sábado, 26 de novembro de 2016

Pastor Russell Shedd... uma perda

            É duro acordar com a notícia da morte de uma pessoa querida. E esta pessoa querida não é um parente próximo, não é um familiar consanguíneo, mas me é muito familiar: Pastor Russell Shedd.
            Meu primeiro contato com ele aconteceu no início dos anos 90, através de sua primeira publicação de grande repercussão no país, a Bíblia Vida Nova, na qual ele é o editor responsável. A minha é daquela versão grande, de púlpito. Eu ainda era um seminarista. E no meu querido Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, comecei a ser influenciado por esse homem sem nunca tê-lo visto.
   Quando fui fazer o Mestrado na Faculdade Teológica de São Paulo, em 2002, ele já não era mais o titular da Cátedra de Novo Testamento.


     Em 2008 fui ao Congresso Vida Nova pela primeira vez. Lá nos inesquecíveis devocionais que antecediam as palestras, pude entender o significado de fazer teologia com o pastor Russell Shedd. É um mix de erudição bíblica, amor ao Senhor e à sua Palavra, e  serviço à Igreja. Na falta de qualquer desses itens teologia pode se tornar sinônimo de arrogância, ou de pragmatismo utilitarista.
         Novamente participei do Congresso de 2012, e por último em março de 2016. Era minha despedida do doutor Shedd. Num intervalo de uma das palestras, o ladeamos e registramos aquele momento numa foto,  eu e meu irmão-amigo Thalison.

        Lembro-me das copiosas lágrimas que me escorriam pelas faces quando o ouvia falar, exposições sempre entremeadas de exemplos práticos de sua experiência pastoral... ainda hoje me ardem o coração, aquelas lembranças!
      Quando esse ano fizemos a Exposição na congregação  da Carta aos Filipenses, pude novamente voltar aos pés do Mestre, através do seu livro Epístolas da Prisão. Às vezes temas áridos eram tratados por ele com singeleza e clareza que nos faziam entender a profundidade dos mistérios do Senhor.
     Por isso, Russell Shedd me é tão familiar. O Senhor toma para si, hoje, um homem que se tornou referencial para mim, de teólogo e servo de Deus. Não existe teólogo sem amor, temor e submissão a Deus. E não existe teólogo sem disposição para servir à obra de Deus.
   Hoje o Brasil tem muitos expoentes da teologia, e das Escrituras. Mas poucos com a humildade, sinceridade, e fidelidade do pastor Russell Shedd. Desde os tempos em que estudei no Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, com pessoas de muitas denominações distintas, aprendi a viver o Evangelho respeitando nossas diferenças doutrinárias, sem proselitismo ou ar de superioridade.
    Pastor Russell Shedd nos mostrou isso, a cada momento. A possibilidade de convivermos como irmãos e enfatizarmos o que nos une, e não o que nos diferencia. Ele proferiu palestras em Seminários e Igrejas de todas as denominações. Fui ouvi-lo na AD Cidade, na Sede da IEADTC. Ainda lembro do Congresso Vida Nova de 2008, que reunia batistas como Pr. Israel Belo de Azevedo, Professor Lourenço Rega, presbiterianos como Pr. Augustus Nicodemus e, o bispo episcopal Robinson Cavalcanti. Pastor Russell Shedd nos ensinou que podemos estar unidos para glória de Deus, e em torno da sua Palavra.

    Continuarei dizendo que Pastor Shedd é um dos meus referenciais, embora não mais o tenhamos entre nós. E Deus me convoca a, do meu simples lugar, tornar-me um referencial para as novas gerações. Que o Senhor me ajude... 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Minha consciência negra...

   Minha cidade, Recife, é um lugar de muitos negros. Os engenhos de cana-de-açúcar que a região abrigou desde o tempo de Duarte Coelho exigiram uma quantidade razoável de mão de obra escrava... e esta mão de obra era africana, negra. Vinha nos navios negreiros da África para o Porto de Recife. Estudo da Universidade de Emory, coloca o Porto do Recife como o quinto mais movimentado de todo o mundo no quesito desembarque de escravos. E quando o mercado de escravos foi proibido, o fluxo foi mantido às escondidas, num, literalmente, mercado negro. Os navios não aportavam no Porto de Recife, ficavam um pouco ao sul, e vinham carregados de negros, mas diziam que estavam trazendo “galinhas d’Angola”, por isso o nome de uma das mais belas praias da minha terra: Porto de Galinhas.

