesão entre discurso e prática? Proponho a seguinte explicação: Somos incoerentes porque estamos visando o nosso  egoísmo, e estamos buscando a aceitação e aplauso do próximo.
   a) Somos incoerentes porque estamos visando o nosso egoísmo
   Ora, num mundo dominado pela busca a qualquer preço do sucesso não faz sentido ser coerente. Uma das maiores histórias acerca da incoerência foi contada por Natã, a uns 3 mil anos atrás:
    Numa cidade havia dois homens, um rico e outro pobre. O rico tinha rebanhos e manadas em grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; ela crescera come ele e com seus filhos; comia da sua porção, bebia de seu copo e dormia em seus braços; e ele a considerava como filha. Certa vez, um viajante chegou à casa do rico; mas ele não quis pegar uma ovelha sua ou um boi seu para dar de comer ao viajante que o visitava, assim tomou a cordeira do pobre e a preparou para o seu hóspede...” (II Sm 12.1-4).   
     É coerente um homem rico usufruir de sua riqueza e oferecer dos seus bens para o seu hóspede. Não é consistente tirar o único bem do outro para seu próprio prazer. Mas Davi o fez!
     Quando viu Bate-Seba só pensou na satisfação do seu desejo, no seu egoísmo... Tornou-se o mais incoerente dos homens!
b) Somos incoerentes porque estamos buscando a aceitação e aplauso do próximo
      Escrevendo aos gálatas, Paulo relata-nos uma história curiosa:
      E quando reconheceram a graça que me havia sido dada, Tiago, Cefas (Pedro) e João, considerados colunas, estenderam a mão direita da comunhão a mim e a Barnabé, para que fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão... Quando, porém, Cefas chegou a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, pois merecia ser repreendido. Porque antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele estava comendo com os gentios; mas quando eles chegaram, Cefas foi se retirando e se separando deles, por temer os que eram da circuncisão...” (Gál 2.9-12)
         Ser aceito pelo grupo, pela comunidade, pela sociedade é um anseio comum do ser humano, pois ninguém quer viver sozinho, à margem. Seria, porém, preciso abrir mão da coerência para que essa aceitação se realize?
         Parece-nos que Pedro tinha medo de que sua coerência se transformasse num entrave para sua aceitação no grupo. Embora ele tivesse anteriormente apoiado o trabalho missionário entre os gentios, e até tivesse sentado à mesa com eles, quando chegaram seus irmãos judeus de Jerusalém, ele se retirou e se separou deles... temendo a reação destes.
          É necessário que Paulo o repreenda publicamente, condenando sua incoerência!
        Parece-nos que a incoerência é menos custosa, é mais simples, é um recurso à mão sem maiores sacrifícios. E, o mais importante, a maior parte das pessoas não mais se preocupando se somos ou não coerentes... A incoerência não é mais repudiada, como Paulo fez! É tolerada, aceita, e até bem-vinda!
  1. O preço da coerência
a) Renúncia
       O comandante sírio Naamã, viaja de Damasco a Israel em busca de cura para a sua lepra. Enviado ao profeta Eliseu, este o envia ao Rio Jordão para que se lave sete vezes e seja purificado de sua enfermidade. Milagrosamente curado, o general sírio oferece presentes ao profeta que responde: “Tão certo como vive o Senhor, a quem cultuo, não o receberei...” (II Rs 5.16) Embora o comandante insista, o profeta não abre mão de sua posição.
         Eis o preço da coerência: Renúncia! Que sentido havia em receber presentes se a cura veio do Senhor? Não recebo presentes, pois se algum louvor houver pertence ao Senhor dos Exércitos. Mas a tentação da incoerência é grande: prata, roupas especiais...
            ...E Geazi, servo do profeta,  não resiste à tentação da incoerência: Inventa uma mentira e recebe parte dos presentes do general sírio (II Rs 5.20-27). Bobagem, alguns poucos presentes, não vai fazer diferença para o rico comandante, enquanto para mim... Isso chama-se racionalização. Estamos tentando racionalizar nossa incoerência. Buscar explicações lógicas para elas.
            A incoerência de Geazi foi motivada pelo seu desejo pelo ouro, pela riqueza, seu desejo egoísta... Houve um preço alto: A lepra de Naamã lhe atingiu. Se parece ser alto o preço da coerência, a renúncia; Maior é o preço posteriormente cobrado pela incoerência, que o digam Davi, em seus terríveis dramas familiares, e o pobre Geazi.
            Eliseu pagou o preço da coerência. Abriu mão de riquezas temporais e manteve sua posição. Estamos prontos a fazê-lo, também?
             b) Impopularidade
            Jesus nunca foi antipático ou chato, mas nunca teve grande preocupação em ser popular, em não chatear as pessoas. Jesus nunca temeu a desaprovação das pessoas como Pedro o fez.
             Jesus teve uma postura de plena coerência. Senão vejamos alguns exemplos:
             Estando Jesus à mesa na casa de Mateus, chegaram muitos publicanos e pecadores e se sentaram à mesa juntamente com Jesus e seus discípulos. Vendo isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: Por que o vosso Mestre come com publicanos e pecadores? Jesus, porém, ouvindo isso, respondeu: Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes...” (Mt 9.10-12)
 
