segunda-feira, 18 de abril de 2016

O caminho do Evangelho: a saída necessária

      "Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério." Heb 13:13


     Ser cristão é assumir o desafio da não acomodação, é entrar pela porta estreita, é entender que precisa negar a si mesmo e levar a sua cruz diária, é levar na vida a vergonha da cruz. Coisa difícil de se falar no mundo de hoje onde se prega e se vive o evangelho da acomodação, do bem-estar e da realização pessoal.
   Quando um jovem veio se prontificar a seguir Jesus, o mestre não lhe mostrou as alegrias do discipulado, e sim, as agruras e obstáculos do mesmo, e a outro ele mostrou que seguir a Cristo é uma questão de prioridade (Mt 8.18-20).
    Os ensinos de Jesus foram testados na prática tão logo as dificuldades começaram a surgir. No caso da comunidade de judeus cristãos, quando perseguida pelas autoridades romanas pensaram em voltar à prática do judaísmo. O judaísmo era uma religião lícita, dentro da legalidade, no império romano. Abraçar o cristianismo já era outra história, significava abraçar uma fé ilegal, uma crença não reconhecida pelo Estado, e portanto, perseguida e marginalizada. É nesse contexto que a epístola aos Hebreus é escrita.  Seu autor mostra que não houve uma ruptura entre os profetas da Velha Aliança e os ensinos de Jesus. Ele começa sua carta afirmando:
     "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho..." (Heb 1.1)
     E a carta é uma defesa da superioridade do novo concerto, e que a lei e suas ordenanças eram sombras do que seria definitivo (Heb 10.1). Já no final da carta, o missivista lança um desafio aos seus leitores:
   "Porque os corpos dos animais, cujo sangue é, pelo pecado, trazido pelo sumo sacerdote para o santuário, são queimados fora do arraial. E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério." Heb 13:11-13
     Para os cristãos judeus que estão relutando em se expor ao seguir Jesus, que estão protegidos no arraial do judaísmo, lhes é lançado um desafio: Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando a sua vergonha!
    Porque os corpos são queimados fora do arraial, e Cristo padeceu fora da porta. Vamos também nos expor fora das portas.
    O arraial ou acampamento ao qual se refere o escritor aos Hebreus remonta aos tempos de peregrinação de Israel no deserto. Fora do arraial era o lugar da sujeira, de algo que podia contaminar. Foi por isso que ao ser vista como leprosa, Miriã é conduzida para fora do arraial (Nm 12.14). Lugar de leprosos é fora do arraial, fora das portas da cidade, por isso que eles foram os primeiros a descobrir que os sírios haviam fugido do cerco a Samaria (II Rs 7.3-8).

    Fora das portas aconteciam algumas abominações e rituais de idolatria, como os sacrifícios de crianças, que ocorriam no Vale do Filho de Hinom (II Cr 33.6), ao sul das muralhas de Jerusalém.

     Fora dos muros era o lugar das crucificações, onde eram expostos para todas as pessoas os indivíduos que se tornaram persona non grata para o império romano, onde se executavam ladrões, rebeldes, pessoas perigosas para a sociedade. A lei de Moisés previa a execução por crucificação, mas informava que o pendurado era maldito (Dt 21.22-23).
    Para nos santificar, Cristo padeceu fora dos muros, tornou-se maldito, foi condenado como criminoso.

   Imagino que para o judeu do primeiro século declarar-se seguidor de um criminoso deve ter sido coisa muito complicada. Sou adepto do crucificado. Não existia vergonha maior. Mas a cruz que ele levou não era sua. Como diz um velho hino, a cruz que ele levou não era sua, era minha, era tua, era de Barrabás! E muitos anos antes, o profeta bradava: "Ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras, fomos sarados" (Is 53.5).
     Para santificar o seu povo pelo seu próprio sangue, ele padeceu, fora da porta! Saiamos, pois a ele, fora do arraial, levando a sua vergonha.

