Hoje cedo fui ao velório de uma pessoa de nossa comunidade. Muito pranto na terrível hora da despedida... Quando vim no carro estava tocando Trevo, da Anavitória. Gosto especialmente do trecho que diz "Eu só quero o leve da vida pra te levar..." É um trocadilho interessante.Fiquei pensando na dureza daquele velório. Se eu só quero o leve da vida, o que fazer com a dureza da existência? Realmente eu gostaria de que só houvesse o leve (soft) da vida, mas também tem o duro (hard). O que fazer com ele?Já percebeu que o Instagram é o espaço onde o leve da vida acontece? Ali compartilhamos momentos de descontração, de alegria, de realização. Outro dia postei algo sobre o sofrimento de meu pai com Mal de Alzheimer. Teve pelo menos a metade das curtidas de algo engraçado que compartilhei. É melhor ignorar o duro, e celebrar o leve.Parece-me que nossa tendência é negar as coisas duras. Nega-se até enquanto pode, a realidade de um diagnóstico fatídico ou os sintomas já esperados de um mal em andamento.Não é somente a realidade da doença e da morte que são duras. Duro é o cotidiano. Dura é a realidade que nos cerca. Duro é o trabalho. Duras são as decisões que precisam ser tomadas. Duro é o momento em que somos confrontados...Os filhos se chateiam com os pais porque às vezes eles são muito duros. Tem pais que não conseguem mais ser duros, porque também só querem o leve da vida. Quem não é duro hoje, pode ter a dureza da vida contra si amanhã. Ser duro faz parte!A garotada quer ficar com todo(a)s, pra não ter que decidir um compromisso com alguém. Isso é duro! E a gente só quer o leve da vida.Talvez não dê pra querer só o leve da vida pra te levar...Dizer que algo está certo e outro errado é duro. Melhor dizer que ninguém pode afirmar nada, é muito mais leve. Acho que é politicamente correto o leve da vida. O duro é politicamente incorreto.Pensa-se no cristianismo como algo leve, porque Jesus disse que o meu jugo é suave e meu fardo é leve. De fato, Jesus disse isso comparando com o pesado jugo religioso dos fariseus. Mas o discurso de Jesus teve sua dureza. Alguns até questionaram: Duro é esse discurso. Quem o pode ouvir? (Jo 6.60).Jesus tinha total consciência da dureza da vida. O sofrimento, as dificuldades, a humilhação, a decepção, o abandono, a cruz... tudo muito hard.Imagino que por isso mesmo Jesus tenha dito algo intensamente hard: Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me (Lc 9.23).A sabedoria popular também nos lembra: Rapadura é doce mas não é mole, não! Nos lembra em forma de canção o amigo João Alexandre...
Um espaço para compartilhar: Sonhos, tristezas, alegrias, sucessos, aventuras... Um lugar para discutir: história, fé, bíblia, ciência
ARTE
- Abrindo o coração e compartilhando (44)
- Bíblia (19)
- Educação (3)
- ESPAÇO DO ALUNO (2)
- Espiritualidade e Fé (20)
- Família (3)
- III Escola Bíblica de Jovens - IEADTC (1)
- Teologia (7)
- Viagens pelo mundo (3)
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Eu só quero o leve da vida... E o que faço com a dureza da vida?
quarta-feira, 3 de outubro de 2018
Falando em Eleições...
O país ferve na semana decisiva das eleições que definirão os ocupantes do Poder Executivo e Legislativo, tanto federal quanto Estadual. Em meio ao
frenesi emocionado desse momento quero pensar em eleições. Propor reflexão para o brasileiro num momento como esse, é um desafio e tanto. Isso porque, o brasileiro é um povo da emoção,
do coração, muito menos que do intelecto, da reflexão, da racionalidade. Obviamente isso não é uma conclusão minha. Há 80 anos, analisando o Brasil e os brasileiros, o historiador
Sérgio Buarque de Holanda escreveu um capítulo do seu livro “Raízes do Brasil” (1936), denominado “Homem Cordial”. Vale ressaltar que a palavra cordial, vem de cor, cordis – coração, em latim –, e empregada em seu sentido etimológico, ou seja, "do coração". O homem cordial é
então aquele que, dotado de "um fundo emotivo extremamente rico e transbordante", nas palavras de Sérgio Buarque, age e reage sob a influência dominadora do coração.
