terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Ordinário ou Extraordinário? Sobre Pessoas e Sal (por Thalison Evangelista)

     Acabo de ler o clássico Crime e Castigo, de Dostoiévski. Um livro sem par, maravilhoso. Durante sua leitura, também dei atenção a outros livros, nos quais tentarei relacioná-los em uma síntese de ideias.


      O enredo de Crime e Castigo se desenvolve a partir da história de Raskólnikov, um jovem estudante que desenvolve uma teoria na qual divide a humanidade em pessoas extraordinárias e ordinárias. A partir daí, Raskólnikov comete um assassinato, pois de acordo com sua teoria, os homens extraordinários estão acima da lei, ou seja, o crime que para os ordinários é condenável, para eles não passa de uma etapa a se cumprir para se chegar a um objetivo. Fazendo com que o personagem enxergue um ato criminoso como algo banal, assim seus crimes não podem ser considerados crimes.
    Mas qual a relação de nossa sociedade chamada mimada por Theodore Dalrymple, em seu livro “Podres de mimados”, e a teoria de Raskólnikov? Ora, perceba que ele, ao desenvolver a teoria que divide a humanidade, se coloca no grupo extraordinário e passa a chamar parte dos ordinários de piolhos, ou coisa parecida. Isso o faz pensar que cometer um crime contra um piolho não é nada. Agora olhe para nossa “sociedade mimada”, encharcada de teorias da mesma natureza (mas muito piores, tanto em intelectualidade como em consequências): pessoas instigadas a se acharem o máximo, a serem felizes o tempo todo, levadas a pensar que são verdadeiras deidades e que tudo lhes é possível... a grosso modo, serem extraordinárias.

    Dito isso, vejamos: Vivemos em um tempo de tecnologia e ciência avançada, “comida gourmet”, academias de musculação, whey protein, whatsapp e, acima de tudo, vivemos em um tempo de pessoas podres de mimadas. Hoje os profissionais de coaching, os livros de autoajuda, a teologia da prosperidade e os discursos de vitória estão em toda parte, como verdadeiras pragas, inundando a cabeça de seus fiéis seguidores (ou “followers”. Eles acham essa palavra chique, me parece) com motivações simplórias e pragmáticas que, quando levadas a um estudo sério, não passam de piadas. Mas o profissional de coaching, os livros de autoajuda e a teologia da prosperidade, de forma nenhuma iniciaram essa “sociedade mimada” (o seu início tem outras raízes que não trataremos nesse texto), na verdade eles surgem de uma oportunidade vista em tal sociedade. A ideia desse tipo de coisa é justamente tentar motivar as pessoas a desenvolverem seus potenciais com uma espécie de autoajuda, ou seja, “você é o cara (você é extraordinário) e vai conseguir”!
    Porém, Dostoiévski nos mostra muito bem a natureza humana e com genialidade quebra em mil pedaços essa conversa de que podemos ser extraordinários. Em Crime e Castigo, Raskólnikov não consegue viver sob o peso do crime cometido. No primeiro momento, ele não se arrepende do crime em si, mas sim de não ter conseguido levar sua teoria adiante, ou seja, o jovem Raskólnikov percebeu que não consegue ser um homem extraordinário. Arrepende-se disso, não do crime (leia o livro para saber o final). Aqui está a questão principal: a maioria das pessoas de nossa “sociedade mimada” não tem a percepção de que não são extraordinárias, mas passam uma vida toda tentando ser algo que não são, achando que as outras pessoas são piolhos, e pior ainda, por não serem extraordinárias, fazem de tudo para ter para conseguir ser, e nisso cometem – tal como Raskónikov – crimes e mais crimes contra a terra, contra as outras pessoas e contra Deus, a fim de transformarem seus objetivos fantasiosos, egoístas e mimados, em realidade.

   Uma outra pessoa que entendia dos seres humanos um pouco mais que Dostoiévski, disse um dia aos seus discípulos que eles eram sal e luz do mundo. Acredito que esse discurso além de negligenciado, é mal interpretado.
    O sal, no contexto da frase de Jesus, era utilizado para conservar os alimentos e para isso era necessário esfregá-lo no alimento. O sal não possui função por si só (você não come sal assistindo TV), ele tem que ser “desgastado” em prol de outra coisa. Mas se o sal achar que é extraordinário e que tudo ao redor dele é um mero piolho, nunca irá se esfregar, se desgastar por coisa alguma. E como Jesus mesmo disse, se o sal perder sua qualidade ou suas funções, não servirá para nada.


