quinta-feira, 3 de março de 2016

Não sou obrigado a nada, uma lição do passado

    Preciso continuar escrevendo sobre isso. Embora me digam que “não sou obrigado a nada”. Queria me dirigir especificamente aqueles e aquelas que se dizem tementes a Deus, ou integram uma comunidade cristã e ao mesmo tempo abrem a boca para dizer “não sou obrigado a nada”.
     Sabe, guri, guria, garoto, garota, jovem, cara, irmão, mano... houve um cara num passado muito distante que vivia dizendo isso, e... se deu mal. Acabou esmagado nos escombros de um velho templo filisteu em algum lugar na conhecida Faixa de Gaza, não sem antes passar por uns bons perrengues.
     Chamava-se Sansão. Em primeiro lugar ele nasceu nazireu, do hebraico nazir נזיר da raiz nazar נזר "consagrado", "separado". Assim, o nazireu era alguém escolhido por Deus de forma diferenciada. Ele tinha privilégios, entre os quais receber de forma especial o Espírito de Deus, e lhe havia sido confiada uma missão. Por outro lado, ele tinha obrigações. Fico pensando que o grande problema das pessoas hoje é esse, elas só desejam os privilégios, os bônus (como diziam os antigos), e não os ônus, as obrigações.
   Suas obrigações estavam descritas na Lei, as regras do nazireado estavam expressas na Torá, em Números 6.1-21. Outra questão delicada hoje é falar de leis, de regras. Num mundo onde todos querem ser auto-nomos (auto, de si mesmo; nomos, lei), cada um quer ditar a sua própria lei, faz todo o sentido dizer “não sou obrigado a nada”.

   Esperava-se que o nazireu se abstivesse do vinho, de bebida forte, vinagre, uvas, nada relacionado a vinha (de sementes até as cascas), não poderia passar navalha na cabeça (teria o cabelo crescido),  não aproximar-se de cadáver e  não ir a velórios.
    Sansão estava submetido às leis do nazireado, sem falar nas demais prescrições das leis mosaicas, a qual estavam ligados todos os descendentes de Jacó.
    Mas Sansão decidiu em seu coração: Não sou obrigado a nada.
    Escolheu uma garota filisteia, que pertencia ao povo inimigo, para casar. Uma guria com outra cultura, outras tradições. Seus pais foram contra o casamento, e falaram com Sansão. Mas ele insistiu:  Vou casar com ela, afinal, não sou obrigado a nada.
    O casamento acabou na festa de noivado.  Sansão acabou matando 1000 pessoas aparentados da noiva, para pagar uma aposta, que a própria noiva revelou a resposta do enigma aos parentes. O enigma envolvia a quebra de uma das regras da lei do nazireado, como aproximar-se de cadáveres.  Ele buscou no leão morto, um favo de mel que as abelhas produziram. Mas ele já decidira: Não sou obrigado a nada, muito menos a obedecer as regras do nazireado.

    Embora triste, Sansão pensou em reatar o relacionamento com a moça filisteia, passada toda a confusão. Bateu na casa do sogro, e qual não foi sua surpresa quando foi informado que a sua noiva fora dada por esposa ao seu amigo filisteu. O velho lhe ofereceu a filha mais nova. Sansão estava por demais enfurecido. Disse em alto e bom som, que em relação aos filisteus ele agora não era obrigado a nada. E tomou trezentas raposas, amarrou os rabos e tocou fogo, mesmo nas plantações dos filisteus, arrasando o trigo, as vinhas e os olivais.

      Indignados, os filisteus, que não eram obrigados a nada, foram à casa do ex-futuro sogro de Sansão e queimaram a sua ex-noiva juntamente com seu pai.
    A história pararia por aqui, se Sansão não levasse as últimas consequências o bordão “não sou obrigado a nada”, Sansão passou a frequentar os bordéis dos filisteus. Primeiro afeiçoou-se de uma prostituta em Gaza, depois apaixonou-se  por uma filisteia do vale de Soreque chamada Dalila. Como um juiz de Israel, aquilo não era nem um pouco conveniente, e muito estranho para um nazireu, alguém separado e consagrado para Deus, mas para Sansão isso não era problema, afinal  ele “não era obrigado a nada”.

    Sua força era um segredo que a ninguém poderia ser revelado. Seus cabelos que nunca haviam visto navalha guardavam o mistério da obediência do nazireado, e consequentemente do poder sobrenatural de Deus sobre Sansão.
  Mas a muita insistência de Dalila resultou no segredo revelado. Sem problemas, afinal  Sansão não era obrigado a nada. Os filisteus cortaram seus cabelos, ele perdeu inteiramente sua força. Foi levado para trabalhar como escravo dos filisteus, vazaram-lhe os olhos, riram dele e o ridicularizaram... custou muito caro, um “não sou obrigado a nada”.


