quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Bem aventurados os que fogem... (por Laryssa Queiroz)

Já são mais de 130 mil mortos na Síria! Morre outra família na travessia em bote ilegal! Não há lugar para os refugiados! Avisam, ameaçam e alertam todos os noticiários acerca do drama que se vive desde março de 2011 na República Árabe Síria. E isso nos inquieta e nos motiva a, ao menos por alguns instantes, de maneira empática, colocar-nos nos lugares destas pessoas que veem a guerra acontecer dentro de casa. Como se sente o sírio que precisa se esconder, na sua própria nação, de seus conterrâneos apenas por não proclamar a mesma fé que eles? Com que olhos enxerga o mundo a criança que tem sua família torturada e morta? Qual é o sonho atual daquele ancião que, quando moço, perdia-se nos seus pensamentos sobre o futuro?
Aproximo-me da dor destas pessoas para tentar, ao máximo, senti-la, como se no lugar delas estivesse, afim de observar o mundo que vivem, os dramas que sofrem e, só então, oferecer-lhes, ainda que na frialdade da palavra, um acalanto quente, daqueles que só recebemos de quem nos conhece por inteiro.

Deste momento de compenetração, percebo à minha volta, um cenário desolador. Para onde olho, há caos, medo e olhares revoltados presos em corpos resignados. Muitos já morreram, outros se foram, mas não se sabe o seu fim. O que fazer, então? Ficar no lugar onde estou habituada e esperar a morte ou arriscar a vida e o modo de viver em um caminho desconhecido que não se sabe qual é o fim?
Diferentemente do que se pensa, este conflito pode ser comum a qualquer indivíduo e não apenas aos sírios contemporâneos da guerra civil. Se todo ser humano passa por aflições, todos irão também, como aqueles, precisar refletir sobre a situação em que se está vivendo e tomar atitudes em relação a ela.
A guerra nos convoca a tomar uma posição. É diante da tragédia que nos obrigamos a procurar meios para estabilizar a situação nebulosa em que vivemos. Apenas conhecendo o caos é que desejaremos o mais harmonioso abrigo; um lugar de paz constante, onde não haja mais choro, dor ou morte.
Esse refúgio almejado, no entanto, não se estabelece no mesmo território bélico, está sempre longe do ambiente de miséria e desolação. Assim, para ter acesso ao abrigo, é necessário abandonar o lugar onde acontece a guerra. Por isso, o conflito se dá agora não somente na terra que guerreia, mas também naquele que é inquirido a tomar parte de um dos lados. Permanecer no seu lugar ou refugiar-se em terra estranha?

A necessidade de sair do meio guerra é clara, a vontade de distanciar-se dela é desejo constante, a esperança de encontrar o fim dos problemas nos motiva. No entanto, deslocar-se implica abandonar o que nos é comum, nossa casa, nossa história, nossa cultura, nossas leis, em prol de uma nova vida ainda desconhecida.

As expectativas nos consomem e podem nos fazer recuar. Já no meio do caminho, é necessário policiar-se para não se perder olhando para trás e fantasiando um passado feliz que nunca existiu.
É certo que em meio à guerra e, às vezes, até já tendo muitas milhas caminhadas, não se pode ver o abrigo. Ele só nos aparece quando as forças estão indo embora, as reservas de mantimento já se foram e os passos já ensaiam a próxima queda.
Na estrada, percebemos que é preciso deslocar-se, a paz tem um preço e se mostra como recompensa a quem deixa para trás a inércia de criar raízes em terreno de guerra.

Quem sai de sua ‘parentela’, porém, pode não chegar ao abrigo. Há sempre quem prometa um caminho mais curto, mais fácil e sem esforço. O que se autodenomina atravessador, conduz o que, por desespero, desiste de caminhar por toda a estrada, por atalhos inseguros que se tornam realmente um caminho mais rápido, mas, neste caso, à morte.

Não é assim a nossa vida? Não é preciso sair do ambiente da guerra que nos consome antes que ela mesma nos trague? Nossa caminhada não se distancia da realidade dos refugiados sírios. Nós, como eles, nos vemos perdidos e sem esperança no mundo que nos rodeia. Buscamos abrigo e nova vida, mas custa-nos abandonar os velhos costumes, arriscar-nos no caminho, alimentando a certeza do que não vemos, mas esperamos.
Como bem disse o salmista: Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia (Salmos 46:1). Portanto, para conhecer o que nos oferece o esconderijo divino, é preciso despir-nos do que nos caracterizava como filhos da guerra.
Há porém uma grande diferença entre o refúgio que abriga os sírios e o que pode proteger todo homem, de qualquer lugar do mundo, perdido em seus flagelos. Naquele, você pode ser recebido com preconceito por não fazer daquele povo. Já neste, o Pai o recebe como quem o aguarda há muito tempo. De braços abertos, abraça o filho que tanto demorou a voltar à casa.