     Diferente de Pedro, que preocupado com sua popularidade abraçou uma postura incoerente, Jesus não se preocupou com o que os fariseus iam pensar com o fato de estar comendo com publicanos  e pecadores. Afinal, como seria possível dizer “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos...” (Mt 11.28), se quando eles chegassem não pudessem se aproximar por causa das línguas farisaicas? Não seria incoerente? Jesus porém era coerente!
         Numa mensagem de difícil entendimento muitos dizem: “Essa palavra é dura; quem a pode suportar?” Jesus conhecendo seus corações indaga: “Isso vos escandaliza?” E mais adiante faz outra pergunta ainda mais provocadora: “Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6.60-70).
          O discurso de Cristo não muda porque há reprovação. Ele não altera a mensagem porque está preocupado com a evasão de ouvintes. Ele não faz uma rápida adaptação da mensagem tendo em vista a baixa aceitação. Ele não passa a prometer o que não pode, ou a mentir deslavadamente para manter seu público cativo. Ele não simula milagres, ou evoca o sobrenatural para que as pessoas sejam atraídas pelo mistério. Ele continua pregando normalmente... Coerência...
        Servimos e amamos a um Cristo coerente. Podemos ser modelos de incoerência, de inconsistência... mas não aprendemos isto do Mestre da Galiléia. Estamos assimilando muito rapidamente os paradigmas do nosso tempo. Entretanto, somos desafiados a viver uma vida coerente, e na nossa coerência, Jesus será glorificado:
        “...Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam levado à plena unidade, a fim de que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, assim como me amaste.” (Jo 17.23)
      Estamos prontos a pagar o preço?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

IN - Prefixo de negação: Cataratas de Iguaçu - In-descritível, In-esquecível, In-crível...

    Há muito tempo, quando eu era garoto, me lembro que uma cantora esteve em Fernando de Noronha e ficou tão impressionada com a beleza do lugar que compôs uma canção ao lugar, uma ode à Noronha. Ainda me lembro de um trecho: “Em Fernando de Noronha, vejo tudo mais lindo...”  Alguém se recorda?  Ano passado fui lá: Não é que ela tinha razão? Dá vontade de fazer odes e odes à Noronha !!!! É um sonho !!! Depois eu faço a minha Ode à Noronha, retroativa a 2010!
   Agora eu  voltei das Cataratas de Iguaçu, e tive a mesma sensação: Vontade de fazer uma Ode às Cataratas. Estive lá nos meus verdes anos, no início da década de 90. Não me lembrava mais da imponência, beleza, enormidade, e outros adjetivos tendentes a superlativos que eu possa me lembrar e o vernáculo me disponibilizar.
   Sabe que o Criador é caprichoso? No Antigo Testamento encontramos a história de uma mulher engravidando aos 90 anos, pode? Tremendo senso de humor divino. A promessa divina à idosa candidata à mãe, Sara, é recebida como uma piada. Ela ri (e quem não riria?). E não é que a velha milagrosamente engravida? E para completar a idéia do bom humor divino a criança se chamou “Riso”, Itzsakh (Isaque). O capricho divino não aparece apenas nos fatos envolvendo pessoas. Acredito que na criação muitas vezes Deus foi caprichoso. Já imaginou a criação da girafa? Pense num pescoço! Mas eu não quero falar de animais, eu quero falar de um lugar...
   O capricho divino nas Cataratas do Iguaçu é indisfarçável.  O Rio Iguaçu  enlarguece, se espalha, depois desaba subitamente num abismo de 70 metros, formando centenas de cachoeiras de uma beleza indescritível... Agora me dou conta que as coisas de Deus quando são narradas ou citadas precisamos utilizar adjetivos que qualificam o que não se pode descrever:  Paulo viu coisas inefáveis, inexprimíveis (II Co 12.4)... O que se vê nas cataratas é in-des-cri-tí-vel, inesquecível !! Parece que os vocábulos ficam miúdos, diminutos, chochos (fui buscar no fundo do baú, chocho), insuficientes... já voltei para os adjetivos negativos!
      Quer conferir? Dê uma olhada...
  