   Então, é tempo de percebermos quem somos. Se somos realmente sal e se cumprimos nossa função. Porque o sal, meus amigos, o sal é comum. O sal é ordinário.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Religião Verdadeira (por Thalison Evangelista)


Religião sempre foi um assunto amplamente discutido em todos os meios, seja ele acadêmico ou popular. A carta de Tiago, muito provavelmente irmão de Jesus que liderou a igreja em Jerusalém por muitos anos, apresentada na Bíblia e destinada primariamente aos fiéis em Cristo entre os judeus da Diáspora, nos apresenta um conceito interessante. O conceito de ‘’verdadeira religião’’.
Tiago 1.27 nos diz que a verdadeira religião é: visitar os órfãos e as viúvas nas suas dificuldades e não se deixar contaminar pelo mundo.

Por que religião? E por que essa é a verdadeira religião? Tentaremos algumas respostas.
Sabemos que o teor da carta de Tiago é precisamente prático, ou seja, em toda sua carta ele nos faz pensar nossa fé em termos práticos, saindo do campo da abstração ou do discurso (uma fé da boca para fora). Tendo isso em mente, faremos algumas considerações, que ao meu ver são pertinentes à nossa reflexão de fé e relação com o próximo e com Deus.
Religião tem sua raiz na palavra latina Religare, que significa religar, e nos remete a reunião, comunhão, etc.... O ser humano é essencialmente um ser religioso, porque não pode existir um “eu”, sem um “você”, que é outro “eu”. Nossa existência se dá assim, pela comunhão de pessoas. O que nos leva a perceber que nenhum ser humano, sendo ele religioso praticante ou não, pode deixar de ser homo religiosus em sua essência.
Outro conceito importante (para mim o mais importante) é o da idolatria, que para alguns teólogos é o princípio de todo o pecado. Ou seja, nosso coração estará sempre adorando algo ou alguém. Portanto, se Deus não for o objeto de sua adoração, algo estará no lugar dele, e esse algo (ou alguém) sempre será um ídolo. Tim Keller, em seu livro “Deuses Falsos”, diz que um ídolo “é qualquer coisa que seja mais importante que Deus para você, qualquer coisa que absorva o seu coração e imaginação mais que Deus, qualquer coisa que só Deus pode dar”. Keller ainda diz: “Podemos não ajoelhar fisicamente diante da estátua de Afrodite, mas muitas jovens de hoje são levadas a depressão e disfunções alimentares por uma preocupação obsessiva com a imagem. Podemos não queimar incenso a Ártemis, mas, quando o dinheiro e a carreira são elevados a proporções cósmicas, realizamos algo como um verdadeiro sacrifício de crianças, negligenciando a família e a comunidade para conquistar um lugar mais elevado no mundo empresarial e angariar mais riquezas e prestígio”. Portanto, o homem é um ser religioso, e sempre estará apegado a alguma coisa (ideologia, dinheiro, sexo, poder, etc.), e todas essas coisas no lugar de Deus o farão desligados, alienados da realidade. Como disse Nietzsche em crepúsculo dos ídolos: “Há mais ídolos que realidades no mundo. ”

Essa idolatria, então, nos leva a fragmentação da vida em sua totalidade. Pois, aquilo que foi colocado no lugar de Deus, nunca terá a dignidade e nem a capacidade de Deus. Essa fragmentação é total porque além do objeto de adoração não ser capaz de suprir o seu papel de Deus, ele também não será amado da forma como deveria. Ao invés disso, será amado com um amor idólatra, gerando uma série de frustrações mútuas.
Dito isso, vejamos. A teologia Cristã visualiza um homem caído, ou seja, depois do pecado original de Adão, a humanidade se tornou caída, e longe de Deus. Assim, o homem se encontra morto espiritualmente: Ele é totalmente fragmentado, ou desligado de tudo. O homem está fragmentado em relação ao seu habitat natural (a terra). Ela produz agora espinhos e ervas daninhas, e o ser humano terá de comer o pão do suor do seu rosto (Gn 3.18-19); está fragmentado em si mesmo. Ele agora sofre envelhecimento, doenças, confusões e distúrbios mentais, etc.; está fragmentado do seu próximo, ou seja, ele cobiça, mata, inveja os outros, faz guerras...; e está fragmentado ou desligado de Deus. Ao invés de adorá-lo como Seu Criador, “o homem é uma fábrica de ídolos” (João Calvino, Séc. XVI).

