quarta-feira, 9 de março de 2016

Saudade...

  Eu estava lendo a bíblia, na epístola mais afetiva do apóstolo Paulo, onde os sentimentos estão presentes em cada linha da missiva, e me deparei com a palavra saudade, Fp 2.26, no original ἐπιποθεῖν (epipothein). Essa palavra é utilizada por Paulo, em outros momentos em Filipenses e em outras cartas como Romanos, Coríntios...
  Todos os usos bíblicos indicam que epipothein expressa um intenso desejo que tem  conexão direta com algum tipo de amor. Isso quer dizer que epipothein não é exclusiva para saudade. Percebe-se que trata-se de saudade pelo contexto, pela linha argumentativa do falante.
   Trata-se de uma constatação: Todo mundo sente saudade, mas nem todo mundo tem uma palavra mágica, exclusiva, sonora, tocante como nós, os lusófonos. Só nós temos “saudade”. Esses dias minha esposa estava viajando e postou no grupo da família: Estou com saudades. Não precisa interpretar nem fazer qualquer esforço hermenêutico, nem buscar o contexto em que foi dito: Saudade, é saudade!
   Os franceses, por exemplo, quando querem dizer que estão com saudade de alguém, precisam dizer “Você me faz falta”, Tu me manques. Manquer é o verbo em francês para fazer falta.
    Fico pensando que eu posso fazer falta a alguém, sem obrigatoriamente isso significar saudade. Saudade é mais profundo, um negócio que dói. Uma coisa que machuca, que até faz chorar...
  Como os franceses, os ingleses expressam saudade falando da falta de alguém ou de algo, “Sinto falta de você”, I’ve missed you.
    Talvez Clarice me ajude a expressar a profundidade que há na saudade:
Sentimento urgente (Clarice Lispector)
Saudade é um pouco como fome
Só passa quando se come a presença
Mas, às vezes, a saudade é tão profunda que a presença é pouco
Quer-se absorver a outra pessoa toda
Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira
É um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
   Lá na Pinacoteca de São Paulo existem dois quadros que versam sobre o mesmo tema: Saudade. A palavra em si já é poética, tem cheiro de arte, de coração, de sensibilidade, de lágrima, de aperto no peito... tem cara de ausência, de querer-mas-não-poder... Quando um pintor resolve re-significá-la num quadro, temos pura poesia em forma de imagem.


    Berthe Worms, uma artista francesa que viveu no Brasil entre os séculos XIX e XX,  fez isso num quadro que comentamos num outro post: Saudades de Nápoles. Não precisa de título... a carinha do garoto diz tudo, com seu aspecto de precariedade que denuncia o exílio, o expatriamento. Lembrei de Gonçalves Dias, que expressou com palavras-lágrimas a ideia de saudade:   Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá... Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá...
    Suprema ironia poética, o poeta morreu afogado no retorno de seu exílio, próximo a praia de sua terra.
    Almeida Júnior   também pintou um quadro denominado “Saudade” ... conseguiu transpor através das pinceladas-lágrimas a dor desse sentimento no coração daquela jovem senhora.

   Gerson Borges, outro poeta querido contemporâeo, compôs um poema que ele chamou “Simplesmente quando chove”... poder-se-ia chamar Escolhas e Saudade:
Se apenas apenas uma escolha me restasse, eu levaria o pôr-do-sol,
ou se uma só herança me bastasse, um rouxinol
que cantasse a dor das distâncias e curasse essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.

Se toda a poesia, numa palavra, eu ficaria com "jardim"
e, um tipo só de arbusto ali se lavra, o alecrim,
concentrando o cheiro do longe, acalmando essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.

E chove, e chove, chove sem parar, enquanto eu canto, canto,
ao te esperar.

Se cada vez que eu penso no teu rosto, vento virasse um vendaval,
desabaria o céu com muito gosto, que temporal!
Tormenta no mar da memória, rimando com essa saudade
a me invadir enquanto eu canto, sobretudo quando chove.
   
     Convido-o a ouvir esse poema, cantado na voz de Priscila Barreto. Vale a pena.



domingo, 6 de março de 2016

Conheça aquele que não é obrigado a nada... e seja alguém que não é obrigado a nada...

