sábado, 1 de outubro de 2011

Um lugar chamado Ein Gedi

   Há muitos lugares surpreendentes no mundo. Um deles eu tive a oportunidade de conhecê-lo agora, em nosso retorno a Israel. Trata-se de Ein-Gedi, nome hebraico para “Fonte dos Cabritos”.  Além do nome pomposo, o lugar é fartamente citado na Bíblia, e em situações que atiçam nossa imaginação.
    Ein Gedi é um lugar de povoação muito antiga, o que é atestado por sua citação entre as cidades de Judá ainda nos tempos da conquista de Canaã (Jos 15.62).  Escavações conduzidas desde 1949 confirmam a antiguidade do sítio. Arqueólogos encontraram nas imediações um templo antigo e o dataram do período calcolítico (entre 4.300 a 3.300 a.C). Ossos e cinzas de animais encontrados em covas circulares eram os remanescentes dos sacrifícios ali oferecidos.
     Onde seria esse lugar? Onde se situa Ein Gedi?
     Há pistas no texto bíblico sobre sua localização. O profeta Ezequiel é quem nos fornece a primeira dica:
   Na visão das águas purificadoras, registradas no capítulo 47, Ezequiel vê águas que fluem do Templo se derramarem, saírem pelas portas de Jerusalém, e descerem até o Mar Morto (Ez 47.8). Ali, um lugar onde não há qualquer tipo de vida, as águas cheias de minerais do mar tornar-se-iam doces,  e enxames de peixes povoariam o Mar, o que atrairia pescadores e estes estenderiam suas redes “desde Ein Gedi até Ein Eglaim” (Ez 47.10).  
   Na descrição de sua visão, Ezequiel situa Ein Gedi na região do Mar Morto.
   Estávamos em Tiberíades, às margens do Mar da Galiléia, e dirigimos aproximadamente 200 km rumo ao Sul, seguindo a Rodovia 90, que corta o país de Norte a Sul (da fronteira com o Líbano, até a fronteira com o Egito, em Eilat, no Mar Vermelho).

   No Mar da Galiléia já estávamos a pouco mais de 200 metros abaixo do nível do mar, em pleno “Vale da Grande Fenda da África”. Este é um dos grandes caprichos do Criador:  uma gigantesca falha geológica que estende-se desde o vale do Jordão, no norte de Israel, até Moçambique, num incrível total de 6.400 quilômetros!
   A Rodovia 90, contorna a margem ocidental do Mar da Galiléia e continua seguindo a Grande Fenda, através do Vale do Jordão, que enfim deságua no Mar Morto. Do mar da Galiléia ao Mar Morto descemos mais 200 metros e atingimos o ponto mais profundo da Terra, 400 metros abaixo do nível do mar!
   Seguimos margeando o Mar Morto por alguns quilômetros e pudemos perceber o quão inóspito é aquele lugar.  O sol é intenso, a estrada corre espremida entre o Mar Morto e os penhascos marrons que caracterizam os paredões da Grande Fenda em sua região de maior profundidade.
    Porém, seguindo as indicações do profeta Ezequiel estamos próximos a Ein Gedi.

    Se hoje o Deserto de Judá é pouco povoado, imagine na época de Davi! Era quase totalmente desocupado... Seria então o lugar ideal para um homem esconder-se, desde que houvesse água disponível... O Primeiro Livro de Samuel então nos dá outras dicas da localização de Ein Gedi:
    Um lugar de fortalezas (I Sm 23.29), no deserto (I Sm 24.1), um lugar de penhascos e de cabras monteses (I Sm 24.2), onde havia caverna (I Sm 24.3).
    Se existe um lugar no deserto onde podemos encontrar seres vivos, no caso, cabras monteses, e seres humanos que fizeram dali seu lugar de habitação, então este lugar tem água. Estamos falando de um oásis, o maior oásis na margem ocidental do Mar Morto: Ein Gedi.
    Chegamos então em Ein Gedi, onde nos encontramos com o passado! Fiz o registro no hotel, municiei a mochila com água e paguei a entrada na Reserva Natural Ein Gedi.
    Muito cedo entendi o porquê do nome do lugar: “Fonte dos Cabritos”. Pude ver cabras monteses, pequenas ou maiores caminhando e pastando tranquilamente... Pastando? Sim, no cenário quente e seco, uma corrente permanente de água garante vegetação que quebra a monotonia marrom da paisagem e irrompe um verde que alimenta as cabras monteses.

    O cenário corresponde perfeitamente à descrição do texto de I Samuel. Fugindo de Saul, Davi procura esconderijo nestes penhascos cheios de cabras monteses (I Sm 24.2).