Quando se chega nesse novo lar divino, é que se descobre porque não se encaixava ao cenário de guerra, ao que estava habituado, mas nunca à vontade. Percebe-se que era imigrante em terra familiar e, só agora, reconhece o seu povo, sua cidadania, sua língua, sua lei e levanta com orgulho seu estandarte. Pode-se finalmente dizer: Lar Doce Lar.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Quem é a ameaça? Quem é o inimigo? (I Sm 17.12-31)

      O pequeno e recém- nascido reino de Israel corria perigo. Os povos do Mar, conhecidos na bíblia como os filisteus, que dominavam a tecnologia do ferro, constituíam um perigo verdadeiro ao povo de Israel e ao seu Rei, Saul.
   Os exércitos dos dois povos se organizaram para a batalha. O Rei Saul convocou homens em idade de lutar por todo o reino.  De toda parte afluíram jovens para a guerra. Da zona rural da pequena Belém três jovens, filhos de Jessé, agora integravam as Forças Armadas israelitas: Eliabe, Abinadabe e Samá.

    Jessé, o pai dos rapazes belemitas, preocupado com os filhos decide enviar o filho mais jovem, que ficou cuidando das ovelhas, o ruivo Davi para levar mantimento para os irmãos, e claro, saber das novidades do front da batalha.
      Davi entregou sua encomenda ao Serviço de Intendência, responsável pela alimentação e logística do exército, e rapidamente foi conversar com os soldados para buscar informações do andamento da guerra. Não precisou de alguém lhe dizer o que estava acontecendo. Ele pôde testemunhar a aparição de Golias, o gigante filisteu da cidade de Gate, erguendo-se entre o exército do seu povo e afrontando o povo de Israel.

    Os soldados o informaram que haveria premiação e recompensa para o israelita que ferisse o filisteu. Mas o medo era tanto do gigante guerreiro, que ninguém pensava em ousar enfrentar Golias.  Davi parece não temer a ameaça dos filisteus encarnada nos três metros do gigante ao indagar: Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo? 
     Definitivamente a coragem do pastorzinho de Belém começou a chamar a atenção dos soldados israelitas. O burburinho causado pela intrepidez de Davi chega aos ouvidos do seu irmão mais velho, Eliabe. O primogênito enche-se de ira contra o seu mano caçula, e lhe diz em tom de desprezo: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção e a maldade do teu coração, que desceste para ver a peleja.
     Davi se surpreende com a ira do seu irmão e suas palavras provocativas e ferinas e lhe diz: Que fiz eu agora? Porventura, não há razão para isso?
     Parece-nos que no meio da guerra uma nova ameaça surge. Golias é esquecido, deixado de lado, embora permaneça lá, afrontando, gritando, perigosamente ameaçador. Para Eliabe o inimigo agora era seu irmão caçula. Ele se ira contra Davi, ele decide humilhá-lo com suas palavras, destruí-lo verbalmente. De repente, o inimigo não é mais Golias, passa a ser o seu irmão de sangue, filho de seu pai, que estava ali para trazer-lhe mantimento. O foco agora é acabar com Davi.
     Essa história se repete com muito mais frequência do que imaginamos. Embora estejamos frente a frente com o gigante, e nossas fileiras indiquem que estamos prontos para  o enfrentarmos, esquecemos quem é a verdadeira ameaça e estamos lutando contra  nosso irmão, irados conta ele, tentando destruí-lo com palavras e ações. O gigante fica dando gargalhadas com nossas trapalhadas, e nem temos consciência disso.
    Nos meios acadêmicos, jovens apologistas erguem seu aparato bélico em sua trincheira teológica para atacar uma tradição teológica diferente entendendo que ali está seu inimigo. Nos púlpitos, pastores disparam mísseis homileticamente preparados para apontar os erros e equívocos da igreja mais próxima, entendendo que ali está o inimigo. Dentro das igrejas as disputas políticas se acirram e as fileiras se formam para batalhas que fariam animar Napoleão Bonaparte!
    É tempo de pedirmos ao Senhor discernimento para entendermos quem é o inimigo. É tempo de deixarmos de ser Eliabe. E quantas vezes somos Eliabe! O gigante domina a cidade e as pessoas. Jovens drogados,  assaltando, matando... É tempo de acendermos a cidade, derrotando  o gigante que a tudo escurece e amedronta. Vamos enfrentá-lo como Davi, não por nossa própria força, mas Em nome do Senhor dos Exércitos, porque DO SENHOR É A GUERRA!
    Enquanto não aprendermos a discernir quem é o inimigo, quem é a verdadeira ameça, Golias nunca será vencido!!!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Jesus, aquele que sabe o que há no homem, uma possível chave hermenêutica para o Evangelho de João

    Uma chave hermenêutica é um pressuposto, um método de interpretação que permite uma melhor compreensão do texto, embora realize naturalmente uma seleção do que se enxerga e se aproveita do mesmo. Os estudiosos concordam que Lutero utilizava como chave hermenêutica das Escrituras a doutrina da salvação pela fé, enquanto Calvino fazia uso da ênfase na soberania absoluta de Deus.