  Estou finalizando agora essa conversa sobre “não sou obrigado a nada”. Ficou claro que o bordão “não sou obrigado a nada” é infantil, bobo. Portanto, não o repita porque todo o mundo está falando. Nas relações entre os homens seremos sempre obrigados a alguma coisa, mesmo contra a nossa vontade.
   Mas há outras relações onde essa obrigatoriedade não é observada. Falo em primeiro lugar da relação de Deus com o homem, depois falo da relação do homem com Deus.
    Começando no livro dos princípios, o Gênesis, vamos encontrar o que teologicamente chamamos de Queda. Embora criado à imagem de Deus para o louvor e glória do Criador, o homem desobedece e seu pecado essa imagem do Criador, afasta o homem de Deus, e cria desordem no mundo físico e espiritual. Isto é a Queda.
    Deus poderia ter deixado de lado o homem desobediente e caído. Mas  não o faz. O busca na viração da tarde, providencia-lhe vestimenta, e registra a promessa de redenção, no protoevangelho de Gn 3.15. Ele não era obrigado a nada, mas o fez!
  Tempos depois diante de uma humanidade pervertida e iníqua, Deus provê salvação através da arca para Noé e sua família, e a história do homem recomeça... Deus não era obrigado a nada, mas o fez!
  Deus se revela a um mesopotâmio da cidade de Ur, chamado Abrão. No meio de uma sociedade caldéia que adorava a lua, e construía templos em formas de pirâmides, conhecidos como zigurates, Deus escolhe Abrão e lhe faz promessas.
  Uma aliança, cuja celebração tem como modelo os rituais de suserania e vassalagem da época, é firmada entre Deus e Abraão (Gn 15.1-19). Deus firma a aliança e faz promessas a Abraão. Ele não era obrigado a nada, mas o fez!
    Da descendência de Abraão surge o povo de Israel. Escravizado no Egito, é milagrosamente tirado de lá através da ação sobrenatural de Deus. Peregrinando no deserto, é tempo de pensar: Por que nós? Por que fomos escolhidos?
    Moisés responde e esclarece ao povo esta questão. Não é porque Ele fosse obrigado a alguma coisa. Mas Moisés afirma: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava e,  para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus mandamentos.” Dt 7.7-9

      Foi iniciativa divina firmar a aliança com Abraão, e Ele cumpriu integralmente a aliança, por AMOR. O amor é a resposta para entender a ação de um Deus que não é obrigado a nada, mas o faz!
   O povo de Israel se mostra desobediente, arredio, rebelde. Se Deus fosse homem, a nação seria totalmente extinta, mas ele é Deus, e não homem. Ele não era obrigado a tolerar as infidelidades sem fim de Israel. Mas Ele o faz, não porque é obrigado a nada. Vejamos as próprias palavras do Senhor (Os 11.1-9):
Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei a meu filho.
Mas, como os chamavam, assim se iam da sua face; sacrificavam a baalins, e queimavam incenso às imagens de escultura.
Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomando-os pelos seus braços, mas não entenderam que eu os curava.
Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor, e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e lhes dei mantimento.
Não voltará para a terra do Egito, mas a Assíria será seu rei; porque recusam converter-se.
E cairá a espada sobre as suas cidades, e consumirá os seus ramos, e os devorará, por causa dos seus próprios conselhos.
Porque o meu povo é inclinado a desviar-se de mim; ainda que chamam ao Altíssimo, nenhum deles o exalta.
Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Te poria como Zeboim? Está comovido em mim o meu coração, as minhas compaixões à uma se acendem.
Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade.
     O amor é a grande explicação da forma como Deus age. Talvez o bordão bobo circulante pudesse ser aqui utilizado para falar de um conceito teológico muito caro para o mundo cristão: o conceito de graça. Graça significa a atitude de um Deus que não é obrigado a nada, mesmo assim nos alcança em seu inexplicável amor.

    Os escritos joaninos vão enfocar esse amor de forma clara e bela: Porque Deus amou o mundo de tal maneira que DEU o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). Ele  não era obrigado a enviar o seu Filho para salvar a humanidade, mas o fez por AMOR.