  Bem, a cor da pele nunca foi um problema pra nós. Meu avô, Justo José, que todos nós, filhos e netos, o chamávamos carinhosamente de Meu Pai, não era um negro autêntico, era mulato. Sua mãe era branca, mas meu bisavô, o Velho Sansão, era um negro de verdade. Imagino que meu trisavô deva ter sido escravo em algum engenho de cana do litoral pernambucano.

   Por artes da genética, nasci branco. Meus irmãos tiveram a pele mais tostada, trazendo mais próximo os resquícios da mãe África. E quem é mais escurinho a gente sempre chamava de “nego”. Meu irmão Heber, era, e ainda deve ser, “o meu Nego” da tia Moisa, que era a mais morena das filhas do meu avô. Temos uma idade próxima, e eu me lembro de desde criança admirar sua morenice, com lindos cabelos negros escorridos. Levava à loucura os rapazes, quando era solteira!
   Tia Moisa casou com um homem branco, e teve dois filhos, um negro e um branco. O “nego Clevson”, é o nego mais lindo dessa parte do Equador!  Chamar o outro de “nego”, pode ser um xingamento, mas também uma forma carinhosa de se dirigir a alguém que se ama.

   Nos dias de hoje, penso que posso ser preso, pelo que estou escrevendo.
 Na escola, nunca precisamos de um dia de consciência negra, para reconhecer a importância de nossos colegas pretinhos. E naquela época ninguém sofria “bullying”. Então a gente podia chamar o outro de “nego feio”. Como me chamavam de “baleia-fora-da-água” (eu era um garoto gordo).  E ninguém morria.
   Além das relações familiares, a igreja foi outro lugar onde nossa convivência nunca esbarrou com questões ligadas à cor da pele. Na maior parte das décadas de 80 e 90, nosso pastor era um negro, Pr. José Leôncio da Silva. O negro mais amável e carismático que alguém pudesse imaginar. Sua lembrança continua viva na minha memória, e de tantos outros que puderam ser sua ovelha, por algum tempo.
    Lembro que, em nossa congregação na periferia de Recife tinha muitos irmãos negros. Gente tão querida, tão especial, que a cor nunca fez diferença em nossos relacionamentos. Me lembro da irmã “Roxinha”. Imagino que a apelidaram de Roxinha porque era tão pretinha que parecia roxinha. 
    Na minha rede de amigos, nunca separei, estes são os brancos, e aqueles são os negros. Foram sempre meus amigos.
   Hoje as coisas estão diferentes. Outro dia alguém propôs que precisa catequizar quem for negro para que volte às práticas religiosas africanas. Que coisa estranha!!!
   Sempre achei interessante nosso país, onde negros e brancos caminhavam juntos sem enfatizarem a diferença racial. As coisas parece que estão mudando.
    Posso aqui gritar minha origem africana e me definir como afrodescendente. Posso dizer aos meus filhos que busquem as cotas na universidade pois lhes cabe de direito.
    Somos homens, somos seres criados à imagem e semelhança do Criador. Por que enfatizar o que nos distingue? Enfatizemos o que é comum em nós: Somos todos pecadores, carentes da graça do Senhor! 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Em tempos de ebulição política...

Os sinais da Idolatria Política
  (Timothy Keller, em Deuses Falsos, pág. 96 a 98)

Obs. Trata-se de um escritor norte-americano. Qualquer semelhança com o que vemos em nosso país é mera coincidência...

   Um dos sinais de que um objeto está funcionando como um ídolo é que o medo se torna uma das características principais da vida. Quando centralizamos nossa vida em um ídolo, tornamo-nos dependentes dele Se nosso falso deus é ameaçado de alguma forma, nossa resposta é o pânico completo. Não dizemos "Que vergonha! Que dificuldade!", mas sim: "É o fim! Não há esperança!"
    Talvez seja por essa razão que tantas pessoas hoje respondem às tendências políticas dos Estados Unidos de forma tão extrema. Quando um partido ganha uma eleição, certa fração do lado perdedor começa a falar abertamente em deixar o país. Essas pessoas se tornam agitadas e temerosas em relação ao futuro. Elas colocaram em suas agendas e líderes políticos o tipo de esperança que antes era reservado a Deus e à obra do evangelho.Quando seus líderes políticos estão fora do poder, elas experimentam a morte. Acreditam que, se as pessoas e políticas delas não estiverem em ação, tudo irá pelos ares. Recusam-se a admitir as semelhanças entre seu partido e o adversário, concentrando-se em vez disso nos pontos de desacordo. Os pontos de contenda obscurecem todo o resto, e um ambiente venenoso é criado.

