sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Ideologias políticas: Ídolos e utopias

                                                              por Thalison Evangelista

Estamos às vésperas das eleições, e os debates entre candidatos acontecem em todas as grandes emissoras do país. Muita gente assiste, outros não. Alguns se empolgam, outros, na verdade, se horrorizam com a falta de conhecimento, comprometimento, ética e outras virtudes nos candidatos.
O Brasil vem passando por uma espécie de despertar (pouco, diga-se de passagem) no aspecto político. Talvez diante do fato de tantos escândalos de corrupção e também de uma crise financeira enorme, as pessoas procuram saber o motivo por trás de tudo isso. Mas esse tipo de despertar nos esclarece, ou pelo menos nos alerta, para outro tipo de problema, a saber, a esperança depositada na política (ideologias, partidos, etc.).

Nós vivemos em um mundo profundamente secularizado, apesar de ouvirmos muito a palavra “espiritualidade”, na verdade ela hoje é usada em muitos sentidos, menos no sentido real. Mas, embora secularizado, o homem jamais deixou de ser um “ser religioso”, pois é da sua natureza adorar. Mesmo o mais ateu dos ateus adora alguma coisa, seja o objeto de adoração um animal, dinheiro, sexo, poder ou ideias.
David Koyzis argumenta em seu excelente livro “Visões e Ilusões Políticas”, que “a ideologia provém do comprometimento religioso (idólatra) de uma pessoa ou comunidade”. Talvez soe estranho para nós, modernos, essa afirmação. Afinal, estamos acostumados a ver política totalmente separada de religião, e enquanto no meio cristão se vive uma espécie de esquizofrenia em que no contexto da vida “secular” somos movidos por pensamentos diferentes em várias situações, vivendo uma dicotomia, no meio não cristão costumamos ouvir: “Não se discute religião, política e futebol”. Mesmo parecendo estranho, queremos apontar alguns argumentos que mostrarão fazer muito sentido o que Koyzis diz.
A “ideologia é religião invertida”, diz o historiador Russell Kirk. Nós diríamos ainda que ideologia é uma religião reducionista. Ela nasce primeiro no imaginário do ideólogo, e depois tenta se encaixar na realidade. Assim, para poder fazer sentido, necessariamente precisará descartar algumas verdades da criação, criar outras, e distorcer outras tantas. Dessa maneira, ela acabará formando uma visão errada da criação, criando formas distintas de enxergar o que é o mal, e mostrando formas ruins de redenção para esse tipo de mal.

Alguns pensadores, ao analisarem os totalitarismos políticos, percebem que na raiz do pensamento dos totalitários, está sua maneira equivocada de perceber quem é o homem. Mas, poderíamos ir além, percebendo que, na verdade, suas maneiras de enxergar a criação são distorcidas. Por exemplo, na ideologia socialista/comunista, a liberdade individual e grupos que pensam de forma diferente (opressores) são vistos como o mal da criação a ser combatido, por isso, o próprio Marx percebia que era necessário a ditadura do proletário, e necessário também a luta armada, para o fim dos “opressores”, que atrapalham a paz e a prosperidade mundial. Essa forma de ideologia, apesar de mostrar sua ineficiência em vários países, ainda é almejada por muitos, como uma esperança utópica, uma “religião”. Mas não só ela, como todas as outras ideologias são vistas também como esperança política para a humanidade.
Existe um perigo enorme na adoção dessas ideologias, pois como afirma o professor Francisco Razzo, em sua obra "A Imaginação Totalitária",  “na articulação conceitual, uma variável pode ser eliminada com a força do raciocínio, [mas] no mundo da vida, que é o mundo de pessoas vivas e reais, eliminar variáveis pode significar eliminar pessoas”, ou seja, nossas ideias têm consequências práticas, e elas podem ser catastróficas. Quando se delimita o pensamento a um âmbito restrito, podemos pensar o que for. Porém, quando se tenta levar as mais variadas formas de pensamentos para a realidade, e transforma-las em verdade absoluta, as consequências podem ser terríveis e irreparáveis. O homem insuficiente, tenta criar uma maneira de pensar que corresponde a tudo, e falha por ser justamente insuficiente, e não conseguir visualizar tudo. Apesar das falhas, as ideologias tomam o coração humano com a força de um ídolo, que por sua vez exigirá nosso sacrifício, e também dos outros.

A ideologia surge da nossa estiagem espiritual. Trocamos o Deus cristão por diversos ídolos, incluindo nossas próprias ideias absurdas. A confiança na graça salvadora através de Cristo, é substituída pela confiança ideológica-política. O escatológico dia do juízo final, onde a justiça será manifesta de forma perfeita por Deus, agora é realizado aqui e agora, onde são julgados e aniquilados aqueles que são contrários e atrapalham a imposição de nossa ideologia.  A esperança no porvir, nos novos céus e nova terra, é alterada pela utopia da “Sião terrena”, a perfeição na terra. Como diria Kirk, “a ideologia, em suma, é uma fórmula política que promete um paraíso terreno à humanidade; mas, de fato, o que ela criou foi uma série de infernos na terra. ”
É possível que o ideólogo questione se o Cristianismo não funciona também como uma ideologia. A resposta é simples: Não. O Cristianismo é, na verdade, revelação de Deus. Não é produto de uma imaginação de ideias feita por alguns intelectuais, portanto não pode ser chamado de ideologia. A ideologia é materialista e naturalista, e por ser reducionista desse modo, não levando em consideração toda a realidade criada, sempre vai errar em sua visão total, apesar de acertar em alguns aspectos. O Cristianismo não é materialista, nem naturalista, mas percebe que existe Alguém absoluto de onde temos o referencial para afirmar o que é a criação, o que é o homem, o que é mal e o que é bom. A ideologia, no entanto, não tem referencial absoluto para afirmar o que é bom, ou o que é mal, utilizando somente a razão como forma final de avaliação. O conflito, por fim, será inevitável, pois, como sabemos, cada ideologia tem suas ideias do que é bom e do que não é, cada uma afirmando que algo deve ser combatido e aniquilado, apontando cada qual à uma redenção diferente e ineficaz. Assim, os meios para alcançar os objetivos redentores não são levados em conta, e no sentido mais maquiavélico, os “ideolatras” levarão suas ideias adiante, rumo ao inconcebível.