Portanto, contra a nossa natureza emotiva e efusiva uma breve reflexão a partir do texto bíblico.
A palavra eleição, eleito, é greco-latina. Em grego koinê (que é a língua em que o Novo Testamento foi escrito) teremos Eklogê
(eleição), Eklektos, Eklegomai (eleito), do prefixo ek (para fora) + verbo legô (chamado, passado de kaleô, chamar). No latim encontraremos Electus, Eligere, cuja ideia é sempre a mesma, escolhido,
selecionado.
Sendo o texto do Antigo Testamento escrito em hebraico, e anterior à civilização greco-romana, não podemos falar dessa palavra no mesmo. Entretanto,
encontraremos a mesma ideia expressa no verbo hebraico bachar (escolher, decidir). Então o povo de Deus é o povo bachir (escolhido). A maioria das versões do texto bíblico trazem “Filhos de Jacó, seus eleitos (bachir)” (I Cr 16.13). Um noivo é um bechir-libah (eleito do coração dela) ou simplesmente bachur (eleito), como encontramos em Is 62.5.
Falar de eleições entre os semitas seria um anacronismo estranho. Os líderes políticos são escolhidos pelo próprio Deus (Teocracia),
inclusive o primeiro rei, e a partir daí recebem a autoridade dinástica na monarquia hebraica. Os líderes religiosos também são escolhidos por Deus a partir da tribo de Levi e da família
de Aarão.
Apesar disso, há uma brecha para que o povo pudesse escolher, eleger (para usarmos um anacronismo ‘adequado’). Quando Moisés decide compartilhar a
sua liderança com chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez, conforme orientação de seu sogro Jetro, a escolha desses líderes “operacionais” dar-se-ia por escolha do próprio
povo, uma espécie de proto-eleição.
“Como posso suportar sozinho o peso das vossas dificuldades e das vossas discórdias? Escolhei homens sábios, inteligentes e experientes das vossas tribos,
e eu os porei como chefes sobre vós” (Dt 1.12-13). A Bíblia de Jerusalém traz o segundo versículo da seguinte forma: “Elegei homens sábios, inteligentes e competentes...”
Assim, parece-nos que os chefes, anciãos, príncipes das tribos eram escolhidos através de eleições. Não podemos afirmar se diretas
ou indiretas.
Ressalte-se porém, da qualificação que esses homens precisam ter: Sábios, inteligentes e experientes.
No período Inter-testamentário surgem no cenário da história ocidental os gregos, que ainda no século V ou VI a.C, em Atenas, realizaram as
primeiras eleições. Por isso o vocábulo é originalmente grego. Os romanos copiaram os gregos e a palavra veio para o latim Electus, Eligere.
Então, é no Novo Testamento, escrito em grego comum, que abundantemente encontraremos a ideia de Eleição, Eleitos.
Jesus diz aos seus discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes; pelo contrário, eu vos escolhi e vos designei a ir e dar fruto...”
(Jo 15.16). O apóstolo Paulo afirma: “Como também nos elegeu nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4).
Curiosamente, a comunidade cristã é teocrática, entretanto, tem liberdade para fazer suas escolhas e votar a partir de determinados critérios, submetendo
no final à vontade divina. Observamos ainda nos primeiros dias dessa comunidade, fazia-se necessário que alguém fosse nomeado apóstolo no lugar de Judas Iscariotes, o traidor.
Foi apontado o critério da escolha “homens que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós” (At 1.21). Foram apresentados
dois: José, chamado Barsabás, e Matias. Oraram e tiraram sortes, sendo sorteado Matias.