     Levado para ser o palhaço da festa num templo dos filisteus, Sansão repensou sues conceitos. Percebeu o quanto havia sido ingênuo e egoísta com a sua filosofia de “não sou obrigado a nada”. Agora era tarde, resolve orar e pedir a Deus, que (este sim), não era obrigado a nada, que se lembrasse dele (isto será tema de uma próxima conversa, nossa)... Deus, que não é obrigado a nada, mas em sua misericórdia e graça ouve os homens, restituiu sua força, e Sansão conseguiu empurrar as colunas que derrubaram o templo, matando-o juntamente com os filisteus...


    Uma nota de um fim melancólico, em alguém que em vida havia entendido que “não era obrigado a nada”. Essa história é contada há mais de 3 mil anos, encontra-se na  bíblia, nos capítulos 13 a 16 do livro de Juízes...

quarta-feira, 2 de março de 2016

Não sou obrigado a nada!???

   Escrevo... Escrevo pra não morrer. Pra não ter um ataque apoplético, pra tentar prolongar a vida e manter saudável o sistema circulatório. Sim, porque ouvindo o que se ouve todo o dia hoje, um ser como eu entra em coma bem rapidinho.
   Algumas pessoas escrevem para informar, manter o status de escritor e alimentar seus fãs e fazer a festa dos críticos literários. Usando a expressão do profeta bíblico, como eu não sou escritor nem filho de escritor, escrevo para não morrer.
   Ouço os bordões de jovens e adolescentes por alguns motivos: Convivo com alguns em casa, já fui líder de jovens na igreja, às vezes entro em sala de aula para preparar jovens para encarar os desafios da empresa, e... sou pastor de igreja, onde muitos jovens participam.
    Jovens adoram bordões... frases de efeito. Coisas que sejam ditas por todos. Consequências de uma sociedade mimética e conectada.  Isso não seria problema se alguém pensasse sobre o que está se dizendo. Sobre qual a proposta contida no bordão. Eis o que me deixou a ponto de morrer, como Nabal, o marido de Abigail (I Sm 25.37): Não sou obrigado a nada.


     Esse bordão passou a caber em qualquer momento, em qualquer conversa em que alguém seja requisitado a fazer alguma coisa: Não sou obrigado a nada.  É dito com um ar de vitória. Como alguém que está com uma via da Lei Áurea na mão.
     Vamos tomar café... Não sou obrigado a nada!
     Hora de acordar... Não sou obrigado a nada!
     Lavar a louça... Não sou obrigado a nada!
      Estudar... Não sou obrigado a nada!
       Vamos ensaiar... Não sou obrigado a nada!
     Fui pesquisar e descobri que há um ou dois anos um grupo lançou este hit, de estilo não muito definido: Não sou obrigado a nada. Não vou dar mais detalhes sobre, pra ninguém matar a curiosidade informando-se mais sobre esta obra musical, e assim perder seu precioso tempo.
     Hoje eu fiz algumas perguntas pra uma jovem próxima:  Você vai pra escola? (que diga-se de passagem custa uma fábula!) Você toma banho e veste uma roupa limpa? Você senta na mesa e come sua comidinha gostosa? Por que? Pra que? Se você não é obrigada a nada?
    Povo ingênuo, ouça-me, por favor: Seres humanos, que definitivamente não são seres irracionais evoluídos, são obrigados a quase tudo! Imperativos morais, sociais, políticos, religiosos, afetivos... coisas que dominam o mundo dos humanos, e nos tornam seres civilizados, nos obrigam a seguir regras, convenções, orientações, obedecer leis...
     Você que abre a boca para falar uma asneira sem tamanho dessas,  faça algumas coisas, já que você não é obrigado a nada: Ande nu, não tome banho... ou coisas menos radicais, não renove a carteira de motorista, não pague o IPVA. Quando for abordado no trânsito, olhe para o guarda e diga: Não sou obrigado a nada.


