segunda-feira, 27 de junho de 2016

O Brasil nas palavras do profeta, por Thalison Evangelista

Profeta de Judá, da cidade de Morosete-Gate, teve sua atividade profética entre a ascensão ao trono de Jotão (740 a.C) e a morte do rei Ezequias (686 a.C). Seu nome é Miqueias.




Por que um profeta que viveu a aproximadamente 2700 anos atrás teria relevância para nós? Porque sua voz é mais atual do que nunca, “sua mensagem é contundente, oportuna e absolutamente necessária. Miqueias está vivo, ele está nas ruas. Sua mensagem deveria estar estampada nos jornais mais conceituados e mais lidos, nos corredores das câmaras de mandatos populares, nos tribunais de justiça e nos púlpitos evangélicos. ” (Hernandes Dias Lopes, Miqueias, Ed. Hagnos, 2008). Apesar de Miqueias não ser popular hoje em dia, ele foi lembrado em um púlpito evangélico ontem (26/06/2016). Este pequeno texto é baseado em uma exposição de Miqueias capítulo 7, versos 1 a 7, que foi feita na igreja Assembleia de Deus Quintino Cunha, pelo pastor Ezion.
No tempo do profeta que estamos falando, houve um rei chamado Ezequias, que reinou em Judá e empreendeu uma grande reforma no templo, e pode-se observar uma renovação do culto a Deus (Levitas e Sacerdotes foram reconsagrados; buscou-se eliminar a idolatria reinante; os dízimos e ofertas foram novamente restabelecidos, etc....). Mas será que esse fervor espiritual se manifestou também por todas as esferas da vida, como na família e nos negócios, ou ele ficou somente preso aos templos?  Essa resposta Miqueias nos dá:
Ai de mim! Porque estou como quem colhe as frutas do verão, como os que rebuscam na vinha; não há cacho de uvas para comer, nem figo novo que tanto desejo. (1)

O homem piedoso foi aniquilado da terra; não há sequer um justo entre os homens; todos armam ciladas para derramar sangue; cada um caça seu irmão com uma armadilha. (2)

As suas mãos estão aptas para fazer o mal. O príncipe e o juiz exigem suborno; os nobres impõem seu próprio desejo. Todos eles tramam o crime. (3)

O melhor deles é como um espinheiro; o mais justo é pior que uma cerca de espinhos. Chegou o dia anunciado por seus vigias, o dia de castigo; agora começará a sua confusão. (4)

Não creiais no amigo, nem confieis no companheiro; tende cuidado com o que dizeis até para aquela que vos abraça. (5)

Pois o filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, e a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os da própria casa. (6) (Miquéias 7.1-6)

Certamente esse fervor não estava visível para Miqueias, a justiça e a misericórdia estavam ausentes dos corações das pessoas. Para o profeta a injustiça não passa desapercebida, ele brada no verso 1 se identificando com o sofrimento visível e cruel de seu tempo. O avivamento não havia saído das paredes do templo. É incrível como nós observamos isso hoje, quando o crescimento dos evangélicos é cada vez mais notável, mas a violência e a corrupção não cessam. Nossos dias são marcados por “avivamentos” presos aos templos, onde grandes igrejas estão mais preocupadas em engrandecer o seu nome no meio da sociedade, do que em proclamar o Evangelho do Senhor Jesus Cristo. Isso é espelhado em “crentes” que buscam cada vez mais a “vitória” a todo custo, inclusive por meios ilícitos (Quantas vezes você não viu na TV, que vários dos que foram presos ou que são alvo de alguma investigação, são de igrejas evangélicas?).

        A espiritualidade verdadeira não está restrita ao templo. A espiritualidade verdadeira ganha as ruas, as casas, os colégios, as faculdades, as instituições onde frequentam aqueles que passaram por um avivamento, através de um agir transformado, de uma atitude nova, de uma nova postura.
Encontrar um homem benigno, ou piedoso, nos tempos dele era uma tarefa praticamente impossível, pois a corrupção era generalizada. Os grandes tramavam o mal e articulavam como iriam sair da lava-jato... não, quero dizer que os grandes tramavam o mal e planejavam como iriam ganhar mais.
Quando Miqueias fala que ainda virá “o dia anunciado por seus vigias, o dia de castigo; ” e que “agora começará a sua confusão”, é inevitável que nos venha a mente a situação do Brasil. Todos os dias ao abrirmos os jornais somos bombardeados por uma enxurrada de notícias de políticos, empresários, e outros sendo presos ou planejando fugir das investigações.... Certamente o dia de castigo chegou, e começou a confusão de todos os corruptos! Somos gratos ao juiz Sérgio Moro e sua equipe (#somostodosMORO!), mas também sabemos que, na verdade, o próprio Deus os tem levantado para tal obra.

O profeta ainda nos faz mais alertas, e nos diz que até mesmo aqueles mais próximos também não são confiáveis. Nós precisamos nos percebermos, e não só chamarmos todos os outros de corruptos. Somos o povo do “jeitinho”, e a todo momento estamos planejando como enganar o nosso próximo para obter alguma vantagem. Às vezes não cometemos algum crime somente porque não temos oportunidade, mas nosso coração está cheio de corrupção e maldade.