É preciso perceber qual cosmovisão estamos utilizando para avaliar nossas decisões. É necessário analisar nossa maneira de pensar, e perguntar a nós mesmos por que julgamos tal ação mais valiosa que outra.
Os Cristãos devem ter sua mente cativa à Palavra de Deus, que é o referencial para toda forma de julgamento de visões. É através dela que analisamos cada ação, cada ideia proposta, cada ideologia, em seus aspectos bons e ruins. Qualquer candidato que fale a verdade, seja ele ateu ou não, fala por Deus, pois, “toda verdade, é verdade de Deus”, mas, se fala mentira, seja cristão ou não, não fala por Deus, pois, “seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso”.

Que a nossa esperança seja aquela que ainda não podemos ver, como escreve o Apóstolo Paulo. Que ela seja depositada em Jesus Cristo, Filho de Deus, nosso Salvador, Redentor e Senhor, e não nos governantes desta terra, tão falhos como qualquer um de nós, e busquemos àquele a que toda forma de governo deve estar sujeita.

domingo, 25 de setembro de 2016

O que nos fascina?


   O ser humano é um ser de fascínio. Nossos sentidos têm contato com certas coisas que parecem ecoar algo dentro de nós, então ficamos fascinados! Os olhos brilham, a mente fica voltada para algo como um pensamento fixo, a adrenalina corre nas veias, nada mais importa, é um fascínio, um encanto!

    A história humana nos mostra que o homem é fascinado por algumas coisas que só mudam de contexto, mas continuam as mesmas. O homem é fascinado pelo poder. Não é à toa que em algumas sociedades um homem tinha várias mulheres. E o fascínio pela conquista de novos territórios, pela expansão do poder, levou a humanidade a seguidas guerras.  A expansão do poder vai além do contexto bélico propriamente dito para englobar as disputas culturais e religiosas. O poder do sagrado fascinava o homem medieval, e dominou o pensamento da época.
   A narrativa do Gênesis mostra-nos Eva fascinada por um fruto proibido. Não um fruto qualquer, mas um fruto que lhe traria poder: O poder do conhecimento! O homem da renascença e do iluminismo é o homem fascinado pelo conhecimento, o conhecimento oriundo da razão. Esse poder continua fascinando o homem do século XXI, tanto quanto o primeiro casal.
    Há uma faceta do poder que parece ainda mais fascinante do que outras: o sobrenatural, o inexplicável, o maravilhoso. Aquilo que não tem uma resposta imediata na racionalidade humana.
      Os relatos do texto sagrado indicam desde os primórdios, que para o ser humano não há outro fascínio tão irresistível quanto o sobrenatural, o inexplicável, o maravilhoso. Na verdade, o Deus invisível dos hebreus se manifesta de forma sobrenatural. E o homem é atraído como um camundongo para a fascinante armadilha divina. Foi assim com Moisés: O fascínio de um arbusto que ardia em fogo mas se mantinha verde. Quem poderia resistir como se nada tivesse acontecendo a tão tamanha maravilha?

     Quando um povo que só conhecia Deus através dos relatos orais dos seus antepassados, é formalmente apresentado a esse Deus, que é invisível, a maneira encontrada por Ele de se fazer conhecido é através do sobrenatural, do milagroso, do espantoso. Eles creram pelo fascínio do sobrenatural. Diz o texto: “...e fez  os sinais perante os olhos do povo. E o povo creu” (Ex 4.30-31).
    É assim que os judeus se tornam fascinados por sinais, pelo sobrenatural, afinal Yahweh é o Deus Todo Poderoso, que responde com fogo ao clamor de Elias no Carmelo (I Rs 18.38), além das inúmeras intervenções miraculosas de Deus ao longo da história de Israel. Os gregos por outro lado, eram fascinados pelo conhecimento. Paulo resume isto na conhecida sentença: “Os judeus pedem sinal e os gregos buscam sabedoria” (I Co 1.22).
   Escrevendo aos gálatas, Paulo indaga: “Ó Insensatos gálatas! Quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade”? (Gl 3.1). Alguém deveria ter fascinado os gálatas, os induzido, os encantado, os enfeitiçado, para que mudassem de entendimento, de crença.  Tiago poderia responder a Paulo, que cada um é tentado, fascinado, atraído pelo seu próprio desejo (Tg 1.14). O ser pecaminoso do homem ama o fascínio. Está dentro do homem essa tendência para ser fascinado.
      Não pergunto portanto, quem nos fascinou? Mas o que nos fascina?
     Hoje, mais do que nunca somos fascinados pelo sobrenatural, pelo místico, pelo inexplicável. E hoje há toda uma indústria que movimenta milhões em torno desse fascínio. Uma gama de segmentos religiosos surge e se expande graças ao fascínio pelo sobrenatural.