Retornemos a Tiago. Ele nos diz: A verdadeira religião é aquela que visita os órfãos e as viúvas nas suas dificuldades e não se deixa contaminar pelo mundo.
Mas qual a relação da situação do homem para a verdadeira religião que Tiago nos apresenta? Precisamos de atenção nesse ponto: Nós vimos que religião vem da raiz religare, que nos remete a “re-ligar”. E também visualizamos a condição do homem de fragmentado ou “des-ligado”. Pois bem, agora perceba a proposta prática da verdadeira religião que Tiago nos diz, e percebamos quem ele aponta – órfãos e viúvas. Esses dois tipos de pessoas são aqueles que estão à margem da sociedade da época de Tiago (e porque não, da nossa também, na maioria dos casos), a partir daí, podemos perceber que esses dois grupos perderam vínculos, foram desligados dos principais laços familiares, o que atinge diretamente a dignidade delas, pois foram criadas primordialmente para viverem em sociedade, em reunião ou comunhão. Então Tiago quase que exclama: “Como vocês dizem que estão na verdadeira religião? Ora, e a verdadeira religião não religou vocês a vocês mesmos, a terra, e a Deus? Como podem então fingirem que não existem os desligados? A que ligou vocês, se é que vocês estão de fato ligados, terá de fazer vocês pensarem em ligar aqueles que estão desligados. Pois vocês sabem como é estar desligado e ser ligado! ”
Nisso fica bem claro que a verdadeira religião é necessariamente comunhão, reunião, religação de pessoas. Se é verdade que Deus nos criou a imagem e semelhança dEle, é verdade também que na comunhão de gente nós vemos Deus se revelando e se manifestando a nós. E podemos ver claramente os dois maiores mandamentos que Cristo nos deixou – amarás teu Deus acima de todas as coisas; amarás teu próximo como a ti mesmo – e como a relação deles está completamente ligada.

Tiago ainda diz que a verdadeira religião é também a não contaminação pelo mundo. Aqui podemos ver a singularidade e verdade do Evangelho.
Charles Spurgeon dizia que a verdadeira religião da Igreja de Cristo era a Bíblia e nada mais do que a Bíblia. Eu concordo totalmente com Spurgeon (Ai de mim se não concordasse!), e acredito que Tiago também concordaria. Porque a bíblia é a nossa fonte da revelação especial de Deus para nós. É por ela que tomamos conhecimento que pecamos contra Deus e estávamos totalmente longe, desligados dEle (Rm 3.23). É por ela também que conhecemos Jesus Cristo e Sua obra, ou seja, o evangelho. E nisso sabemos como fomos justificados e voltamos a ser ligados a Deus!
O mundo sempre nos apresenta duas formas de salvação, que na verdade levam a contaminação. São elas: “Você pode ser seu próprio salvador, vivendo autenticamente seu caminho” (um pensamento progressista, digamos. Que nos levará a uma auto adoração, ou seja, a idolatria) e “Obedeça a Deus e você será salvo” (um pensamento moralista, que também nos levará à idolatria. Passamos a “adorar” nossa conduta). Mas o evangelho não é progressista, nem muito menos moralista. Ele, de fato, é totalmente outra coisa.
O EVANGELHO se distingue de todas as religiões. É diferente, o oposto. Ele (o evangelho) diz: “Deus já aceitou vocês, já religou vocês por meio do sacrifício de Cristo, de Sua obra de Salvação, pagando o pecado no seu lugar. Ele já fez, e você não precisa acrescentar nada a obra de Cristo, ela é perfeita e suficiente! Agora expresse essa fé em Cristo e seu amor por Ele fazendo boas obras, obedecendo e religando tudo aquilo que precisa ser religado! ”

Perceba a singularidade do evangelho mais uma vez. Todas as religiões afirmam que Deus só irá lhe aceitar, se obedecer a Ele. Mas no evangelho isso muda: Porque você já foi aceito por Ele, você obedecerá.
Assim, nós entendemos a importância da mensagem de Tiago. O porquê da “verdadeira religião”. Pois existe a falsa, existe aquela que ligará o homem a ídolos. Mas o desligará da realidade de Deus, isto é, desligará sua adoração ao verdadeiro Deus, seu amor verdadeiro ao próximo, à sociedade e ao mundo. Certamente temos nos tornado tão egoístas por esse motivo.
Mas o próprio evangelho é a verdadeira religare, aquela que religa e restaura o homem e toda a criação ao propósito pelo qual foram criados.

Soli Deo Glória.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Companheiro...