Mas é na escolha dos diáconos que o processo eleitoral se configura de forma muito clara:
“Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria,
aos quais encarreguemos deste serviço... A proposta agradou a todos, e elegeram.. Estêvão... Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau. E apresentaram perante os apóstolos,
os quais depois de orar, impuseram-lhes as mãos.” (At 6.3-7)
Foram determinadas as características que os postulantes à função deveriam possuir “de boa reputação, cheios do Espírito
Santo e de sabedoria”, e iniciaram-se os trabalhos para eleição. A comunidade elegeu os sete homens, cujos nomes foram submetidos ao Colégio Apostólico, que funcionava também como Tribunal
Eleitoral.
Depois de orar, que seria de fato submeter os eleitos à soberana vontade de Deus, foram investidos nas suas funções através da imposição
de mãos.
Em vésperas de eleições é importante perguntar-nos sobre a serenidade que temos (ou não temos) ao fazer nossas escolhas. Estamos escolhendo apaixonadamente
como homo brasilis cordialis que somos? Estamos nos deixando ser conduzidos pelo turbilhão de emoções produzidos pelas ruidosas e apelativas
campanhas eleitorais?
Estamos certos que as características de nosso candidato são compatíveis com o cargo para o qual o estamos elegendo? Acho que a recomendação de
Moisés ainda é válida: “Elegei homens sábios, inteligentes e experientes”. Para isso é preciso mais racionalidade, e menos emoção!
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Ressurreição... e feridas a serem saradas
Quando eu era garoto me feri
várias vezes. Brincando caía no chão e o joelho ficava ralado. Ferida para vários
dias. Ainda tenho uma cicatriz na testa quando correndo dentro de casa pisei
num carrinho de brinquedo e minha testa foi parar na quina da máquina de
costura de minha mãe. Essa precisou de hospital e pontos. Faz muito tempo, mas
ainda lembro: 11 pontos, 5 internos e 6 externos (ou era o contrário?). Passei
um tempão com uma faixa na testa até sarar. Uma vez derramei água quente no meu
braço, foi um Deus-nos-acuda. Queimadura de não-sei-quantos-graus. Vários dias
colocando pomada, depois a casca, e a ferida foi sarando.
Para a ferida sarar precisa de formar a
casca. Menino adora tirar a casca da ferida. A casca é feia, vontade de tirar
logo pra aparecer a pele limpinha e saudável. Ia tirar a casca e o sangue
jorrava e lá estava a ferida aberta de novo!
Feridas demoram a sarar. Precisa de
paciência. Não adianta tirar a casca. A casca é o sinal bem visível que houve
alguma coisa muito errada ali, mas está sarando...
Mas paciência é uma virtude estranha para nós
do século XXI. A tecnologia reduziu todo o tempo de espera do homem. Não
precisamos mais ter paciência. Não precisamos esperar notícias de alguém por carta
(par avion), por mais distante que
ela esteja no planeta, sendo acessível pela internet, nos falamos pelo Whatsapp,
Tweeter, Facebook, Instagran, por email.
Não precisamos mais enfrentar
intermináveis filas nos bancos, nos autoatendemos no aplicativo, disponível à
mão, em qualquer momento do dia.
Não
precisamos ter paciência para que a dor nos deixe. Os analgésicos nos prometem
alívio imediato.
Mas a tecnologia ainda não consegue fechar
instantaneamente uma ferida aberta. É preciso esperar os processos de cicatrização
orquestrados sabiamente pelo organismo. É preciso ter paciência!
Entretanto, mais lentas de sarar do que as
feridas do corpo, são as feridas da alma. Essas cicatrizam ainda mais lentamente.
Talvez porque as feridas da alma sejam mais profundas, mais doloridas. Não são
meros arranhões.
Eu lembro que vovó Noemia tinha uma ferida
na perna que, por razões que eu nunca entendi bem, ela conviveu alguns anos com
aquela ferida, e vivia com curativos o tempo todo. Ficamos muito felizes quando
a ferida sarou.
Algumas feridas da alma são assim, demoram tempos para sarar. Mas não
queremos esperar sarar. Não queremos uma casca de ferida na alma. É feio.