     Realmente, não somos obrigados a nada, se quisermos abrir mão de nossa humanidade. Se esquecermos que somos a Imago Dei, a imagem de Deus, e simularmos que somos animais imundos. Na década de 60, o movimento hippie tentou ensaiar essa ideia esdrúxula... foi apenas um movimento. Não vingou.   A humanidade e seus imperativos falou mais forte. Eles voltaram à sociedade e à civilização. O Festival de Woodstock durou apenas 3 dias.
     Nunca abra a sua boca para dizer que não é obrigado a nada, se você está abrigado num teto, comendo à mesa com talheres, copos e garfos, se você vai ao Shopping escolher suas roupas e não abre mão do seu smartphone, se você faz parte de uma família, que em tese, deveria ter o mínimo de regras de convivência. Você é obrigado sim, a ajudar, a cuidar do mundo e das pessoas à sua volta, a obedecer, a seguir as convenções sociais, a cumprir orientações, a refletir, a olhar para cima e ver-se como a Imagem de Deus...
     E pra você que não sabe, dizem os cientistas que os impulsos genéticos inscritos nos animais irracionais os impelem a lutar pela vida, utilizando uma linguagem darwiniana. Uma espécie de imperativos de sobrevivência... nem eles portanto, diriam tal imbecilidade, de que não são obrigados a nada.
     Talvez só os seres inanimados, que quando criança eu aprendi que eram seres brutos, possam dizer “não sou obrigado a nada”!
      Se você não quiser me matar do coração, nunca abra sua boca pra dizer junto de mim: Não sou obrigado a nada. Por favor!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Bem aventurados os que fogem... (por Laryssa Queiroz)

Já são mais de 130 mil mortos na Síria! Morre outra família na travessia em bote ilegal! Não há lugar para os refugiados! Avisam, ameaçam e alertam todos os noticiários acerca do drama que se vive desde março de 2011 na República Árabe Síria. E isso nos inquieta e nos motiva a, ao menos por alguns instantes, de maneira empática, colocar-nos nos lugares destas pessoas que veem a guerra acontecer dentro de casa. Como se sente o sírio que precisa se esconder, na sua própria nação, de seus conterrâneos apenas por não proclamar a mesma fé que eles? Com que olhos enxerga o mundo a criança que tem sua família torturada e morta? Qual é o sonho atual daquele ancião que, quando moço, perdia-se nos seus pensamentos sobre o futuro?
Aproximo-me da dor destas pessoas para tentar, ao máximo, senti-la, como se no lugar delas estivesse, afim de observar o mundo que vivem, os dramas que sofrem e, só então, oferecer-lhes, ainda que na frialdade da palavra, um acalanto quente, daqueles que só recebemos de quem nos conhece por inteiro.

Deste momento de compenetração, percebo à minha volta, um cenário desolador. Para onde olho, há caos, medo e olhares revoltados presos em corpos resignados. Muitos já morreram, outros se foram, mas não se sabe o seu fim. O que fazer, então? Ficar no lugar onde estou habituada e esperar a morte ou arriscar a vida e o modo de viver em um caminho desconhecido que não se sabe qual é o fim?
Diferentemente do que se pensa, este conflito pode ser comum a qualquer indivíduo e não apenas aos sírios contemporâneos da guerra civil. Se todo ser humano passa por aflições, todos irão também, como aqueles, precisar refletir sobre a situação em que se está vivendo e tomar atitudes em relação a ela.
A guerra nos convoca a tomar uma posição. É diante da tragédia que nos obrigamos a procurar meios para estabilizar a situação nebulosa em que vivemos. Apenas conhecendo o caos é que desejaremos o mais harmonioso abrigo; um lugar de paz constante, onde não haja mais choro, dor ou morte.
Esse refúgio almejado, no entanto, não se estabelece no mesmo território bélico, está sempre longe do ambiente de miséria e desolação. Assim, para ter acesso ao abrigo, é necessário abandonar o lugar onde acontece a guerra. Por isso, o conflito se dá agora não somente na terra que guerreia, mas também naquele que é inquirido a tomar parte de um dos lados. Permanecer no seu lugar ou refugiar-se em terra estranha?

A necessidade de sair do meio guerra é clara, a vontade de distanciar-se dela é desejo constante, a esperança de encontrar o fim dos problemas nos motiva. No entanto, deslocar-se implica abandonar o que nos é comum, nossa casa, nossa história, nossa cultura, nossas leis, em prol de uma nova vida ainda desconhecida.

As expectativas nos consomem e podem nos fazer recuar. Já no meio do caminho, é necessário policiar-se para não se perder olhando para trás e fantasiando um passado feliz que nunca existiu.
É certo que em meio à guerra e, às vezes, até já tendo muitas milhas caminhadas, não se pode ver o abrigo. Ele só nos aparece quando as forças estão indo embora, as reservas de mantimento já se foram e os passos já ensaiam a próxima queda.
Na estrada, percebemos que é preciso deslocar-se, a paz tem um preço e se mostra como recompensa a quem deixa para trás a inércia de criar raízes em terreno de guerra.