     Etimologia é a ciência que estuda a origem e desenvolvimento das palavras até chegar ao ETIMOS (ao real, ao verdadeiro). O que realmente em sua origem aquela palavra quer dizer? O que ela comunica?
    Numa época onde os significados são totalmente fluidos, ou sequer existem, acho que a etimologia se torna uma âncora, uma coluna, uma bandeira de esperança e solidez em nossa modernidade líquida. Deveríamos nos interessar mais por etimologia! Ou até querer ser etimólogos!

     Em tempos de fim de ano, olho pra vocês e os vejo como companheiros. Requisito a etimologia para esclarecer melhor o que quero dizer: Companheiro, aquele que come o pão junto. Do Latim cumpanis: cum (com, junto) + panis (pão). Na história antiga, era bastante frequente que uma tropa, isto é, um conjunto de pessoas agrupadas, parassem de cavalgar para descansar, e restaurar as forças numa estalagem, num boteco qualquer na estrada, comendo o pão servido que era compartilhado com todos. Daí saiu a palavra companheiro... aquele que come pão junto.


     Depois que comem pão junto, eles não são mais os mesmos. Alguma coisa especial acontece nesse tempo no qual é necessário usar uma palavra, uma nova palavra para designar as mesmas pessoas. Eles agora são cumpanis. Não são apenas viajantes, não são meros conhecidos, são cumpanis. Eles comem pão junto... companheiros.
     No Brasil a semântica nos trouxe significados vários para companheiro:
     O amancebado, a concubina, a hoje chamada união estável, antigamente era apenas companheiro(a);
     A esquerda brasileira requisitou o termo para que os integrantes ou simpatizantes do movimento pudessem se saudar entre si. Hoje é um termo comum no sindicalismo em busca de autenticidade do Brasil. Lembro-me da vovó, que me contou que na década de 60, no auge da ebulição socialista no país, alguém a chamou de “companheira Noêmia”. Ela então com toda a gravidade disse: Meu companheiro é o meu marido!!!
     Quero seguir a etimologia e pensar em vocês como companheiros. Comemos pão junto e não somos os mesmos, pois nos tornamos companheiros de caminhada, de luta, de alegrias, de esperança.   
    Lembro de Luiz de Carvalho, que partiu para junto do Divino Companheiro, esse ano. Desde garoto que eu me lembro não apenas da música, mas da cena: Divino Companheiro no caminho, sua presença sinto logo... O caminho de Emaús é uma das cenas mais lindas e mais tocantes do texto sagrado... Caminhava com eles, e fez como quem ia para mais longe, e os amigos disseram: Fica conosco... o dia já declina. E ele entrou para ficar com eles.
    Companheiro é alguém que caminha junto, e sente-se sua presença, pode-se contar com ele. Pode-se comer junto com ele à mesa. E no comer à mesa sabe-se quem é, pelos gestos, pelo timbre da voz, pelo riso. E percebe-se que arde nosso coração quando falamos, quando caminhamos juntos...

     Caminhemos juntos, e não tenhamos cerimônia em dizer para o outro, companheiro, seja este humano ou divino: Fica conosco... o dia já declina.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Sola Scriptura versus Pentecostalismo Popular

    Antes de qualquer coisa quero afirmar que sou pentecostal. Filho e neto de pentecostais, portanto, pentecostal de pentecostais. Falo em línguas, expulso demônios, oro pela cura de enfermos, creio em profecias, enfim, acredito na atualidade dos dons espirituais.
    Falo portanto, de dentro de uma igreja pentecostal histórica, da qual sou ministro. Acho que esta apresentação breve é suficiente, para afastar ideias equivocadas que possam chegar à cabeça do meu leitor.
    Ando pensando muito nesses últimos dias sobre um fenômeno que eu mesmo estou denominando de pentecostalismo popular.  Vou  até patentear essa expressão.  Por favor quem utilizá-la doravante cite a fonte(!). Lógico não estou sendo original.  Também não é um plágio. Explico:
    Busco essa ideia dos teólogos e estudiosos católicos. Eles cunharam a expressão catolicismo popular. O catolicismo popular é resultado das expressões religiosas do povo que embora almejando identificar-se com a fé católica institucional, no caso brasileiro, sofre de graves carências teológicas e pastorais. Nele são evidentes ranços de superstição, magia, ritualismo, arcaísmo; à pessoa de Jesus Cristo nem sempre se atribui o lugar que lhe cabe, como centro da fé cristã... (A Evangelização no Brasil, Dimensões Teológicas e Desafios Pastorais, Antônio Alves de Melo, Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, 1996, pág.235-238).
      Trazendo esse mesmo conceito  para um universo evangélico pentecostal, posso afirmar sem medo de errar que estamos diante de situações muito parecidas com as que ocorrem no  mundo católico. E aqui não se trata de pentecostalismo histórico e neo-pentecostalismo. Trata-se de um fenômeno relativamente novo, que envolve o pentecostalismo brasileiro, proponho portanto que o chamemos de pentecostalismo popular.
    O mundo protestante e evangélico como um todo sempre foi muito mais impermeável às expressões populares livres, do que o mundo católico, por três motivos: Em primeiro lugar pela sua ênfase nas Escrituras, uma herança do “Sola Scriptura” da Reforma, o que evitou muitos desvios e disparates, pois havia a ênfase no direcionamento Escriturístico, mesmo tratando-se de líderes leigos; em segundo lugar, por não constituir uma massa tão grande de pessoas, cuja participação no meio se dava por conversão, normalmente genuína, e não por adesão como ora, muitas vezes se vê; e em último lugar, por ainda não haver o domínio do mercado evangélico por empresas com grande voracidade pelo lucro, e com pouco ou nenhum compromisso com a herança do “Sola Scriptura”.
   