   Esta ação da graça de Deus, que não trabalha com a ideia de obrigação, e sim de amor, nos confronta a um posicionamento. Ainda nos escritos joaninos encontraremos: Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro. (I Jo 4.19)
    Um Deus que não é obrigado a nada, mas tudo faz por amor, cria no coração do recebedor de sua graça uma dívida de amor. E então, passamos amá-lo, a obedecê-lo, a segui-lo. Não porque somos obrigados a nada, mas porque Ele nos amou primeiro.

     Talvez devêssemos concluir esta reflexão com as palavras de Paulo, em II Co 5.13-21. Não precisa acrescentar mais nada. Apenas podemos concluir, que em nossa relação com Deus, também não somos obrigados a nada. Mas tudo o que fazemos provém da reconciliação em amor e graça que Ele nos outorgou. E este amor nos constrange. Assim, em nossa relação com Ele, não somos obrigados a nada, caso contrário nos tornaríamos apenas religiosos e cumpridores de normas e regras. Mas o amor de Cristo nos constrange a sermos nova criatura, a sermos embaixadores do ministério da reconciliação:

“Pois, se enlouquecemos, é por amor a Deus; se conservamos o juízo, é porque vos amamos. Porquanto o amor de Cristo nos constrange, porque estamos plenamente convencidos de que Um morreu por todos; logo, todos morreram. E Ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou.
Assim, de agora em diante, a ninguém mais consideramos do ponto de vista meramente humano. Ainda que outrora tivéssemos considerado a Cristo assim, agora, contudo, já não o conhecemos mais desse modo. Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas antigas já passaram, eis que tudo se fez novo! Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por intermédio de Cristo e nos outorgou o ministério da reconciliação. Pois Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta as transgressões dos seres humanos, e nos encarregou da mensagem da reconciliação.

Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus vos encorajasse por nosso intermédio. Assim, vos suplicamos em nome de Cristo que vos reconcilieis com Deus. Deus fez daquele que não tinha pecado algum a oferta por todos os nossos pecados, a fim de que nele nos tornássemos justiça de Deus.”

quinta-feira, 3 de março de 2016

Não sou obrigado a nada, uma lição do passado

    Preciso continuar escrevendo sobre isso. Embora me digam que “não sou obrigado a nada”. Queria me dirigir especificamente aqueles e aquelas que se dizem tementes a Deus, ou integram uma comunidade cristã e ao mesmo tempo abrem a boca para dizer “não sou obrigado a nada”.
     Sabe, guri, guria, garoto, garota, jovem, cara, irmão, mano... houve um cara num passado muito distante que vivia dizendo isso, e... se deu mal. Acabou esmagado nos escombros de um velho templo filisteu em algum lugar na conhecida Faixa de Gaza, não sem antes passar por uns bons perrengues.
     Chamava-se Sansão. Em primeiro lugar ele nasceu nazireu, do hebraico nazir נזיר da raiz nazar נזר "consagrado", "separado". Assim, o nazireu era alguém escolhido por Deus de forma diferenciada. Ele tinha privilégios, entre os quais receber de forma especial o Espírito de Deus, e lhe havia sido confiada uma missão. Por outro lado, ele tinha obrigações. Fico pensando que o grande problema das pessoas hoje é esse, elas só desejam os privilégios, os bônus (como diziam os antigos), e não os ônus, as obrigações.
   Suas obrigações estavam descritas na Lei, as regras do nazireado estavam expressas na Torá, em Números 6.1-21. Outra questão delicada hoje é falar de leis, de regras. Num mundo onde todos querem ser auto-nomos (auto, de si mesmo; nomos, lei), cada um quer ditar a sua própria lei, faz todo o sentido dizer “não sou obrigado a nada”.

   Esperava-se que o nazireu se abstivesse do vinho, de bebida forte, vinagre, uvas, nada relacionado a vinha (de sementes até as cascas), não poderia passar navalha na cabeça (teria o cabelo crescido),  não aproximar-se de cadáver e  não ir a velórios.
    Sansão estava submetido às leis do nazireado, sem falar nas demais prescrições das leis mosaicas, a qual estavam ligados todos os descendentes de Jacó.
    Mas Sansão decidiu em seu coração: Não sou obrigado a nada.
    Escolheu uma garota filisteia, que pertencia ao povo inimigo, para casar. Uma guria com outra cultura, outras tradições. Seus pais foram contra o casamento, e falaram com Sansão. Mas ele insistiu:  Vou casar com ela, afinal, não sou obrigado a nada.
    O casamento acabou na festa de noivado.  Sansão acabou matando 1000 pessoas aparentados da noiva, para pagar uma aposta, que a própria noiva revelou a resposta do enigma aos parentes. O enigma envolvia a quebra de uma das regras da lei do nazireado, como aproximar-se de cadáveres.  Ele buscou no leão morto, um favo de mel que as abelhas produziram. Mas ele já decidira: Não sou obrigado a nada, muito menos a obedecer as regras do nazireado.