     Não sou biblista, nem filho de biblista, mas preciso alimentar meu pequeno rebanho, na querida congregação de Quintino Cunha, e para isso preciso mergulhar nas complexidades do texto bíblico. Nessas leituras, contemplando especificamente o Evangelho de João, me saltou os olhos o versículo 25, do capítulo 2: “e não necessitava e que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem”.
     O próprio evangelista pode nos ter dado a chave hermenêutica para melhor entender o seu recorte da história de Cristo.

     De repente a seleção de eventos registrada por João em seu evangelho passou a fazer ainda mais sentido. Os fatos parecem ter sido organizados a partir da perspectiva que o Logos Divino sabe o que há no homem. Eis uma probabilidade de uma chave hermenêutica para o Evangelho de João. Compartilhei essa descoberta em forma de pregação no culto de domingo:
    Ainda no capítulo 1 temos o episódio de Natanael, que trazido por Felipe é  surpreendido pelo diagnóstico de Jesus: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo (Jo 1.47). Descobre que Jesus já o tinha visto meditando debaixo da figueira. Este sinal é suficiente para que ele creia que Jesus é o Filho de Deus (Jo 1.48-49).
    O diálogo com Nicodemos é emblemático. Jesus dá pouca atenção à saudação elogiosa do príncipe dos judeus, nas primeiras sentenças do capítulo 3, mas insiste na verdade que Nicodemos precisava nascer de novo. Porque Jesus conhecia o coração do velho mestre.
    O encontro junto à fonte de Sicar, com a mulher samaritana pode ser melhor visualizado a partir da perspectiva que Jesus é o que conhece o que há no homem. Jesus entabula uma conversa com uma mulher de moral duvidosa, mas enxerga nela alguém sinceramente faminta por transformação. Aí está uma verdade muito importante: Aquele que conhece o que há no homem, todas as suas sujeiras e equívocos, também é o mesmo que busca alcançar este homem.

   Os exemplos continuam ao longo do evangelho.  Jesus também confronta seus seguidores e diz: Vós me buscais não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes (Jo 6.26). O conhecimento da motivação do coração dos homens é o que diferencia o cristianismo de qualquer outra religião. O cristão não é um mero praticante de ritos e ações prescritos nos livros santos. É alguém cujo coração e mente estão voltados para o Senhor, pois tem crido e conhecido que ele é o Cristo.
     Ele sabe que um dos que ele escolheu para estar mais próximo a si, era um enganador (Jo 6.70). Ele conhece cada um dos homens que portavam uma pedra para executar a mulher adúltera (Jo 8.7).
      Ele faz as perguntas mas, de antemão conhece as respostas, como foi o caso de Simão Pedro, no conhecido diálogo “Tu me amas?” (Jo 21.15-17).
    Uma chave hermenêutica pode funcionar de forma simplificadora ou redutora, mas traz ainda mais luz e significado às passagens que lemos. Professor Bruce, em seu comentário no Evangelho de João diz:
    “Aquele que é o Verbo encarnado capta imediatamente os mistérios e complexidades da natureza humana. Ele não depende de palavras faladas, como indicadores dos pensamentos e sentimentos íntimos; as profundidades ocultas de cada coração estão expostas diante de sua avaliação penetrante”.  

    Lembrei de um pensamento que li quando ainda era garoto: “Amigo é alguém que te conhece a fundo e apesar disso te ama”. Nunca esqueci. Jesus é este amigo!

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Ordinário ou Extraordinário? Sobre Pessoas e Sal (por Thalison Evangelista)

     Acabo de ler o clássico Crime e Castigo, de Dostoiévski. Um livro sem par, maravilhoso. Durante sua leitura, também dei atenção a outros livros, nos quais tentarei relacioná-los em uma síntese de ideias.


      O enredo de Crime e Castigo se desenvolve a partir da história de Raskólnikov, um jovem estudante que desenvolve uma teoria na qual divide a humanidade em pessoas extraordinárias e ordinárias. A partir daí, Raskólnikov comete um assassinato, pois de acordo com sua teoria, os homens extraordinários estão acima da lei, ou seja, o crime que para os ordinários é condenável, para eles não passa de uma etapa a se cumprir para se chegar a um objetivo. Fazendo com que o personagem enxergue um ato criminoso como algo banal, assim seus crimes não podem ser considerados crimes.
    Mas qual a relação de nossa sociedade chamada mimada por Theodore Dalrymple, em seu livro “Podres de mimados”, e a teoria de Raskólnikov? Ora, perceba que ele, ao desenvolver a teoria que divide a humanidade, se coloca no grupo extraordinário e passa a chamar parte dos ordinários de piolhos, ou coisa parecida. Isso o faz pensar que cometer um crime contra um piolho não é nada. Agora olhe para nossa “sociedade mimada”, encharcada de teorias da mesma natureza (mas muito piores, tanto em intelectualidade como em consequências): pessoas instigadas a se acharem o máximo, a serem felizes o tempo todo, levadas a pensar que são verdadeiras deidades e que tudo lhes é possível... a grosso modo, serem extraordinárias.