     Outro sinal de idolatria em nossa política é que os oponentes não são vistos como simplesmente errados, mas sim maus. Depois da última eleição presidencial, minha mãe de 84 anos observou: "Antigamente, quem quer que fosse eleito como presidente, mesmo que você não tivesse votado nele, era seu presidente. Hoje em dia não é mais assim." Depois de cada eleição, há um número significativo de pessoas que veem o presidente eleito como alguém sem legitimidade moral. A crescente polarização e amargura que vemos na política americana de hoje é um sinal de que transformamos o ativismo político em uma forma de religião. Como a idolatria produz o medo e a demonização?

   O filósofo holandês-canadense Al Wolters ensinou que, na visão bíblica das coisas, o principal problema da vida é o pecado, e a única solução é Deus e sua graça. A alternativa a essa visão é identificar algo além do pecado como o principal problema no mundo e algo além de Deus como o principal remédio. Isso demoniza algo que não é de todo ruim e transforma em ídolo que não pode ser o bem último. Wolters escreve:
    O grande perigo é isolar algum aspecto ou fenômeno da boa criação de Deus e identificá-lo, em vez da intrusão do pecado, como o vilão no drama da vida humana. [...] A Bíblia é única em sua rejeição intransigente de todas as tentativas de [..] identificar uma parte da criação como vilã ou salvadora.
   Isso explica os constantes ciclos políticos de esperanças e desilusões exageradas, os discursos políticos cada vez mais venenosos e o medo e desespero desproporcionais quando um partido perde o poder. Mas por que endeusamos e demonizamos causas e ideias políticas? Reinhold Niebuhr respondeu que, na idolatria política, transformamos o poder em um deus.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A cara do Brasil que não é retratada pelo IBGE e a responsabilidade de cada um

* Obs. Todos os nomes são fictícios

    Mais uma vez trabalhei como mesário nas eleições. Parece um trabalho repetitivo e desinteressante, mas não é. Para mim é sempre uma experiência sociológica única. Nenhuma aula de antropologia na universidade poderia me trazer um retrato tão vívido do povo da cidade, e em menor escala do país.
   O vaivém constante do cara-crachá, da checagem de rotina “documento de identificação com foto” – rosto do eleitor, é um sermão da implacabilidade do tempo. Mas por que o tempo é mais implacável pra uns do que pra outros?
   Sr. H é um homem jovem, a data de nascimento informa. Mas estamos diante de um velho. Um velho trêmulo, que já pela manhã cheira a cachaça. Como no dia da eleição não se vende bebida alcoólica, desconfio que tenha um estoque em sua casa. A bebida se encarregou de debilitar sua saúde e apressar sua velhice.
    O documento de identificação  da Sra. M também nos indica uma mulher jovem. Mas estamos diante de uma idosa. Mais do que isso, alguém com marcas intensas do trabalho e de sofrimento. Fez biometria, mas os dedos estão tão grossos de calos decorrentes do trabalho pesado, que o leitor biométrico se recusa a reconhecer aquele polegar deformado, ou indicador estranho.  

    É.... há labores que não constam nos registros do Ministério do Trabalho, mas não são fictícios. Talvez sejam mais reais do que aqueles que estão sendo contabilizados pela Previdência Social.
   É verdade que o calor de Fortaleza não é para os fracos! Mas isso explica os trajes mínimos das adolescentes e jovens? Normalmente apenas os glúteos das garotas são cobertos; E muitas vezes com peças excessivamente apertadas com o objetivo de despertar os olhares cobiçosos dos homens jovens e velhos.
    Pode-se observar também que boa parte delas vem acompanhadas de crianças. Garotas com menos de 20 anos trazendo crianças que nem são mais de colo, as quais ficam ao lado, puxando pela peça ínfima que cobre os glúteos da garota-mãe.