    Embora triste, Sansão pensou em reatar o relacionamento com a moça filisteia, passada toda a confusão. Bateu na casa do sogro, e qual não foi sua surpresa quando foi informado que a sua noiva fora dada por esposa ao seu amigo filisteu. O velho lhe ofereceu a filha mais nova. Sansão estava por demais enfurecido. Disse em alto e bom som, que em relação aos filisteus ele agora não era obrigado a nada. E tomou trezentas raposas, amarrou os rabos e tocou fogo, mesmo nas plantações dos filisteus, arrasando o trigo, as vinhas e os olivais.

      Indignados, os filisteus, que não eram obrigados a nada, foram à casa do ex-futuro sogro de Sansão e queimaram a sua ex-noiva juntamente com seu pai.
    A história pararia por aqui, se Sansão não levasse as últimas consequências o bordão “não sou obrigado a nada”, Sansão passou a frequentar os bordéis dos filisteus. Primeiro afeiçoou-se de uma prostituta em Gaza, depois apaixonou-se  por uma filisteia do vale de Soreque chamada Dalila. Como um juiz de Israel, aquilo não era nem um pouco conveniente, e muito estranho para um nazireu, alguém separado e consagrado para Deus, mas para Sansão isso não era problema, afinal  ele “não era obrigado a nada”.

    Sua força era um segredo que a ninguém poderia ser revelado. Seus cabelos que nunca haviam visto navalha guardavam o mistério da obediência do nazireado, e consequentemente do poder sobrenatural de Deus sobre Sansão.
  Mas a muita insistência de Dalila resultou no segredo revelado. Sem problemas, afinal  Sansão não era obrigado a nada. Os filisteus cortaram seus cabelos, ele perdeu inteiramente sua força. Foi levado para trabalhar como escravo dos filisteus, vazaram-lhe os olhos, riram dele e o ridicularizaram... custou muito caro, um “não sou obrigado a nada”.


     Levado para ser o palhaço da festa num templo dos filisteus, Sansão repensou sues conceitos. Percebeu o quanto havia sido ingênuo e egoísta com a sua filosofia de “não sou obrigado a nada”. Agora era tarde, resolve orar e pedir a Deus, que (este sim), não era obrigado a nada, que se lembrasse dele (isto será tema de uma próxima conversa, nossa)... Deus, que não é obrigado a nada, mas em sua misericórdia e graça ouve os homens, restituiu sua força, e Sansão conseguiu empurrar as colunas que derrubaram o templo, matando-o juntamente com os filisteus...


    Uma nota de um fim melancólico, em alguém que em vida havia entendido que “não era obrigado a nada”. Essa história é contada há mais de 3 mil anos, encontra-se na  bíblia, nos capítulos 13 a 16 do livro de Juízes...

quarta-feira, 2 de março de 2016

Não sou obrigado a nada!???

   Escrevo... Escrevo pra não morrer. Pra não ter um ataque apoplético, pra tentar prolongar a vida e manter saudável o sistema circulatório. Sim, porque ouvindo o que se ouve todo o dia hoje, um ser como eu entra em coma bem rapidinho.
   Algumas pessoas escrevem para informar, manter o status de escritor e alimentar seus fãs e fazer a festa dos críticos literários. Usando a expressão do profeta bíblico, como eu não sou escritor nem filho de escritor, escrevo para não morrer.
   Ouço os bordões de jovens e adolescentes por alguns motivos: Convivo com alguns em casa, já fui líder de jovens na igreja, às vezes entro em sala de aula para preparar jovens para encarar os desafios da empresa, e... sou pastor de igreja, onde muitos jovens participam.
    Jovens adoram bordões... frases de efeito. Coisas que sejam ditas por todos. Consequências de uma sociedade mimética e conectada.  Isso não seria problema se alguém pensasse sobre o que está se dizendo. Sobre qual a proposta contida no bordão. Eis o que me deixou a ponto de morrer, como Nabal, o marido de Abigail (I Sm 25.37): Não sou obrigado a nada.