     Não estamos aqui para negarmos que Yahweh é o Deus todo poderoso, e que tem poder para dar a vida, tirar a vida, curar, abrir o Mar Vermelho... Os relatos bíblicos neo e veterotestamentários estão cheios de relatos de milagres divinos. Os fascinados pelo poder da razão e do conhecimento sempre negaram a veracidade desses relatos. Quero registrar que creio inteiramente na ação sobrenatural de Deus. Mas os evangelhos que, diga-se de passagem são eivados de relatos de milagres nos ensinam algo que não pode ser ignorado.
     Num contexto judaico a existência dos milagres, ou sinais, era autenticadora da presença de Yahweh, e legitimava a mensagem por intermédio de quem os milagres aconteciam. Foi assim que Nicodemos creu em Jesus: “Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele” (Jo 3.2).   Porém, o fato de ficarem fascinados com os sinais que Jesus fazia, fosse multiplicação de pães, cura de aleijados ou ressurreição de mortos, não os fazia seguidores verdadeiros de Cristo, e muitos o abandonaram (Jo 6.66), quando lhes foi esclarecido que precisavam partilhar da sua humanidade e crer no seu sacrifício (Jo 6.54). O fascínio é egoísta, visa fins pessoais, o gozo individual.
    É Paulo que complementa quando fala do fascínio dos judeus e dos gregos, ele diz: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado” (I Co 1.23). Paulo nos diz o que exatamente nos deve fascinar. Não é a ressurreição de Lázaro, nem a cura da sogra de Pedro, nem a restauração da vista de Bartimeu, nem a cura da filha da mulher siro-fenícia. O que nos deve fascinar é o Cristo crucificado.
    E olhando para o Calvário veremos essa escolha da fascinação muito bem ilustrada:
    Um dos crucificados com Jesus lhe diz: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós” (Lc 23.39). Fascinava-o o sobrenatural. Ele iria crer em Jesus se milagrosamente, e numa demonstração de poder sem igual, o mestre se despregasse dos cravos, e baixasse até o chão, deixando a cruz vazia,  salvando também a vida dos demais crucificados, e condenando à morte eterna o restante da humanidade.


    A proposta nos faz lembrar a tentação de Cristo, na qual o diabo tenta o Senhor buscando fazê-lo fascinantes demonstrações de poder: “Se tu és o filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão”; “Se tu és o filho de Deus, lança-te daqui abaixo...” (Lc 4.3,9). 
    Jesus ainda é tentado com uma proposta de fascinante poder: “Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória” (Lc 4.6).
    Por outro lado, o outro crucificado não se fascina com qualquer ato de glória e poder que Jesus pudesse fazer, mas apenas lhe diz: “Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino (Lc 23.42).
    É apenas o fascínio pelo crucificado. Que não sejam os milagres que nos fascinem, ou mesmo as possibilidades de glórias deste mundo. Mas Cristo, apenas ele, o crucificado! A nascente igreja de Cristo aprendeu que os milagres estão no âmbito da soberania de Deus. Foi assim que Tiago foi morto à espada, mas Pedro foi liberto da prisão por um anjo do Senhor (At 12.1-10).
    Se formos fascinados apenas pelo poder sobrenatural, ficaremos indefinidamente em busca de milagres e maravilhas, e não do Cristo crucificado. Se ficarmos buscando o fascínio do poder e glórias terrenas nos curvaremos diante dos ídolos. Simão, o mago samaritano recém convertido fica extasiado diante dos sinais que Deus realiza (At 8.13). Não lhe atraía o Cristo crucificado, morto, sepultado e ressuscitado. Lhe atraía de tal forma o sobrenatural que ele ofereceu aos apóstolos dinheiro para que ele pudesse ser também detentor do poder (At 8.18). Para que ele pudesse exercer livremente ações fantásticas e miraculosas. Foi duramente repreendido pelos apóstolos: Ele não era um cristão convertido!


    A prática de Simão é encontrada em toda a parte, em pleno século XXI.  Que nosso fascínio seja o Cristo crucificado, e como pobres pecadores que somos, nos juntemos ao ladrão da cruz dizendo: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Novo Impeachment no Brasil, 24 anos depois... Nesse país não se aprende com a História?

     Eu votei na eleição para presidente em 1989, a primeira eleição por voto direto no país para presidência da República, depois de longos 29 anos (a última eleição direta para presidente foi em 1960, quando os brasileiros elegeram Jânio Quadros, que renunciou no ano seguinte e foi substituído por seu vice, João Goulart, que foi deposto pelos militares em 31 de março de 1964). Tancredo Neves, o primeiro presidente depois dos militares foi eleito pelo Congresso em 1985, e morreu sem ter assumido, sendo substituído também pelo seu vice-presidente José Sarney.
   Eu não precisava votar, tinha apenas 17 anos, mas que jovem brasileiro ia perder a oportunidade de votar para presidente? Muitos de nossos pais ainda não tinham tido essa oportunidade. E havia um motivo a mais: Votar em Lula para presidente. Cantávamos a plenos pulmões: Lula lá, brilha uma estrela... Lula lá, meu primeiro voto!!! A juventude se incendiava com a canção do candidato do Partido dos Trabalhadores.
   Lula perdeu a eleição. Ficamos tristes. Fernando Collor de Mello, foi eleito por um partido desconhecido, PRN. Jovem, bonito, boa retórica, jeito de homem sério. Empreendeu algumas mudanças que impactaram o país. Eram tempos difíceis, alta inflação, nossa autoestima em baixa. Ainda me lembro da ministra Zélia Cardoso e dos pacotes para enxugar a liquidez da economia. O país foi chamado a um esforço especial para nos tirar do ciclo devastador da inflação. Estávamos prontos a dar nossa parcela de contribuição pelo bem da pátria.
    Mas tudo foi por água abaixo, quando Pedro Collor, irmão do presidente, abriu as porteiras das denúncias de corrupção do Governo. Outros se animaram também a denunciar. Dentro em breve uma CPI foi aberta no congresso. O povo ganhou as ruas e os cara pintadas, jovens como eu, foram protestar contra a corrupção. Um processo de impeachment foi aberto, e em 29 de setembro de 1992, o Congresso, liderado pela oposição petista aprovou a saída de Collor. Antes de ocorrer a votação no Senado, o presidente enviou carta de renúncia aos senadores. Collor saiu protestando inocência.