    Claro que alguns daqueles rapazes que votaram na mesma seção devem ter sido os machos que geraram aquelas criancinhas... e nunca reconhecerão a paternidade. Isso ficará a cargo dos avós... e eles estarão livres para gerar outras crianças, que também não conhecerão o pai!
   Em pequeno número tem aqueles que desistiram do gênero que nasceram. Não é fácil identificar Maria Fernanda, a bonita garota da foto da identidade, que em nada se parece com o garoto musculoso  à sua frente. Ou ainda, fazer a identificação de Carlos Eduardo, o adolescente sério e com cara de macho retratado no documento de identificação com a moça peituda e melosa à sua frente.
    Pensa-se no futuro do país a partir dos governantes eleitos. E se pensarmos a partir do povo? E se cada brasileiro anônimo entender que o futuro desse país depende de cada um de nós? Que há consequências macro e micro para os vícios, os atos irresponsáveis!
    Eu sei que é politicamente incorreto dizer isso. Melhor pensar que são todos vítimas do sistema cruel e opressor. Eu insisto em dizer que há sim, responsabilidade em cada um dos eleitores que compareceram na minha seção para eleger o novo prefeito da cidade!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Palestra do Pr. Carlos Queiroz na Conferência Liderança em Foco, IEADTC, Fortaleza

     O último dia de nossa Conferência tivemos a preleção do Pr. Carlos Queiroz, que em sua maneira totalmente peculiar, ministrou com sua habitual simplicidade, calma e autoridade.

     Inicialmente fomos chamados a fazer a diferenciação entre Chefe, Gerente e Líder:
     O Chefe constrói relacionamentos baseados no medo, as ameaças. Tais relacionamentos independem de valores e princípios. As gangues, máfias, quadrilhas, são o melhor exemplo deste tipo de relação.
     O Gerente é caracterizado por seu foco em resultados.
     E o Líder, tem seu foco nas pessoas, no crescimento das mesmas. Sua ação busca trazer sentido e significado para os seres humanos.
    Jesus e Barnabé são utilizados como dois grandes líderes a serem seguidos, imitados. São líderes servidores.
    A função do líder é “Apoiar e inspirar pessoas para a tarefa que Deus lhes confiou”.
    E qual a missão que ele confiou a cada um? A missão que ele confiou foi “seguir Jesus, sendo transformado de glória em glória”. É importante cada um discernir a vontade de Deus para sua própria existência. Aprendemos com Jesus “A minha comida é fazer a vontade de meu pai que está nos céus.” (Jo 4.34) É preciso que indaguemos “qual a tua vontade, Senhor?”
    É importante ressaltar que para liderar outros em primeiro lugar precisamos nos autoliderar.
    Nossas ações e atitudes são orientadas a partir de nosso imaginário, nossos modelos mentais, nossas memórias. Esse imaginário revela as estruturas e conjunturas que elegemos como padrão. Quando Jesus indaga que dizem os homens ser o Filho do Homem, eles respondem: Uns dizem Elias, João Batista. Diante do Cristo que ali estava, eles se reportavam aos modelos e estruturas já estabelecidos em seu imaginário.
    É preciso que nosso entendimento de liderança tenha como paradigma Jesus de Nazaré, e não sejamos contaminados pelas conjunturas de liderança política da nossa época, nem nossos modelos mentais e memórias. Quanto à liderança, Jesus propõe posturas contrárias às vigentes:
   “Então Jesus os chamou e explicou: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que são as pessoas importantes que exercem poder sobre as nações. Não será assim entre vós. Ao contrário, quem desejar ser importante entre vós será esse o que deva servir aos demais” (Mt 20.25-26). A lógica do Reino não está de acordo com a lógica do mundo. O Reino de Deus tem sua coerência própria.