     Vou seguindo o caminho da água através do Wadi David pois acredita-se que foi por aqui que Davi com seus homens procurou esconderijo. Quando se lê I Sm 23.29, encontramos: “Davi subiu e permaneceu nas fortalezas de Ein-Gedi”. O que seriam estas fortalezas? Uma cidade murada? Algum tipo de estrutura militar? Não, não. Olho em torno e percebo que as fortalezas de Ein Gedi eram os inacessíveis refúgios nas rochas da montanha!

    Aqui, posso entender muito melhor as palavras do jovem Davi expressas no Salmo 18.2. Para Davi, Ein Gedi significou livramento, proteção, cuidado de Deus através daquela perene fonte de água, fortaleza, refúgio:
   “O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo, em quem me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação e a minha torre de proteção.”
    Aqui em Ein Gedi, estas palavras assumem um sentido ainda mais forte!   

      Mais acima da pequena Cascata de Davi está a Caverna de Dodim. Lembro então da narrativa pitoresca e interessante, que bem pode ter acontecido aqui:

    Buscando um lugar para aliviar uma aguda pressão intestinal, o Rei Saul fez uma breve pausa em sua caça ao seu genro Davi, ao encontrar uma caverna nos penhascos de Ein Gedi. Entrou na caverna,  e imediatamente, aproveitou a privacidade e escuridão do lugar para satisfazer suas necessidades fisiológicas (I Sm 24.3), sem saber que era assistido por Davi e seus soldados!!!!!!! Que dureza!  Muitas testemunhas para a defecada real... Enquanto realizava sua obra fecal, Saul não percebeu que seu manto estendido no solo teve um pedaço de sua orla cortado por uma espada misteriosa.  
  Ao sair, o Rei Saul foi supreendido pelo grito de Davi que com uma ponta de seu manto na mão, ratificava sua lealdade e fidelidade (I Sm 24.8-15).

    Não podemos deixar de falar sobre outra citação importante feita no texto bíblico acerca de Ein Gedi. Trata-se de um trecho do Cântico dos Cânticos: “O meu amado é para mim como um ramalhete de flores de hena das vinhas de Ein Gedi” (Cant 1.14).
   As vinhas incluem uvas, mas não se limitam a essas frutas. Segundo o texto havia em Ein Gedi plantações de hena, cujas flores juntas num ramalhete eram sinônimo de beleza, o que mais alto poderia existir em padrão estético.  Hena é uma especiaria ainda hoje utilizada como matéria prima para produção de cosméticos. As flores de Hena de Ein Gedi eram as melhores das melhores...
   Escavações em Ein Gedi encontraram instalações industriais nas casas, as quais foram interpretadas pelos arqueólogos como oficinas para preparação de um produto exclusivo – talvez um perfume de bálsamo, o qual, pelo que se sabe, foi o produto mais importante dessa região durante o período do segundo templo.
   Além de tudo, Ein Gedi era a Paris dos cosméticos de Israel... a Sulamita sabia o que dizia, em comparar as flores de Ein Gedi com a beleza do seu amado. Ninguém melhor de que uma mulher para avaliar tais coisas!


domingo, 31 de julho de 2011

Dia 27: Triste Colheita...

    Dia 27 de Abril, faleceu no Texas vítima de um acidente automobilístico o Rev. David Wilkerson. Exatamente três meses depois, no dia 27 de Julho, morreu na Inglaterra o Rev. John Stott. Mas o que estes estrangeiros têm a ver comigo? Muita coisa... Ambos fizeram parte da minha formação espiritual. Nunca os vi e nunca souberam de minha existência, claro. Mas ambos foram de fundamental importância para o meu entendimento dos desígnios divinos, e da ação presente de Deus na Terra.
   David Wilkerson...

   Quando eu tinha 14 anos me tornei colportor (para quem não sabe, colportor é alguém que vende livros de conteúdo religioso) da Editora Betânia. O livro mais procurado do meu catálogo naquela época era "A Cruz e o Punhal", que já ia na sua 14ª edição (o meu velho e surrado exemplar é dessa época). Líamos, e vibrávamos com as aventuras do Rev. Wilkerson no Brooklin violento dos anos 60. Depois queríamos acompanhar o que aconteceu com os jovens saídos das drogas como o portoriquenho Nicky Cruz. A história de Nicky estava num outro livro: "Foge, Nicky, Foge". Tudo o que o Rev. Wilkerson escrevia nós absorvíamos avidamente. Outros livros vieram como "Depois de A Cruz e o Punhal", "Não Estou com raiva de Deus". Depois a história foi lançada em filme, que assisti numa sessão no Colégio Americano Batista, ao lado da Igreja da Capunga.