     Tenho razão?  Estou exagerando? 
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O primeiro chefe do DECON de que se tem notícia...

Ferdinand Bol foi um artista barroco holandês do século XVII. Naquela época os pintores e escultores ainda encontravam nas histórias bíblicas, muita inspiração para sua arte.  Ele foi discípulo de Rembrandt, que foi um dos maiores ilustradores de cenas bíblicas da história.
      Das obras famosas de Bol, há um quadro, atualmente no Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia,  intitulado “Moisés e Jetro”. Convido-o a apreciar a obra:
A pintura nos mostra Moisés na posição de juiz, com um bastão em sua mão direcionado a um homem que narra seu problema à autoridade. Do lado esquerdo de Moisés está um ancião com postura de observador, e atrás dele está um homem com um livro, obviamente o escrivão.
     O artista não estava preocupado em reproduzir a cena, exatamente como ela deve ter acontecido, e sim como ele imagina que ela tenha ocorrido. Assim, os protagonistas aparecem em roupas contemporâneas a do pintor, bem como o livro sobe o qual o escrivão trabalha.
     Há, porém, um detalhe importantíssimo que não podemos deixar de registrar: Por trás do homem que está sendo atendido, há uma fila... na verdade uma fila que não tem fim, pois se desvanece nas sombras da distância. E um soldado, no primeiro plano, controla a fila.
     Leiamos agora, o texto bíblico que inspirou tão bela obra:
   “... No dia seguinte, Moisés assentou-se para julgar o povo, o qual ficou de pé diante dele, desde a manhã até a tarde. Quando o sogro de Moisés [Jetro]  viu tudo o que ele fazia ao povo, perguntou: Que é isto que estás fazendo com o povo? Por que fazes isto sozinho, deixando todo o povo em pé diante de ti, desde a manhã até a tarde? Moisés respondeu a  seu sogro: É porque o povo vem a mim para consultar a Deus... Mas Jetro lhe disse: O que estás fazendo não é bom.” Êx 18.12-17
     Ferdinand Bol estava certo ao retratar uma fila sem fim: Imagine? Ficar de pé na fila desde a manhã até a tarde?!!  Interessante é que Moisés não achava nada demais: Ora se o povo quer consultar a Deus comigo... Paciência, precisa esperar! O soldado estava ali para garantir que não haveria desmandos ou ninguém quisesse entrar na frente do outro... depois de tanto tempo esperando!
    Jetro surge como uma pessoa externa ao povo de Israel. Ele é sacerdote de Midiã, e como sogro de Moisés, encontra-se com ele enquanto Israel está acampado no deserto (Êx 18.1-5). No quadro, Bol o coloca na condição de observador. Ele está sentado apenas observando o que se passa.
    Ao fim do dia, em que coletara dados suficientes para fazer um diagnóstico preciso,  Jetro fala com Moisés:  O que estás fazendo não é bom.
      Saindo do Deserto do Sinai onde peregrinava o povo de Israel, passando pelo quadro barroco de Ferdinand Bol, chegamos  ao século XXI e nos deparamos com o bombástico fato de que, com o Código de Defesa do Consumidor na mão Jetro foi o primeiro chefe do Serviço de Defesa do Consumidor de que se tem notícia.
    Como um homem sério, não acobertou os erros de seu genro. Tempo de fila: 15 minutos! Tinha gente esperando todo o dia! Digamos que o tempo médio de espera beirasse as 5 horas. Não havia nenhum tipo de tolerância para um tempo desses!  Moisés foi notificado pelo Dr. Jetro, chefe do Decon: O que estás fazendo não é bom!
    Para Moisés não havia saída. Fazer o que? Ele já estava fazendo o possível. Mas o Dr. Jetro não estava apenas para comprovar a infração e realizar a notificação. Ele estava ali para apontar saídas, como um bom consultor:
    Com certeza, tu e este povo que está contigo desfalecereis, pois a tarefa é pesada demais; não podes fazer isto sozinho. Ouve-me agora. Eu te aconselharei, e que Deus esteja contigo: Deves representar o povo diante de Deus, a quem deves levar as causas do povo; ensina-lhes os estatutos e as leis; mostra-lhes o caminho em que devem andar e as obras que devem praticar. Além disso, procura dentre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, homens confiáveis e que repudiem a desonestidade; e coloca-os como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez; para que eles julguem o povo todo o tempo. Que levem a ti toda a causa difícil, mas que eles mesmos julguem toda causa simples. Assim aliviarás o teu fardo, pois te ajudarão a levá-lo.”   (Êx 18.18-22)
   Quando eu comecei a estudar Administração de Empresas, no início dos anos 90, me deparei na Universidade com o esquema jetroniano no livro do Professor Chiavenatto... foi naquela época, que foi sancionada a Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, que corresponde ao Código de Defesa do Consumidor: Quase 3.500 anos depois da cena retratada por Bol, narrada no capítulo 18 de Êxodo. 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sobre perdas... e alicerces