     Esse bordão passou a caber em qualquer momento, em qualquer conversa em que alguém seja requisitado a fazer alguma coisa: Não sou obrigado a nada.  É dito com um ar de vitória. Como alguém que está com uma via da Lei Áurea na mão.
     Vamos tomar café... Não sou obrigado a nada!
     Hora de acordar... Não sou obrigado a nada!
     Lavar a louça... Não sou obrigado a nada!
      Estudar... Não sou obrigado a nada!
       Vamos ensaiar... Não sou obrigado a nada!
     Fui pesquisar e descobri que há um ou dois anos um grupo lançou este hit, de estilo não muito definido: Não sou obrigado a nada. Não vou dar mais detalhes sobre, pra ninguém matar a curiosidade informando-se mais sobre esta obra musical, e assim perder seu precioso tempo.
     Hoje eu fiz algumas perguntas pra uma jovem próxima:  Você vai pra escola? (que diga-se de passagem custa uma fábula!) Você toma banho e veste uma roupa limpa? Você senta na mesa e come sua comidinha gostosa? Por que? Pra que? Se você não é obrigada a nada?
    Povo ingênuo, ouça-me, por favor: Seres humanos, que definitivamente não são seres irracionais evoluídos, são obrigados a quase tudo! Imperativos morais, sociais, políticos, religiosos, afetivos... coisas que dominam o mundo dos humanos, e nos tornam seres civilizados, nos obrigam a seguir regras, convenções, orientações, obedecer leis...
     Você que abre a boca para falar uma asneira sem tamanho dessas,  faça algumas coisas, já que você não é obrigado a nada: Ande nu, não tome banho... ou coisas menos radicais, não renove a carteira de motorista, não pague o IPVA. Quando for abordado no trânsito, olhe para o guarda e diga: Não sou obrigado a nada.


     Realmente, não somos obrigados a nada, se quisermos abrir mão de nossa humanidade. Se esquecermos que somos a Imago Dei, a imagem de Deus, e simularmos que somos animais imundos. Na década de 60, o movimento hippie tentou ensaiar essa ideia esdrúxula... foi apenas um movimento. Não vingou.   A humanidade e seus imperativos falou mais forte. Eles voltaram à sociedade e à civilização. O Festival de Woodstock durou apenas 3 dias.
     Nunca abra a sua boca para dizer que não é obrigado a nada, se você está abrigado num teto, comendo à mesa com talheres, copos e garfos, se você vai ao Shopping escolher suas roupas e não abre mão do seu smartphone, se você faz parte de uma família, que em tese, deveria ter o mínimo de regras de convivência. Você é obrigado sim, a ajudar, a cuidar do mundo e das pessoas à sua volta, a obedecer, a seguir as convenções sociais, a cumprir orientações, a refletir, a olhar para cima e ver-se como a Imagem de Deus...
     E pra você que não sabe, dizem os cientistas que os impulsos genéticos inscritos nos animais irracionais os impelem a lutar pela vida, utilizando uma linguagem darwiniana. Uma espécie de imperativos de sobrevivência... nem eles portanto, diriam tal imbecilidade, de que não são obrigados a nada.
     Talvez só os seres inanimados, que quando criança eu aprendi que eram seres brutos, possam dizer “não sou obrigado a nada”!
      Se você não quiser me matar do coração, nunca abra sua boca pra dizer junto de mim: Não sou obrigado a nada. Por favor!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Bem aventurados os que fogem... (por Laryssa Queiroz)

Já são mais de 130 mil mortos na Síria! Morre outra família na travessia em bote ilegal! Não há lugar para os refugiados! Avisam, ameaçam e alertam todos os noticiários acerca do drama que se vive desde março de 2011 na República Árabe Síria. E isso nos inquieta e nos motiva a, ao menos por alguns instantes, de maneira empática, colocar-nos nos lugares destas pessoas que veem a guerra acontecer dentro de casa. Como se sente o sírio que precisa se esconder, na sua própria nação, de seus conterrâneos apenas por não proclamar a mesma fé que eles? Com que olhos enxerga o mundo a criança que tem sua família torturada e morta? Qual é o sonho atual daquele ancião que, quando moço, perdia-se nos seus pensamentos sobre o futuro?
Aproximo-me da dor destas pessoas para tentar, ao máximo, senti-la, como se no lugar delas estivesse, afim de observar o mundo que vivem, os dramas que sofrem e, só então, oferecer-lhes, ainda que na frialdade da palavra, um acalanto quente, daqueles que só recebemos de quem nos conhece por inteiro.