É hora de clamarmos por misericórdia ao nosso Deus, e confiar nEle. Imitar Miqueias, ao dizer: “Eu, porém, olharei para o Senhor; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá. ” (Miqueias 7.7). Que possamos ter vivo em nosso coração a esperança, e saber que ela não pode ficar presa as quatro paredes do templo, mas sim refletir em todas as nossas atitudes, de todas as esferas da vida.
Gostaria de cantar com você essa canção/oração, ainda tão atual como há algumas décadas. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Além da Crucificação...

 

 Qual o sentido da morte de Jesus? Por que um homem justo, sem culpa, sem crime, morria entre dois malfeitores? A resposta a essa pergunta não vai se achar dentro dos muros de Jerusalém, ou nos anais do Sinédrio que o condenou, nem nas atas produzidas pelos assessores jurídicos de Pilatos, que lavou as suas mãos, tentando isentar-se de responsabilidade por concordar na morte de um justo. Esta é uma pergunta que requer uma resposta demorada. E para responde-la precisamos ir até o Jardim do Eden, num tempo em que o homem resolve desobedecer, transgredir, decide se emancipar da tutela de um Deus que provê todas as coisas, que lhe dá comunhão e afeto, nas conversas de fim de tarde. Adão pecou, e nele toda a humanidade.

  O apóstolo Paulo esclarece na carta aos Romanos: 
PORQUE TODOS PECARAM E DESTITUÍDOS ESTÃO DA GLÓRIA DE DEUS. Rm 3.23
PELO QUE, COMO POR UM HOMEM ENTROU O PECADO NO MUNDO, E PELO PECADO, A MORTE, ASSIM TAMBÉM A MORTE PASSOU A TODOS OS HOMENS, POR ISSO QUE TODOS PECARAM. Rm 5.12
PORQUE O SALÁRIO DO PECADO É A MORTE. Rm 6.23

    Por sua natureza pecaminosa, por sua rebeldia contra Deus, o homem se fez inimigo de Deus. E a pena para o pecado é a morte: A alma que pecar essa morrerá (Ez 18.4). Mas o amor de Deus é muito grande. Ele toma a iniciativa da salvação do homem perdido.  Nada que o homem fizesse poderia trazer sua restauração espiritual. Ele transgrediu contra Deus. Ele se tornou réu da ira divina, da morte, que significa a separação total do homem de Deus. 
    E o homem buscou criar alternativas, meios criativos de refazer o acesso quebrado para Deus. A isso chamamos de Religião. É o esforço humano em reatar seu relacionamento com o Deus Eterno. Os homens criaram muitas religiões, mas Deus não teve prazer nelas. A essência da religião está no esforço dos homens para agradarem à divindade. Mas isto aborrece o coração de Deus. Enoja a glória divina. 

    "Eu odeio e desprezo as suas festas religiosas; não suporto as suas assembleias solenes.Mesmo que vocês me tragam holocaustos e ofertas de cereal, isso não me agradará. Mesmo que me tragam as melhores ofertas de comunhão, não darei a menor atenção a elas. Afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras".(Am 5.21-22)

   Todo o homem é réu de morte por seu pecado. Nada além da morte pode ser o seu veredito. O homem é culpado e merece a morte. Os esforços humanos são vãos, inúteis. Sacrifícios humanos buscam agradar a Deus mas, na verdade, o aborrecem.
   Deus em seu infinito amor e  graça, estende a sua misericórdia ao mundo dos homens para salvá-los. Realizando o que já estava definido antes mesmo da fundação do mundo. Deus faz algo novo. Fazendo o caminho inverso das práticas religiosas, o próprio Deus vem agir para redenção e salvação do homem. O Evangelho são as boas novas que vêm de Deus para nós.
    E o verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, cheio de graça e de verdade (Jo 1.14). Jesus Cristo, o carpinteiro de Nazaré, veio em cumprimento da palavra profética, e cumpriu todo o desígnio do Pai, conforme Is 61.1-3.

   Cumprindo o seu ministério terreno, havendo semeado a boa semente do Evangelho, chegou o momento decisivo de cumprir a sua missão. Nada do que ele pregara, ensinara, se tornaria realidade na vida dos homens se esses continuassem no pecado, distantes de Deus. Se Jesus morresse como qualquer um, após haver cumprido seu papel enquanto mestre e ensinador, seria apenas mais uma referência de um mestre terreno, ao lado de Salomão, de Sócrates, de Confúcio. Mas havia algo a ser feito maior mesmo do que os seus próprios ensinamentos. Havia o grande sacrifício vicário. Ele se apresentaria ao pai, em lugar dos homens. Ele em sua pureza e não pecaminosidade, se apresentaria diante do Pai para receber o veredicto, a pena, a condenação de morte em lugar do homem.
   Eis a razão que o encontraremos prostrado no Jardim do Getsêmani. Consciente do amargor do cálice que ele iria beber, os pecados dos homens que ele levaria, a condenação do homem perdido: Ele então brada:
    Meu Pai, se não for possível afastar este cálice sem que eu beba, seja feita a tua vontade. (Mt 26.42)