     Mas agora... o universo evangélico se tornou um mercado interessante, as Escrituras estão sendo substituídas pelos jargões pragmáticos e frases de efeito... é um tempo em que as expressões da religiosidade popular começam a tomar conta das mentes e competir, ou às vezes substituir,  as expressões institucionais da fé, e tendo em vista as facilidades da comunicação, espalham-se muito rapidamente e tomam os púlpitos e as assistências das igrejas.
      Trago alguns poucos exemplos, mas que nos dão uma noção bem clara do que estamos falando.  Consultei no Google algumas expressões desse pentecostalismo popular, e vejam o que encontrei:
·         Sapato de fogo    (Aproximadamente 534.000 resultados);
·         Divisa de Fogo  (Aproximadamente 517.000 resultados) e
·         Varão de Fogo (Aproximadamente 388.000 resultados).
     Em primeiro lugar surpreende um tão grande número de hinos, discussões, apresentações, questionamentos, defesas,  argumentações sobre expressões apócrifas, inexistentes no contexto bíblico e na doutrina cristã tradicional.  Sinceramente me esforcei para lembrar se no meu tempo de Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste, estudando com o venerável mestre canadense Thomas W. Fodor, velho missionário pentecostal, em algum momento falamos dessas expressões ditas “pentecostais”. Não consigo me lembrar de nada parecido!
    Andei  folheando a bíblia, até em versões pentecostais, e não me foi oferecida alternativa para tais expressões. Só tem uma explicação: estamos diante de um fenômeno, o pentecostalismo popular.
    Olhei mais detidamente (no Google) e percebi que um irmão canta o hino “Sapato de fogo”, e numa das estrofes ele diz:
Eu calcei sapato de fogo, não posso me controlar!
É que o varão do movimento chegou pra movimentar!
   Sinceramente me esforcei para encontrar pelo menos uma distante analogia bíblica que me permitisse explicar o dito “sapato de fogo”, não consegui. Não tenho dúvida que alguém vai orar por mim para que os meus olhos espirituais sejam abertos, como os do moço de Eliseu (II Rs 6.17). Mas se os meus olhos forem abertos verei cavalos e carros de fogo! Exceto se os cavalos estiverem calçados com sapatos de fogo!!! E isso não posso inferir do texto!




    Um outro campeão de registros é “Divisa de Fogo”. Parece-me que um grupo denominado Fogo no Pé, tem os direitos autorais dessa canção. Imagino que estejam todos vinculados, porque quem tem Fogo no Pé, é porque calçou Sapato de Fogo!!
 Deus de fogo, Deus de fogo
Que abriu o Mar Vermelho
Deus de fogo, Deus de fogo
Que não deixa ninguém tocar
Num fio do teu cabelo
Deus de fogo, Deus de fogo
Que te chama pelo nome
Eu nunca vi, o justo mendigar um pão
Nem sua descendência passar fome

Divisa de fogo
Varão de guerra
Ele desceu na Terra
Ele chegou pra guerrear

      Ainda estou tentando entender o nexo semântico da expressão “Divisa de Fogo”. Cheguei à conclusão que no pentecostalismo popular não é necessário a busca de sentido e nexo das coisas. Desisti de entender. É a expressão em si, Divisa de Fogo, que na verdade não quer dizer nada, mas quer apenas incendiar  a imaginação de quem canta. Uma espécie de isqueiro espiritual.
      Cumpre-nos ainda comentar sobre o “Varão de Fogo”. Uma irmã canta esse hino, que vale a pena reproduzir, pelo menos um trecho:
Varão de fogo, varão de guerra,
Sinta o toque desses anjos que acabam de chegar
Olha ai quem vem chegando e tem fogo em suas mãos
E com ele vem marchando um exército de anjos,
Eles cantam santo, santo, santo é o SENHOR!