    Ainda durante o julgamento de Jesus, os seguidores de Cristo tiveram dificuldade em cumprir esse desafio. Mateus é o único que registra o que está implícito nos outros evangelhos: Por ocasião da prisão do Senhor, "todos os seus discípulos, deixando-o, fugiram" (Mt 26.56), com exceção de Pedro, que o segue de longe (Mt 26.58), mas não quer sair e levar a sua vergonha, por isso o nega três vezes (Mt 26.69-75). Este fato, sim, registrado em todos os evangelhos, talvez para nos alertar, quão difícil é "sair a ele fora do arraial, levando a sua vergonha".
    Os primeiros dias após a ressurreição, os discípulos ficam no cenáculo orando. É a descida do Espírito santo que lhes capacita a sair fora do cenáculo, e se expor no dia da grande festa de pentecostes, levando a sua vergonha. E o mesmo Pedro que o negara, agora em alto e bom som se identifica com a vergonha do crucificado, afirmando: "A Jesus Nazareno... a este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos; ao qual Deus ressuscitou..." (At 2.22-24).
    Porém, era seguro, era cômodo, era providencial, continuar em Jerusalém. Pra que se expor fora das portas? Fora do arraial tem samaritanos misturados, tem gentios pecadores... enfim, toda sorte de leprosos espirituais e idólatras!
   É uma perseguição que vai fazê-los sair fora das portas levando a vergonha de Cristo (At 8.1). Tudo bem, que judeus fora da Palestina possam ser cristãos, mas gentios? Isso nunca! Não tinha sentido a igreja sair fora das portas do judaísmo. Quem quisesse abraçar a fé cristã precisava entrar pelas portas do judaísmo, se circuncidando, guardando a lei...
   É preciso que Pedro tenha uma visão que lhe faça mudar de ideia (At 10.9-16), e que um Concílio em Jerusalém (At 15) ratifique que o desafio da igreja é "Sairmos a ele fora do arraial levando a sua vergonha!"
   O apóstolo Paulo foi um dos primeiros a entenderem plenamente essa verdade. Mas houve momentos em que não foi fácil cumpri-la. Ninguém imagine que sair fora do arraial levando a sua vergonha é algo simples. Explico:
   Paulo realizou sua primeira viagem missionária pelas regiões da Cilícia (sua terra natal), Chipre, Pisídia e Galácia. Não enfrentou nenhum grande centro grego, nenhuma grande metrópole universitária, nenhum grande centro filosófico.
   Em sua segunda viagem missionária ele visita as igrejas fundadas anteriormente, e então pensa em ir para a Bitínia (At 16.7), ao norte, onde continuaria pregando em médias e pequenas cidades, utilizando o apoio inicial dos judeus que fossem convertidos, e que talvez não vissem na mensagem do evangelho motivo de grande afronta.

    Paulo porém, foi impedido pelo Espírito Santo de ir à Bitínia.  Numa visão é chamado a passar à Macedônia, adentrar a Europa, pisar em solo grego, pregar nas metrópoles cultas e famosas da Grécia. Como esse povo receberia a mensagem do crucificado? Esse era o grande temos de Paulo. Não tendo outra opção Paulo vai à Europa, saindo fora do arraial, levando a vergonha de Cristo.
     Seus temores em parte se confirmam, quando sua pregação no areópago ateniense é bruscamente finalizada pois muitos intelectuais gregos não se interessam em ouvir sobre um crucificado que morre e ressuscita (At 17.32-34).  Alguns porém creem. Paulo é assaltado por um temor (I Co 2.3), vontade de não sair fora mais, temor de levar a vergonha de Cristo e se tornar ridículo diante da intelectualidade grega... Já comprovou que o evangelho é loucura para os gregos e escândalo para os judeus (I Co 1.23). O que fazer? Toma então uma decisão:
   Nada vou pregar, a não ser a Jesus Cristo, e este crucificado! (I Co 2.2). Em outras palavras, vou sair fora do arraial levando a sua vergonha, custe o que custar! É assim que Paulo evangeliza a grande cidade grega de Corinto, e depois Éfeso... É assim que cada um de nós poderá realizar o desafio que nos é proposto. Saiamos a ele fora do arraial, levando a sua vergonha!

sábado, 2 de abril de 2016

Os fuzilamentos de 03 de maio de 1808, Goya: Ironias da história e uma reflexão sobre trevas e luz...

    Estive no Museu do Prado, em Madri, ainda no final do século passado. Algumas obras me marcaram, dentre as quais, sempre lembrarei do enorme quadro de Goya, 268 x 347 cm, “Os fuzilamentos de 03 de maio de 1808”, uma pintura impressionante.

O tema desta obra remete-nos para um acontecimento histórico: os fuzilamentos levados a cabo pelo exército francês sobre a população de Madrid que havia pegado em armas para defender a cidade do invasor. Esta obra eterniza esse massacre, quarenta e três patriotas foram fuzilados às quatro da manhã na montanha do Príncipe Pio.
     Os franceses, que há pouco menos de 20 anos haviam sido arautos para todo o mundo do grito de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, com o qual pretendia-se inaugurar o século das luzes, agora eram algozes de seus irmãos espanhóis... Ironias da História.  O historiador Starobinski entende que é a partir desse prisma que Goya imortaliza os fuzilamentos de 03 de maio de 1808:

   “A França revolucionária, foco de onde irradiava a luz dos princípios, e de que Goya esperara a expansão pacífica, faz irrupção sob a fisionomia de um exército violento, semeado à sua passagem os assassinatos e as violações absurdas. Uma inversão maléfica substituiu a luz pelas trevas. A esperança foi traída; a história, que parecia progredir no sentido da liberdade, perde seu eixo positivo e se torna uma cena insensata. Como se vê, não estamos mais apenas na presença do que chamávamos, a propósito da arte neoclássica, de o retorno da sombra: vemos efetuar-se uma verdadeira permutação que substitui por uma fonte de trevas aquilo que de início parecera uma fonte de luz...  Continuarei aqui a interrogar a obra tardia de Goya, porque ela expõe aos nossos olhos o destino longínquo daquilo que esteve em jogo em 1789. O resultado é lido no quadro “Os fuzilamentos de 3 de maio de 1808”:


    O grupo ritmado e disciplinado dos solados do pelotão de execução representa uma racionalidade demente; a regularidade, a ordem (que deveriam marcar o triunfo dos princípios) vêm apenas regulamentar o exercício da violência. Pela obliquidade que Goya confere à cena, ele esconde o rosto dos hussardos franceses: estes só aparecem de perfil, contra a luz da sinistra lanterna colocada a seus pés; deles não percebemos senão o equipamento: fuzis, barretinas, correames, capotes, sabres. Ocupam o primeiro plano, mas tudo neles corresponde e se harmoniza com o céu noturno que domina o fundo da cena.


    A luz, em compensação, se liga e se associa ao grupo das vítimas, e mais particularmente ao homem do povo que a salva iminente vai abater: Goya soube dar ao seu rosto sem beleza a expressão simples que está ao mesmo tempo para além da coragem e do terror; de braços estendidos na atitude da crucificação, as mãos perfuradas, esse espanhol de traços grosseiros ganha de súbito a dimensão do Judeu eterno, do Homem humilhado pelo homem. Ainda que difundida logicamente a partir da lanterna, a luz, para o espectador, parece emanar da camisa branca do supliciado.
    Diante da vontade mecanizada do pelotão de execução, assistimos à tragédia da vontade vã, a impotência absoluta. Mas essa vontade vã, incapaz de desviar a morte, Goya nos faz pressentir que ela não poderia ser atingida nem destruída pela morte. Ele a eterniza... Aqui se trata de um homem obscuro, cujo nome e identidade não nos são transmitidos. Assim ficamos atentos ao valor mais elementar, à liberdade inseparável da existência mais comum... A tormenta e a tempestade, como também bala e o cutelo, anunciam o aniquilamento de nossa existência sensível, mas despertam em nós a certeza de escapar aos limites que ela nos atribui...
    Apenas pintores capazes de restituir ao mundo material toda a sua selvageria, toda a sua inextricável riqueza de cores, de luzes e de trevas mescladas... puderam fazer aparecer a invisível presença da “liberdade moral”.

(Starobinski, Jean. 1789, Os Emblemas da Razão, Cia das Letras, 1989, pág. 129-131)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Governistas e pastores são os últimos a reconhecerem que estamos em crise...

   Admitir que há uma crise em andamento é doloroso para algumas pessoas ou classe de pessoas especificamente. Para quem compõe a base governista, por exemplo, admitir que há uma crise estabelecida é duro, por razões óbvias. Tenta-se disfarçar, camuflar, despistar, enfim mudar de conversa, de forma que não haja uma admissão pública da existência da crise. E acredito que deve haver muita torcida para que tudo não passe de uma “marolinha”, para usar um termo utilizado há anos num momento turbulento.
     Mas há um outro grupo que também resiste bravamente a admitir o contexto de crise. Este é o grupo dos pastores.
      Quando os ventos da instabilidade, da falta de credibilidade, do desgoverno e da desconfiança começaram a soprar com toda a força fazendo balançar a grande nave da economia brasileira, a curva do desemprego teimando em seguir uma curva ascendente, muitos pastores, ministros de louvor e líderes do mundo evangélico difundiram o chavão “nós não estamos em crise, estamos em Cristo”.

    Essas frases de efeito levam as multidões ao delírio, e deixam nos pastores um senso de que a multidão está sendo abençoada, ainda que o chavão seja enganoso. E o tempo encarregou-se de provar que o chavão era demagógico, e enganoso, ainda que fosse utilizado com a melhor das intenções.
       Quando já estava claro que a crise estava instalada, e somente os governistas e alguns pastores teimavam em não admiti-la, subi ao púlpito e com todas as letras preguei acerca da existência da crise. Ainda me lembro que utilizei o texto do profeta Joel 1.3-14:
 Fazei sobre isto uma narração a vossos filhos, e vossos filhos a seus filhos, e os filhos destes à outra geração.
O que ficou da lagarta, o gafanhoto o comeu, e o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu, e o que ficou da locusta, o pulgão o comeu.
Despertai-vos, bêbados, e chorai; gemei, todos os que bebeis vinho, por causa do mosto, porque tirado é da vossa boca.
Porque subiu contra a minha terra uma nação poderosa e sem número; os seus dentes são dentes de leão, e têm queixadas de um leão velho.
Fez da minha vide uma assolação, e tirou a casca da minha figueira; despiu-a toda, e a lançou por terra; os seus sarmentos se embranqueceram.
Lamenta como a virgem que está cingida de saco, pelo marido da sua mocidade.
Foi cortada a oferta de alimentos e a libação da casa do Senhor; os sacerdotes, ministros do Senhor, estão entristecidos.
O campo está assolado, e a terra triste; porque o trigo está destruído, o mosto se secou, o azeite acabou.
Envergonhai-vos, lavradores, gemei, vinhateiros, sobre o trigo e a cevada; porque a colheita do campo pereceu.
A vide se secou, a figueira se murchou, a romeira também, e a palmeira e a macieira; todas as árvores do campo se secaram, e já não há alegria entre os filhos dos homens.
Cingi-vos e lamentai-vos, sacerdotes; gemei, ministros do altar; entrai e passai a noite vestidos de saco, ministros do meu Deus; porque a oferta de alimentos, e a libação, foram cortadas da casa de vosso Deus.
Santificai um jejum, convocai uma assembleia solene, congregai os anciãos, e todos os moradores desta terra, na casa do Senhor vosso Deus, e clamai ao Senhor.
    Joel profetizou num tempo de crise sem precedentes. Ele não fechou os olhos à gravidade da situação. Expôs claramente todas as mazelas e suas consequências, e convocou o povo à santidade e a clamar ao Senhor.