   O que estava acontecendo? Ele estava antevendo as terríveis dores e castigos decorrentes da condenação do homem pecador. Ele conhecia o que o profeta Isaías havia vaticinado daquele momento:
    "Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou sobre si as nossas dores... Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas maldades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por seus ferimentos fomos sarados." (Is 53.4-5)
     Naquela festa de páscoa em Jerusalém, algo acontecia no mundo espiritual, que ia além da crucificação de um homem. O horror que Jesus previa no Getsemani não era apenas os açoites dos soldados romanos,  ou o escárnio do populacho, ou os espinhos da irônica coroa de espinhos, ou mesmo a própria cruz. Essas dores, sofrimentos, ofensas, tudo isso podia ser acrescido da ira divina. Em seu amor Deus proveu a redenção para o homem, enviando o seu filho para redimir a humanidade:
   "Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida Eterna." (Jo 3.16)
   Mas na cruz encontramos também o próprio Deus aplicando em seu próprio Filho o justo castigo decorrente da culpa do pecado humano. O pecado é coisa séria. O perdão divino é algo precioso. Haveria injustiça em Deus se houvesse perdão de culpa sem que a aplicação da lei ocorresse.
     Mais uma vez Paulo nos explica isto na Carta aos Romanos 5.18:
   "Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação que produz vida." 
     Por isso ele foi ferido pelas nossas transgressões, e esmagado pelas nossas maldades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele. Quando leva sobre si a terrível carga de pecaminosidade da humanidade, Jesus experimenta a realidade do juízo de quem peca: A alma que pecar essa morrerá. Não se trata da morte física, se trata da morte espiritual. Se trata da ausência de Deus, se trata da vida separada de Deus. Nesse momento terrível e desesperador, ouve-se o brado de Cristo na Cruz: Eli, Eli, lamá sabactani. Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste.(Mt 27.46)

   Repetindo o Salmo 22 Jesus dá um grito de abandono. Abandonado pelos discípulos desde o Getsêmani, ridicularizado pela multidão, tudo isso era possível de se conviver. Mas abandonado pelo pai. E naquele momento, embora durante todo o tempo ele chamasse Deus de Pai, agora ele dirige-se a Deus chamando-o de Deus, não de pai. Aquele que infringe sobre ele o horror das trevas: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
   John Stott, em A Cruz de Cristo, citando Calvino disse que “Se Cristo tivesse morrido apenas uma morte física, teria sido ineficaz.” Portanto, se passou algo em Jerusalém muito além do espetáculo da crucificação. Jesus pagou nas regiões celestes um preço maior e muito mais excelente ao sofrer em sua alma os terríveis tormentos de um homem condenado e abandonado.
    Portanto, estamos diante de uma separação real e pavorosa entre o Pai e o Filho. Mas era dessa forma, que Deus reconciliava consigo mesmo o mundo!!!
   E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo (II Co 5.18-19).
  A ausência do Pai foi o clímax do sofrimento de Cristo. Foi uma dor ainda maior do que a ferida da lança no seu lado. Fora o brado de Deus meu, Deus meu por que me desamparaste? Não ouvimos reclamações dos lábios de Jesus. Mais uma vez vemos cumprindo-se a profecia de Isaías: Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, e como a ovelha muda diante dos seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca... (Is 53.7)
   Contudo foi da vontade do Senhor esmaga-lo e fazê-lo sofrer, apesar de ter sido dado como oferta pelo pecado... Ele verá o fruto do seu trabalho e ficará satisfeito; com o seu conhecimento, o meu servo justo justificará a muitos e levará sobre si as maldades deles. Porque derramou a sua vida até a morte e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos e intercedeu pelos transgressores. (Is 53.10-12)
    Derramou sua vida até a morte. Embora dizemos que os judeus mataram Jesus, a verdade é que ele disse que “Ninguém tira a sua vida mas ele de si mesmo a dá” (Jo 10.18). Quando entregou sua vida até ela ser totalmente esvaída em dor e sofrimento, Jesus gritou: Está consumado!! (Jo 19.30)

   Este grito, que no original é Tetelestai, que estando no tempo perfeito significa “foi e para sempre será consumado”. Foi ELE que realizou. Ele levou sobre si os nossos pecados. Ele estabeleceu uma nova aliança com Deus. 
    E agora, SENDO JUSTIFICADOS GRATUITAMENTE POR SUA GRAÇA, POR MEIO DA REDENÇÃO QUE HÁ EM CRISTO JESUS, A QUEM DEUS OFERECEU COMO SACRIFÍCIO PROPICIATÓRIO POR MEIO DA FÉ, PELO SEU SANGUE, PARA DEMONSTRAÇÃO DA SUA JUSTIÇA. NA SUA PACIENCIA, DEUS DEIXOU DE PUNIR OS PECADOS ANTERIORMENTE COMETIDOS; PARA DEMONSTRAÇÃO DA SUA JUSTIÇA NO TEMPO PRESENTE, PARA QUE ELE SEJA JUSTO E TAMBÉM JUSTIFICADOR DAQUELE QUE TEM FÉ E JESUS! Rm 3.24-26

terça-feira, 7 de junho de 2016

Aprendendo com as "Confissões"...

   Nestor Cerveró, 64 anos condenado a 17 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A Revista VEJA desta semana traz alguns trechos das Confissões do ex-diretor da Petrobrás:
“ O arrependimento é por não ter sabido controlar a minha ambição, não só por dinheiro, mas também pela vaidade em permanecer diretor da Petrobrás...”   A Revista comenta: Ele foi seduzido pela ambição desmedida e pelo status de ocupar uma direção na maior empresa brasileira.