    Muitas águas rolaram... Itamar Franco, vice de Collor assumiu o governo e juntamente com seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, lograram êxito na estabilização econômica. A inflação foi definitivamente domada. Na substituição de Itamar, nova eleições: Lula e FHC. Lula perdeu na primeira vez, e na segunda, na reeleição de FHC. Mas por ocasião da saída de Fernando Henrique, Lula foi, enfim, eleito presidente.
   O discurso ético do PT, o compromisso com a classe trabalhadora, tudo isso nos dava a sensação que valia muito a pena, ser governado por Lula e pelo PT. Mas ainda no primeiro mandato as coisas começaram a desandar. José Genoíno e José Dirceu, homens fortes do partido e estrelas do novo governo se envolveram numa série de escândalos de corrupção que ficou conhecida como Mensalão.

    O Brasil entendeu que seria algo localizado, talvez de cunho pessoal, e Lula foi reeleito, e conseguiu eleger sua substituta, Dilma Rousseff. Dilma não conseguiu repetir a performance do seu antecessor, mas tinha a confiança do país. A duras penas conseguiu se reeleger, num tempo onde denúncias de corrupção surgiram de todos os lados, originadas da própria Justiça e da Polícia Federal, na operação conjunta conhecida por Lava Jato.

    Negava-se tudo. Tudo era culpa da oposição impiedosa. Um mar de lama atingiu o governo nos mais diversos escalões. A Petrobrás, praticamente desabou na enxurrada de corrupção. O povo novamente foi às ruas. Um processo de impeachment foi instaurado na Câmara dos Deputados, e hoje, 31 de agosto de 2016, o Senado Federal acompanhou os deputados no afastamento definitivo da Presidente da República.
    Hoje não sou mais simpatizante de qualquer partido. Mas eu, e a maior parte dos brasileiros temos consciência de estarmos antipatizando qualquer partido, governo, facção, grupo que esteja envolvido com corrupção.
   O que derrubou Dilma Rousseff foi absolutamente a mesma coisa que derrubou Fernando Collor de Mello, a corrupção. Mas não é só corrupção, é corrupção conjugada com prepotência, com arrogância, com hipocrisia. Ambos repetiram a mesma receita. E o resultado dessa combinação é sempre o mesmo: Impeachment. Foi há 24 anos, repete-se agora!

     O povo tolera erros de um chefe de governo, mas o povo está cansado de corrupção, de ter acesso a serviços básico precários e saber que seus tributos estão se convertendo em propina, em riquezas indevidas para um grupo de políticos. Isso não se tolera mais. Quando alguém vai entender isso? Enquanto isso não for entendido novos impeachments virão!
    Quem discordar do que eu estou dizendo, precisa negar a história, precisa negar o bom senso, a lógica, a coerência...


domingo, 24 de julho de 2016

Confissão e Lamento


   Semana passada estava envolvido na nossa congregação com o Forum Dokimon para a juventude, com o tema “O Evangelho Puro e Simples”, parafraseando C.S.Lewis. Foi um tempo proveitoso de aprendizagem para todos nós que estávamos envolvidos. Não tive tempo de acompanhar o desenrolar das novidades nas redes sociais.  Hoje, buscando me atualizar das novidades me deparei com a lamentável notícia do cancelamento de um evento na CPAD que teria participação do Rev. Augustos Nicodemus, juntamente com os desdobramentos possíveis numa sociedade conectada.
    Não pretendo realizar uma crítica abrangente do episódio, pois gente com muito mais cacife do que eu já o fez, com muita propriedade. Restou-me duas coisas, que parece que se encontram em desuso nesses tempos de um evangelicalismo triunfante: Lamentar e Confessar...