Lembra do que aconteceu. E nós queremos mesmo é esquecer. E como meninos que
ainda somos, vamos tirar a casca, e aí a ferida diz que ainda está lá. Ainda
não cicatrizou. Lembra-nos que é preciso paciência.
Em tempos de páscoa e ressurreição, lembro
da canção do Stenio que retrata o encontro de Jesus ressuscitado com Tomé, seu
discípulo:
“A minha ferida já sarou, vejo que a tua
ainda não, deixa eu tocar teu coração”.
As feridas de Jesus feitas pelos cravos
estavam cicatrizadas, mas as feridas do coração de Tomé, por se sentir
abandonado pelo seu Mestre, ainda estavam lá. E Jesus está ali para tocar o seu
coração, e ajudar a sarar as feridas de sua alma.
A ressurreição foi um tempo de cura das
feridas dos discípulos. Pedro também tinha uma ferida sangrenta. A ferida da
culpa por ter negado o seu mestre. Tem feridas que nunca serão saradas por si
mesmas. É preciso que outro traga o remédio. Jesus trouxe o seu perdão a Pedro.
Aquela ferida agora estava sarando!
Como os discípulos temos feridas em nossas
almas. Quando fazemos uma ferida no coração de alguém, uma ferida também é
aberta em nossos corações. Não podemos ferir Deus, mas podemos agredi-lo em sua
honra e santidade. E isso gera em nosso interior feridas profundas, que somente
Ele mesmo pode nos oferecer o processo de cura. A morte e ressurreição do Filho
de Deus é a provisão divina para nossa cura. O profeta Isaías disse isso muito
claramente:
“Verdadeiramente, ele tomou
sobre si as nossas ENFERMIDADES e as nossas DORES levou sobre si” (Is 53.4)
O melhor curativo para as feridas da alma
não é um antibiótico, é o perdão. Se ferimos alguém, corramos para pedir-lhe
perdão. Se alguém nos feriu, perdoemos, para que nossas feridas sejam saradas.
Às vezes essas feridas levam tempo para
sararem, como a ferida da perna da vovó. Mas saram. Às vezes dói. Às vezes
achamos a casca da ferida muito feia. Mas precisamos ter paciência. A feiúra da
casca da ferida é o melhor indicativo de que a ferida está sarando, breve a
casca vai cair e só haverá ali uma cicatriz.
Deixa eu tocar teu coração (Stenio Marcius)
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
Ouvistes o que foi dito... Eu, porém, vos digo
Parte do sermão do
monte é destinada a uma seção com esta estrutura: Ouvistes o que foi dito...
eu, porém, vos digo (Mt 5 21-48). Esse trecho do sermão de Jesus é precedido de
um esclarecimento acerca do cumprimento da lei de Moisés, ou da possibilidade
de Jesus estar ali com a missão de abolir a lei: “Não cuideis que vim destruir
a lei ou os profetas, não vim abolir, mas cumprir...” (Mt 5.17)
A lei foi um
estágio importante de nosso aprendizado, e não pode ser simplesmente ignorada,
ou abolida. Jesus veio ampliar o seu entendimento e aplicação.
Esse trecho do
sermão é finalizado com uma exortação: Sede vós teleioi (perfeitos, adultos, maduros) como é perfeito o vosso Pai,
que está nos céus (Mt 5.48). O sentido natural de teleios é adulto, aquele que atingiu o pleno estágio de
desenvolvimento, em contraponto aos bebês, garotos.
O caminho para o teleios passa necessariamente pelo
“ouvistes que foi dito”. Foi o próprio Deus que idealizou o “estágio seguinte”,
tendo em vista o descumprimento da aliança por parte de Israel:
Eis que dias vêm, diz o Senhor, em que farei
um concerto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá... Mas este é o
concerto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor:
porei a minha lei no seu interior e a escreverei no seu coração; e eu serei o
seu Deus, e eles serão o meu povo (Jer 31.31-33).
Enquanto a lei
estava escrita em tábuas de pedra, num novo estágio a lei estaria escrita no
coração de cada homem.