Deste momento de compenetração, percebo à minha volta, um cenário desolador. Para onde olho, há caos, medo e olhares revoltados presos em corpos resignados. Muitos já morreram, outros se foram, mas não se sabe o seu fim. O que fazer, então? Ficar no lugar onde estou habituada e esperar a morte ou arriscar a vida e o modo de viver em um caminho desconhecido que não se sabe qual é o fim?
Diferentemente do que se pensa, este conflito pode ser comum a qualquer indivíduo e não apenas aos sírios contemporâneos da guerra civil. Se todo ser humano passa por aflições, todos irão também, como aqueles, precisar refletir sobre a situação em que se está vivendo e tomar atitudes em relação a ela.
A guerra nos convoca a tomar uma posição. É diante da tragédia que nos obrigamos a procurar meios para estabilizar a situação nebulosa em que vivemos. Apenas conhecendo o caos é que desejaremos o mais harmonioso abrigo; um lugar de paz constante, onde não haja mais choro, dor ou morte.
Esse refúgio almejado, no entanto, não se estabelece no mesmo território bélico, está sempre longe do ambiente de miséria e desolação. Assim, para ter acesso ao abrigo, é necessário abandonar o lugar onde acontece a guerra. Por isso, o conflito se dá agora não somente na terra que guerreia, mas também naquele que é inquirido a tomar parte de um dos lados. Permanecer no seu lugar ou refugiar-se em terra estranha?

A necessidade de sair do meio guerra é clara, a vontade de distanciar-se dela é desejo constante, a esperança de encontrar o fim dos problemas nos motiva. No entanto, deslocar-se implica abandonar o que nos é comum, nossa casa, nossa história, nossa cultura, nossas leis, em prol de uma nova vida ainda desconhecida.

As expectativas nos consomem e podem nos fazer recuar. Já no meio do caminho, é necessário policiar-se para não se perder olhando para trás e fantasiando um passado feliz que nunca existiu.
É certo que em meio à guerra e, às vezes, até já tendo muitas milhas caminhadas, não se pode ver o abrigo. Ele só nos aparece quando as forças estão indo embora, as reservas de mantimento já se foram e os passos já ensaiam a próxima queda.
Na estrada, percebemos que é preciso deslocar-se, a paz tem um preço e se mostra como recompensa a quem deixa para trás a inércia de criar raízes em terreno de guerra.

Quem sai de sua ‘parentela’, porém, pode não chegar ao abrigo. Há sempre quem prometa um caminho mais curto, mais fácil e sem esforço. O que se autodenomina atravessador, conduz o que, por desespero, desiste de caminhar por toda a estrada, por atalhos inseguros que se tornam realmente um caminho mais rápido, mas, neste caso, à morte.

Não é assim a nossa vida? Não é preciso sair do ambiente da guerra que nos consome antes que ela mesma nos trague? Nossa caminhada não se distancia da realidade dos refugiados sírios. Nós, como eles, nos vemos perdidos e sem esperança no mundo que nos rodeia. Buscamos abrigo e nova vida, mas custa-nos abandonar os velhos costumes, arriscar-nos no caminho, alimentando a certeza do que não vemos, mas esperamos.
Como bem disse o salmista: Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia (Salmos 46:1). Portanto, para conhecer o que nos oferece o esconderijo divino, é preciso despir-nos do que nos caracterizava como filhos da guerra.
Há porém uma grande diferença entre o refúgio que abriga os sírios e o que pode proteger todo homem, de qualquer lugar do mundo, perdido em seus flagelos. Naquele, você pode ser recebido com preconceito por não fazer daquele povo. Já neste, o Pai o recebe como quem o aguarda há muito tempo. De braços abertos, abraça o filho que tanto demorou a voltar à casa.