    O tempo passou, mas não perdi o Rev. Wilkerson de vista. Li também o testemunho de sua esposa, Gwen Wilkerson, um livro de inestimável valor "Na Força do Senhor" (editora Vida), no qual ela conta seus conflitos com o esposo e sua luta contra o câncer.
    Depois me tornei colportor também da CPAD, que tinha os direitos autorais de um outro livro famoso do Rev. Wilkerson,  "Toca a Trombeta em Sião". Era uma denúncia corajosa dos desafios do cristianismo da época. Foi um best-seller, em 1 ano se esgotaram 5 edições.   
    Rev. Wilkerson tornou presente para todos nós o significado de chamado missionário, de obediência e dependência de Deus. Era como se o livro de Atos estivesse sendo vivido novamente. Sua voz profética foi ouvida em todo o mundo! Todos fomos chamados a Tocar com ele a Trombeta.
     John Stott...


    Em 1990 terminei o ensino médio no Colégio da Polícia Militar de Pernambuco, e no ano seguinte comecei o curso teológico no querido Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste. Lá fui apresentado aos escritos de um  ilustre inglês, Rev. John Stott, clérigo anglicano, capelão da Coroa britânica.
    Quando pensávamos em alguém que se citado, traria peso ao nosso argumento, pensávamos em John Stott. Não se poderia estudar Soteriologia sem a leitura de "A Cruz de Cristo", clássico sempre. Suas exposições de "Atos" e "Romanos" eram imprescindíveis. Quando fui lecionar Atos dos Apóstolos, indicava sem medo de errar o livro de John Stott, publicado pela ABU. Ajudou-nos com sua clareza e simplicidade habituais em questões polêmicas como sexo, em "Grande Questões sobre Sexo", publicado pela Vinde.
     Parte da minha biblioteca foi financiada indiretamente por ele. Como? Através do "Evangelical Literature Program and Langhamk Scholarship Program", um projeto para fornecimento de livros e bolsas de estudos para seminaristas e pastores, criado por John Stott. Enquanto aluno e professor do seminário adquiri muitos livros subsidiados pelo projeto do Rev. Stott.
    Quando fui o professor homenageado pela turma concluinte do ano 2000, no STPN, comprei e presenteei cada um dos formandos com outro clássico do Rev. John Stott, "O Cristão em uma Sociedade não cristã".  Ele escreveu e deixou claro para nós que "Crer é também pensar".
      Em 27 de julho, John Stott partiu para a Eternidade. Fico triste porque meus referenciais estão indo embora. Mas fico feliz porque tenho referenciais. E sinto grande responsabilidade também, porque hoje me transformo em referencial para muitos... Que eu trilhe os caminhos destes grandes homens, que inculcaram em mim, mesmo à distância, através de seus escritos e testemunhos, uma fé verdadeira e firme em Jesus Cristo que é o mesmo ontem, hoje e eternamente!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Conversas sobre o Livro de Habacuque

1.       Os questionamentos de uma pessoa de fé
    Muitos textos bíblicos apresentam uma atualidade que surpreendem os mais céticos e incrédulos. O livro do profeta Habacuque é um deles. O nome exótico, sonoro e pouco utilizado (Quem conhece alguém chamado Habacuque?), esconde um texto riquíssimo em beleza estética, profundidade espiritual e atualidade teológica.
   Em nossa conversa sobre Habacuque, começamos com os questionamentos do profeta, encontrados no primeiro capítulo:
   “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Por que razão me mostras a iniqüidade, e me fazes ver a opressão?” (Hab 1.2-3) “Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo que ele? E por que farias os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?” (Hab 1.13-14)  
   O questionamento surge quando os fatos aparentam alguma incoerência. Quando a lógica do cotidiano parece comprometida. Quando o raciocínio humano não encontra razoabilidade nos fatos com os quais se depara. Habacuque questiona porque não há resposta divina ao seu clamor. Ora, diante do clamor humano espera-se a resposta do céu. Quando a resposta não vem, surge o questionamento: “Até quanto, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?”
    Diante da inércia do Eterno Regente do mundo, ante às injustiças e desmandos da sociedade humana, a lógica do crente brada: “Por que calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo que ele?”
    Indagações... questionamentos...