Acabei de chegar do sepultamento do meu avô, em Recife. Ele era o último de meus avós ainda vivo... A última ponte  que unia passado e presente se foi!
    Segurei a alça de caixão de meu avô Justo, junto com outros primos e parentes, e colocamos seu corpo inerte no jazigo da família Santana Nunes, no Cemitério São José, em Paulista, ao lado de minha avó Maria, que fora sepultada ali há exatos 1 ano e 4 dias! Os Santana Nunes (João e Ester) foram amigos dos meus avós durante suas vidas, e queriam estar juntos na morte. Ali estão dois casais amigos, que vieram a aparentar-se quando minha tia Ruth casou com João Santana Filho. Tiveram netos em comum, envelheceram e foram morrendo e separando um do outro, para depois se ajuntarem! O primeiro foi lá sepultado há 31 anos, e esperou sem pressa os demais que a ele se juntaram... um a um.
   Rubem Alves diz que tem medo da morte... Muita gente tem. Eu não tenho medo da morte. Acho-a misteriosa, às vezes caprichosa, mas não amedrontadora! Achei muito interessante a vontade de um casal amigo compartilhar o jazigo com outro. É uma amizade que transcende a existência terrena. Ainda se fazem amigos assim?
    Pensei em meu avô que desaparece do palco terreno e me deixa diante dos holofotes da vida com seus desafios. E então, me veio um entendimento análogo ao hino que meu primo Clevsom cantou na cerimônia fúnebre:
Não se pode matar
A semente germina
Ela não morrerá
Nem se perde no chão
Se alguém a pisar
Destruindo o jardim
Ela renascerá
A semente é assim.”
    A semente desaparece sob o solo onde foi plantada... Nunca mais ninguém a verá. Ela porém não está perdida, nem tampouco desapareceu. Ela não apenas renascerá na Ressurreição do Último Dia, como diz o Credo Atanasiano. Meu avô como semente renasce em cada filho, em cada neto que deixou, em cada pessoa com a qual conviveu.
    Pensei em mim, como seu neto.  Como galho dessa semente que aos poucos foi desaparecendo, até fecharmos plenamente o jazigo dos Santana Nunes com o seu corpo no caixão cheio de flores, ao tempo em que lhe dávamos o derradeiro adeus entre lágrimas.
    Pensei nele como um alicerce... Eu me lembro quando meu pai construiu nossa casa de alvenaria em substituição à nossa velha casa de taipa. Me lembro da grande vala cavada que aos poucos foi sendo preenchida com tijolo, pedra e cimento... Era o alicerce. O alicerce era profundo e “reforçado”, para a possibilidade de se construir futuramente um andar superior, argumentava meu pai.
     Depois as paredes foram subindo, a casa foi tomando forma e o alicerce foi cuidadosamente enterrado... Quando se olhava a casa, com seus cômodos, portas, janelas, ninguém se lembrava que havia algo sobre o qual a construção tomara forma. 
     Pensei em meu avô como o  alicerce para a casa que eu estou me tornando:   Um alicerce de honestidade, trabalho, dedicação à família, respeito pelo outro, amor pelos necessitados, fidelidade, altruismo.
     Vi uma velhinha que chegou logo cedo ao velório: Era uma velha amiga. Indaguei se estou sendo capaz de fazer amizades, que se conservem mesmo quando eu nada tiver a oferecer! Numa sociedade onde a consideração é tão pouca, meus alicerces gritam pelo valor do outro, não pelo que ele possa oferecer, mas pelo que ele é.
     Um antigo aluno da Escola Bíblica Dominical fez questão de falar, minutos antes do sepultamento, do seu querido professor Justo. Meu avô era um leigo, simples, pouco escolarizado, mas tinha um imenso amor por Deus. No lugar onde congregava já como ancião, ensinava na classe dos jovens. Era sempre cheia sua classe. Por que? Era um erudito? Não. Mas era um homem que ensinava com o coração, por isso os jovens gostavam de ouvi-lo. É... por isso meus alicerces clamam por uma mensagem que seja de coração para coração!
     Não há  herança a ser repartida. Como falei, foi sepultado no jazigo de fiéis amigos. Mas há paredes erguidas a partir dos alicerces desaparecidos sob o chão. Há árvores frondosas que nasceram a partir da semente que não existe mais:
      A sabedoria hebraica expressa na poesia profunda dos Salmos diz:  “O Justo florescerá como a palmeira, crescerá como cedro no Líbano... Na velhice ainda dará frutos... para proclamar que o Senhor é Justo...” Sl 92.12-15