Quem sai de sua ‘parentela’, porém, pode não chegar ao abrigo. Há sempre quem prometa um caminho mais curto, mais fácil e sem esforço. O que se autodenomina atravessador, conduz o que, por desespero, desiste de caminhar por toda a estrada, por atalhos inseguros que se tornam realmente um caminho mais rápido, mas, neste caso, à morte.

Não é assim a nossa vida? Não é preciso sair do ambiente da guerra que nos consome antes que ela mesma nos trague? Nossa caminhada não se distancia da realidade dos refugiados sírios. Nós, como eles, nos vemos perdidos e sem esperança no mundo que nos rodeia. Buscamos abrigo e nova vida, mas custa-nos abandonar os velhos costumes, arriscar-nos no caminho, alimentando a certeza do que não vemos, mas esperamos.
Como bem disse o salmista: Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia (Salmos 46:1). Portanto, para conhecer o que nos oferece o esconderijo divino, é preciso despir-nos do que nos caracterizava como filhos da guerra.
Há porém uma grande diferença entre o refúgio que abriga os sírios e o que pode proteger todo homem, de qualquer lugar do mundo, perdido em seus flagelos. Naquele, você pode ser recebido com preconceito por não fazer daquele povo. Já neste, o Pai o recebe como quem o aguarda há muito tempo. De braços abertos, abraça o filho que tanto demorou a voltar à casa.


Quando se chega nesse novo lar divino, é que se descobre porque não se encaixava ao cenário de guerra, ao que estava habituado, mas nunca à vontade. Percebe-se que era imigrante em terra familiar e, só agora, reconhece o seu povo, sua cidadania, sua língua, sua lei e levanta com orgulho seu estandarte. Pode-se finalmente dizer: Lar Doce Lar.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Quem é a ameaça? Quem é o inimigo? (I Sm 17.12-31)

      O pequeno e recém- nascido reino de Israel corria perigo. Os povos do Mar, conhecidos na bíblia como os filisteus, que dominavam a tecnologia do ferro, constituíam um perigo verdadeiro ao povo de Israel e ao seu Rei, Saul.
   Os exércitos dos dois povos se organizaram para a batalha. O Rei Saul convocou homens em idade de lutar por todo o reino.  De toda parte afluíram jovens para a guerra. Da zona rural da pequena Belém três jovens, filhos de Jessé, agora integravam as Forças Armadas israelitas: Eliabe, Abinadabe e Samá.

    Jessé, o pai dos rapazes belemitas, preocupado com os filhos decide enviar o filho mais jovem, que ficou cuidando das ovelhas, o ruivo Davi para levar mantimento para os irmãos, e claro, saber das novidades do front da batalha.
      Davi entregou sua encomenda ao Serviço de Intendência, responsável pela alimentação e logística do exército, e rapidamente foi conversar com os soldados para buscar informações do andamento da guerra. Não precisou de alguém lhe dizer o que estava acontecendo. Ele pôde testemunhar a aparição de Golias, o gigante filisteu da cidade de Gate, erguendo-se entre o exército do seu povo e afrontando o povo de Israel.

    Os soldados o informaram que haveria premiação e recompensa para o israelita que ferisse o filisteu. Mas o medo era tanto do gigante guerreiro, que ninguém pensava em ousar enfrentar Golias.  Davi parece não temer a ameaça dos filisteus encarnada nos três metros do gigante ao indagar: Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo? 
     Definitivamente a coragem do pastorzinho de Belém começou a chamar a atenção dos soldados israelitas. O burburinho causado pela intrepidez de Davi chega aos ouvidos do seu irmão mais velho, Eliabe. O primogênito enche-se de ira contra o seu mano caçula, e lhe diz em tom de desprezo: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção e a maldade do teu coração, que desceste para ver a peleja.
     Davi se surpreende com a ira do seu irmão e suas palavras provocativas e ferinas e lhe diz: Que fiz eu agora? Porventura, não há razão para isso?
     Parece-nos que no meio da guerra uma nova ameaça surge. Golias é esquecido, deixado de lado, embora permaneça lá, afrontando, gritando, perigosamente ameaçador. Para Eliabe o inimigo agora era seu irmão caçula. Ele se ira contra Davi, ele decide humilhá-lo com suas palavras, destruí-lo verbalmente. De repente, o inimigo não é mais Golias, passa a ser o seu irmão de sangue, filho de seu pai, que estava ali para trazer-lhe mantimento. O foco agora é acabar com Davi.
     Essa história se repete com muito mais frequência do que imaginamos. Embora estejamos frente a frente com o gigante, e nossas fileiras indiquem que estamos prontos para  o enfrentarmos, esquecemos quem é a verdadeira ameaça e estamos lutando contra  nosso irmão, irados conta ele, tentando destruí-lo com palavras e ações. O gigante fica dando gargalhadas com nossas trapalhadas, e nem temos consciência disso.
    Nos meios acadêmicos, jovens apologistas erguem seu aparato bélico em sua trincheira teológica para atacar uma tradição teológica diferente entendendo que ali está seu inimigo. Nos púlpitos, pastores disparam mísseis homileticamente preparados para apontar os erros e equívocos da igreja mais próxima, entendendo que ali está o inimigo. Dentro das igrejas as disputas políticas se acirram e as fileiras se formam para batalhas que fariam animar Napoleão Bonaparte!
    É tempo de pedirmos ao Senhor discernimento para entendermos quem é o inimigo. É tempo de deixarmos de ser Eliabe. E quantas vezes somos Eliabe! O gigante domina a cidade e as pessoas. Jovens drogados,  assaltando, matando... É tempo de acendermos a cidade, derrotando  o gigante que a tudo escurece e amedronta. Vamos enfrentá-lo como Davi, não por nossa própria força, mas Em nome do Senhor dos Exércitos, porque DO SENHOR É A GUERRA!
    Enquanto não aprendermos a discernir quem é o inimigo, quem é a verdadeira ameça, Golias nunca será vencido!!!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Jesus, aquele que sabe o que há no homem, uma possível chave hermenêutica para o Evangelho de João