     É lamentável que o Sr. Cerveró esteja atravessando situação tão constrangedora, mas há de se colher os frutos do que se plantou. Não estou aqui para me juntar ao coro dos que o desprezam. Estou aqui para conclamar a todos para que aprendamos  a preciosa lição que, da cadeia, o sr. Cerveró nos ensina.
    Até onde pode ir uma ambição desmedida? O que alguém não fará pela conquista de status? Estas reflexões precisam ser feitas, caso contrário amanhã muito mais Cerverós estarão sendo julgados, e estarão compartilhando suas confissões num semanário de grande circulação.
    No mundo dos negócios, das corporações, das instituições, uma indagação é feita: O que você está disposto a oferecer? Seu tempo, sua inteligência, sua criatividade, sua capacidade produtiva, seu dinamismo. Troca-se isto por salário, por status, por benefícios diretos e indiretos.
    Entretanto, quanto mais se sobe na pirâmide profissional, exige-se mais. A disposição em se oferecer cada vez mais é diretamente proporcional à ambição de cada um. Ressalte-se que quanto mais se oferece às organizações, mais as prioridades vão sendo reconfiguradas, e os valores e crenças vão sendo revistos e testados.
    Os valores éticos em algum momento serão confrontados. Em nome de que? Em nome do sucesso. Surgirão soluções “criativas”, omissões “pensadas”, enganos semânticos “inocentes”. Nada parece ser tão ruim, tão mal. Apenas criatividade, nova forma de dizer as coisas. E estas coisas abrem portas, são sinônimos de novas possibilidades, de carreiras que se aceleram...

    Alguém baterá nas costas e lhe dará os parabéns. A sociedade o aplaudirá como vencedor, um profissional destemido de sucesso.  Tudo parece ter o doce gosto da vitória!
    Mas quando as coisas vierem à luz, a verdade surgirá expondo podridão, egoísmo, engano. As soluções criativas serão renomeadas de desvios, as omissões receberão o nome de corrupção passiva, os enganos semânticos serão renomeados de mentiras. As orientações não escritas serão negadas. Os superiores hierárquicos que incentivaram os feitos não corretos, dirão em alto e bom som: Nós nunca orientamos dessa forma, nossa instituição preza pelo seu Código de Ética, nós desconhecemos qualquer atividade não ética praticada por este (a) senhor (a).

    Onde está o sucesso? Onde se escondeu o gosto da vitória? O escárnio e o desprezo é o que a mesma sociedade que o aplaudia há pouco, agora manifesta.
    Não sei se em algum momento de sua vida, o Sr. Cerveró foi um homem cristão, de crenças, de valores. Nele, estamos vendo a realidade do que o apóstolo Paulo escreveu há quase 2 milênios:
     "Porque o amor ao dinheiro, é a raiz de todos os males; e por causa dessa cobiça alguns se desviaram da fé e se torturaram com muitas dores" (I Tm 6.10).
      Se nossa sociedade deixasse de fazer pouco caso da Bíblia, e voltasse a vê-la em temor como Palavra de Deus, talvez não precisássemos de uma Operação Lava Jato.
      Falando em Confissões, quero terminar com uma citação, não das Confissões de Cerveró, mas de Agostinho de Hipona:

      “Procurei o que era a maldade e não encontrei uma substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema – de Vós, ó Deus – e tendendo para as coisas baixas: vontade que derrama as suas entranhas e se levanta com intumescência.”  Conf VII.16

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O caminho do Evangelho: a saída necessária

      "Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério." Heb 13:13


     Ser cristão é assumir o desafio da não acomodação, é entrar pela porta estreita, é entender que precisa negar a si mesmo e levar a sua cruz diária, é levar na vida a vergonha da cruz. Coisa difícil de se falar no mundo de hoje onde se prega e se vive o evangelho da acomodação, do bem-estar e da realização pessoal.
   Quando um jovem veio se prontificar a seguir Jesus, o mestre não lhe mostrou as alegrias do discipulado, e sim, as agruras e obstáculos do mesmo, e a outro ele mostrou que seguir a Cristo é uma questão de prioridade (Mt 8.18-20).
    Os ensinos de Jesus foram testados na prática tão logo as dificuldades começaram a surgir. No caso da comunidade de judeus cristãos, quando perseguida pelas autoridades romanas pensaram em voltar à prática do judaísmo. O judaísmo era uma religião lícita, dentro da legalidade, no império romano. Abraçar o cristianismo já era outra história, significava abraçar uma fé ilegal, uma crença não reconhecida pelo Estado, e portanto, perseguida e marginalizada. É nesse contexto que a epístola aos Hebreus é escrita.  Seu autor mostra que não houve uma ruptura entre os profetas da Velha Aliança e os ensinos de Jesus. Ele começa sua carta afirmando:
     "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho..." (Heb 1.1)
     E a carta é uma defesa da superioridade do novo concerto, e que a lei e suas ordenanças eram sombras do que seria definitivo (Heb 10.1). Já no final da carta, o missivista lança um desafio aos seus leitores:
   "Porque os corpos dos animais, cujo sangue é, pelo pecado, trazido pelo sumo sacerdote para o santuário, são queimados fora do arraial. E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério." Heb 13:11-13
     Para os cristãos judeus que estão relutando em se expor ao seguir Jesus, que estão protegidos no arraial do judaísmo, lhes é lançado um desafio: Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando a sua vergonha!
    Porque os corpos são queimados fora do arraial, e Cristo padeceu fora da porta. Vamos também nos expor fora das portas.
    O arraial ou acampamento ao qual se refere o escritor aos Hebreus remonta aos tempos de peregrinação de Israel no deserto. Fora do arraial era o lugar da sujeira, de algo que podia contaminar. Foi por isso que ao ser vista como leprosa, Miriã é conduzida para fora do arraial (Nm 12.14). Lugar de leprosos é fora do arraial, fora das portas da cidade, por isso que eles foram os primeiros a descobrir que os sírios haviam fugido do cerco a Samaria (II Rs 7.3-8).