    Para muita gente a definição bíblica de fé parece estar calcada em certezas, em impossibilidade de questionamento: “A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem...” (Hb 11.1). Este conceito, belo, apropriado e suficiente por sinal, nos indica que a fé confere sentido à crença de coisas futuras e invisíveis.  Garante-nos que não estamos loucos quando afirmamos que cremos no mundo porvir, bem como que Cristo está assentado à direita de Deus intercedendo por nós. A fé é o que confere sensatez e coerência às nossas afirmações, mesmo que estas não encontrem amparo na metodologia científica.
    Mas esta definição não indica que o crente (aquele que tem fé) não questione, não faça indagações. É importante que tenhamos em mente que existem indagações e indagações. Existem indagações basilares, que caso existam é indicativo que o indivíduo ainda não tem consolidada a sua fé, a sua crença. Por exemplo, quem questiona a própria existência de Deus não pode estar nos domínios da fé, ainda encontra-se no universo da incredulidade. Afinal, “é necessário que quem se aproxima de Deus creia que ele existe...”(Hb 11.6).
    Existem indagações que surgem de um coração cheio de fé. Existem questionamentos que partem da pureza e sinceridade de quem confia no Senhor e quer manter sua fé no Todo-Poderoso. Habacuque era assim... Não entendia por que certas coisas eram do jeito que eram, e não tendo as respostas indagava ao Todo-Poderoso.
     Por que temos tanta certeza da fé de Habacuque?
     Por causa de sua atitude no versículo 1 do capítulo 2. Após uma saraivada de questionamentos, Habacuque toma uma decisão:  “Eu me colocarei sobre a minha torre de vigia; ficarei sobre a fortaleza e vigiarei, para ver o que Ele me dirá e o que terei como resposta à minha queixa”.
     Humildade, sinceridade, fé, eis o que está por trás desta atitude. Alguma coisa Deus me dirá, algo para manter coerente o meu pensamento, algo para acalmar meu espírito em ebulição, algo para confirmar que eu não estou enlouquecendo. Vou esperar... vou esperar pela resposta divina.
     E a resposta veio. Não com as respostas ao questionário de Habacuque, mas com uma clareza fora do comum, com uma simplicidade óbvia, um óbvio ululante (como ele não tinha entendido isto ainda?): “O Justo viverá por sua fé” (Hab 2.4). A fé confere ao crente um sentido à existência que dispensa as explicações e respostas aos questionamentos. As indagações considerar-se-ão satisfeitas pela afirmação da fé. Por isso, o justo, vive por sua fé.
     Lembrei do meu avô, Justo... já não está mais conosco... viveu por sua fé, deixando-nos o exemplo!

sábado, 16 de abril de 2011

Relacionamento e tempo: uma constatação

Naquele dia ela me chamará meu marido (meu homem especial); não me chamará mais meu Baal (meu amo, meu senhor) (Os 2.16)