Quando se chega nesse novo lar divino, é que se descobre porque não se encaixava ao cenário de guerra, ao que estava habituado, mas nunca à vontade. Percebe-se que era imigrante em terra familiar e, só agora, reconhece o seu povo, sua cidadania, sua língua, sua lei e levanta com orgulho seu estandarte. Pode-se finalmente dizer: Lar Doce Lar.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Quem é a ameaça? Quem é o inimigo? (I Sm 17.12-31)

      O pequeno e recém- nascido reino de Israel corria perigo. Os povos do Mar, conhecidos na bíblia como os filisteus, que dominavam a tecnologia do ferro, constituíam um perigo verdadeiro ao povo de Israel e ao seu Rei, Saul.
   Os exércitos dos dois povos se organizaram para a batalha. O Rei Saul convocou homens em idade de lutar por todo o reino.  De toda parte afluíram jovens para a guerra. Da zona rural da pequena Belém três jovens, filhos de Jessé, agora integravam as Forças Armadas israelitas: Eliabe, Abinadabe e Samá.

    Jessé, o pai dos rapazes belemitas, preocupado com os filhos decide enviar o filho mais jovem, que ficou cuidando das ovelhas, o ruivo Davi para levar mantimento para os irmãos, e claro, saber das novidades do front da batalha.
      Davi entregou sua encomenda ao Serviço de Intendência, responsável pela alimentação e logística do exército, e rapidamente foi conversar com os soldados para buscar informações do andamento da guerra. Não precisou de alguém lhe dizer o que estava acontecendo. Ele pôde testemunhar a aparição de Golias, o gigante filisteu da cidade de Gate, erguendo-se entre o exército do seu povo e afrontando o povo de Israel.

    Os soldados o informaram que haveria premiação e recompensa para o israelita que ferisse o filisteu. Mas o medo era tanto do gigante guerreiro, que ninguém pensava em ousar enfrentar Golias.  Davi parece não temer a ameaça dos filisteus encarnada nos três metros do gigante ao indagar: Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo? 
     Definitivamente a coragem do pastorzinho de Belém começou a chamar a atenção dos soldados israelitas. O burburinho causado pela intrepidez de Davi chega aos ouvidos do seu irmão mais velho, Eliabe. O primogênito enche-se de ira contra o seu mano caçula, e lhe diz em tom de desprezo: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção e a maldade do teu coração, que desceste para ver a peleja.
     Davi se surpreende com a ira do seu irmão e suas palavras provocativas e ferinas e lhe diz: Que fiz eu agora? Porventura, não há razão para isso?
     Parece-nos que no meio da guerra uma nova ameaça surge. Golias é esquecido, deixado de lado, embora permaneça lá, afrontando, gritando, perigosamente ameaçador. Para Eliabe o inimigo agora era seu irmão caçula. Ele se ira contra Davi, ele decide humilhá-lo com suas palavras, destruí-lo verbalmente. De repente, o inimigo não é mais Golias, passa a ser o seu irmão de sangue, filho de seu pai, que estava ali para trazer-lhe mantimento. O foco agora é acabar com Davi.
     Essa história se repete com muito mais frequência do que imaginamos. Embora estejamos frente a frente com o gigante, e nossas fileiras indiquem que estamos prontos para  o enfrentarmos, esquecemos quem é a verdadeira ameaça e estamos lutando contra  nosso irmão, irados conta ele, tentando destruí-lo com palavras e ações. O gigante fica dando gargalhadas com nossas trapalhadas, e nem temos consciência disso.
    Nos meios acadêmicos, jovens apologistas erguem seu aparato bélico em sua trincheira teológica para atacar uma tradição teológica diferente entendendo que ali está seu inimigo. Nos púlpitos, pastores disparam mísseis homileticamente preparados para apontar os erros e equívocos da igreja mais próxima, entendendo que ali está o inimigo. Dentro das igrejas as disputas políticas se acirram e as fileiras se formam para batalhas que fariam animar Napoleão Bonaparte!
    É tempo de pedirmos ao Senhor discernimento para entendermos quem é o inimigo. É tempo de deixarmos de ser Eliabe. E quantas vezes somos Eliabe! O gigante domina a cidade e as pessoas. Jovens drogados,  assaltando, matando... É tempo de acendermos a cidade, derrotando  o gigante que a tudo escurece e amedronta. Vamos enfrentá-lo como Davi, não por nossa própria força, mas Em nome do Senhor dos Exércitos, porque DO SENHOR É A GUERRA!
    Enquanto não aprendermos a discernir quem é o inimigo, quem é a verdadeira ameça, Golias nunca será vencido!!!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Jesus, aquele que sabe o que há no homem, uma possível chave hermenêutica para o Evangelho de João