    Uma chave hermenêutica é um pressuposto, um método de interpretação que permite uma melhor compreensão do texto, embora realize naturalmente uma seleção do que se enxerga e se aproveita do mesmo. Os estudiosos concordam que Lutero utilizava como chave hermenêutica das Escrituras a doutrina da salvação pela fé, enquanto Calvino fazia uso da ênfase na soberania absoluta de Deus.

     Não sou biblista, nem filho de biblista, mas preciso alimentar meu pequeno rebanho, na querida congregação de Quintino Cunha, e para isso preciso mergulhar nas complexidades do texto bíblico. Nessas leituras, contemplando especificamente o Evangelho de João, me saltou os olhos o versículo 25, do capítulo 2: “e não necessitava e que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem”.
     O próprio evangelista pode nos ter dado a chave hermenêutica para melhor entender o seu recorte da história de Cristo.

     De repente a seleção de eventos registrada por João em seu evangelho passou a fazer ainda mais sentido. Os fatos parecem ter sido organizados a partir da perspectiva que o Logos Divino sabe o que há no homem. Eis uma probabilidade de uma chave hermenêutica para o Evangelho de João. Compartilhei essa descoberta em forma de pregação no culto de domingo:
    Ainda no capítulo 1 temos o episódio de Natanael, que trazido por Felipe é  surpreendido pelo diagnóstico de Jesus: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo (Jo 1.47). Descobre que Jesus já o tinha visto meditando debaixo da figueira. Este sinal é suficiente para que ele creia que Jesus é o Filho de Deus (Jo 1.48-49).
    O diálogo com Nicodemos é emblemático. Jesus dá pouca atenção à saudação elogiosa do príncipe dos judeus, nas primeiras sentenças do capítulo 3, mas insiste na verdade que Nicodemos precisava nascer de novo. Porque Jesus conhecia o coração do velho mestre.
    O encontro junto à fonte de Sicar, com a mulher samaritana pode ser melhor visualizado a partir da perspectiva que Jesus é o que conhece o que há no homem. Jesus entabula uma conversa com uma mulher de moral duvidosa, mas enxerga nela alguém sinceramente faminta por transformação. Aí está uma verdade muito importante: Aquele que conhece o que há no homem, todas as suas sujeiras e equívocos, também é o mesmo que busca alcançar este homem.

   Os exemplos continuam ao longo do evangelho.  Jesus também confronta seus seguidores e diz: Vós me buscais não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes (Jo 6.26). O conhecimento da motivação do coração dos homens é o que diferencia o cristianismo de qualquer outra religião. O cristão não é um mero praticante de ritos e ações prescritos nos livros santos. É alguém cujo coração e mente estão voltados para o Senhor, pois tem crido e conhecido que ele é o Cristo.
     Ele sabe que um dos que ele escolheu para estar mais próximo a si, era um enganador (Jo 6.70). Ele conhece cada um dos homens que portavam uma pedra para executar a mulher adúltera (Jo 8.7).
      Ele faz as perguntas mas, de antemão conhece as respostas, como foi o caso de Simão Pedro, no conhecido diálogo “Tu me amas?” (Jo 21.15-17).
    Uma chave hermenêutica pode funcionar de forma simplificadora ou redutora, mas traz ainda mais luz e significado às passagens que lemos. Professor Bruce, em seu comentário no Evangelho de João diz:
    “Aquele que é o Verbo encarnado capta imediatamente os mistérios e complexidades da natureza humana. Ele não depende de palavras faladas, como indicadores dos pensamentos e sentimentos íntimos; as profundidades ocultas de cada coração estão expostas diante de sua avaliação penetrante”.  