    Quando todos esperam que um rei entre em Jerusalém com toda a pompa num imponente cavalo branco, Jesus entra montado num jumentinho. Porém, sua singularidade, a autoridade que dele emanava, não exigia pompas e animais reais. Ele foi reconhecido como rei, mesmo num jumentinho, pois a multidão acudiu aos gritos: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o Rei de Israel” (Jo 12.13)
     Liderança não depende de papel e função. Liderança depende de integridade, da construção histórica, da singularidade mais profunda de cada um.
     Liderança não é o mesmo que prestígio e fama. Liderança não é sinônimo de acumulação de recursos. Por todas essas coisas Jesus foi tentado, mas não cedeu a nenhuma delas.
     Parece que o mesmo não está acontecendo em nossos dias...
     Líderes são pessoas preocupadas não apenas em fazer algo, mas  em fazer a coisa certa. É preciso discernir o contexto, para que que possamos dar resposta adequadas às demandas de nosso tempo. Para isso, precisamos viver a plena e total dependência de Deus. Precisamos viver as bem aventuranças, choro, pobreza de espírito, pacificação... Nosso modelo será sempre Jesus de Nazaré!!!
    Tendo Cristo como exemplo maior nossa preocupação com a imagem não será superior que a nossa preocupação com as pessoas. Então, evitaremos a exposição pública quando as coisas não estiverem bem resolvidas por dentro. Isso também é autoliderança.
    Como Cristo, manteremos a oração como espaço de intimidade com o Pai. E faremos jejuns, para disciplinar os apelos da existência.

    O ministério de Cristo foi peregrinando pelas vilas e cidades da Palestina. Ele foi um peregrino. Na peregrinação saímos do nosso espaço para ir ao encontro dos outros!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Segunda Palestra do Pr. Rubens Muzio na Conferência Liderança em Foco, IEADTC, Fortaleza

    No dia de ontem o Pr. Rubens Muzio nos trouxe mais duas tendências externas que influenciam as lideranças das igrejas, para as quais precisamos estar vigilantes e atentos, e quatro funções da igreja que devem permanentemente nortear e orientar a nossa prática de liderança.
   As duas tendências externas são o consumismo e a marketização por um lado, e o entretenimento por outro.
   A intensificação do consumo, inclusive com o fenômeno da obsolescência planejada dos produtos, faz com que a oferta de bens e serviços seja a maior preocupação das pessoas. E o fenômeno do mercado vai envolvendo tudo, inclusive as igrejas. Crentes se tornam clientes, membros de igrejas se tornam consumidores de produtos religiosos, igrejas passam a funcionar como lojas da fé, produzindo bens religiosos para o consumo. Os pastores estão preocupados com a concorrência da loja vizinha, e com a plena satisfação dos consumidores exigentes.


    A ciência do marketing vai tomando lugar do Evangelho da Cruz. Líderes marqueteiros gerenciam estruturas de distribuição de bens e serviços religiosos. E no afã da conquista de novos clientes se busca oferecer o produto ao menor preço possível. É o fenômeno da graça em liquidação. A graça é vendida muito barata, pois assim um número maior de consumidores será alcançado. O Evangelho de santidade que pressupõe a graça preciosa não tem mais espaço. Os consumidores estão muito mais interessados num pseudoevangelho antropocêntrico, do que no verdadeiro evangelho cristocêntrico e com a logomarca da cruz.
    Não são poucos os pastores e as igrejas que realinharam sua mensagem para não perder mercado. A marketização da igreja parece ser muito atraente, e até eficaz, mas tira da igreja o seu papel profético!
    Outra tendência muito sedutora hoje é o entretenimento, a igreja teatro, os eventos, os cultos shows, o pastor diretor do espetáculo, o pregador comediante motivador. No culto entretenimento a ação sobrenatural do Espírito Santo cede lugar à manipulação. Os consumidores se sentem bem, saem satisfeitos. Porém o culto não é o espaço onde nosso ego é massageado e temos nossas necessidades satisfeitas. É o lugar onde somos confrontados com a Palavra do Senhor e nos humilhamos diante da glória de Deus!
    Diante dessas tendências que muitas vezes encantam até os escolhidos, somos chamados a refletir sobre as funções da Igreja: Koinonia (comunhão), Kerygma (proclamação da mensagem), Diakonia (serviço) e Martyria (testemunho).