Sinta o toque desses anjos que acabam de chegar
Muitos anjos estão marchando em meio a multidão,
Canta agora no espirito e profetiza meu irmão,
A bandeira da vitória o anjo traz em suas mãos.
     Alguns encontram a base bíblica para um varão de fogo em Dn 3.25,o Quarto Homem da Fornalha de Fogo Ardente. Mas a característica desse homem, segundo Nabucudonozor é que Ele é semelhante ao filho dos deuses. Não precisa estar de posse de um comentário bíblico para se intuir que semelhante ao filho dos deuses não quer dizer Varão de Fogo. Seria forçar demais o significado do texto em sua simplicidade.
    Se a canção quer reproduzir alguma coisa da Visão de Isaías, no capítulo 6, estamos de uma salada mais maluca do mundo, e mais uma vez nem dá para caminhar nas comparações porque a minha capacidade intelectual é muito restrita para forçar a barra nos textos sagrados.
   Citar-me-ão Hebreus 12.29: “Porque o nosso Deus é um fogo consumidor”. Trata-se de uma metáfora, Deus como inspirador de santo temor.
    Vou parar por aqui. Não vejo problema que o pentecostalismo se vincule ao símbolo do fogo pela ênfase na ação do Espírito Santo, que desde Zacarias (cap 4) é simbolizado no azeite e no fogo. O problema está na exacerbação da temática “fogo”. E isto sim, é uma manifestação de um pentecostalismo popular.
     Para quem lê o texto bíblico, encontraremos, em qualquer versão utilizada algo muito próximo disso:
   - E foram vistas por eles línguas repartidas como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles (At 2.3);
- E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os olhos, como chamas de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivesse sido refinado numa fornalha... (Ap 1.14-15)
    Comparações, símiles, são figuras de linguagem, não devem ser entendidas em sua literalidade.  Cheguei a duas explicações plausíveis acerca do aparecimento e crescimento do pentecostalismo popular,  o primeiro é de natureza intelectual, e o segundo de natureza econômica:
a)       Os especialistas em desenvolvimento infantil e educação tem pesquisado exaustivamente acerca de dificuldades com a linguagem figurada, e o pensamento de forma concreta, presente em crianças e até adultos com determinados problemas de desenvolvimento. Eles interpretam toda a  linguagem literalmente, se disser que algo é “moleza” ele vai entender que há algum objeto mole ali, quando o que se quis dizer foi que  “aquilo será uma coisa fácil de fazer”. Quando se diz que “está chovendo canivetes”, ele acredita que canivetes possam cair do céu. Figuras de linguagem, metáforas, comparações não são compreensíveis. Quando se fala em fogo, o infante espiritual concretiza seu raciocínio nas chamas, e ainda agrega acessórios como sapatos de fogo;
b)      Infelizmente se explica muita coisa pela lógica de mercado. Alguma coisa vende? Vai ter lucros? Não importa se vão ser “500° de Puro Fogo Santo e Poder” (só não sei se utilizo a escala em Celsius ou em Fahrenheit, isto não ficou claro na proposta),  se intitulamos “Varão de Fogo”, “Sapato de Fogo” ou “Divisa de Fogo”. O que importa é que vende, e que o cantor vai ser contratado a peso de ouro, nos eventos pentecostais pelo Brasil inteiro.


       Não queria ser engraçado, nem sarcástico, reconheço que fui irônico, mas com objetivo didático. Não estou com vontade de rir. Estou com vontade de chorar. Chorar muito.  Isso quer dizer que precisamos erguer, não a “Divisa de Fogo”, mas a Divisa reformada do “Sola Scriptura”. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A Vida na Sarjeta, A Roupa Nova do Rei e o Rock in Rio 2015

     Em mais uma dolorosa crise de hérnia de disco, que me obrigou a tirar licença do trabalho, e ficar deitado por muitas e muitas horas, fiz algumas leituras, dentre as quais o livro “A Vida na Sarjeta – O Círculo Vicioso da Miséria Moral”, do médico inglês Theodore Dalrymple. É uma leitura instigante, provocante, da qual não se sai ileso, me vejo obrigado a escrever algumas linhas a respeito dessa obra corajosa e verdadeira.
   Digo que é um livro corajoso porque ousa falar do que está posto, de forma crítica e cristalina, me fez lembrar a criança do conto "A roupa nova do rei", de Hans Christian Andersen, que grita espontaneamente: O Rei está nu!!!