    Fora das portas aconteciam algumas abominações e rituais de idolatria, como os sacrifícios de crianças, que ocorriam no Vale do Filho de Hinom (II Cr 33.6), ao sul das muralhas de Jerusalém.

     Fora dos muros era o lugar das crucificações, onde eram expostos para todas as pessoas os indivíduos que se tornaram persona non grata para o império romano, onde se executavam ladrões, rebeldes, pessoas perigosas para a sociedade. A lei de Moisés previa a execução por crucificação, mas informava que o pendurado era maldito (Dt 21.22-23).
    Para nos santificar, Cristo padeceu fora dos muros, tornou-se maldito, foi condenado como criminoso.

   Imagino que para o judeu do primeiro século declarar-se seguidor de um criminoso deve ter sido coisa muito complicada. Sou adepto do crucificado. Não existia vergonha maior. Mas a cruz que ele levou não era sua. Como diz um velho hino, a cruz que ele levou não era sua, era minha, era tua, era de Barrabás! E muitos anos antes, o profeta bradava: "Ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras, fomos sarados" (Is 53.5).
     Para santificar o seu povo pelo seu próprio sangue, ele padeceu, fora da porta! Saiamos, pois a ele, fora do arraial, levando a sua vergonha.

    Ainda durante o julgamento de Jesus, os seguidores de Cristo tiveram dificuldade em cumprir esse desafio. Mateus é o único que registra o que está implícito nos outros evangelhos: Por ocasião da prisão do Senhor, "todos os seus discípulos, deixando-o, fugiram" (Mt 26.56), com exceção de Pedro, que o segue de longe (Mt 26.58), mas não quer sair e levar a sua vergonha, por isso o nega três vezes (Mt 26.69-75). Este fato, sim, registrado em todos os evangelhos, talvez para nos alertar, quão difícil é "sair a ele fora do arraial, levando a sua vergonha".
    Os primeiros dias após a ressurreição, os discípulos ficam no cenáculo orando. É a descida do Espírito santo que lhes capacita a sair fora do cenáculo, e se expor no dia da grande festa de pentecostes, levando a sua vergonha. E o mesmo Pedro que o negara, agora em alto e bom som se identifica com a vergonha do crucificado, afirmando: "A Jesus Nazareno... a este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos; ao qual Deus ressuscitou..." (At 2.22-24).
    Porém, era seguro, era cômodo, era providencial, continuar em Jerusalém. Pra que se expor fora das portas? Fora do arraial tem samaritanos misturados, tem gentios pecadores... enfim, toda sorte de leprosos espirituais e idólatras!
   É uma perseguição que vai fazê-los sair fora das portas levando a vergonha de Cristo (At 8.1). Tudo bem, que judeus fora da Palestina possam ser cristãos, mas gentios? Isso nunca! Não tinha sentido a igreja sair fora das portas do judaísmo. Quem quisesse abraçar a fé cristã precisava entrar pelas portas do judaísmo, se circuncidando, guardando a lei...
   É preciso que Pedro tenha uma visão que lhe faça mudar de ideia (At 10.9-16), e que um Concílio em Jerusalém (At 15) ratifique que o desafio da igreja é "Sairmos a ele fora do arraial levando a sua vergonha!"
   O apóstolo Paulo foi um dos primeiros a entenderem plenamente essa verdade. Mas houve momentos em que não foi fácil cumpri-la. Ninguém imagine que sair fora do arraial levando a sua vergonha é algo simples. Explico:
   Paulo realizou sua primeira viagem missionária pelas regiões da Cilícia (sua terra natal), Chipre, Pisídia e Galácia. Não enfrentou nenhum grande centro grego, nenhuma grande metrópole universitária, nenhum grande centro filosófico.
   Em sua segunda viagem missionária ele visita as igrejas fundadas anteriormente, e então pensa em ir para a Bitínia (At 16.7), ao norte, onde continuaria pregando em médias e pequenas cidades, utilizando o apoio inicial dos judeus que fossem convertidos, e que talvez não vissem na mensagem do evangelho motivo de grande afronta.