A forma como cada cônjuge trata um ao outro retrata um pouco do atual estágio do relacionamento de ambos. Por que atual estágio? Porque todo o relacionamento muda ao longo do tempo. Isto é indiscutível.
Muda porque nós mudamos! Muda porque muda a nossa forma de ver o mundo! Muda a nossa interação com a vida. Muda o mundo, tudo muda, o mundo muda. E mudamos nós. O problema não é a mudança, o problema é quando a mudança se dá para pior.    
O tempo... O tempo é um componente implacável no nosso relacionamento. Em algum momento a pele não mais será tão fresca, as rugas insistirão em driblar o Renew e teimosamente denunciar que já não somos os garotos e garotas de outrora... E os cabelos? Insistem em novos fios brancos, que mesmo pintados insistem em crescer apontando para uma raiz branquinha... O tempo... Como dizia um jovem que não chegou a envelhecer: O tempo não pára!   
E no relacionamento o reflexo do tempo está em toda a parte. Muito além das rugas e dos cabelos brancos, ou mesmo dos quilos extras. O tempo está no humor que já não é mais o mesmo. Está na língua que pode ficar ferina. Está nos olhos que deixaram de ver apenas a beleza e passaram a valorizar os pequenos erros, os equívocos.
Dizem que com o tempo os animais crescem e mudam de espécie... O Meu Gatinho pode se transformar num “Cachorro”, e a Minha Gatinha pode se transformar numa “Jumenta”.
Como dissemos, este tratamento reflete o relacionamento. E o relacionamento muda, mas não precisa ser para pior... E se estiver ruim, pode ainda ser novamente melhorado.  
No texto de Oséias,  que retrata um relacionamento conjugal simbólico entre o povo de Israel e Deus, percebemos a promessa de uma renovação no relacionamento. Uma esposa que chama o esposo de meu senhor (meu baal), passaria a chamá-lo de meu marido, meu homem. A passagem de “meu senhor” para meu marido indica que a ênfase é colocada mais na intimidade do vínculo conjugal do que na subordinação da esposa ao esposo.
Com o tempo o relacionamento pode tornar-se insosso, uma troca de obrigações, e nestas obrigações alguém passa a ser o senhor, o amo, o proprietário... E ficam juntos, mas não por causa do carinho, mas pela obrigação...
 No texto de Oséias, o que norteia o relacionamento não deve ser a relação contratual da aliança, o foco não é a obrigação, a responsabilidade (meu senhor)... o foco é o amor, é o carinho, o vínculo amoroso (meu marido, meu homem...).
Se pudéssemos viajar no tempo... o que veríamos?
          Um casal apaixonado dizendo "sim". Estou certo? Mas o tempo...
           O tempo foi passando... O tempo, sempre o tempo... e a rotina... e a dureza da vida. E o cuidado dos filhos, que se tornaram adolescentes, jovens... e a exigência profissional, e o tempo vai ficando exíguo, passando rápido demais, e não mais se tem tempo, e se conversa pouco, se comunica pouco. E os problemas vão se avolumando. E o marido torna-se distante, e o carinho é substituído pela obrigação. Fazer amor é substituído por fazer sexo, inclusive aludindo-se à determinação bíblica para o casal: não defraudeis um ao outro...
         E agora os pronomes mudaram, o tratamento endureceu... É... parecia tudo um mar de rosas, mas descobrimos que rosas tem espinhos... E há pedras no caminho. Descobrimos que além da lua de mel, há doçura sim, mas da rapadura. E rapadura é doce, mas não é mole, não! 
 Quem foi que te disse que a vida é um mar de rosas? Estava certo! É mesmo um mar de rosas, mas não esqueça que rosas tem espinhos. E o fardo é pesado e precisamos levá-lo, a jornada é longa, e não podemos ficar no caminho. Casamos para ficar juntos... até que a morte nos separe. E rapadura é doce, mas não é mole, não!
 Hoje somos desafiados a exprimir em gestos, em atitudes, a renovação deste amor, deste relacionamento. Demonstremos com um gesto, com um olhar, e não apenas hoje, mas sempre, vivamos atitudes de amor... pois o amor tudo espera, tudo suporta...
Naquele dia me chamará meu amor, minha querida, meu amado, formosa minha, bem, benzinho... Love...

sábado, 9 de abril de 2011

Velhice x Civilização

   Chovia muito hoje de manhã. Eu estava dirigindo e na minha frente um carro andava devagar. Impaciente, pensei: deve ser um velho. Dito e feito, constatei ao ultrapassar grosseiramente o “velho lento”, e corri em busca do “tempo perdido”.
    Depois que o motorista “velho” ficou para trás comecei a pensar: Podia ser meu pai... poderia ser eu daqui a uns anos. E por que a impaciência? E por que a ponta (do iceberg) de discriminação?
   Constato que integro a parte culta da sociedade, com graduações que se enfileiram, cursos que se empilham, títulos que se sobrepõem, um status estabelecido... Definitivamente alguém que deveria ter assimilado a civilização. A etimologia nos indica que civilização vem do latim civis, que significa cidade.  Civilizado é alguém que aprendeu a viver na cidade, com outras pessoas.
    Estou sendo civilizado em minha impaciência no trânsito com o motorista idoso? Não obstante formação superior  que indica anos e anos nos bancos escolares ainda não sou um homem civilizado...  Agi como um homem das cavernas... um pré-histórico. Mas agi como alguém fruto da minha época: uma civilização que abriu mão dos valores, do respeito em troca do sucesso, da velocidade, da prosperidade a todo custo.
     É tempo de refletir e repensar.  Ainda posso pensar como jovem, agir e sentir como tal. Mas o tempo está passado. Breve perderei os reflexos, a acuidade visual não será a mesma... serei um velho. Um velho que não aprendeu a ter paciência!
    O Eclesiastes chama a velhice de dias difíceis nos quais a visão escurece, os ouvidos se fecham, as pernas não sustentam mais o corpo, os dentes caem... Mas isto dito de uma forma poética, profunda:
“...antes que o sol e a luz, a lua e as estrelas se escureçam, e as nuvens voltem depois da chuva; quando os guardas da casa tremerem, e os homens fortes andarem curvados, e cessarem os moedores por já serem poucos, e os que olham pelas janelas se escurecerem; quando as portas da rua se fecharem; quando diminuir o barulho do moinho e acordares com o canto dos pássaros e silenciar o som de todos os cânticos; quando temeres a altura e te assustares pelos caminhos; quando florescer a amendoeira, o gafanhoto for um peso e o desejo já não se despertar...”  (Ec 12.1-5)
    Pensei como critico quem joga lixo na rua do carro, quem faz manobras proibidas... e digo: não são pessoas civilizadas... Do alto da minha civilização, da minha cultura, me vejo bárbaro, ignorando a lentidão do velho. Confesso: também não sou uma pessoa civilizada.
    Sou cristão, mas neste momento estava longe de mim as palavras do Livro Sagrado: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo... Tudo o que quiserdes que os homens vos façam fazei vós também a eles...
    Constato também que é muito fácil apontar o erro alheio... como dizia Jesus: Tira primeiro a trave do teu olho, para depois olhares o argueiro do olho do teu irmão.
    Acho que estou no caminho da mudança... Confissão e arrependimento. Ver o mundo de outra forma, e dentro em breve poder dizer com o poeta:
     “Ando devagar porque já tive pressa...
     Levo este sorriso porque já chorei demais!”
     Finalizo com uma música em homenagem ao “Velho”.  É dedicado, no meu caso, ao meu Velho Pai, que no trânsito de Recife deve causar muita angústia nos motoristas impacientes e “civilizados”. Senhores, lembrem-se: Vocês irão envelhecer!!!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ushuaia: Fin del Mundo, sim, “cafundó-de-judas” jamais