   O lamento era um recurso que os homens dos tempos bíblicos sempre lançavam à mão nas épocas de tragédia. Foi assim com Jeremias. Quase podemos ouvir sua voz de choro em suas Lamentações (Lam 2.11). Em meio a tanta tristeza decide “trazer à memória aquilo que pode lhe trazer esperança” (Lam  3.21). Gostaria de seguir os passos de Jeremias, um profeta com o qual tenho uma profunda identificação. Lamento porque nossas instituições cedem com alguma facilidade às pressões, como o Rei Saul, o que lhe causou, inclusive a perda do trono (I Sm 13.8-14). Lamento porque percebemos na igreja evangélica um festival de gente imatura. Por um lado gente imatura que por ter tido acesso ao conhecimento, a alguma formação, permitiu que a arrogância tomasse conta de si, ignorando o que Paulo escreveu aos coríntios: “O conhecimento/ciência (gnosis) incha, mas o amor (ágape) edifica. (I Co 8.1)”. Por outro lado, gente imatura que por não ter qualquer conhecimento, não sabe lidar com as situações que surgem.
    Meu lamento é maior ainda porque a solução encontrada tem sido a negação do outro. Pra quem entende, isto também é uma forma de violência! Parece ser a solução mais simples, embora não cristã para o impasse. Gente que pode ser ensinada através do exemplo, exortada pela palavra para viver em amor e não em arrogância, entra em colisão com líderes sem conhecimento e formação, e o anátema mútuo corre solto. Lamento porque num nível institucional estamos vivendo a atitude infantil dos discípulos: “Mestre, vimos um homem que expulsava demônios em teu nome, e nós o proibimos, pois ele não nos acompanha” (Lc 9.49).
   Eu poderia sentir, de repente, um sentimento pós-moderno denominado de vergonha alheia. E, certamente, juntar-me ao coro das maldições. Nas Escrituras somos chamados a encarar a culpa de nosso povo como nossa. Gosto do capítulo 9 do profeta Daniel. Daniel não fora um judeu idólatra, não transgredira os mandamentos do Senhor, mas sua oração de confissão o inclui: “Pecamos e praticamos o mal, agindo com impiedade e rebeldia, apartando-nos dos teus preceitos e das tuas normas, não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que falaram em teu nome... A ti, ó Senhor, pertence a justiça; mas a nós, a vergonha, como hoje se vê...” (Dan 9. 5-7).
  Confessamos que a igreja brasileira não tem se preocupado com a formação dos seus pastores como deveria fazê-lo. Muitos se encontram totalmente incapacitados para tão grande e nobre tarefa. Confessamos que não orientamos nossos jovens com o amor e piedade que deveríamos fazê-lo. Às vezes nossos seminários são fábricas de Querubins Ungidos, de donos do conhecimento, de devoradores de livros sem qualquer temor a Deus.  Fico lembrando de meu querido mestre Pr. Thomas Fodor, no Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste. Estava sempre preocupado com nossa vida devocional, com nosso caminhar com Deus, angustiado para que nossa balança entre o conhecimento e o amor estivesse em equilíbrio...
   Lamentando e confessando, quero trazer à memória aquilo que pode me trazer esperança. Conheci o Rev. Augustus Nicodemus há alguns anos, numa Conferência Teológica. É meu conterrâneo. Fala com a gravidade de um mestre, e a propriedade de quem sabe o que está dizendo. Posso não concordar com todas as suas posições, mas reconheço nele um homem de Deus, com um profundo amor pelas Escrituras. Minha formação espiritual se deu aos pés dos mestres, fossem eles da minha denominação ou não. Como jovem pobre na periferia de Recife, gostava de ler, mas não tinha dinheiro para comprar livros. Me tornei colportor, da  Editora Betânia, CPAD. Os livros eram, e ainda são minha riqueza. Nunca me importei em olhar se o autor era da minha denominação, e sim, se era alguém que tinha algo a me ensinar, sempre tentei seguir a orientação paulina: Examinai de tudo e retende o bem (I Tes 5.21). Estudei num Seminário interdenominacional que me levou a ter uma visão do Reino de Deus não sectária, não mesquinha. Fui fazer mestrado na querida Faculdade Teológica Batista de São Paulo, onde o fato de ser um pentecostal assembleiano nunca foi problema em minha relação com os professores e colegas.

     Atualmente estou ministrando na Igreja a Carta aos Gálatas, e um dos livros que utilizo é o livro de autoria do Pastor Augustus Nicodemus.  Fico pensando se dentro em breve não haverá uma proibição de ler os livros deste expoente da Palavra... Outro dia ministrei na Igreja sobre João 14.1-3 “Vou preparar-vos lugar”. Ao final do culto confessei a um irmão próximo que estou desejando muito ir, para um lugar junto ao Pai... Talvez não haja mais lugar para mim nesse mundo, não consigo mais achar natural determinadas coisas... Resta-me seguir o conselho de Jeremias: “Põe a tua boca no pó, talvez ainda haja esperança” (Lam 3.29).

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Episódio da Mulher Adúltera ilustra texto de Gálatas

     Estudando a epístola aos gálatas para expor no culto de ensino da igreja revejo o trecho já mui conhecido:
     “Então, para que serve a lei? Ela foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem a promessa havia sido feita... (Gl 3.19) Mas a Escritura colocou tudo debaixo do pecado, para que a promessa fosse dada aos que creem pela fé em Jesus Cristo. Mas, antes que viesse a fé, éramos mantidos debaixo da lei, nela confinados para a fé que haveria de ser revelada. Desse modo, a lei se tornou nosso guia para os conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas tendo chegado a fé, já não estamos sujeitos a esse guia. Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gl 3.22-26).  

     A leitura desse trecho paulino me faz lembrar o episódio registrado por João em seu evangelho, no capítulo 8:
    “Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras. Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo. Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos e disseram a Jesus: "Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz? "

     Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: "Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela". Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão.
     Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando com os mais velhos. Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele.
     Então Jesus pôs-se de pé e perguntou-lhe: "Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?”  "Ninguém, Senhor", disse ela. Declarou Jesus: "Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado.” (Jo 8:1-11)
    Agora vejamos como o episódio da Mulher Adúltera ilustra as explicações paulinas:
    Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher flagrada em adultério.  Indaga Paulo, para que serve a lei?  E ele mesmo responde “por causa das transgressões”. A resposta é muito sucinta e talvez não esclareça plenamente. Então pode-se usar outro texto paulino para lançar mais luz sobre a questão: “Eu não conheci o pecado senão através da lei, pois eu não teria conhecido a concupiscência se a Lei não tivesse dito: Não cobiçarás.” (Rm 7.7)

   Os fariseus sabiam que a mulher havia pecado porque a lei afirmava isso. Eles não chegariam a essa conclusão por si mesmos.  A lei indicou que havia pecado, e esse pecado conduzia à morte. Naquele caso, o apedrejamento. A punição que a lei previa era para que o homem assimilasse a gravidade da transgressão.
    Mas pecado não era apenas o adultério da mulher. Dizia Paulo:  “A Escritura colocou tudo debaixo do pecado”.  Jesus se levantou, olhou para os homens que traziam a mulher e indagou: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez começando com os mais velhos.