    Lembrei de um pensamento que li quando ainda era garoto: “Amigo é alguém que te conhece a fundo e apesar disso te ama”. Nunca esqueci. Jesus é este amigo!

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Ordinário ou Extraordinário? Sobre Pessoas e Sal (por Thalison Evangelista)

     Acabo de ler o clássico Crime e Castigo, de Dostoiévski. Um livro sem par, maravilhoso. Durante sua leitura, também dei atenção a outros livros, nos quais tentarei relacioná-los em uma síntese de ideias.


      O enredo de Crime e Castigo se desenvolve a partir da história de Raskólnikov, um jovem estudante que desenvolve uma teoria na qual divide a humanidade em pessoas extraordinárias e ordinárias. A partir daí, Raskólnikov comete um assassinato, pois de acordo com sua teoria, os homens extraordinários estão acima da lei, ou seja, o crime que para os ordinários é condenável, para eles não passa de uma etapa a se cumprir para se chegar a um objetivo. Fazendo com que o personagem enxergue um ato criminoso como algo banal, assim seus crimes não podem ser considerados crimes.
    Mas qual a relação de nossa sociedade chamada mimada por Theodore Dalrymple, em seu livro “Podres de mimados”, e a teoria de Raskólnikov? Ora, perceba que ele, ao desenvolver a teoria que divide a humanidade, se coloca no grupo extraordinário e passa a chamar parte dos ordinários de piolhos, ou coisa parecida. Isso o faz pensar que cometer um crime contra um piolho não é nada. Agora olhe para nossa “sociedade mimada”, encharcada de teorias da mesma natureza (mas muito piores, tanto em intelectualidade como em consequências): pessoas instigadas a se acharem o máximo, a serem felizes o tempo todo, levadas a pensar que são verdadeiras deidades e que tudo lhes é possível... a grosso modo, serem extraordinárias.

    Dito isso, vejamos: Vivemos em um tempo de tecnologia e ciência avançada, “comida gourmet”, academias de musculação, whey protein, whatsapp e, acima de tudo, vivemos em um tempo de pessoas podres de mimadas. Hoje os profissionais de coaching, os livros de autoajuda, a teologia da prosperidade e os discursos de vitória estão em toda parte, como verdadeiras pragas, inundando a cabeça de seus fiéis seguidores (ou “followers”. Eles acham essa palavra chique, me parece) com motivações simplórias e pragmáticas que, quando levadas a um estudo sério, não passam de piadas. Mas o profissional de coaching, os livros de autoajuda e a teologia da prosperidade, de forma nenhuma iniciaram essa “sociedade mimada” (o seu início tem outras raízes que não trataremos nesse texto), na verdade eles surgem de uma oportunidade vista em tal sociedade. A ideia desse tipo de coisa é justamente tentar motivar as pessoas a desenvolverem seus potenciais com uma espécie de autoajuda, ou seja, “você é o cara (você é extraordinário) e vai conseguir”!
    Porém, Dostoiévski nos mostra muito bem a natureza humana e com genialidade quebra em mil pedaços essa conversa de que podemos ser extraordinários. Em Crime e Castigo, Raskólnikov não consegue viver sob o peso do crime cometido. No primeiro momento, ele não se arrepende do crime em si, mas sim de não ter conseguido levar sua teoria adiante, ou seja, o jovem Raskólnikov percebeu que não consegue ser um homem extraordinário. Arrepende-se disso, não do crime (leia o livro para saber o final). Aqui está a questão principal: a maioria das pessoas de nossa “sociedade mimada” não tem a percepção de que não são extraordinárias, mas passam uma vida toda tentando ser algo que não são, achando que as outras pessoas são piolhos, e pior ainda, por não serem extraordinárias, fazem de tudo para ter para conseguir ser, e nisso cometem – tal como Raskónikov – crimes e mais crimes contra a terra, contra as outras pessoas e contra Deus, a fim de transformarem seus objetivos fantasiosos, egoístas e mimados, em realidade.

   Uma outra pessoa que entendia dos seres humanos um pouco mais que Dostoiévski, disse um dia aos seus discípulos que eles eram sal e luz do mundo. Acredito que esse discurso além de negligenciado, é mal interpretado.
    O sal, no contexto da frase de Jesus, era utilizado para conservar os alimentos e para isso era necessário esfregá-lo no alimento. O sal não possui função por si só (você não come sal assistindo TV), ele tem que ser “desgastado” em prol de outra coisa. Mas se o sal achar que é extraordinário e que tudo ao redor dele é um mero piolho, nunca irá se esfregar, se desgastar por coisa alguma. E como Jesus mesmo disse, se o sal perder sua qualidade ou suas funções, não servirá para nada.