    Os recentes desastres naturais de proporções apocalípticas têm feito muita gente refletir sobre o fim do mundo. Fim do mundo, advérbio de tempo. Tempo em que o fim chegará... o Apocalipse. Não quero pensar no fim do mundo. Prefiro pensar no presente e o que eu posso hoje fazer para transformar este mundo. Deixo com Deus o tempo em que o mundo se findará, embora não tenha dúvida de que estamos no tempo do fim... Mas o fim do mundo também pode ser pensado como advérbio de lugar. O lugar onde o mundo finda.
   Quando minha avó pensava num lugar longe... ela falava em Manaus, ou Belém do Pará.  No imaginário da minha avó Manaus ou Belém eram o fim do mundo. Para quem estava em Recife, de fato estas cidades não ficavam tão próximas!  Minha avó era uma legítima representante do mundo pré-científico, quando ainda não se sabia sequer que a Terra era uma gigantesca esfera girando em torno do Sol. Os antigos tinham a tendência de imaginar que o fim do mundo estava além da linha do horizonte, onde os abismos tragavam os mais ousados.
   Em torno de 5 séculos depois de Copérnico e Fernão de Magalhães, sabemos exatamente onde fica o fim do mundo: O último lugar civilizado onde serem humanos nascem, dão-se em casamento, morrem e são sepultados.
   Minha avó ficaria absolutamente escandalizada se eu lhe dissesse que eu fui ao fim do mundo e não era na Amazônia! Era muito mais ao Sul. Para quem já está no hemisfério sul, como nós,  estamos a meio caminho. Primeiro um vôo para o Sul do país, depois outro vôo para a capital argentina, e finalmente um novo vôo para o extremo sul da Argentina. Ufa! Longe? Claro. O Fim do mundo: Ushuaia. Mais abaixo apenas a base naval chilena de Porto Williams, e os pinguins do Continente Antártico.
    Final da Ruta 3, 3.000 km ao Sul de Buenos Aires cruzando a Patagônia erma e fria: Ushuaia, na língua indígena significa “baía interna olhando para o Oeste”. Uma baía no canal de Beagle, ao Sul do Estreito de Magalhães. O canal tem este nome em homenagem a embarcação  que adentrou esses fins de mundo na primeira metade do século XIX, o navio de Sua Majestade Beagle. Em missão de reconhecimento, o navio levava o jovem naturalista Charles Darwin. Sua viagem ao redor do mundo propiciou-lhe reflexões que o levaram a formular a Teoria da Seleção Natural.
     No século XIX, os britânicos vitorianos em seu ardor pela mensagem do evangelho, enviaram missionários para distantes regiões da Índia, Birmânia, China (como não lembrar de Hudson Taylor?), ao coração da África (não dá para esquecer David Livingstone)... mas faltava alguma coisa... Nas palavras de Jesus seus seguidores seriam suas testemunhas até os confins da Terra... até o fim do mundo.  A Junta de Missões da Igreja da Inglaterra enviou missionários aos confins da Terra: Ushuaia teve seus começos numa casa de missão, pré-fabricada, levantada em 1869 pelo reverendo W.H.Stirling, ao lado das habitações dos índios yaghan.   
    De uma simples aldeia evoluiu para base militar, depois Colônia Penal de Segurança Máxima... agora não encontramos mais índios, nem degredados... apenas viajantes de lugares longínquos querendo conhecer o fim do mundo... antes que venha o fim do mundo!