Ao recapitular
algumas ordenanças da lei, Jesus vai ampliando necessariamente a sua aplicação:
Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu,
porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu
coração cometeu adultério com ela (Mt 5.27-28).
Alguns dos maiores
problemas dos leitores da bíblia hoje tem a ver com ignorar este princípio
estabelecido por Jesus: Ouvistes que foi
dito... eu, porém, vos digo. No Antigo Testamento temos a palavra de Deus, que
não foi abolida, mas precisa ser entendida à luz deste princípio: Ouvistes que
foi dito... eu, porém, vos digo. Se
ignorarmos esse princípio teremos posicionamentos errados, atitudes equivocadas, entendimentos falhos, e
ainda estaremos afirmando sermos bíblicos!
Vejamos alguns
exemplos:
Ouvistes que foi
dito... que Elias quando ameaçado pelos soldados do rei Acazias pediu que
descesse fogo do céu e consumisse o capitão que veio prendê-lo e os seus 50
soldados, tendo isto acontecido por duas vezes (II Rs 1.9-12).
Ouvistes que foi
dito... o sacerdote Joiada foi o mentor espiritual e conselheiro do jovem Rei
Joás, que inclusive, sob sua orientação
promoveu uma reforma no templo de Deus. Após a morte de Joiada, Joás deu
ouvidos a conselhos ímpios e desviou-se do Senhor. O Espírito de Deus revestiu
a Zacarias, filho de Joiada e profetizou trazendo a palavra de juízo de Deus. O
rei Joás mandou apedrejar Zacarias no templo:
Assim o rei Joás não se lembrou da
beneficência que Joiada, pai de Zacarias, lhe fizera; porém matou-lhe o filho,
o qual, morrendo disse: O Senhor o verá
e o requererá (II Cr 24.22).
Ouvistes que foi
dito... Salmos imprecatórios! Entre os salmos de louvor, de gratidão, estão
alguns salmos classificados como salmos imprecatórios. Estes salmos são
clamores por vingança. São pedidos que a justiça de Deus se manifeste sobre os
ímpios. Algo parecido com o clamor final do profeta Zacarias ao ser apedrejado.
Consome-os na tua indignação,
consome-os de modo que não existam mais, para que saibam que Deus reina em Jacó até aos confins da terra
(Sl 59.13).
Ouvistes que foi
dito: Olho por olho e dente por dente (Mt 5.38).
Pelos exemplos que
estamos trazendo, percebe-se que o homem do Antigo Testamento tinha uma noção muito
elementar da misericórdia e da graça de Deus. Seu estágio de aprendizagem ainda
é muito rudimentar. Mas, importante, necessário, válido!
Antes de chegarmos
ao “Eu porém vos digo”, de Cristo,
precisamos citar dois livros do Antigo Testamento que nos apontam um
avanço significativo dessa aprendizagem: Oséias e Jonas.
Em Oséias veremos
algo totalmente novo. Um profeta é mandado para casar com uma moça de reputação
moral comprometida, após o casamento e os filhos que se sucedem, ela volta aos
costumes de prostituição, e adultério, então ele retorna, a acolhe novamente,
recebe-a novamente como sua esposa, a perdoa e ama. O que havia sido dito, olho
por olho, dente por dente, previa a morte por apedrejamento daquela mulher
adúltera. Não o perdão, e a reconciliação.
Mas tudo o que
acontece em Oséias não é iniciativa do profeta, é ordenança de Deus. Então nós
teremos de fato algo novo, mas não porque no coração desse homem tenha perdão
ou misericórdia, mas porque ele estava sendo obediente a voz de Deus.
Em Jonas fica mais
claro ainda a resistência do homem em operacionalizar a graça e misericórdia de
Deus. Um povo idólatra, só merecia a destruição. Deus em seu amor e graça envia
Jonas para despertar o povo de seu erro. Jonas não quer trazer a mensagem porque quer ver o
cumprimento do “olho por olho, dente por dente”. Fica então frustrado quando o
povo se arrepende e Deus não destrói a cidade.