   Não estamos falando de conceitos abstratos, de formulações teológicas complexas que podem ou não ser abraçadas. Estamos falando de funções vitais da igreja, que caso não se observem, como diria Nietzsche, nosso cristianismo vai cheirar mal, não nos pareceremos com redimidos.
   O primeiro é o desafio da Koinonia, da comunhão, da vida unida a Cristo, do chamado à unidade prática. É o aprendizado que nos faz conviver com pessoas diferentes, a  crescer com os conflitos. É um chamado à maturidade de abandonarmos nossa ultrasensibilidade infantil, não me toques, desenvolvendo a resistência de uma pele de rinoceronte, que suporte as pressões, e as dificuldades das relações interpessoais.
   Precisamos levar em conta a orientação agostiniana para que, haja unidade nas questões essenciais, liberdade nas questões secundárias, e em todas as outras, caridade. Precisamos ter discernimento para distinguir o que são questões essenciais e quais são secundárias. Conhecimento da palavra de Deus e sensibilidade do Espírito nos ajudarão a perceber cada uma delas.
     O segundo desafio é o Kerygma, a proclamação da mensagem. Há um total desvirtuamento da mensagem no mercado da fé. Somos chamados a estar encharcados da palavra, a amar, obedecer, proclamar, enfim, voltar à Palavra.

      Da história nos vem exemplos que não podem ser ignorados, João Bunyan, João Calvino, George Muller. Homens que liam a bíblia, a amavam e a pregavam. Não são os reformadores que nos ensinaram a ênfase na palavra, eles apenas trouxeram à luz algo que havia sido esquecido. Por ocasião da separação dos diáconos os apóstolos disseram: Nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra (At 6.4).
    O evangelho precisa ser pregado nas nossas igrejas, não apenas para os que estão fora, mas também para os que estão dentro. Cristo precisa ser proclamado como o único caminho para a salvação, o centro do pensamento cristão, a essência do cristianismo.
     Outra função da igreja é a diakonia, o serviço. A diakonia exige que enxerguemos o outro, o próximo. Os quatro primeiro mandamentos nos apontam para a relação com Deus, mas os seis últimos nos apontam para a relação com o próximo.
   Há uma tensão instalada quando falamos do mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Alguns enfatizam uma parte e esquecem a outra e vice versa. Somos desafiados ao equilíbrio. Serviço cristão é tudo o que fazemos para a glória de Deus. Foi a igreja medieval que erroneamente propôs que somente o trabalho ligado à igreja seria para a glória de Deus. Por isso quem quisesse servir a Deus verdadeiramente precisava ser padre, monge ou freira. Os reformadores corrigiram esta distorção. Precisamos servir à igreja, à comunidade onde estamos. A presença de Deus não está apenas na igreja, ela preenche toda a criação. Somos agentes na Terra, para que Venha o Reino, seja feita a vontade do Senhor.
     No século XIX os irmãos ingleses entenderam que o problema da escravidão na Inglaterra era de todos eles. E todos serviram a Deus no afã de acabar com aquela prática desumana.
    Não esqueceremos a citação de Edmund Burke: “Para que o mal triunfe, tudo o que é necessário é que boas pessoas não façam nada.”
    Martyria, testemunho, foi a última função da igreja que analisamos. É curioso como a palavra original martyr significa apenas aquele que testemunha. Jesus disse ser-me-eis testemunhas (At 1.8). Os primeiros discípulos foram testemunhas de  Jesus, andaram como ele, proclamaram sua mensagem. Mas para as autoridades, inicialmente judaicas, e depois romanas, essa martyria, esse testemunho incomodava demais. Testemunhar passou a ser sinônimo de condenação à morte. Foi assim com Estêvão, e Tiago. Então a palavra grega martyr, testemunha foi para o latim mártir, designando aquele que dá a sua vida por uma causa.

   Martyria é nossa disposição em testemunhar, e caso seja necessário dar a nossa vida, pelo Senhor que por nós morreu. Isso é muito mais do que ser um crente cliente, ou “criente”. Finalizo com a citação de Richard Forster, que não devemos apenas achar bonito, mas refletir sobre o que precisamos fazer para tornar as nossa igrejas dessa forma: “Comunidade de amor e aceitação. Alianças de liberdade e libertação. Centros de esperança e visão. Sociedades de edificação e prestação de contas. Pequenos bolsões de vida e luz tão impressionantes que o mundo, quando os vir, vai se admirar: ‘Vejam como eles amam uns aos outros!’”        