    Paulo porém, foi impedido pelo Espírito Santo de ir à Bitínia.  Numa visão é chamado a passar à Macedônia, adentrar a Europa, pisar em solo grego, pregar nas metrópoles cultas e famosas da Grécia. Como esse povo receberia a mensagem do crucificado? Esse era o grande temos de Paulo. Não tendo outra opção Paulo vai à Europa, saindo fora do arraial, levando a vergonha de Cristo.
     Seus temores em parte se confirmam, quando sua pregação no areópago ateniense é bruscamente finalizada pois muitos intelectuais gregos não se interessam em ouvir sobre um crucificado que morre e ressuscita (At 17.32-34).  Alguns porém creem. Paulo é assaltado por um temor (I Co 2.3), vontade de não sair fora mais, temor de levar a vergonha de Cristo e se tornar ridículo diante da intelectualidade grega... Já comprovou que o evangelho é loucura para os gregos e escândalo para os judeus (I Co 1.23). O que fazer? Toma então uma decisão:
   Nada vou pregar, a não ser a Jesus Cristo, e este crucificado! (I Co 2.2). Em outras palavras, vou sair fora do arraial levando a sua vergonha, custe o que custar! É assim que Paulo evangeliza a grande cidade grega de Corinto, e depois Éfeso... É assim que cada um de nós poderá realizar o desafio que nos é proposto. Saiamos a ele fora do arraial, levando a sua vergonha!

sábado, 2 de abril de 2016

Os fuzilamentos de 03 de maio de 1808, Goya: Ironias da história e uma reflexão sobre trevas e luz...

    Estive no Museu do Prado, em Madri, ainda no final do século passado. Algumas obras me marcaram, dentre as quais, sempre lembrarei do enorme quadro de Goya, 268 x 347 cm, “Os fuzilamentos de 03 de maio de 1808”, uma pintura impressionante.

O tema desta obra remete-nos para um acontecimento histórico: os fuzilamentos levados a cabo pelo exército francês sobre a população de Madrid que havia pegado em armas para defender a cidade do invasor. Esta obra eterniza esse massacre, quarenta e três patriotas foram fuzilados às quatro da manhã na montanha do Príncipe Pio.
     Os franceses, que há pouco menos de 20 anos haviam sido arautos para todo o mundo do grito de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, com o qual pretendia-se inaugurar o século das luzes, agora eram algozes de seus irmãos espanhóis... Ironias da História.  O historiador Starobinski entende que é a partir desse prisma que Goya imortaliza os fuzilamentos de 03 de maio de 1808:

   “A França revolucionária, foco de onde irradiava a luz dos princípios, e de que Goya esperara a expansão pacífica, faz irrupção sob a fisionomia de um exército violento, semeado à sua passagem os assassinatos e as violações absurdas. Uma inversão maléfica substituiu a luz pelas trevas. A esperança foi traída; a história, que parecia progredir no sentido da liberdade, perde seu eixo positivo e se torna uma cena insensata. Como se vê, não estamos mais apenas na presença do que chamávamos, a propósito da arte neoclássica, de o retorno da sombra: vemos efetuar-se uma verdadeira permutação que substitui por uma fonte de trevas aquilo que de início parecera uma fonte de luz...  Continuarei aqui a interrogar a obra tardia de Goya, porque ela expõe aos nossos olhos o destino longínquo daquilo que esteve em jogo em 1789. O resultado é lido no quadro “Os fuzilamentos de 3 de maio de 1808”:


    O grupo ritmado e disciplinado dos solados do pelotão de execução representa uma racionalidade demente; a regularidade, a ordem (que deveriam marcar o triunfo dos princípios) vêm apenas regulamentar o exercício da violência. Pela obliquidade que Goya confere à cena, ele esconde o rosto dos hussardos franceses: estes só aparecem de perfil, contra a luz da sinistra lanterna colocada a seus pés; deles não percebemos senão o equipamento: fuzis, barretinas, correames, capotes, sabres. Ocupam o primeiro plano, mas tudo neles corresponde e se harmoniza com o céu noturno que domina o fundo da cena.


    A luz, em compensação, se liga e se associa ao grupo das vítimas, e mais particularmente ao homem do povo que a salva iminente vai abater: Goya soube dar ao seu rosto sem beleza a expressão simples que está ao mesmo tempo para além da coragem e do terror; de braços estendidos na atitude da crucificação, as mãos perfuradas, esse espanhol de traços grosseiros ganha de súbito a dimensão do Judeu eterno, do Homem humilhado pelo homem. Ainda que difundida logicamente a partir da lanterna, a luz, para o espectador, parece emanar da camisa branca do supliciado.
    Diante da vontade mecanizada do pelotão de execução, assistimos à tragédia da vontade vã, a impotência absoluta. Mas essa vontade vã, incapaz de desviar a morte, Goya nos faz pressentir que ela não poderia ser atingida nem destruída pela morte. Ele a eterniza... Aqui se trata de um homem obscuro, cujo nome e identidade não nos são transmitidos. Assim ficamos atentos ao valor mais elementar, à liberdade inseparável da existência mais comum... A tormenta e a tempestade, como também bala e o cutelo, anunciam o aniquilamento de nossa existência sensível, mas despertam em nós a certeza de escapar aos limites que ela nos atribui...
    Apenas pintores capazes de restituir ao mundo material toda a sua selvageria, toda a sua inextricável riqueza de cores, de luzes e de trevas mescladas... puderam fazer aparecer a invisível presença da “liberdade moral”.