Eu porém vos
digo...
Quando Jesus enviou
alguns discípulos para preparar pousada numa aldeia de samaritanos, estes não
foram recebidos pois o seu aspecto era de quem ia a Jerusalém. João e Tiago
então disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma,
como Elias também fez? Jesus os repreende e diz: Vós não sabeis de que espírito
sois. Porque o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas
para salvá-las. E foram para outra aldeia (Lc 9.51-56).
Os discípulos
estavam vivendo um outro momento, mas continuavam apegados ao “ouvistes o que
foi dito”. Pedir fogo do céu para consumir alguém parece ser tanto mais
espiritual, quanto bíblico, afinal Elias o havia feito! Mas não é este o
espírito que Jesus foi enviado. Não de destruição, mas de restauração.
Discutindo sobre o
perdão, Pedro pergunta a Jesus:
Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão
contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo até
sete, mas até setenta vezes sete (Mt 18.21-22).
Perdão parece ser
algo muito novo para Pedro, acostumado aos salmos imprecatórios! Então ele
propõe que possa perdoar sete vezes o seu irmão. Sendo isso um avanço
impensável! Jesus então diz, não sete, mas setenta vezes sete. Este número é
uma inversão da vingança encontrada em Gn 4.24... Eu, porém, vos digo!
Pedro diz que dará
a sua vida por Jesus, Jesus então lhe diz que “não cantará o galo enquanto
Pedro não tiver lhe negado três vezes” (Jo 13.37-38).
Pedro nega a Jesus
três vezes, como fora predito. Lucas registra que:
E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro,
e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe tinha dito: Antes que o galo
cante hoje, me negarás três vezes. E, saindo Pedro para fora, chorou
amargamente. (Lc 22.61-62)
Como poderia ser ele perdoado depois de
tão grande pecado contra seu Senhor?
Ouvistes o que foi
dito... Eu, porém, vos digo.
Zacarias ao ser
apedrejado clamou pela vingança divina: O Senhor o verá e o requererá. Jesus
crucificado entre dois ladrões, com uma coroa de espinhos em sua cabeça, vendo
suas vestes sendo repartidas, sofrendo o escárnio da multidão, bradou:
Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que
fazem. (Lc 21.34)
Após sua
ressurreição Jesus encontra Pedro e os demais discípulos no Mar da Galileia,
conversa com Pedro e indaga se ele o ama. A pergunta é feita por três vezes, a
mesma quantidade de vezes que Pedro negara Jesus. Ao final Jesus diz a Pedro:
Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21.15-17).
Jesus não apenas
enuncia uma ordenança, ele o faz. Ele não apenas diz a Pedro que devemos
perdoar tantas vezes sejam necessárias. Ele perdoa Pedro, e restabelece a
amizade de ambos. É o Deus-Homem que entre nós está, vivendo nossas decepções,
frustrações, sendo negado, traído e humilhado, que tem toda a propriedade para
dizer: Pai perdoa-lhes.
Jesus não apenas é o
exemplo. Ele, através do seu Espírito Santo, nos capacita a agirmos como ele.
Pois o seu concerto está nos nossos corações. Não agimos apenas porque fomos
ordenados a agir, como Jonas ou Oséias, agimos porque nosso coração é
habilitado para assim fazê-lo.
Ouvistes o que foi dito...
Quando Zacarias estava morrendo apedrejado bradou: Deus o verá e o requererá.
Estêvão foi
injustamente acusado de blasfêmia, após ter pregado um dos mais belos sermões
da história. Ao ser apedrejado, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz:
Senhor, não lhes imputes este pecado (At 7.60).
Ninguém ordenou a
Estêvão que assim o dissesse, mas o seu coração cheio de amor pelo Senhor
Jesus, pôde expressar livremente essas palavras.
Que seja assim
conosco, em pleno século XXI... que no nosso coração fale mais alto “eu, porém,
vos digo”.
Assinar:
Postagens (Atom)