    Dito isso, vejamos: Vivemos em um tempo de tecnologia e ciência avançada, “comida gourmet”, academias de musculação, whey protein, whatsapp e, acima de tudo, vivemos em um tempo de pessoas podres de mimadas. Hoje os profissionais de coaching, os livros de autoajuda, a teologia da prosperidade e os discursos de vitória estão em toda parte, como verdadeiras pragas, inundando a cabeça de seus fiéis seguidores (ou “followers”. Eles acham essa palavra chique, me parece) com motivações simplórias e pragmáticas que, quando levadas a um estudo sério, não passam de piadas. Mas o profissional de coaching, os livros de autoajuda e a teologia da prosperidade, de forma nenhuma iniciaram essa “sociedade mimada” (o seu início tem outras raízes que não trataremos nesse texto), na verdade eles surgem de uma oportunidade vista em tal sociedade. A ideia desse tipo de coisa é justamente tentar motivar as pessoas a desenvolverem seus potenciais com uma espécie de autoajuda, ou seja, “você é o cara (você é extraordinário) e vai conseguir”!
    Porém, Dostoiévski nos mostra muito bem a natureza humana e com genialidade quebra em mil pedaços essa conversa de que podemos ser extraordinários. Em Crime e Castigo, Raskólnikov não consegue viver sob o peso do crime cometido. No primeiro momento, ele não se arrepende do crime em si, mas sim de não ter conseguido levar sua teoria adiante, ou seja, o jovem Raskólnikov percebeu que não consegue ser um homem extraordinário. Arrepende-se disso, não do crime (leia o livro para saber o final). Aqui está a questão principal: a maioria das pessoas de nossa “sociedade mimada” não tem a percepção de que não são extraordinárias, mas passam uma vida toda tentando ser algo que não são, achando que as outras pessoas são piolhos, e pior ainda, por não serem extraordinárias, fazem de tudo para ter para conseguir ser, e nisso cometem – tal como Raskónikov – crimes e mais crimes contra a terra, contra as outras pessoas e contra Deus, a fim de transformarem seus objetivos fantasiosos, egoístas e mimados, em realidade.

   Uma outra pessoa que entendia dos seres humanos um pouco mais que Dostoiévski, disse um dia aos seus discípulos que eles eram sal e luz do mundo. Acredito que esse discurso além de negligenciado, é mal interpretado.
    O sal, no contexto da frase de Jesus, era utilizado para conservar os alimentos e para isso era necessário esfregá-lo no alimento. O sal não possui função por si só (você não come sal assistindo TV), ele tem que ser “desgastado” em prol de outra coisa. Mas se o sal achar que é extraordinário e que tudo ao redor dele é um mero piolho, nunca irá se esfregar, se desgastar por coisa alguma. E como Jesus mesmo disse, se o sal perder sua qualidade ou suas funções, não servirá para nada.


   Então, é tempo de percebermos quem somos. Se somos realmente sal e se cumprimos nossa função. Porque o sal, meus amigos, o sal é comum. O sal é ordinário.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Religião Verdadeira (por Thalison Evangelista)


Religião sempre foi um assunto amplamente discutido em todos os meios, seja ele acadêmico ou popular. A carta de Tiago, muito provavelmente irmão de Jesus que liderou a igreja em Jerusalém por muitos anos, apresentada na Bíblia e destinada primariamente aos fiéis em Cristo entre os judeus da Diáspora, nos apresenta um conceito interessante. O conceito de ‘’verdadeira religião’’.
Tiago 1.27 nos diz que a verdadeira religião é: visitar os órfãos e as viúvas nas suas dificuldades e não se deixar contaminar pelo mundo.

Por que religião? E por que essa é a verdadeira religião? Tentaremos algumas respostas.
Sabemos que o teor da carta de Tiago é precisamente prático, ou seja, em toda sua carta ele nos faz pensar nossa fé em termos práticos, saindo do campo da abstração ou do discurso (uma fé da boca para fora). Tendo isso em mente, faremos algumas considerações, que ao meu ver são pertinentes à nossa reflexão de fé e relação com o próximo e com Deus.
Religião tem sua raiz na palavra latina Religare, que significa religar, e nos remete a reunião, comunhão, etc.... O ser humano é essencialmente um ser religioso, porque não pode existir um “eu”, sem um “você”, que é outro “eu”. Nossa existência se dá assim, pela comunhão de pessoas. O que nos leva a perceber que nenhum ser humano, sendo ele religioso praticante ou não, pode deixar de ser homo religiosus em sua essência.
Outro conceito importante (para mim o mais importante) é o da idolatria, que para alguns teólogos é o princípio de todo o pecado. Ou seja, nosso coração estará sempre adorando algo ou alguém. Portanto, se Deus não for o objeto de sua adoração, algo estará no lugar dele, e esse algo (ou alguém) sempre será um ídolo. Tim Keller, em seu livro “Deuses Falsos”, diz que um ídolo “é qualquer coisa que seja mais importante que Deus para você, qualquer coisa que absorva o seu coração e imaginação mais que Deus, qualquer coisa que só Deus pode dar”. Keller ainda diz: “Podemos não ajoelhar fisicamente diante da estátua de Afrodite, mas muitas jovens de hoje são levadas a depressão e disfunções alimentares por uma preocupação obsessiva com a imagem. Podemos não queimar incenso a Ártemis, mas, quando o dinheiro e a carreira são elevados a proporções cósmicas, realizamos algo como um verdadeiro sacrifício de crianças, negligenciando a família e a comunidade para conquistar um lugar mais elevado no mundo empresarial e angariar mais riquezas e prestígio”. Portanto, o homem é um ser religioso, e sempre estará apegado a alguma coisa (ideologia, dinheiro, sexo, poder, etc.), e todas essas coisas no lugar de Deus o farão desligados, alienados da realidade. Como disse Nietzsche em crepúsculo dos ídolos: “Há mais ídolos que realidades no mundo. ”