    Quando eu terminei de pregar alguns irmãos vieram falar comigo porque eu tivera muita coragem de pregar dessa forma e admitir que estávamos vivendo uma crise, porque esse parecia ser um assunto tabu para muitos. Melhor pregar que “não estamos em crise, estamos em Cristo”.
     Falei que me espelho nos profetas bíblicos, e tenho um especial apreço pelos profetas menores, que em seus pequenos registros literários trazem uma enorme riqueza de ensinamento. Me lembro que foi com uma citação de outro deles que eu concluí a mensagem, Habacuque 3.17-18:
Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado;
Todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação.
    Estamos em crise, sim, mas Deus está conosco e ele nos ajudará a vencer todas as dificuldades que virão pela frente.

    Fiquei pensando qual o motivo da dificuldade de muitos pastores não admitirem a existência da crise. Me ocorreram duas coisas: Falta de fé, e enamoramento com a teologia da prosperidade. Falta de fé, porque não se consegue imaginar dando conta de todas as obrigações e compromisso num cenário adverso. Melhor acreditar que a adversidade não vai bater nossa parte, e levar os outros a crerem assim também.
    Enamoramento com a teologia da prosperidade... Há muito que a “boa teologia” condena a teologia da prosperidade. Está nos manuais, nas revistas de EBD, nos bons livros teológicos, no discurso institucional das denominações sérias... Mas há um canto da sereia na teologia da prosperidade que atrai até mesmo os mais ortodoxos. Os auditórios querem ser abençoados, querem ouvir uma promessa de vitória e de prosperidade. E é aí, que flertamos com a teologia da prosperidade. E quando se admite que a crise existe, fica mais difícil trazer a promessa da bênção e da vitória para hoje, ou mesmo para amanhã. E acreditem, nos púlpitos não predomina o discurso institucional da denominação, nem da revista da EBD... ali saem as palavras de que está cheio o coração de um pastor... que às vezes é de agradar ao rebanho e atrair novos membros...
     Em tempos de crise, sugiro a todos que aprendam a ler o texto bíblico em seu contexto, e por  favor, deixem de citar isoladamente Filipenses 4.13 “Posso todas as coisas naquele que me fortalece”. Leiam o capítulo inteiro, mas se não conseguem comecem pelo menos no versículo 11:
 Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância.
Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.
Tudo posso naquele que me fortalece.
    Talvez muitos de nossos irmãos, e nós mesmos precisamos reaprender a contentar-nos com o que temos, e a passar aperto, dizendo com alegria: Posso todas as coisas naquele que me fortalece.

     Hoje eu posso falar com tranquilidade que nós estamos em crise, sim. Se alguém discordar de mim, leia pelo menos o título do editorial do jornal da minha denominação: “A bênção de Deus não nos abandona mesmo nos momentos de crise”. Amém, pastor José Wellington.

    

quarta-feira, 9 de março de 2016

Saudade...