    A lei apontava claramente o pecado não apenas da mulher, mas de todo o homem.  E aqueles fariseus e homens da lei entenderam isso. Nesse episódio fica claro qual era o objetivo da lei, e também que ela cumprira satisfatoriamente sua finalidade: Deixar claro, que todo o homem é pecador diante de Deus!
   Agora a mulher estava ali, diante de Cristo, trazida pelos ditames da lei. Sem nada que pudesse falar a seu favor, a não ser a fé no homem que tinha nas mãos o seu destino, pois a lei previa seu apedrejamento. Mas Jesus a perdoou, dizendo: Vá em paz e não peques mais.  Paulo resumiria o que aconteceu com as seguintes palavras:  Desse modo, a lei se tornou nosso guia para os conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados. Mas tendo chegado a fé, já não estamos sujeitos a esse guia.
   Vivamos pela fé, na Salvação graciosa do Senhor que nos libertou da maldição da Lei!!

   

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O Brasil nas palavras do profeta, por Thalison Evangelista

Profeta de Judá, da cidade de Morosete-Gate, teve sua atividade profética entre a ascensão ao trono de Jotão (740 a.C) e a morte do rei Ezequias (686 a.C). Seu nome é Miqueias.




Por que um profeta que viveu a aproximadamente 2700 anos atrás teria relevância para nós? Porque sua voz é mais atual do que nunca, “sua mensagem é contundente, oportuna e absolutamente necessária. Miqueias está vivo, ele está nas ruas. Sua mensagem deveria estar estampada nos jornais mais conceituados e mais lidos, nos corredores das câmaras de mandatos populares, nos tribunais de justiça e nos púlpitos evangélicos. ” (Hernandes Dias Lopes, Miqueias, Ed. Hagnos, 2008). Apesar de Miqueias não ser popular hoje em dia, ele foi lembrado em um púlpito evangélico ontem (26/06/2016). Este pequeno texto é baseado em uma exposição de Miqueias capítulo 7, versos 1 a 7, que foi feita na igreja Assembleia de Deus Quintino Cunha, pelo pastor Ezion.
No tempo do profeta que estamos falando, houve um rei chamado Ezequias, que reinou em Judá e empreendeu uma grande reforma no templo, e pode-se observar uma renovação do culto a Deus (Levitas e Sacerdotes foram reconsagrados; buscou-se eliminar a idolatria reinante; os dízimos e ofertas foram novamente restabelecidos, etc....). Mas será que esse fervor espiritual se manifestou também por todas as esferas da vida, como na família e nos negócios, ou ele ficou somente preso aos templos?  Essa resposta Miqueias nos dá:
Ai de mim! Porque estou como quem colhe as frutas do verão, como os que rebuscam na vinha; não há cacho de uvas para comer, nem figo novo que tanto desejo. (1)

O homem piedoso foi aniquilado da terra; não há sequer um justo entre os homens; todos armam ciladas para derramar sangue; cada um caça seu irmão com uma armadilha. (2)

As suas mãos estão aptas para fazer o mal. O príncipe e o juiz exigem suborno; os nobres impõem seu próprio desejo. Todos eles tramam o crime. (3)

O melhor deles é como um espinheiro; o mais justo é pior que uma cerca de espinhos. Chegou o dia anunciado por seus vigias, o dia de castigo; agora começará a sua confusão. (4)

Não creiais no amigo, nem confieis no companheiro; tende cuidado com o que dizeis até para aquela que vos abraça. (5)

Pois o filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, e a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os da própria casa. (6) (Miquéias 7.1-6)

Certamente esse fervor não estava visível para Miqueias, a justiça e a misericórdia estavam ausentes dos corações das pessoas. Para o profeta a injustiça não passa desapercebida, ele brada no verso 1 se identificando com o sofrimento visível e cruel de seu tempo. O avivamento não havia saído das paredes do templo. É incrível como nós observamos isso hoje, quando o crescimento dos evangélicos é cada vez mais notável, mas a violência e a corrupção não cessam. Nossos dias são marcados por “avivamentos” presos aos templos, onde grandes igrejas estão mais preocupadas em engrandecer o seu nome no meio da sociedade, do que em proclamar o Evangelho do Senhor Jesus Cristo. Isso é espelhado em “crentes” que buscam cada vez mais a “vitória” a todo custo, inclusive por meios ilícitos (Quantas vezes você não viu na TV, que vários dos que foram presos ou que são alvo de alguma investigação, são de igrejas evangélicas?).

        A espiritualidade verdadeira não está restrita ao templo. A espiritualidade verdadeira ganha as ruas, as casas, os colégios, as faculdades, as instituições onde frequentam aqueles que passaram por um avivamento, através de um agir transformado, de uma atitude nova, de uma nova postura.
Encontrar um homem benigno, ou piedoso, nos tempos dele era uma tarefa praticamente impossível, pois a corrupção era generalizada. Os grandes tramavam o mal e articulavam como iriam sair da lava-jato... não, quero dizer que os grandes tramavam o mal e planejavam como iriam ganhar mais.
Quando Miqueias fala que ainda virá “o dia anunciado por seus vigias, o dia de castigo; ” e que “agora começará a sua confusão”, é inevitável que nos venha a mente a situação do Brasil. Todos os dias ao abrirmos os jornais somos bombardeados por uma enxurrada de notícias de políticos, empresários, e outros sendo presos ou planejando fugir das investigações.... Certamente o dia de castigo chegou, e começou a confusão de todos os corruptos! Somos gratos ao juiz Sérgio Moro e sua equipe (#somostodosMORO!), mas também sabemos que, na verdade, o próprio Deus os tem levantado para tal obra.