Essa idolatria, então, nos leva a fragmentação da vida em sua totalidade. Pois, aquilo que foi colocado no lugar de Deus, nunca terá a dignidade e nem a capacidade de Deus. Essa fragmentação é total porque além do objeto de adoração não ser capaz de suprir o seu papel de Deus, ele também não será amado da forma como deveria. Ao invés disso, será amado com um amor idólatra, gerando uma série de frustrações mútuas.
Dito isso, vejamos. A teologia Cristã visualiza um homem caído, ou seja, depois do pecado original de Adão, a humanidade se tornou caída, e longe de Deus. Assim, o homem se encontra morto espiritualmente: Ele é totalmente fragmentado, ou desligado de tudo. O homem está fragmentado em relação ao seu habitat natural (a terra). Ela produz agora espinhos e ervas daninhas, e o ser humano terá de comer o pão do suor do seu rosto (Gn 3.18-19); está fragmentado em si mesmo. Ele agora sofre envelhecimento, doenças, confusões e distúrbios mentais, etc.; está fragmentado do seu próximo, ou seja, ele cobiça, mata, inveja os outros, faz guerras...; e está fragmentado ou desligado de Deus. Ao invés de adorá-lo como Seu Criador, “o homem é uma fábrica de ídolos” (João Calvino, Séc. XVI).

Retornemos a Tiago. Ele nos diz: A verdadeira religião é aquela que visita os órfãos e as viúvas nas suas dificuldades e não se deixa contaminar pelo mundo.
Mas qual a relação da situação do homem para a verdadeira religião que Tiago nos apresenta? Precisamos de atenção nesse ponto: Nós vimos que religião vem da raiz religare, que nos remete a “re-ligar”. E também visualizamos a condição do homem de fragmentado ou “des-ligado”. Pois bem, agora perceba a proposta prática da verdadeira religião que Tiago nos diz, e percebamos quem ele aponta – órfãos e viúvas. Esses dois tipos de pessoas são aqueles que estão à margem da sociedade da época de Tiago (e porque não, da nossa também, na maioria dos casos), a partir daí, podemos perceber que esses dois grupos perderam vínculos, foram desligados dos principais laços familiares, o que atinge diretamente a dignidade delas, pois foram criadas primordialmente para viverem em sociedade, em reunião ou comunhão. Então Tiago quase que exclama: “Como vocês dizem que estão na verdadeira religião? Ora, e a verdadeira religião não religou vocês a vocês mesmos, a terra, e a Deus? Como podem então fingirem que não existem os desligados? A que ligou vocês, se é que vocês estão de fato ligados, terá de fazer vocês pensarem em ligar aqueles que estão desligados. Pois vocês sabem como é estar desligado e ser ligado! ”
Nisso fica bem claro que a verdadeira religião é necessariamente comunhão, reunião, religação de pessoas. Se é verdade que Deus nos criou a imagem e semelhança dEle, é verdade também que na comunhão de gente nós vemos Deus se revelando e se manifestando a nós. E podemos ver claramente os dois maiores mandamentos que Cristo nos deixou – amarás teu Deus acima de todas as coisas; amarás teu próximo como a ti mesmo – e como a relação deles está completamente ligada.