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Resumo da Primeira Palestra do Pr. Rubens Muzio na Conferência Liderança em Foco, Fortaleza

    É uma alegria pra mim saber que líderes da minha querida congregação de Quintino Cunha, bem como meus irmãos supervisores e demais líderes de igreja de toda Fortaleza podem estar aqui, na nossa igreja participando de uma Conferência de Liderança, onde expoentes como o Pastor Rubens Muzio podem compartilhar conosco suas experiências e aprendizado acerca da liderança. Alguns de nós precisamos viajar até São Paulo para ouvi-lo em Eventos como o Encontro Sepal para Pastores e Líderes, hoje, temos o privilégio de tê-lo aqui conosco. Estamos de parabéns, pela iniciativa da ESLIC e da Diretoria da nossa Igreja.
    Uma conferência não é o ambiente para se sair sorrindo e descontraído. É um espaço para reflexão, é um tempo de confronto. Onde nossas aparentes certezas são sacudidas, e somos desafiados a pensar nossa prática de liderança.
   O que vimos ontem?

    Vimos que estamos sujeitos às influências que nos rodeiam. E que algumas tendências externas tem afetado nossa ação na lide pastoral. A primeira delas são os conceitos empresariais, são os padrões de resultado e eficiência que, se aplicados à igreja tornarão a mesma em uma empresa, em um negócio.
    Somos conscientes de que há uma tensão entre duas realidades que necessariamente precisam coexistir: A igreja enquanto organização humana, e a igreja enquanto organismo, Corpo vivo de Cristo.
    Não podemos permitir que o elemento organizacional sobrepuje o poder do Espírito Santo que traz vida e sentido ao Corpo do Senhor.
     A segunda tendência é a aplicação de técnicas e soluções tecnológicas, ou estratégias e ferramentas que se aplicados corretamente prometem o pleno sucesso.  Essa tendência é um indicativo de que percepções humanistas e autossuficientes estão nos dominando, que não somos mais o povo e os líderes dependentes de Deus, que nossa oração se tornou apenas um apêndice obrigatório para comprovar nossa “espiritualidade”.
    Começamos a acreditar que as coisas acontecem em razão de nossas eficientes ferramentas ministeriais. Muitos de nós utilizamos as receitas de livros que estão nas livrarias: 6 passos para um pastorado eficiente, a chave para o crescimento de sua igreja, o que fazer para duplicar o número de membros da sua igreja.
    Somos desafiados a voltar a confiar no Senhor, e no poder do Espírito Santo, vamos cuidar do nosso barco e manter a vela intacta, e depender do Vento do Espírito, que sopra onde quer, e como quer!
      Cristo é nosso modelo. Um ministério cristão verdadeiro não pode ser antropocêntrico, necessariamente precisa ser Cristocêntrico.
      Jesus é o nosso modelo em sua Encarnação. Em sua identificação com a humanidade, sua kenosis, seu autoesvaziamento bem descrita por Paulo em Fp 2. Jesus não passa ao largo da vida dos homens e da comunidade. Ele encarna missionalmente, mergulha na cultura, na vida da comunidade, sente seus dramas, sofre suas dores, abraça seus desafios.

     Não podemos ser líderes que ignoram o drama dos homens, como os religiosos, levitas que passaram ao largo do homem ferido da parábola do bom samaritano.
     Jesus é nosso modelo em sua morte. Nossa logomarca é a cruz, não a coroa. A cruz em sua tragicidade, em seu sofrimento cruel, em sua dor. O discípulo não pode ser maior que seu senhor. Todo o líder cristão precisa saber que a cruz é uma etapa de sua vida, de seu ministério. Cruz não combina com conforto, com sucesso... Nossa logomarca precisa voltar a ser a cruz, como de tantos missionários no passado, como Adoniram Judson, William Carey e tantos outros.

     Precisamos contemplar a Cristo em sua ressurreição. Sua ressurreição é sinônimo de dynamis, de poder, que veio sobre os discípulos em Pentecostes, e eles não se mantiveram escondidos, mas fizeram toda Jerusalém ser sacudida pelo poder do Espírito do Cristo Ressurreto. Comunidade do Ressurreto é a comunidade empenhada em trazer o reino para as pessoas, para que elas sejam transformadas e seja feita a vontade do Pai.


    Finalizamos com uma oração de Confissão e Petição: “Senhor que as tendências que nos rodeiam não falem mais alto que o teu Espírito. Que sejamos gente que conheça o coração de Jesus e o obedeça mais do que as técnicas de sucesso. Que sejamos teus discípulos, que nos pareçamos contigo, Jesus Cristo, Senhor nosso”.