  Eu estava lendo a bíblia, na epístola mais afetiva do apóstolo Paulo, onde os sentimentos estão presentes em cada linha da missiva, e me deparei com a palavra saudade, Fp 2.26, no original ἐπιποθεῖν (epipothein). Essa palavra é utilizada por Paulo, em outros momentos em Filipenses e em outras cartas como Romanos, Coríntios...
  Todos os usos bíblicos indicam que epipothein expressa um intenso desejo que tem  conexão direta com algum tipo de amor. Isso quer dizer que epipothein não é exclusiva para saudade. Percebe-se que trata-se de saudade pelo contexto, pela linha argumentativa do falante.
   Trata-se de uma constatação: Todo mundo sente saudade, mas nem todo mundo tem uma palavra mágica, exclusiva, sonora, tocante como nós, os lusófonos. Só nós temos “saudade”. Esses dias minha esposa estava viajando e postou no grupo da família: Estou com saudades. Não precisa interpretar nem fazer qualquer esforço hermenêutico, nem buscar o contexto em que foi dito: Saudade, é saudade!
   Os franceses, por exemplo, quando querem dizer que estão com saudade de alguém, precisam dizer “Você me faz falta”, Tu me manques. Manquer é o verbo em francês para fazer falta.
    Fico pensando que eu posso fazer falta a alguém, sem obrigatoriamente isso significar saudade. Saudade é mais profundo, um negócio que dói. Uma coisa que machuca, que até faz chorar...
  Como os franceses, os ingleses expressam saudade falando da falta de alguém ou de algo, “Sinto falta de você”, I’ve missed you.
    Talvez Clarice me ajude a expressar a profundidade que há na saudade:
Sentimento urgente (Clarice Lispector)
Saudade é um pouco como fome
Só passa quando se come a presença
Mas, às vezes, a saudade é tão profunda que a presença é pouco
Quer-se absorver a outra pessoa toda
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira
É um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
   Lá na Pinacoteca de São Paulo existem dois quadros que versam sobre o mesmo tema: Saudade. A palavra em si já é poética, tem cheiro de arte, de coração, de sensibilidade, de lágrima, de aperto no peito... tem cara de ausência, de querer-mas-não-poder... Quando um pintor resolve re-significá-la num quadro, temos pura poesia em forma de imagem.


    Berthe Worms, uma artista francesa que viveu no Brasil entre os séculos XIX e XX,  fez isso num quadro que comentamos num outro post: Saudades de Nápoles. Não precisa de título... a carinha do garoto diz tudo, com seu aspecto de precariedade que denuncia o exílio, o expatriamento. Lembrei de Gonçalves Dias, que expressou com palavras-lágrimas a ideia de saudade:   Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá... Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá...
    Suprema ironia poética, o poeta morreu afogado no retorno de seu exílio, próximo a praia de sua terra.
    Almeida Júnior   também pintou um quadro denominado “Saudade” ... conseguiu transpor através das pinceladas-lágrimas a dor desse sentimento no coração daquela jovem senhora.

   Gerson Borges, outro poeta querido contemporâeo, compôs um poema que ele chamou “Simplesmente quando chove”... poder-se-ia chamar Escolhas e Saudade:
Se apenas apenas uma escolha me restasse, eu levaria o pôr-do-sol,
ou se uma só herança me bastasse, um rouxinol
que cantasse a dor das distâncias e curasse essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.

Se toda a poesia, numa palavra, eu ficaria com "jardim"
e, um tipo só de arbusto ali se lavra, o alecrim,
concentrando o cheiro do longe, acalmando essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.

E chove, e chove, chove sem parar, enquanto eu canto, canto,
ao te esperar.

Se cada vez que eu penso no teu rosto, vento virasse um vendaval,
desabaria o céu com muito gosto, que temporal!
Tormenta no mar da memória, rimando com essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.
   
     Convido-o a ouvir esse poema, cantado na voz de Priscila Barreto. Vale a pena.



domingo, 6 de março de 2016

Conheça aquele que não é obrigado a nada... e seja alguém que não é obrigado a nada...

  Estou finalizando agora essa conversa sobre “não sou obrigado a nada”. Ficou claro que o bordão “não sou obrigado a nada” é infantil, bobo. Portanto, não o repita porque todo o mundo está falando. Nas relações entre os homens seremos sempre obrigados a alguma coisa, mesmo contra a nossa vontade.
   Mas há outras relações onde essa obrigatoriedade não é observada. Falo em primeiro lugar da relação de Deus com o homem, depois falo da relação do homem com Deus.
    Começando no livro dos princípios, o Gênesis, vamos encontrar o que teologicamente chamamos de Queda. Embora criado à imagem de Deus para o louvor e glória do Criador, o homem desobedece e seu pecado essa imagem do Criador, afasta o homem de Deus, e cria desordem no mundo físico e espiritual. Isto é a Queda.
    Deus poderia ter deixado de lado o homem desobediente e caído. Mas  não o faz. O busca na viração da tarde, providencia-lhe vestimenta, e registra a promessa de redenção, no protoevangelho de Gn 3.15. Ele não era obrigado a nada, mas o fez!
  Tempos depois diante de uma humanidade pervertida e iníqua, Deus provê salvação através da arca para Noé e sua família, e a história do homem recomeça... Deus não era obrigado a nada, mas o fez!
  Deus se revela a um mesopotâmio da cidade de Ur, chamado Abrão. No meio de uma sociedade caldéia que adorava a lua, e construía templos em formas de pirâmides, conhecidos como zigurates, Deus escolhe Abrão e lhe faz promessas.
  Uma aliança, cuja celebração tem como modelo os rituais de suserania e vassalagem da época, é firmada entre Deus e Abraão (Gn 15.1-19). Deus firma a aliança e faz promessas a Abraão. Ele não era obrigado a nada, mas o fez!
    Da descendência de Abraão surge o povo de Israel. Escravizado no Egito, é milagrosamente tirado de lá através da ação sobrenatural de Deus. Peregrinando no deserto, é tempo de pensar: Por que nós? Por que fomos escolhidos?
    Moisés responde e esclarece ao povo esta questão. Não é porque Ele fosse obrigado a alguma coisa. Mas Moisés afirma: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava e,  para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus mandamentos.” Dt 7.7-9