Tiago ainda diz que a verdadeira religião é também a não contaminação pelo mundo. Aqui podemos ver a singularidade e verdade do Evangelho.
Charles Spurgeon dizia que a verdadeira religião da Igreja de Cristo era a Bíblia e nada mais do que a Bíblia. Eu concordo totalmente com Spurgeon (Ai de mim se não concordasse!), e acredito que Tiago também concordaria. Porque a bíblia é a nossa fonte da revelação especial de Deus para nós. É por ela que tomamos conhecimento que pecamos contra Deus e estávamos totalmente longe, desligados dEle (Rm 3.23). É por ela também que conhecemos Jesus Cristo e Sua obra, ou seja, o evangelho. E nisso sabemos como fomos justificados e voltamos a ser ligados a Deus!
O mundo sempre nos apresenta duas formas de salvação, que na verdade levam a contaminação. São elas: “Você pode ser seu próprio salvador, vivendo autenticamente seu caminho” (um pensamento progressista, digamos. Que nos levará a uma auto adoração, ou seja, a idolatria) e “Obedeça a Deus e você será salvo” (um pensamento moralista, que também nos levará à idolatria. Passamos a “adorar” nossa conduta). Mas o evangelho não é progressista, nem muito menos moralista. Ele, de fato, é totalmente outra coisa.
O EVANGELHO se distingue de todas as religiões. É diferente, o oposto. Ele (o evangelho) diz: “Deus já aceitou vocês, já religou vocês por meio do sacrifício de Cristo, de Sua obra de Salvação, pagando o pecado no seu lugar. Ele já fez, e você não precisa acrescentar nada a obra de Cristo, ela é perfeita e suficiente! Agora expresse essa fé em Cristo e seu amor por Ele fazendo boas obras, obedecendo e religando tudo aquilo que precisa ser religado! ”

Perceba a singularidade do evangelho mais uma vez. Todas as religiões afirmam que Deus só irá lhe aceitar, se obedecer a Ele. Mas no evangelho isso muda: Porque você já foi aceito por Ele, você obedecerá.
Assim, nós entendemos a importância da mensagem de Tiago. O porquê da “verdadeira religião”. Pois existe a falsa, existe aquela que ligará o homem a ídolos. Mas o desligará da realidade de Deus, isto é, desligará sua adoração ao verdadeiro Deus, seu amor verdadeiro ao próximo, à sociedade e ao mundo. Certamente temos nos tornado tão egoístas por esse motivo.
Mas o próprio evangelho é a verdadeira religare, aquela que religa e restaura o homem e toda a criação ao propósito pelo qual foram criados.

Soli Deo Glória.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Companheiro...

     Etimologia é a ciência que estuda a origem e desenvolvimento das palavras até chegar ao ETIMOS (ao real, ao verdadeiro). O que realmente em sua origem aquela palavra quer dizer? O que ela comunica?
    Numa época onde os significados são totalmente fluidos, ou sequer existem, acho que a etimologia se torna uma âncora, uma coluna, uma bandeira de esperança e solidez em nossa modernidade líquida. Deveríamos nos interessar mais por etimologia! Ou até querer ser etimólogos!

     Em tempos de fim de ano, olho pra vocês e os vejo como companheiros. Requisito a etimologia para esclarecer melhor o que quero dizer: Companheiro, aquele que come o pão junto. Do Latim cumpanis: cum (com, junto) + panis (pão). Na história antiga, era bastante frequente que uma tropa, isto é, um conjunto de pessoas agrupadas, parassem de cavalgar para descansar, e restaurar as forças numa estalagem, num boteco qualquer na estrada, comendo o pão servido que era compartilhado com todos. Daí saiu a palavra companheiro... aquele que come pão junto.


     Depois que comem pão junto, eles não são mais os mesmos. Alguma coisa especial acontece nesse tempo no qual é necessário usar uma palavra, uma nova palavra para designar as mesmas pessoas. Eles agora são cumpanis. Não são apenas viajantes, não são meros conhecidos, são cumpanis. Eles comem pão junto... companheiros.
     No Brasil a semântica nos trouxe significados vários para companheiro:
     O amancebado, a concubina, a hoje chamada união estável, antigamente era apenas companheiro(a);
     A esquerda brasileira requisitou o termo para que os integrantes ou simpatizantes do movimento pudessem se saudar entre si. Hoje é um termo comum no sindicalismo em busca de autenticidade do Brasil. Lembro-me da vovó, que me contou que na década de 60, no auge da ebulição socialista no país, alguém a chamou de “companheira Noêmia”. Ela então com toda a gravidade disse: Meu companheiro é o meu marido!!!
     Quero seguir a etimologia e pensar em vocês como companheiros. Comemos pão junto e não somos os mesmos, pois nos tornamos companheiros de caminhada, de luta, de alegrias, de esperança.   
    Lembro de Luiz de Carvalho, que partiu para junto do Divino Companheiro, esse ano. Desde garoto que eu me lembro não apenas da música, mas da cena: Divino Companheiro no caminho, sua presença sinto logo... O caminho de Emaús é uma das cenas mais lindas e mais tocantes do texto sagrado... Caminhava com eles, e fez como quem ia para mais longe, e os amigos disseram: Fica conosco... o dia já declina. E ele entrou para ficar com eles.
    Companheiro é alguém que caminha junto, e sente-se sua presença, pode-se contar com ele. Pode-se comer junto com ele à mesa. E no comer à mesa sabe-se quem é, pelos gestos, pelo timbre da voz, pelo riso. E percebe-se que arde nosso coração quando falamos, quando caminhamos juntos...