(Starobinski, Jean. 1789, Os Emblemas da Razão, Cia das Letras, 1989, pág. 129-131)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Governistas e pastores são os últimos a reconhecerem que estamos em crise...

   Admitir que há uma crise em andamento é doloroso para algumas pessoas ou classe de pessoas especificamente. Para quem compõe a base governista, por exemplo, admitir que há uma crise estabelecida é duro, por razões óbvias. Tenta-se disfarçar, camuflar, despistar, enfim mudar de conversa, de forma que não haja uma admissão pública da existência da crise. E acredito que deve haver muita torcida para que tudo não passe de uma “marolinha”, para usar um termo utilizado há anos num momento turbulento.
     Mas há um outro grupo que também resiste bravamente a admitir o contexto de crise. Este é o grupo dos pastores.
      Quando os ventos da instabilidade, da falta de credibilidade, do desgoverno e da desconfiança começaram a soprar com toda a força fazendo balançar a grande nave da economia brasileira, a curva do desemprego teimando em seguir uma curva ascendente, muitos pastores, ministros de louvor e líderes do mundo evangélico difundiram o chavão “nós não estamos em crise, estamos em Cristo”.

    Essas frases de efeito levam as multidões ao delírio, e deixam nos pastores um senso de que a multidão está sendo abençoada, ainda que o chavão seja enganoso. E o tempo encarregou-se de provar que o chavão era demagógico, e enganoso, ainda que fosse utilizado com a melhor das intenções.
       Quando já estava claro que a crise estava instalada, e somente os governistas e alguns pastores teimavam em não admiti-la, subi ao púlpito e com todas as letras preguei acerca da existência da crise. Ainda me lembro que utilizei o texto do profeta Joel 1.3-14:
 Fazei sobre isto uma narração a vossos filhos, e vossos filhos a seus filhos, e os filhos destes à outra geração.
O que ficou da lagarta, o gafanhoto o comeu, e o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu, e o que ficou da locusta, o pulgão o comeu.
Despertai-vos, bêbados, e chorai; gemei, todos os que bebeis vinho, por causa do mosto, porque tirado é da vossa boca.
Porque subiu contra a minha terra uma nação poderosa e sem número; os seus dentes são dentes de leão, e têm queixadas de um leão velho.
Fez da minha vide uma assolação, e tirou a casca da minha figueira; despiu-a toda, e a lançou por terra; os seus sarmentos se embranqueceram.
Lamenta como a virgem que está cingida de saco, pelo marido da sua mocidade.
Foi cortada a oferta de alimentos e a libação da casa do Senhor; os sacerdotes, ministros do Senhor, estão entristecidos.
O campo está assolado, e a terra triste; porque o trigo está destruído, o mosto se secou, o azeite acabou.
Envergonhai-vos, lavradores, gemei, vinhateiros, sobre o trigo e a cevada; porque a colheita do campo pereceu.
A vide se secou, a figueira se murchou, a romeira também, e a palmeira e a macieira; todas as árvores do campo se secaram, e já não há alegria entre os filhos dos homens.
Cingi-vos e lamentai-vos, sacerdotes; gemei, ministros do altar; entrai e passai a noite vestidos de saco, ministros do meu Deus; porque a oferta de alimentos, e a libação, foram cortadas da casa de vosso Deus.
Santificai um jejum, convocai uma assembleia solene, congregai os anciãos, e todos os moradores desta terra, na casa do Senhor vosso Deus, e clamai ao Senhor.
    Joel profetizou num tempo de crise sem precedentes. Ele não fechou os olhos à gravidade da situação. Expôs claramente todas as mazelas e suas consequências, e convocou o povo à santidade e a clamar ao Senhor.

    Quando eu terminei de pregar alguns irmãos vieram falar comigo porque eu tivera muita coragem de pregar dessa forma e admitir que estávamos vivendo uma crise, porque esse parecia ser um assunto tabu para muitos. Melhor pregar que “não estamos em crise, estamos em Cristo”.
     Falei que me espelho nos profetas bíblicos, e tenho um especial apreço pelos profetas menores, que em seus pequenos registros literários trazem uma enorme riqueza de ensinamento. Me lembro que foi com uma citação de outro deles que eu concluí a mensagem, Habacuque 3.17-18:
Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado;
Todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação.
    Estamos em crise, sim, mas Deus está conosco e ele nos ajudará a vencer todas as dificuldades que virão pela frente.