      Foi iniciativa divina firmar a aliança com Abraão, e Ele cumpriu integralmente a aliança, por AMOR. O amor é a resposta para entender a ação de um Deus que não é obrigado a nada, mas o faz!
   O povo de Israel se mostra desobediente, arredio, rebelde. Se Deus fosse homem, a nação seria totalmente extinta, mas ele é Deus, e não homem. Ele não era obrigado a tolerar as infidelidades sem fim de Israel. Mas Ele o faz, não porque é obrigado a nada. Vejamos as próprias palavras do Senhor (Os 11.1-9):
Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho.
Mas, como os chamavam, assim se iam da sua face; sacrificavam a baalins, e queimavam incenso às imagens de escultura.
Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomando-os pelos seus braços, mas não entenderam que eu os curava.
Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor, e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e lhes dei mantimento.
Não voltará para a terra do Egito, mas a Assíria será seu rei; porque recusam converter-se.
E cairá a espada sobre as suas cidades, e consumirá os seus ramos, e os devorará, por causa dos seus próprios conselhos.
Porque o meu povo é inclinado a desviar-se de mim; ainda que chamam ao Altíssimo, nenhum deles o exalta.
Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Te poria como Zeboim? Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem.
Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade.
     O amor é a grande explicação da forma como Deus age. Talvez o bordão bobo circulante pudesse ser aqui utilizado para falar de um conceito teológico muito caro para o mundo cristão: o conceito de graça. Graça significa a atitude de um Deus que não é obrigado a nada, mesmo assim nos alcança em seu inexplicável amor.

    Os escritos joaninos vão enfocar esse amor de forma clara e bela: Porque Deus amou o mundo de tal maneira que DEU o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). Ele  não era obrigado a enviar o seu Filho para salvar a humanidade, mas o fez por AMOR.

   Esta ação da graça de Deus, que não trabalha com a ideia de obrigação, e sim de amor, nos confronta a um posicionamento. Ainda nos escritos joaninos encontraremos: Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro. (I Jo 4.19)
    Um Deus que não é obrigado a nada, mas tudo faz por amor, cria no coração do recebedor de sua graça uma dívida de amor. E então, passamos amá-lo, a obedecê-lo, a segui-lo. Não porque somos obrigados a nada, mas porque Ele nos amou primeiro.

     Talvez devêssemos concluir esta reflexão com as palavras de Paulo, em II Co 5.13-21. Não precisa acrescentar mais nada. Apenas podemos concluir, que em nossa relação com Deus, também não somos obrigados a nada. Mas tudo o que fazemos provém da reconciliação em amor e graça que Ele nos outorgou. E este amor nos constrange. Assim, em nossa relação com Ele, não somos obrigados a nada, caso contrário nos tornaríamos apenas religiosos e cumpridores de normas e regras. Mas o amor de Cristo nos constrange a sermos nova criatura, a sermos embaixadores do ministério da reconciliação:

“Pois, se enlouquecemos, é por amor a Deus; se conservamos o juízo, é porque vos amamos. Porquanto o amor de Cristo nos constrange, porque estamos plenamente convencidos de que Um morreu por todos; logo, todos morreram. E Ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou.
Assim, de agora em diante, a ninguém mais consideramos do ponto de vista meramente humano. Ainda que outrora tivéssemos considerado a Cristo assim, agora, contudo, já não o conhecemos mais desse modo. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas antigas já passaram, eis que tudo se fez novo! Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por intermédio de Cristo e nos outorgou o ministério da reconciliação. Pois Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta as transgressões dos seres humanos, e nos encarregou da mensagem da reconciliação.

Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus vos encorajasse por nosso intermédio. Assim, vos suplicamos em nome de Cristo que vos reconcilieis com Deus. Deus fez daquele que não tinha pecado algum a oferta por todos os nossos pecados, a fim de que nele nos tornássemos justiça de Deus.”