     Caminhemos juntos, e não tenhamos cerimônia em dizer para o outro, companheiro, seja este humano ou divino: Fica conosco... o dia já declina.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Sola Scriptura versus Pentecostalismo Popular

    Antes de qualquer coisa quero afirmar que sou pentecostal. Filho e neto de pentecostais, portanto, pentecostal de pentecostais. Falo em línguas, expulso demônios, oro pela cura de enfermos, creio em profecias, enfim, acredito na atualidade dos dons espirituais.
    Falo portanto, de dentro de uma igreja pentecostal histórica, da qual sou ministro. Acho que esta apresentação breve é suficiente, para afastar ideias equivocadas que possam chegar à cabeça do meu leitor.
    Ando pensando muito nesses últimos dias sobre um fenômeno que eu mesmo estou denominando de pentecostalismo popular.  Vou  até patentear essa expressão.  Por favor quem utilizá-la doravante cite a fonte(!). Lógico não estou sendo original.  Também não é um plágio. Explico:
    Busco essa ideia dos teólogos e estudiosos católicos. Eles cunharam a expressão catolicismo popular. O catolicismo popular é resultado das expressões religiosas do povo que embora almejando identificar-se com a fé católica institucional, no caso brasileiro, sofre de graves carências teológicas e pastorais. Nele são evidentes ranços de superstição, magia, ritualismo, arcaísmo; à pessoa de Jesus Cristo nem sempre se atribui o lugar que lhe cabe, como centro da fé cristã... (A Evangelização no Brasil, Dimensões Teológicas e Desafios Pastorais, Antônio Alves de Melo, Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, 1996, pág.235-238).
      Trazendo esse mesmo conceito  para um universo evangélico pentecostal, posso afirmar sem medo de errar que estamos diante de situações muito parecidas com as que ocorrem no  mundo católico. E aqui não se trata de pentecostalismo histórico e neo-pentecostalismo. Trata-se de um fenômeno relativamente novo, que envolve o pentecostalismo brasileiro, proponho portanto que o chamemos de pentecostalismo popular.
    O mundo protestante e evangélico como um todo sempre foi muito mais impermeável às expressões populares livres, do que o mundo católico, por três motivos: Em primeiro lugar pela sua ênfase nas Escrituras, uma herança do “Sola Scriptura” da Reforma, o que evitou muitos desvios e disparates, pois havia a ênfase no direcionamento Escriturístico, mesmo tratando-se de líderes leigos; em segundo lugar, por não constituir uma massa tão grande de pessoas, cuja participação no meio se dava por conversão, normalmente genuína, e não por adesão como ora, muitas vezes se vê; e em último lugar, por ainda não haver o domínio do mercado evangélico por empresas com grande voracidade pelo lucro, e com pouco ou nenhum compromisso com a herança do “Sola Scriptura”.
   
     Mas agora... o universo evangélico se tornou um mercado interessante, as Escrituras estão sendo substituídas pelos jargões pragmáticos e frases de efeito... é um tempo em que as expressões da religiosidade popular começam a tomar conta das mentes e competir, ou às vezes substituir,  as expressões institucionais da fé, e tendo em vista as facilidades da comunicação, espalham-se muito rapidamente e tomam os púlpitos e as assistências das igrejas.
      Trago alguns poucos exemplos, mas que nos dão uma noção bem clara do que estamos falando.  Consultei no Google algumas expressões desse pentecostalismo popular, e vejam o que encontrei:
·         Sapato de fogo    (Aproximadamente 534.000 resultados);
·         Divisa de Fogo  (Aproximadamente 517.000 resultados) e
·         Varão de Fogo (Aproximadamente 388.000 resultados).
     Em primeiro lugar surpreende um tão grande número de hinos, discussões, apresentações, questionamentos, defesas,  argumentações sobre expressões apócrifas, inexistentes no contexto bíblico e na doutrina cristã tradicional.  Sinceramente me esforcei para lembrar se no meu tempo de Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, estudando com o venerável mestre canadense Thomas W. Fodor, velho missionário pentecostal, em algum momento falamos dessas expressões ditas “pentecostais”. Não consigo me lembrar de nada parecido!
    Andei  folheando a bíblia, até em versões pentecostais, e não me foi oferecida alternativa para tais expressões. Só tem uma explicação: estamos diante de um fenômeno, o pentecostalismo popular.
    Olhei mais detidamente (no Google) e percebi que um irmão canta o hino “Sapato de fogo”, e numa das estrofes ele diz:
Eu calcei sapato de fogo, não posso me controlar!
É que o varão do movimento chegou pra movimentar!
   Sinceramente me esforcei para encontrar pelo menos uma distante analogia bíblica que me permitisse explicar o dito “sapato de fogo”, não consegui. Não tenho dúvida que alguém vai orar por mim para que os meus olhos espirituais sejam abertos, como os do moço de Eliseu (II Rs 6.17). Mas se os meus olhos forem abertos verei cavalos e carros de fogo! Exceto se os cavalos estiverem calçados com sapatos de fogo!!! E isso não posso inferir do texto!