  Vale a pena relembrar:

. Um dia, um alfaiate espertalhão deu-lhe o seguinte conselho:
- Majestade, é do meu conhecimento que apreciais andar sempre muito bem vestido, como ninguém; e bem o mereceis! Descobri um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um manto assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes das pessoas tolas, parvas e estúpidas que não servirão para a vossa corte.
- Oh! Mas é uma descoberta espantosa! - respondeu o rei. - Traga-me já esse tecido e faça-me a roupa; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.
    O alfaiate aldrabão tirou as medidas do rei e, daí a umas semanas, apresentou-se, dizendo:
   - Aqui está o manto de Vossa Majestade. 
   O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu:
    - Oh! Como é belo!
   Então o alfaiate fez de conta que estava vestindo o manto no rei, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas:
    -  Vossa Majestade está tão elegante! Todos vos invejarão!
    A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um manto que só os inteligentes eram capazes de ver. Um dia, o rei decidiu sair para se mostrar ao povo, desfilando pela cidade, com sua comitiva real acompanhando.
    Toda a gente fingia admirar a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:
   - Olha, olha! O rei está nu!”

     O psiquiatra inglês aposentado, que na verdade se chama Anthony Daniels, mas escreve sob o pseudônimo de Theodore Dalrymple,  já exerceu a medicina em situações extremas em áreas de risco na África, América do Sul, e em seu país, a Grã Bretanha. Seus escritos são o resultado de sua reflexão na lide diária com pacientes a quem ele prestou atendimento e acompanhamento.
     Dalrymple constata que estamos numa sociedade que retira a responsabilidade da maior parte das ações dos indivíduos. Tudo tem uma explicação oriunda nas ciências sociais, seja na história (de preferência de viés marxista), na sociologia, ou na psicologia. Adolescentes grávidas, filhos ilegítimos, mulheres que apanham de seus parceiros, o insucesso escolar e consequentemente profissional, a criminalidade, a vida nas ruas, a plena e ampla desestrutura familiar... tudo isto já foi explicado por alguma tese, ou por uma “escola” que busca “amparar” o ser humano totalmente frágil, débil e à mercê das forças sociais que agem sobre ele.
     As pessoas e suas ações são, na nossa sociedade, vítimas das elites, das desigualdades, das injustiças.  Se uma adolescente engravida ainda na idade escolar, a culpa é da sociedade que não a apoiou corretamente. Se um assaltante lhe rouba e lhe fere, ele é uma vítima das forças históricas desse país de 300 anos de colonialismo português.
   Tudo pode ser academicamente explicado. Pilhas de livros se somam às centenas de teses inéditas que entopem as prateleiras das bibliotecas de pós graduação das universidades, fruto do debruçar constante sobre esses temas que nos angustiam e comovem.
   A proposta de modernidade, lançada na Revolução Francesa norteia a maior parte do raciocínio dos nossos intelectuais, cujas ideias predominam não apenas na academia, mas na mídia em geral, e são assimiladas prontamente por uma multidão de pessoas incapazes de esboçar o mínimo de senso crítico.  A educação tradicional, a fé, o universo familiar tradicional, os valores  absolutos... tudo isto deve ser lançado na lata de lixo da história, como uma baboseira retrógrada. Um novo mundo não comporta mais essas velharias.
    Um mundo novo, conforme pensava Rousseau, vê o homem com sua essência de bondade, que precisa se desfazer dos padrões tradicionais para viver em sua plena liberdade e potencialidade.