quinta-feira, 3 de março de 2016

Não sou obrigado a nada, uma lição do passado

    Preciso continuar escrevendo sobre isso. Embora me digam que “não sou obrigado a nada”. Queria me dirigir especificamente aqueles e aquelas que se dizem tementes a Deus, ou integram uma comunidade cristã e ao mesmo tempo abrem a boca para dizer “não sou obrigado a nada”.
     Sabe, guri, guria, garoto, garota, jovem, cara, irmão, mano... houve um cara num passado muito distante que vivia dizendo isso, e... se deu mal. Acabou esmagado nos escombros de um velho templo filisteu em algum lugar na conhecida Faixa de Gaza, não sem antes passar por uns bons perrengues.
     Chamava-se Sansão. Em primeiro lugar ele nasceu nazireu, do hebraico nazir נזיר da raiz nazar נזר "consagrado", "separado". Assim, o nazireu era alguém escolhido por Deus de forma diferenciada. Ele tinha privilégios, entre os quais receber de forma especial o Espírito de Deus, e lhe havia sido confiada uma missão. Por outro lado, ele tinha obrigações. Fico pensando que o grande problema das pessoas hoje é esse, elas só desejam os privilégios, os bônus (como diziam os antigos), e não os ônus, as obrigações.
   Suas obrigações estavam descritas na Lei, as regras do nazireado estavam expressas na Torá, em Números 6.1-21. Outra questão delicada hoje é falar de leis, de regras. Num mundo onde todos querem ser auto-nomos (auto, de si mesmo; nomos, lei), cada um quer ditar a sua própria lei, faz todo o sentido dizer “não sou obrigado a nada”.

   Esperava-se que o nazireu se abstivesse do vinho, de bebida forte, vinagre, uvas, nada relacionado a vinha (de sementes até as cascas), não poderia passar navalha na cabeça (teria o cabelo crescido),  não aproximar-se de cadáver e  não ir a velórios.
    Sansão estava submetido às leis do nazireado, sem falar nas demais prescrições das leis mosaicas, a qual estavam ligados todos os descendentes de Jacó.
    Mas Sansão decidiu em seu coração: Não sou obrigado a nada.
    Escolheu uma garota filisteia, que pertencia ao povo inimigo, para casar. Uma guria com outra cultura, outras tradições. Seus pais foram contra o casamento, e falaram com Sansão. Mas ele insistiu:  Vou casar com ela, afinal, não sou obrigado a nada.
    O casamento acabou na festa de noivado.  Sansão acabou matando 1000 pessoas aparentados da noiva, para pagar uma aposta, que a própria noiva revelou a resposta do enigma aos parentes. O enigma envolvia a quebra de uma das regras da lei do nazireado, como aproximar-se de cadáveres.  Ele buscou no leão morto, um favo de mel que as abelhas produziram. Mas ele já decidira: Não sou obrigado a nada, muito menos a obedecer as regras do nazireado.

    Embora triste, Sansão pensou em reatar o relacionamento com a moça filisteia, passada toda a confusão. Bateu na casa do sogro, e qual não foi sua surpresa quando foi informado que a sua noiva fora dada por esposa ao seu amigo filisteu. O velho lhe ofereceu a filha mais nova. Sansão estava por demais enfurecido. Disse em alto e bom som, que em relação aos filisteus ele agora não era obrigado a nada. E tomou trezentas raposas, amarrou os rabos e tocou fogo, mesmo nas plantações dos filisteus, arrasando o trigo, as vinhas e os olivais.

      Indignados, os filisteus, que não eram obrigados a nada, foram à casa do ex-futuro sogro de Sansão e queimaram a sua ex-noiva juntamente com seu pai.
    A história pararia por aqui, se Sansão não levasse as últimas consequências o bordão “não sou obrigado a nada”, Sansão passou a frequentar os bordéis dos filisteus. Primeiro afeiçoou-se de uma prostituta em Gaza, depois apaixonou-se  por uma filisteia do vale de Soreque chamada Dalila. Como um juiz de Israel, aquilo não era nem um pouco conveniente, e muito estranho para um nazireu, alguém separado e consagrado para Deus, mas para Sansão isso não era problema, afinal  ele “não era obrigado a nada”.

    Sua força era um segredo que a ninguém poderia ser revelado. Seus cabelos que nunca haviam visto navalha guardavam o mistério da obediência do nazireado, e consequentemente do poder sobrenatural de Deus sobre Sansão.
  Mas a muita insistência de Dalila resultou no segredo revelado. Sem problemas, afinal  Sansão não era obrigado a nada. Os filisteus cortaram seus cabelos, ele perdeu inteiramente sua força. Foi levado para trabalhar como escravo dos filisteus, vazaram-lhe os olhos, riram dele e o ridicularizaram... custou muito caro, um “não sou obrigado a nada”.


     Levado para ser o palhaço da festa num templo dos filisteus, Sansão repensou sues conceitos. Percebeu o quanto havia sido ingênuo e egoísta com a sua filosofia de “não sou obrigado a nada”. Agora era tarde, resolve orar e pedir a Deus, que (este sim), não era obrigado a nada, que se lembrasse dele (isto será tema de uma próxima conversa, nossa)... Deus, que não é obrigado a nada, mas em sua misericórdia e graça ouve os homens, restituiu sua força, e Sansão conseguiu empurrar as colunas que derrubaram o templo, matando-o juntamente com os filisteus...