O profeta ainda nos faz mais alertas, e nos diz que até mesmo aqueles mais próximos também não são confiáveis. Nós precisamos nos percebermos, e não só chamarmos todos os outros de corruptos. Somos o povo do “jeitinho”, e a todo momento estamos planejando como enganar o nosso próximo para obter alguma vantagem. Às vezes não cometemos algum crime somente porque não temos oportunidade, mas nosso coração está cheio de corrupção e maldade.

É hora de clamarmos por misericórdia ao nosso Deus, e confiar nEle. Imitar Miqueias, ao dizer: “Eu, porém, olharei para o Senhor; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá. ” (Miqueias 7.7). Que possamos ter vivo em nosso coração a esperança, e saber que ela não pode ficar presa as quatro paredes do templo, mas sim refletir em todas as nossas atitudes, de todas as esferas da vida.
Gostaria de cantar com você essa canção/oração, ainda tão atual como há algumas décadas. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Além da Crucificação...

 

 Qual o sentido da morte de Jesus? Por que um homem justo, sem culpa, sem crime, morria entre dois malfeitores? A resposta a essa pergunta não vai se achar dentro dos muros de Jerusalém, ou nos anais do Sinédrio que o condenou, nem nas atas produzidas pelos assessores jurídicos de Pilatos, que lavou as suas mãos, tentando isentar-se de responsabilidade por concordar na morte de um justo. Esta é uma pergunta que requer uma resposta demorada. E para responde-la precisamos ir até o Jardim do Eden, num tempo em que o homem resolve desobedecer, transgredir, decide se emancipar da tutela de um Deus que provê todas as coisas, que lhe dá comunhão e afeto, nas conversas de fim de tarde. Adão pecou, e nele toda a humanidade.

  O apóstolo Paulo esclarece na carta aos Romanos: 
PORQUE TODOS PECARAM E DESTITUÍDOS ESTÃO DA GLÓRIA DE DEUS. Rm 3.23
PELO QUE, COMO POR UM HOMEM ENTROU O PECADO NO MUNDO, E PELO PECADO, A MORTE, ASSIM TAMBÉM A MORTE PASSOU A TODOS OS HOMENS, POR ISSO QUE TODOS PECARAM. Rm 5.12
PORQUE O SALÁRIO DO PECADO É A MORTE. Rm 6.23

    Por sua natureza pecaminosa, por sua rebeldia contra Deus, o homem se fez inimigo de Deus. E a pena para o pecado é a morte: A alma que pecar essa morrerá (Ez 18.4). Mas o amor de Deus é muito grande. Ele toma a iniciativa da salvação do homem perdido.  Nada que o homem fizesse poderia trazer sua restauração espiritual. Ele transgrediu contra Deus. Ele se tornou réu da ira divina, da morte, que significa a separação total do homem de Deus. 
    E o homem buscou criar alternativas, meios criativos de refazer o acesso quebrado para Deus. A isso chamamos de Religião. É o esforço humano em reatar seu relacionamento com o Deus Eterno. Os homens criaram muitas religiões, mas Deus não teve prazer nelas. A essência da religião está no esforço dos homens para agradarem à divindade. Mas isto aborrece o coração de Deus. Enoja a glória divina. 

    "Eu odeio e desprezo as suas festas religiosas; não suporto as suas assembleias solenes.Mesmo que vocês me tragam holocaustos e ofertas de cereal, isso não me agradará. Mesmo que me tragam as melhores ofertas de comunhão, não darei a menor atenção a elas. Afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras".(Am 5.21-22)

   Todo o homem é réu de morte por seu pecado. Nada além da morte pode ser o seu veredito. O homem é culpado e merece a morte. Os esforços humanos são vãos, inúteis. Sacrifícios humanos buscam agradar a Deus mas, na verdade, o aborrecem.
   Deus em seu infinito amor e  graça, estende a sua misericórdia ao mundo dos homens para salvá-los. Realizando o que já estava definido antes mesmo da fundação do mundo. Deus faz algo novo. Fazendo o caminho inverso das práticas religiosas, o próprio Deus vem agir para redenção e salvação do homem. O Evangelho são as boas novas que vêm de Deus para nós.
    E o verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, cheio de graça e de verdade (Jo 1.14). Jesus Cristo, o carpinteiro de Nazaré, veio em cumprimento da palavra profética, e cumpriu todo o desígnio do Pai, conforme Is 61.1-3.