   Então, é tempo de percebermos quem somos. Se somos realmente sal e se cumprimos nossa função. Porque o sal, meus amigos, o sal é comum. O sal é ordinário.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Religião Verdadeira (por Thalison Evangelista)


Religião sempre foi um assunto amplamente discutido em todos os meios, seja ele acadêmico ou popular. A carta de Tiago, muito provavelmente irmão de Jesus que liderou a igreja em Jerusalém por muitos anos, apresentada na Bíblia e destinada primariamente aos fiéis em Cristo entre os judeus da Diáspora, nos apresenta um conceito interessante. O conceito de ‘’verdadeira religião’’.
Tiago 1.27 nos diz que a verdadeira religião é: visitar os órfãos e as viúvas nas suas dificuldades e não se deixar contaminar pelo mundo.

Por que religião? E por que essa é a verdadeira religião? Tentaremos algumas respostas.
Sabemos que o teor da carta de Tiago é precisamente prático, ou seja, em toda sua carta ele nos faz pensar nossa fé em termos práticos, saindo do campo da abstração ou do discurso (uma fé da boca para fora). Tendo isso em mente, faremos algumas considerações, que ao meu ver são pertinentes à nossa reflexão de fé e relação com o próximo e com Deus.
Religião tem sua raiz na palavra latina Religare, que significa religar, e nos remete a reunião, comunhão, etc.... O ser humano é essencialmente um ser religioso, porque não pode existir um “eu”, sem um “você”, que é outro “eu”. Nossa existência se dá assim, pela comunhão de pessoas. O que nos leva a perceber que nenhum ser humano, sendo ele religioso praticante ou não, pode deixar de ser homo religiosus em sua essência.
Outro conceito importante (para mim o mais importante) é o da idolatria, que para alguns teólogos é o princípio de todo o pecado. Ou seja, nosso coração estará sempre adorando algo ou alguém. Portanto, se Deus não for o objeto de sua adoração, algo estará no lugar dele, e esse algo (ou alguém) sempre será um ídolo. Tim Keller, em seu livro “Deuses Falsos”, diz que um ídolo “é qualquer coisa que seja mais importante que Deus para você, qualquer coisa que absorva o seu coração e imaginação mais que Deus, qualquer coisa que só Deus pode dar”. Keller ainda diz: “Podemos não ajoelhar fisicamente diante da estátua de Afrodite, mas muitas jovens de hoje são levadas a depressão e disfunções alimentares por uma preocupação obsessiva com a imagem. Podemos não queimar incenso a Ártemis, mas, quando o dinheiro e a carreira são elevados a proporções cósmicas, realizamos algo como um verdadeiro sacrifício de crianças, negligenciando a família e a comunidade para conquistar um lugar mais elevado no mundo empresarial e angariar mais riquezas e prestígio”. Portanto, o homem é um ser religioso, e sempre estará apegado a alguma coisa (ideologia, dinheiro, sexo, poder, etc.), e todas essas coisas no lugar de Deus o farão desligados, alienados da realidade. Como disse Nietzsche em crepúsculo dos ídolos: “Há mais ídolos que realidades no mundo. ”

Essa idolatria, então, nos leva a fragmentação da vida em sua totalidade. Pois, aquilo que foi colocado no lugar de Deus, nunca terá a dignidade e nem a capacidade de Deus. Essa fragmentação é total porque além do objeto de adoração não ser capaz de suprir o seu papel de Deus, ele também não será amado da forma como deveria. Ao invés disso, será amado com um amor idólatra, gerando uma série de frustrações mútuas.
Dito isso, vejamos. A teologia Cristã visualiza um homem caído, ou seja, depois do pecado original de Adão, a humanidade se tornou caída, e longe de Deus. Assim, o homem se encontra morto espiritualmente: Ele é totalmente fragmentado, ou desligado de tudo. O homem está fragmentado em relação ao seu habitat natural (a terra). Ela produz agora espinhos e ervas daninhas, e o ser humano terá de comer o pão do suor do seu rosto (Gn 3.18-19); está fragmentado em si mesmo. Ele agora sofre envelhecimento, doenças, confusões e distúrbios mentais, etc.; está fragmentado do seu próximo, ou seja, ele cobiça, mata, inveja os outros, faz guerras...; e está fragmentado ou desligado de Deus. Ao invés de adorá-lo como Seu Criador, “o homem é uma fábrica de ídolos” (João Calvino, Séc. XVI).