     Thomas Bridges, outro missionário inglês, no final do século XIX, solicitou ao governo argentino, e foi atendido, uma concessão de terras onde o mesmo pudesse trabalhar e estabelecer-se. Ainda hoje sua família habita aquelas terras, é a “Estância Haberton”, a 50 km de Ushuaia.  Lá é o ponto de partida para uma excursão à Isla Yacapsela, onde vemos os bichinhos mais elegantes da fauna terrestre: os pinguins.  

       O dicionário aponta o vocábulo “cafundó” como um sinônimo para fim de mundo.  É difícil pensar em Ushuaia como um “cafundó”... Fin del Mundo sim, cafundó-de-judas, jamais!
     No vídeo abaixo, um pouco desse interessantíssimo "fim de mundo": Eu estive lá...

terça-feira, 1 de março de 2011

O preço da coerência

     Coerência, do latim cohaerentia, derivado de cohaerens (manter junto) e cohaerere (ser consistente, coeso). Talvez para elucidar ainda mais o sentido da palavra, o uso do antônimo, do contrário, seja válido. Pensemos em fragmentário, despedaçado... incoerente!
      Fala-se muito em ética, em conduta, em atitude, em ação... fala-se. Mas vive-se tanto quanto se fala? Se houver muita falação e pouca realidade, ou numa linguagem filosoficamente mais adequada, muita teoria e pouca práxis... então faltará coerência (cohaerentia)!
       Talvez nunca na história da humanidade se tenha vivido num ambiente de incoerência tal como vivemos hoje. Nunca se falou tanto na valorização do homem e na preservação da natureza, como nos dias de hoje. E nunca se devastou tanto a natureza e se desvalorizou tanto o ser humano como nos dias de hoje. Falta coerência...
      Nunca se falou tanto em amor como na atualidade... e nunca se viveu tão pouco o amor como hoje. Incoerência...
      Pensemos por um momento numa coisa:
  1. Por que somos incoerentes?
      O que nos leva à inconsistência? À falta de coesão entre discurso e prática? Proponho a seguinte explicação: Somos incoerentes porque estamos visando o nosso  egoísmo, e estamos buscando a aceitação e aplauso do próximo.
   a) Somos incoerentes porque estamos visando o nosso egoísmo
   Ora, num mundo dominado pela busca a qualquer preço do sucesso não faz sentido ser coerente. Uma das maiores histórias acerca da incoerência foi contada por Natã, a uns 3 mil anos atrás:
    “Numa cidade havia dois homens, um rico e outro pobre. O rico tinha rebanhos e manadas em grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; ela crescera come ele e com seus filhos; comia da sua porção, bebia de seu copo e dormia em seus braços; e ele a considerava como filha. Certa vez, um viajante chegou à casa do rico; mas ele não quis pegar uma ovelha sua ou um boi seu para dar de comer ao viajante que o visitava, assim tomou a cordeira do pobre e a preparou para o seu hóspede...” (II Sm 12.1-4).   
     É coerente um homem rico usufruir de sua riqueza e oferecer dos seus bens para o seu hóspede. Não é consistente tirar o único bem do outro para seu próprio prazer. Mas Davi o fez!
     Quando viu Bate-Seba só pensou na satisfação do seu desejo, no seu egoísmo... Tornou-se o mais incoerente dos homens!
b) Somos incoerentes porque estamos buscando a aceitação e aplauso do próximo
      Escrevendo aos gálatas, Paulo relata-nos uma história curiosa:
      “E quando reconheceram a graça que me havia sido dada, Tiago, Cefas (Pedro) e João, considerados colunas, estenderam a mão direita da comunhão a mim e a Barnabé, para que fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão... Quando, porém, Cefas chegou a Antioquia, eu o enfrentei abertamente, pois merecia ser repreendido. Porque antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele estava comendo com os gentios; mas quando eles chegaram, Cefas foi se retirando e se separando deles, por temer os que eram da circuncisão...” (Gál 2.9-12)
         Ser aceito pelo grupo, pela comunidade, pela sociedade é um anseio comum do ser humano, pois ninguém quer viver sozinho, à margem. Seria, porém, preciso abrir mão da coerência para que essa aceitação se realize?
         Parece-nos que Pedro tinha medo de que sua coerência se transformasse num entrave para sua aceitação no grupo. Embora ele tivesse anteriormente apoiado o trabalho missionário entre os gentios, e até tivesse sentado à mesa com eles, quando chegaram seus irmãos judeus de Jerusalém, ele se retirou e se separou deles... temendo a reação destes.
          É necessário que Paulo o repreenda publicamente, condenando sua incoerência!
        Parece-nos que a incoerência é menos custosa, é mais simples, é um recurso à mão sem maiores sacrifícios. E, o mais importante, a maior parte das pessoas não mais se preocupando se somos ou não coerentes... A incoerência não é mais repudiada, como Paulo fez! É tolerada, aceita, e até bem-vinda!
  1. O preço da coerência
a) Renúncia
       O comandante sírio Naamã, viaja de Damasco a Israel em busca de cura para a sua lepra. Enviado ao profeta Eliseu, este o envia ao Rio Jordão para que se lave sete vezes e seja purificado de sua enfermidade. Milagrosamente curado, o general sírio oferece presentes ao profeta que responde: “Tão certo como vive o Senhor, a quem cultuo, não o receberei...” (II Rs 5.16) Embora o comandante insista, o profeta não abre mão de sua posição.
         Eis o preço da coerência: Renúncia! Que sentido havia em receber presentes se a cura veio do Senhor? Não recebo presentes, pois se algum louvor houver pertence ao Senhor dos Exércitos. Mas a tentação da incoerência é grande: prata, roupas especiais...
            ...E Geazi, servo do profeta,  não resiste à tentação da incoerência: Inventa uma mentira e recebe parte dos presentes do general sírio (II Rs 5.20-27). Bobagem, alguns poucos presentes, não vai fazer diferença para o rico comandante, enquanto para mim... Isso chama-se racionalização. Estamos tentando racionalizar nossa incoerência. Buscar explicações lógicas para elas.
            A incoerência de Geazi foi motivada pelo seu desejo pelo ouro, pela riqueza, seu desejo egoísta... Houve um preço alto: A lepra de Naamã lhe atingiu. Se parece ser alto o preço da coerência, a renúncia; Maior é o preço posteriormente cobrado pela incoerência, que o digam Davi, em seus terríveis dramas familiares, e o pobre Geazi.
            Eliseu pagou o preço da coerência. Abriu mão de riquezas temporais e manteve sua posição. Estamos prontos a fazê-lo, também?
             b) Impopularidade
            Jesus nunca foi antipático ou chato, mas nunca teve grande preocupação em ser popular, em não chatear as pessoas. Jesus nunca temeu a desaprovação das pessoas como Pedro o fez.
             Jesus teve uma postura de plena coerência. Senão vejamos alguns exemplos:
             “Estando Jesus à mesa na casa de Mateus, chegaram muitos publicanos e pecadores e se sentaram à mesa juntamente com Jesus e seus discípulos. Vendo isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: Por que o vosso Mestre come com publicanos e pecadores? Jesus, porém, ouvindo isso, respondeu: Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes...” (Mt 9.10-12)
 