    Uma chave hermenêutica é um pressuposto, um método de interpretação que permite uma melhor compreensão do texto, embora realize naturalmente uma seleção do que se enxerga e se aproveita do mesmo. Os estudiosos concordam que Lutero utilizava como chave hermenêutica das Escrituras a doutrina da salvação pela fé, enquanto Calvino fazia uso da ênfase na soberania absoluta de Deus.

     Não sou biblista, nem filho de biblista, mas preciso alimentar meu pequeno rebanho, na querida congregação de Quintino Cunha, e para isso preciso mergulhar nas complexidades do texto bíblico. Nessas leituras, contemplando especificamente o Evangelho de João, me saltou os olhos o versículo 25, do capítulo 2: “e não necessitava e que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem”.
     O próprio evangelista pode nos ter dado a chave hermenêutica para melhor entender o seu recorte da história de Cristo.

     De repente a seleção de eventos registrada por João em seu evangelho passou a fazer ainda mais sentido. Os fatos parecem ter sido organizados a partir da perspectiva que o Logos Divino sabe o que há no homem. Eis uma probabilidade de uma chave hermenêutica para o Evangelho de João. Compartilhei essa descoberta em forma de pregação no culto de domingo:
    Ainda no capítulo 1 temos o episódio de Natanael, que trazido por Felipe é  surpreendido pelo diagnóstico de Jesus: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo (Jo 1.47). Descobre que Jesus já o tinha visto meditando debaixo da figueira. Este sinal é suficiente para que ele creia que Jesus é o Filho de Deus (Jo 1.48-49).
    O diálogo com Nicodemos é emblemático. Jesus dá pouca atenção à saudação elogiosa do príncipe dos judeus, nas primeiras sentenças do capítulo 3, mas insiste na verdade que Nicodemos precisava nascer de novo. Porque Jesus conhecia o coração do velho mestre.
    O encontro junto à fonte de Sicar, com a mulher samaritana pode ser melhor visualizado a partir da perspectiva que Jesus é o que conhece o que há no homem. Jesus entabula uma conversa com uma mulher de moral duvidosa, mas enxerga nela alguém sinceramente faminta por transformação. Aí está uma verdade muito importante: Aquele que conhece o que há no homem, todas as suas sujeiras e equívocos, também é o mesmo que busca alcançar este homem.

   Os exemplos continuam ao longo do evangelho.  Jesus também confronta seus seguidores e diz: Vós me buscais não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes (Jo 6.26). O conhecimento da motivação do coração dos homens é o que diferencia o cristianismo de qualquer outra religião. O cristão não é um mero praticante de ritos e ações prescritos nos livros santos. É alguém cujo coração e mente estão voltados para o Senhor, pois tem crido e conhecido que ele é o Cristo.
     Ele sabe que um dos que ele escolheu para estar mais próximo a si, era um enganador (Jo 6.70). Ele conhece cada um dos homens que portavam uma pedra para executar a mulher adúltera (Jo 8.7).
      Ele faz as perguntas mas, de antemão conhece as respostas, como foi o caso de Simão Pedro, no conhecido diálogo “Tu me amas?” (Jo 21.15-17).
    Uma chave hermenêutica pode funcionar de forma simplificadora ou redutora, mas traz ainda mais luz e significado às passagens que lemos. Professor Bruce, em seu comentário no Evangelho de João diz:
    “Aquele que é o Verbo encarnado capta imediatamente os mistérios e complexidades da natureza humana. Ele não depende de palavras faladas, como indicadores dos pensamentos e sentimentos íntimos; as profundidades ocultas de cada coração estão expostas diante de sua avaliação penetrante”.  

    Lembrei de um pensamento que li quando ainda era garoto: “Amigo é alguém que te conhece a fundo e apesar disso te ama”. Nunca esqueci. Jesus é este amigo!