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Céu azul, ou mar bravio? Quando chega a dificuldade...

    
    Eu cresci ouvindo um hino memorável cantado por Feliciano Amaral, que ficou impregnado na minha mente e no meu coração. Os mais antigos talvez lembrem: Eterno Fanal. Posso dizer de cor ainda os versos dessa canção tão profunda e que continua a me tocar:

Noite azul céu sereno... Um barco pequeno...
Vou deslizando no mar, e a brancura da lua
Nas águas flutua, Numa beleza sem par
De longe parece, ouvir-se uma prece
Do vento das ondas, da espuma que em  véu
Emoldura o caminho que passa o barquinho,
Seguindo as estrelas, que o guiam pro céu...

            O cenário é perfeito! Um barco navegando num mar calmo, com o reflexo da lua a flutuar na água... E o barco do cristão vai seguindo as estrelas com destino ao céu. Belíssimo, lindo, inspirador... mas momentâneo,  uma realidade passageira, uma calma temporária. Por que passageira? Porque a vida não é um conto de fadas com tudo no lugar, e sem tempestades ou sobressaltos, ou imprevistos, ou inesperados.
                Infelizmente muitos cristãos entendem que é tarefa de Deus lhes garantir um cenário sem sobressaltos. Uma vida tranqüila de calma e felicidade. Isentos de perigos, de dor, de sofrimento, de sustos, de decepções... Mas será assim? Não é isto que a canção nos diz? A canção nos diria apenas isso, se não houvesse outra estrofe, outros versos, temíveis, talvez até indesejáveis, mas tão reais, que a inspiração do poeta beirou o realismo cotidiano:

Mas em dado momento... transforma-se o vento...
Cessa da lua o clarão... e o mar tão bravio...
É um desafio, ao barco sem direção,
Com voz de lamento, do meu pensamento,
Orei ao meu Mestre com fé sem igual,
 E voltou a bonança, vitória se alcança
Olhando pra Cristo, o Eterno Fanal ! 