   Cumprindo o seu ministério terreno, havendo semeado a boa semente do Evangelho, chegou o momento decisivo de cumprir a sua missão. Nada do que ele pregara, ensinara, se tornaria realidade na vida dos homens se esses continuassem no pecado, distantes de Deus. Se Jesus morresse como qualquer um, após haver cumprido seu papel enquanto mestre e ensinador, seria apenas mais uma referência de um mestre terreno, ao lado de Salomão, de Sócrates, de Confúcio. Mas havia algo a ser feito maior mesmo do que os seus próprios ensinamentos. Havia o grande sacrifício vicário. Ele se apresentaria ao pai, em lugar dos homens. Ele em sua pureza e não pecaminosidade, se apresentaria diante do Pai para receber o veredicto, a pena, a condenação de morte em lugar do homem.
   Eis a razão que o encontraremos prostrado no Jardim do Getsêmani. Consciente do amargor do cálice que ele iria beber, os pecados dos homens que ele levaria, a condenação do homem perdido: Ele então brada:
    Meu Pai, se não for possível afastar este cálice sem que eu beba, seja feita a tua vontade. (Mt 26.42)

   O que estava acontecendo? Ele estava antevendo as terríveis dores e castigos decorrentes da condenação do homem pecador. Ele conhecia o que o profeta Isaías havia vaticinado daquele momento:
    "Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou sobre si as nossas dores... Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas maldades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por seus ferimentos fomos sarados." (Is 53.4-5)
     Naquela festa de páscoa em Jerusalém, algo acontecia no mundo espiritual, que ia além da crucificação de um homem. O horror que Jesus previa no Getsemani não era apenas os açoites dos soldados romanos,  ou o escárnio do populacho, ou os espinhos da irônica coroa de espinhos, ou mesmo a própria cruz. Essas dores, sofrimentos, ofensas, tudo isso podia ser acrescido da ira divina. Em seu amor Deus proveu a redenção para o homem, enviando o seu filho para redimir a humanidade:
   "Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida Eterna." (Jo 3.16)
   Mas na cruz encontramos também o próprio Deus aplicando em seu próprio Filho o justo castigo decorrente da culpa do pecado humano. O pecado é coisa séria. O perdão divino é algo precioso. Haveria injustiça em Deus se houvesse perdão de culpa sem que a aplicação da lei ocorresse.
     Mais uma vez Paulo nos explica isto na Carta aos Romanos 5.18:
   "Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação que produz vida." 
     Por isso ele foi ferido pelas nossas transgressões, e esmagado pelas nossas maldades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele. Quando leva sobre si a terrível carga de pecaminosidade da humanidade, Jesus experimenta a realidade do juízo de quem peca: A alma que pecar essa morrerá. Não se trata da morte física, se trata da morte espiritual. Se trata da ausência de Deus, se trata da vida separada de Deus. Nesse momento terrível e desesperador, ouve-se o brado de Cristo na Cruz: Eli, Eli, lamá sabactani. Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste.(Mt 27.46)

   Repetindo o Salmo 22 Jesus dá um grito de abandono. Abandonado pelos discípulos desde o Getsêmani, ridicularizado pela multidão, tudo isso era possível de se conviver. Mas abandonado pelo pai. E naquele momento, embora durante todo o tempo ele chamasse Deus de Pai, agora ele dirige-se a Deus chamando-o de Deus, não de pai. Aquele que infringe sobre ele o horror das trevas: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
   John Stott, em A Cruz de Cristo, citando Calvino disse que “Se Cristo tivesse morrido apenas uma morte física, teria sido ineficaz.” Portanto, se passou algo em Jerusalém muito além do espetáculo da crucificação. Jesus pagou nas regiões celestes um preço maior e muito mais excelente ao sofrer em sua alma os terríveis tormentos de um homem condenado e abandonado.
    Portanto, estamos diante de uma separação real e pavorosa entre o Pai e o Filho. Mas era dessa forma, que Deus reconciliava consigo mesmo o mundo!!!
   E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo (II Co 5.18-19).
  A ausência do Pai foi o clímax do sofrimento de Cristo. Foi uma dor ainda maior do que a ferida da lança no seu lado. Fora o brado de Deus meu, Deus meu por que me desamparaste? Não ouvimos reclamações dos lábios de Jesus. Mais uma vez vemos cumprindo-se a profecia de Isaías: Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, e como a ovelha muda diante dos seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca... (Is 53.7)
   Contudo foi da vontade do Senhor esmaga-lo e fazê-lo sofrer, apesar de ter sido dado como oferta pelo pecado... Ele verá o fruto do seu trabalho e ficará satisfeito; com o seu conhecimento, o meu servo justo justificará a muitos e levará sobre si as maldades deles. Porque derramou a sua vida até a morte e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos e intercedeu pelos transgressores. (Is 53.10-12)
    Derramou sua vida até a morte. Embora dizemos que os judeus mataram Jesus, a verdade é que ele disse que “Ninguém tira a sua vida mas ele de si mesmo a dá” (Jo 10.18). Quando entregou sua vida até ela ser totalmente esvaída em dor e sofrimento, Jesus gritou: Está consumado!! (Jo 19.30)

   Este grito, que no original é Tetelestai, que estando no tempo perfeito significa “foi e para sempre será consumado”. Foi ELE que realizou. Ele levou sobre si os nossos pecados. Ele estabeleceu uma nova aliança com Deus. 
    E agora, SENDO JUSTIFICADOS GRATUITAMENTE POR SUA GRAÇA, POR MEIO DA REDENÇÃO QUE HÁ EM CRISTO JESUS, A QUEM DEUS OFERECEU COMO SACRIFÍCIO PROPICIATÓRIO POR MEIO DA FÉ, PELO SEU SANGUE, PARA DEMONSTRAÇÃO DA SUA JUSTIÇA. NA SUA PACIENCIA, DEUS DEIXOU DE PUNIR OS PECADOS ANTERIORMENTE COMETIDOS; PARA DEMONSTRAÇÃO DA SUA JUSTIÇA NO TEMPO PRESENTE, PARA QUE ELE SEJA JUSTO E TAMBÉM JUSTIFICADOR DAQUELE QUE TEM FÉ E JESUS! Rm 3.24-26