Retornemos a Tiago. Ele nos diz: A verdadeira religião é aquela que visita os órfãos e as viúvas nas suas dificuldades e não se deixa contaminar pelo mundo.
Mas qual a relação da situação do homem para a verdadeira religião que Tiago nos apresenta? Precisamos de atenção nesse ponto: Nós vimos que religião vem da raiz religare, que nos remete a “re-ligar”. E também visualizamos a condição do homem de fragmentado ou “des-ligado”. Pois bem, agora perceba a proposta prática da verdadeira religião que Tiago nos diz, e percebamos quem ele aponta – órfãos e viúvas. Esses dois tipos de pessoas são aqueles que estão à margem da sociedade da época de Tiago (e porque não, da nossa também, na maioria dos casos), a partir daí, podemos perceber que esses dois grupos perderam vínculos, foram desligados dos principais laços familiares, o que atinge diretamente a dignidade delas, pois foram criadas primordialmente para viverem em sociedade, em reunião ou comunhão. Então Tiago quase que exclama: “Como vocês dizem que estão na verdadeira religião? Ora, e a verdadeira religião não religou vocês a vocês mesmos, a terra, e a Deus? Como podem então fingirem que não existem os desligados? A que ligou vocês, se é que vocês estão de fato ligados, terá de fazer vocês pensarem em ligar aqueles que estão desligados. Pois vocês sabem como é estar desligado e ser ligado! ”
Nisso fica bem claro que a verdadeira religião é necessariamente comunhão, reunião, religação de pessoas. Se é verdade que Deus nos criou a imagem e semelhança dEle, é verdade também que na comunhão de gente nós vemos Deus se revelando e se manifestando a nós. E podemos ver claramente os dois maiores mandamentos que Cristo nos deixou – amarás teu Deus acima de todas as coisas; amarás teu próximo como a ti mesmo – e como a relação deles está completamente ligada.

Tiago ainda diz que a verdadeira religião é também a não contaminação pelo mundo. Aqui podemos ver a singularidade e verdade do Evangelho.
Charles Spurgeon dizia que a verdadeira religião da Igreja de Cristo era a Bíblia e nada mais do que a Bíblia. Eu concordo totalmente com Spurgeon (Ai de mim se não concordasse!), e acredito que Tiago também concordaria. Porque a bíblia é a nossa fonte da revelação especial de Deus para nós. É por ela que tomamos conhecimento que pecamos contra Deus e estávamos totalmente longe, desligados dEle (Rm 3.23). É por ela também que conhecemos Jesus Cristo e Sua obra, ou seja, o evangelho. E nisso sabemos como fomos justificados e voltamos a ser ligados a Deus!
O mundo sempre nos apresenta duas formas de salvação, que na verdade levam a contaminação. São elas: “Você pode ser seu próprio salvador, vivendo autenticamente seu caminho” (um pensamento progressista, digamos. Que nos levará a uma auto adoração, ou seja, a idolatria) e “Obedeça a Deus e você será salvo” (um pensamento moralista, que também nos levará à idolatria. Passamos a “adorar” nossa conduta). Mas o evangelho não é progressista, nem muito menos moralista. Ele, de fato, é totalmente outra coisa.
O EVANGELHO se distingue de todas as religiões. É diferente, o oposto. Ele (o evangelho) diz: “Deus já aceitou vocês, já religou vocês por meio do sacrifício de Cristo, de Sua obra de Salvação, pagando o pecado no seu lugar. Ele já fez, e você não precisa acrescentar nada a obra de Cristo, ela é perfeita e suficiente! Agora expresse essa fé em Cristo e seu amor por Ele fazendo boas obras, obedecendo e religando tudo aquilo que precisa ser religado! ”

Perceba a singularidade do evangelho mais uma vez. Todas as religiões afirmam que Deus só irá lhe aceitar, se obedecer a Ele. Mas no evangelho isso muda: Porque você já foi aceito por Ele, você obedecerá.
Assim, nós entendemos a importância da mensagem de Tiago. O porquê da “verdadeira religião”. Pois existe a falsa, existe aquela que ligará o homem a ídolos. Mas o desligará da realidade de Deus, isto é, desligará sua adoração ao verdadeiro Deus, seu amor verdadeiro ao próximo, à sociedade e ao mundo. Certamente temos nos tornado tão egoístas por esse motivo.
Mas o próprio evangelho é a verdadeira religare, aquela que religa e restaura o homem e toda a criação ao propósito pelo qual foram criados.

Soli Deo Glória.