    Fiquei pensando qual o motivo da dificuldade de muitos pastores não admitirem a existência da crise. Me ocorreram duas coisas: Falta de fé, e enamoramento com a teologia da prosperidade. Falta de fé, porque não se consegue imaginar dando conta de todas as obrigações e compromisso num cenário adverso. Melhor acreditar que a adversidade não vai bater nossa parte, e levar os outros a crerem assim também.
    Enamoramento com a teologia da prosperidade... Há muito que a “boa teologia” condena a teologia da prosperidade. Está nos manuais, nas revistas de EBD, nos bons livros teológicos, no discurso institucional das denominações sérias... Mas há um canto da sereia na teologia da prosperidade que atrai até mesmo os mais ortodoxos. Os auditórios querem ser abençoados, querem ouvir uma promessa de vitória e de prosperidade. E é aí, que flertamos com a teologia da prosperidade. E quando se admite que a crise existe, fica mais difícil trazer a promessa da bênção e da vitória para hoje, ou mesmo para amanhã. E acreditem, nos púlpitos não predomina o discurso institucional da denominação, nem da revista da EBD... ali saem as palavras de que está cheio o coração de um pastor... que às vezes é de agradar ao rebanho e atrair novos membros...
     Em tempos de crise, sugiro a todos que aprendam a ler o texto bíblico em seu contexto, e por  favor, deixem de citar isoladamente Filipenses 4.13 “Posso todas as coisas naquele que me fortalece”. Leiam o capítulo inteiro, mas se não conseguem comecem pelo menos no versículo 11:
 Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância.
Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.
Tudo posso naquele que me fortalece.
    Talvez muitos de nossos irmãos, e nós mesmos precisamos reaprender a contentar-nos com o que temos, e a passar aperto, dizendo com alegria: Posso todas as coisas naquele que me fortalece.

     Hoje eu posso falar com tranquilidade que nós estamos em crise, sim. Se alguém discordar de mim, leia pelo menos o título do editorial do jornal da minha denominação: “A bênção de Deus não nos abandona mesmo nos momentos de crise”. Amém, pastor José Wellington.

    

quarta-feira, 9 de março de 2016

Saudade...

  Eu estava lendo a bíblia, na epístola mais afetiva do apóstolo Paulo, onde os sentimentos estão presentes em cada linha da missiva, e me deparei com a palavra saudade, Fp 2.26, no original ἐπιποθεῖν (epipothein). Essa palavra é utilizada por Paulo, em outros momentos em Filipenses e em outras cartas como Romanos, Coríntios...
  Todos os usos bíblicos indicam que epipothein expressa um intenso desejo que tem  conexão direta com algum tipo de amor. Isso quer dizer que epipothein não é exclusiva para saudade. Percebe-se que trata-se de saudade pelo contexto, pela linha argumentativa do falante.
   Trata-se de uma constatação: Todo mundo sente saudade, mas nem todo mundo tem uma palavra mágica, exclusiva, sonora, tocante como nós, os lusófonos. Só nós temos “saudade”. Esses dias minha esposa estava viajando e postou no grupo da família: Estou com saudades. Não precisa interpretar nem fazer qualquer esforço hermenêutico, nem buscar o contexto em que foi dito: Saudade, é saudade!
   Os franceses, por exemplo, quando querem dizer que estão com saudade de alguém, precisam dizer “Você me faz falta”, Tu me manques. Manquer é o verbo em francês para fazer falta.
    Fico pensando que eu posso fazer falta a alguém, sem obrigatoriamente isso significar saudade. Saudade é mais profundo, um negócio que dói. Uma coisa que machuca, que até faz chorar...
  Como os franceses, os ingleses expressam saudade falando da falta de alguém ou de algo, “Sinto falta de você”, I’ve missed you.
    Talvez Clarice me ajude a expressar a profundidade que há na saudade:
Sentimento urgente (Clarice Lispector)
Saudade é um pouco como fome
Só passa quando se come a presença
Mas, às vezes, a saudade é tão profunda que a presença é pouco
Quer-se absorver a outra pessoa toda
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira
É um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
   Lá na Pinacoteca de São Paulo existem dois quadros que versam sobre o mesmo tema: Saudade. A palavra em si já é poética, tem cheiro de arte, de coração, de sensibilidade, de lágrima, de aperto no peito... tem cara de ausência, de querer-mas-não-poder... Quando um pintor resolve re-significá-la num quadro, temos pura poesia em forma de imagem.


    Berthe Worms, uma artista francesa que viveu no Brasil entre os séculos XIX e XX,  fez isso num quadro que comentamos num outro post: Saudades de Nápoles. Não precisa de título... a carinha do garoto diz tudo, com seu aspecto de precariedade que denuncia o exílio, o expatriamento. Lembrei de Gonçalves Dias, que expressou com palavras-lágrimas a ideia de saudade:   Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá... Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá...
    Suprema ironia poética, o poeta morreu afogado no retorno de seu exílio, próximo a praia de sua terra.
    Almeida Júnior   também pintou um quadro denominado “Saudade” ... conseguiu transpor através das pinceladas-lágrimas a dor desse sentimento no coração daquela jovem senhora.

   Gerson Borges, outro poeta querido contemporâeo, compôs um poema que ele chamou “Simplesmente quando chove”... poder-se-ia chamar Escolhas e Saudade:
Se apenas apenas uma escolha me restasse, eu levaria o pôr-do-sol,
ou se uma só herança me bastasse, um rouxinol
que cantasse a dor das distâncias e curasse essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.

Se toda a poesia, numa palavra, eu ficaria com "jardim"
e, um tipo só de arbusto ali se lavra, o alecrim,
concentrando o cheiro do longe, acalmando essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.

E chove, e chove, chove sem parar, enquanto eu canto, canto,
ao te esperar.

Se cada vez que eu penso no teu rosto, vento virasse um vendaval,
desabaria o céu com muito gosto, que temporal!
Tormenta no mar da memória, rimando com essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.
   
     Convido-o a ouvir esse poema, cantado na voz de Priscila Barreto. Vale a pena.