    Um outro campeão de registros é “Divisa de Fogo”. Parece-me que um grupo denominado Fogo no Pé, tem os direitos autorais dessa canção. Imagino que estejam todos vinculados, porque quem tem Fogo no Pé, é porque calçou Sapato de Fogo!!
 Deus de fogo, Deus de fogo
Que abriu o Mar Vermelho
Deus de fogo, Deus de fogo
Que não deixa ninguém tocar
Num fio do teu cabelo
Deus de fogo, Deus de fogo
Que te chama pelo nome
Eu nunca vi, o justo mendigar um pão
Nem sua descendência passar fome

Divisa de fogo
Varão de guerra
Ele desceu na Terra
Ele chegou pra guerrear

      Ainda estou tentando entender o nexo semântico da expressão “Divisa de Fogo”. Cheguei à conclusão que no pentecostalismo popular não é necessário a busca de sentido e nexo das coisas. Desisti de entender. É a expressão em si, Divisa de Fogo, que na verdade não quer dizer nada, mas quer apenas incendiar  a imaginação de quem canta. Uma espécie de isqueiro espiritual.
      Cumpre-nos ainda comentar sobre o “Varão de Fogo”. Uma irmã canta esse hino, que vale a pena reproduzir, pelo menos um trecho:
Varão de fogo, varão de guerra,
Sinta o toque desses anjos que acabam de chegar
Olha ai quem vem chegando e tem fogo em suas mãos
E com ele vem marchando um exército de anjos,
Eles cantam santo, santo, santo é o SENHOR!

Sinta o toque desses anjos que acabam de chegar
Muitos anjos estão marchando em meio a multidão,
Canta agora no espirito e profetiza meu irmão,
A bandeira da vitória o anjo traz em suas mãos.
     Alguns encontram a base bíblica para um varão de fogo em Dn 3.25,o Quarto Homem da Fornalha de Fogo Ardente. Mas a característica desse homem, segundo Nabucudonozor é que Ele é semelhante ao filho dos deuses. Não precisa estar de posse de um comentário bíblico para se intuir que semelhante ao filho dos deuses não quer dizer Varão de Fogo. Seria forçar demais o significado do texto em sua simplicidade.
    Se a canção quer reproduzir alguma coisa da Visão de Isaías, no capítulo 6, estamos de uma salada mais maluca do mundo, e mais uma vez nem dá para caminhar nas comparações porque a minha capacidade intelectual é muito restrita para forçar a barra nos textos sagrados.
   Citar-me-ão Hebreus 12.29: “Porque o nosso Deus é um fogo consumidor”. Trata-se de uma metáfora, Deus como inspirador de santo temor.
    Vou parar por aqui. Não vejo problema que o pentecostalismo se vincule ao símbolo do fogo pela ênfase na ação do Espírito Santo, que desde Zacarias (cap 4) é simbolizado no azeite e no fogo. O problema está na exacerbação da temática “fogo”. E isto sim, é uma manifestação de um pentecostalismo popular.
     Para quem lê o texto bíblico, encontraremos, em qualquer versão utilizada algo muito próximo disso:
   - E foram vistas por eles línguas repartidas como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles (At 2.3);
- E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os olhos, como chamas de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivesse sido refinado numa fornalha... (Ap 1.14-15)
    Comparações, símiles, são figuras de linguagem, não devem ser entendidas em sua literalidade.  Cheguei a duas explicações plausíveis acerca do aparecimento e crescimento do pentecostalismo popular,  o primeiro é de natureza intelectual, e o segundo de natureza econômica:
a)       Os especialistas em desenvolvimento infantil e educação tem pesquisado exaustivamente acerca de dificuldades com a linguagem figurada, e o pensamento de forma concreta, presente em crianças e até adultos com determinados problemas de desenvolvimento. Eles interpretam toda a  linguagem literalmente, se disser que algo é “moleza” ele vai entender que há algum objeto mole ali, quando o que se quis dizer foi que  “aquilo será uma coisa fácil de fazer”. Quando se diz que “está chovendo canivetes”, ele acredita que canivetes possam cair do céu. Figuras de linguagem, metáforas, comparações não são compreensíveis. Quando se fala em fogo, o infante espiritual concretiza seu raciocínio nas chamas, e ainda agrega acessórios como sapatos de fogo;
b)      Infelizmente se explica muita coisa pela lógica de mercado. Alguma coisa vende? Vai ter lucros? Não importa se vão ser “500° de Puro Fogo Santo e Poder” (só não sei se utilizo a escala em Celsius ou em Fahrenheit, isto não ficou claro na proposta),  se intitulamos “Varão de Fogo”, “Sapato de Fogo” ou “Divisa de Fogo”. O que importa é que vende, e que o cantor vai ser contratado a peso de ouro, nos eventos pentecostais pelo Brasil inteiro.


       Não queria ser engraçado, nem sarcástico, reconheço que fui irônico, mas com objetivo didático. Não estou com vontade de rir. Estou com vontade de chorar. Chorar muito.  Isso quer dizer que precisamos erguer, não a “Divisa de Fogo”, mas a Divisa reformada do “Sola Scriptura”.