     Diferente de Pedro, que preocupado com sua popularidade abraçou uma postura incoerente, Jesus não se preocupou com o que os fariseus iam pensar com o fato de estar comendo com publicanos  e pecadores. Afinal, como seria possível dizer “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos...” (Mt 11.28), se quando eles chegassem não pudessem se aproximar por causa das línguas farisaicas? Não seria incoerente? Jesus porém era coerente!
         Numa mensagem de difícil entendimento muitos dizem: “Essa palavra é dura; quem a pode suportar?” Jesus conhecendo seus corações indaga: “Isso vos escandaliza?” E mais adiante faz outra pergunta ainda mais provocadora: “Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6.60-70).
          O discurso de Cristo não muda porque há reprovação. Ele não altera a mensagem porque está preocupado com a evasão de ouvintes. Ele não faz uma rápida adaptação da mensagem tendo em vista a baixa aceitação. Ele não passa a prometer o que não pode, ou a mentir deslavadamente para manter seu público cativo. Ele não simula milagres, ou evoca o sobrenatural para que as pessoas sejam atraídas pelo mistério. Ele continua pregando normalmente... Coerência...
        Servimos e amamos a um Cristo coerente. Podemos ser modelos de incoerência, de inconsistência... mas não aprendemos isto do Mestre da Galiléia. Estamos assimilando muito rapidamente os paradigmas do nosso tempo. Entretanto, somos desafiados a viver uma vida coerente, e na nossa coerência, Jesus será glorificado:
        “...Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam levado à plena unidade, a fim de que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, assim como me amaste.” (Jo 17.23)
      Estamos prontos a pagar o preço?