    Uma nota de um fim melancólico, em alguém que em vida havia entendido que “não era obrigado a nada”. Essa história é contada há mais de 3 mil anos, encontra-se na  bíblia, nos capítulos 13 a 16 do livro de Juízes...

quarta-feira, 2 de março de 2016

Não sou obrigado a nada!???

   Escrevo... Escrevo pra não morrer. Pra não ter um ataque apoplético, pra tentar prolongar a vida e manter saudável o sistema circulatório. Sim, porque ouvindo o que se ouve todo o dia hoje, um ser como eu entra em coma bem rapidinho.
   Algumas pessoas escrevem para informar, manter o status de escritor e alimentar seus fãs e fazer a festa dos críticos literários. Usando a expressão do profeta bíblico, como eu não sou escritor nem filho de escritor, escrevo para não morrer.
   Ouço os bordões de jovens e adolescentes por alguns motivos: Convivo com alguns em casa, já fui líder de jovens na igreja, às vezes entro em sala de aula para preparar jovens para encarar os desafios da empresa, e... sou pastor de igreja, onde muitos jovens participam.
    Jovens adoram bordões... frases de efeito. Coisas que sejam ditas por todos. Consequências de uma sociedade mimética e conectada.  Isso não seria problema se alguém pensasse sobre o que está se dizendo. Sobre qual a proposta contida no bordão. Eis o que me deixou a ponto de morrer, como Nabal, o marido de Abigail (I Sm 25.37): Não sou obrigado a nada.


     Esse bordão passou a caber em qualquer momento, em qualquer conversa em que alguém seja requisitado a fazer alguma coisa: Não sou obrigado a nada.  É dito com um ar de vitória. Como alguém que está com uma via da Lei Áurea na mão.
     Vamos tomar café... Não sou obrigado a nada!
     Hora de acordar... Não sou obrigado a nada!
     Lavar a louça... Não sou obrigado a nada!
      Estudar... Não sou obrigado a nada!
       Vamos ensaiar... Não sou obrigado a nada!
     Fui pesquisar e descobri que há um ou dois anos um grupo lançou este hit, de estilo não muito definido: Não sou obrigado a nada. Não vou dar mais detalhes sobre, pra ninguém matar a curiosidade informando-se mais sobre esta obra musical, e assim perder seu precioso tempo.
     Hoje eu fiz algumas perguntas pra uma jovem próxima:  Você vai pra escola? (que diga-se de passagem custa uma fábula!) Você toma banho e veste uma roupa limpa? Você senta na mesa e come sua comidinha gostosa? Por que? Pra que? Se você não é obrigada a nada?
    Povo ingênuo, ouça-me, por favor: Seres humanos, que definitivamente não são seres irracionais evoluídos, são obrigados a quase tudo! Imperativos morais, sociais, políticos, religiosos, afetivos... coisas que dominam o mundo dos humanos, e nos tornam seres civilizados, nos obrigam a seguir regras, convenções, orientações, obedecer leis...
     Você que abre a boca para falar uma asneira sem tamanho dessas,  faça algumas coisas, já que você não é obrigado a nada: Ande nu, não tome banho... ou coisas menos radicais, não renove a carteira de motorista, não pague o IPVA. Quando for abordado no trânsito, olhe para o guarda e diga: Não sou obrigado a nada.


     Realmente, não somos obrigados a nada, se quisermos abrir mão de nossa humanidade. Se esquecermos que somos a Imago Dei, a imagem de Deus, e simularmos que somos animais imundos. Na década de 60, o movimento hippie tentou ensaiar essa ideia esdrúxula... foi apenas um movimento. Não vingou.   A humanidade e seus imperativos falou mais forte. Eles voltaram à sociedade e à civilização. O Festival de Woodstock durou apenas 3 dias.
     Nunca abra a sua boca para dizer que não é obrigado a nada, se você está abrigado num teto, comendo à mesa com talheres, copos e garfos, se você vai ao Shopping escolher suas roupas e não abre mão do seu smartphone, se você faz parte de uma família, que em tese, deveria ter o mínimo de regras de convivência. Você é obrigado sim, a ajudar, a cuidar do mundo e das pessoas à sua volta, a obedecer, a seguir as convenções sociais, a cumprir orientações, a refletir, a olhar para cima e ver-se como a Imagem de Deus...
     E pra você que não sabe, dizem os cientistas que os impulsos genéticos inscritos nos animais irracionais os impelem a lutar pela vida, utilizando uma linguagem darwiniana. Uma espécie de imperativos de sobrevivência... nem eles portanto, diriam tal imbecilidade, de que não são obrigados a nada.
     Talvez só os seres inanimados, que quando criança eu aprendi que eram seres brutos, possam dizer “não sou obrigado a nada”!
      Se você não quiser me matar do coração, nunca abra sua boca pra dizer junto de mim: Não sou obrigado a nada. Por favor!