       O que é isso? Um cenário que de repente é alterado de forma substancial, um mundo organizado e equilibrado que repentinamente se põe de pernas pro ar. Como Deus permite isso? Que a morte atinja aos nossos... O câncer nos devore silenciosamente... A traição aconteça debaixo de nossos olhos... A injustiça inesperadamente nos atinja no trabalho... Amigos chegados se revelem em traidores... Os filhos de repente enveredem em caminhos duvidosos... Como? Por que?
        Um dia Jeremias está às voltas com Deus tentando entender as misérias que lhe rodeiam, embora seja ele um homem fiel (Jer 12.3), quando o Todo-Poderoso lhe faz uma pergunta extremamente pertinente:
“Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com os cavalos? Se tão-somente numa terra de paz estás confiado, como farás na enchente do Jordão?” (Jer 12.5)
        A indagação divina faz-nos pensar: A mudança do cenário, seja de que forma for, é uma realidade, é uma constatação. Não nos foi prometido que teríamos um idílico cenário em nossa viagem pelo Mar da Vida.  As tempestades são um fato! Não podemos nos cansar com as pequenas coisas da rotina (correndo com os homens que vão a pé), pois a qualquer momento podemos ser desafiados a competir com aqueles que andam a cavalo! Isto é, problemas e desafios muito maiores que os cotidianos já conhecidos.
            Deus não passa a mão na cabeça de Jeremias, e lhe diz, tudo vai ficar bem, não vai acontecer nada. Não, senhores. Deus responde que o que ele já sofreu não é nada comparado com o que ainda vem. Ele corre com homens a pé... o que dizer quando correrá com os que andam a cavalo?
           Se tão somente numa terra de paz estás confiado, como farás na enchente do Jordão?  A planície de aluvião do Rio Jordão, coberta de vegetação densa, era covil para animais selvagens, inclusive o leão asiático, e na primavera ficava parcialmente inundada (Jos 3.15).
            Alguns caminhos são evitados por nós, em face de um proceder sábio, outros são inevitáveis. Em algum momento enfrentaremos os perigos da Planície do Jordão, talvez quando ela estiver inundada, talvez diante dos perigos de animais selvagens que provocam os nossos mais profundos medos...
             Se estivermos prontos apenas para competir com os que andam a pé, ou entendermos que apenas estaremos em terra de paz, como enfrentaremos as dificuldades? 
             O sábio deixou-nos um provérbio lapidar: “Se te mostrares frouxo no dia da angústia, a tua força será pequena”, ou noutra tradução, “Se te desanimares em tempos de dificuldades, serás fraco...” (Pv 24.10)
            Diante do desafio da tormenta inesperada, o poeta não nega que está em perigo, afinal o Mar tão bravio é um desafio ao Barco sem direção. A beleza do clarão da Lua não mais se vê, apenas a tempestade. Mas a resposta não é o desespero, não é fazer de conta que nada está acontecendo. A Fé é a resposta do crente para a dificuldade: Orei ao meu Mestre com fé sem igual... 
            Outro poeta também foi inspirado em cena como esta para escrever o hino 328 do Cantor Cristão: Sossegai!
            Ó Mestre! O mar se revolta: As ondas nos dão pavor.
           O Céu se reveste de trevas.
Mestre, na minha tristeza estou quase a sucumbir:
A dor que perturba minha alma, Oh! Peço-te, vem banir!
 Pereço sem ti, oh! Meu Mestre, vem logo, vem me acudir.
Dia da angústia, da dificuldade, é parte da vida de todos nós. Não seja fraco, não seja frouxo. Tenha fé.
Nas orientações finais de Jesus aos seus discípulos antes de sua morte ele disse: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem. Eu venci o mundo.” (Jo 16.33)
Jesus trilhou o caminho da corrida com os cavalos, e da enchente do Jordão. Ele sofreu o escárnio do povo, a traição de Judas, a negação de Pedro, a negligência dos amigos mais chegados na hora em que ele mais precisava (Nem uma hora pudestes velar comigo? Mt 26.40), a injustiça dos interesses político-religiosos, o desamparo do Pai (Mt 27.46)... Eu venci, disse Ele. Tende coragem! Afinal, vitória se alcança, olhando para Cristo o Eterno Fanal!