    Mas o homem bom dos iluministas, guiado pela razão, que passa a ser sua única religião, o homem que desdenha da divindade e de suas leis, o homem cujos valores são relativos e dependem da situação, o homem cujo desejo é o que dita seu “estar no mundo”, não interessa quem o rodeia... Este homem moderno guiado pelas ideias de nossos intelectuais não parece que criou um mundo ideal.
    Mas o caos no qual nos encontramos, não é culpa deste homem. O caos é culpa das forças da história, ou talvez  do Estado que não cuida do povo como dizia.
   O grito infantil de Dalrymple, como o menino do conto de Andersen, O Rei Está Nu, ecoa incomodando todo mundo. Há sim, responsabilidade de cada indivíduo. Não se deve ir buscar os responsáveis pelos erros e equívocos na sociedade ou no passado histórico, deve-se buscar em primeiro lugar a responsabilidade de cada indivíduo.
   Um intelectual diria que estamos falando do óbvio ululante, mas este óbvio não é mais tão óbvio assim. As explicações acadêmicas e cultas protegem os indivíduos que argumentam que foram arrastados para determinada situação, que A, B, ou C são os verdadeiros culpados. Os protagonistas não agem, são agidos. São pobres marionetes passivos puxados pelos cordões inexoráveis do destino.
   Me identifiquei de uma forma muito forte com o argumento de Dalrymple, porque a minha história valida o seu raciocínio. Eu venho de uma família muito pobre dos morros da zona norte do Recife. Minhas duas avós eram lavadeiras. Ocupação inexistente nos dias de hoje. Meu avô paterno limpava os esgotos da cidade, foi o melhor que ele conseguiu como migrante pobre da área rural de Alagoas para Recife. Meu avô materno era trabalhador na construção civil.
    Meus pais se casaram e compraram uma casinha no Córrego da Jaqueira. Na minha infância e adolescência a ruazinha tranquila foi se tornando violenta. As drogas e a delinquência de forma geral se instalaram brutalmente em nossa periferia. Não havia muita expectativa em torno de nós. Garotos muito cedo abandonavam a escola e aderiam à vagabundagem e marginalidade. Alguns foram assassinados em plena adolescência.
    Mas valores hoje ultrapassados eram cuidadosamente cultivados em nosso lar. Em primeiro lugar tínhamos pais, ambos. Mas isso parece muito careta não é? Uma família tradicional. Depois tínhamos valores. A educação era um deles. Eu estudava próximo ao centro da cidade. Tomava o ônibus de manhã cedo. O ônibus vinha lotado, muito lotado mesmo. Mas nunca me passou pela cabeça abandonar os estudos.  O trabalho era outro valor inegociável. Minha mãe começou a trabalhar quando eu tinha 12 anos, para ajudar na renda familiar. Nunca esperamos que alguém nos desse qualquer coisa. O que conseguimos era sempre fruto de nosso trabalho. Nunca esperamos nada do Governo. E tínhamos a fé. Nossas crenças eram resultado de nossas experiências de fé, que nos impulsionavam a ir adiante confiando em Deus, e temendo a Ele. Não havia espaço para fazermos as coisas erradas. Mas falar de fé em tempos modernos é complicado, não é?

     Dalrymple você está certo: A maior pobreza de nossa sociedade é a pobreza moral e espiritual. Não fui um caso de insucesso por ter nascido pobre.  Fizemos escolhas certas a partir de valores que nos foram passados por nossos pais.  Frequentei a universidade, em cursos de graduação e pós graduação. Fui aprovado em concurso. Conquistei um espaço no mundo. Casei, tive filhos, constitui uma nova família. Meus filhos estão seguindo nossos passos. Estou escrevendo estas linhas, porque tenho uma habilidade mínima para concatenar ideias e pensar por mim mesmo. Nós somos protagonistas da nossa história, responsáveis pelos erros e acertos.
    Enquanto escrevo estas poucas palavras, uma multidão de pessoas se acotovela no Rio de Janeiro para o grande evento Rock in Rio 2015. A imprensa nacional e internacional faz ampla cobertura do evento. Gente do país inteiro correu para o Rio para ouvir de perto sua banda favorita.
    Ficamos escandalizados porque muitos jovens da atualidade são verdadeiros bárbaros, sem qualquer resquício de educação ou civilidade. Falamos tanto em tolerância, mas experimentamos os mais diversos tipos de intolerância por nossas diferenças, sejam elas de gênero, de raça ou de fé. Queremos uma sociedade mais justa, e mais sensível.
     Mas quem vai ao Rock in Rio 2015, vai ouvir a banda nacional “Ultraje a Rigor”, ultrajando a educação tradicional e os bons modos.  Vai se deliciar com o visual demônio louco da banda americana Motley Crue... Fico imaginando o que esse povo vai transmitir para seus ouvintes... Mas como um mundo moderno decreta o fim da fé, eis a proposta da banda “Faith no More”. Para estremecer as estruturas de alguém que esboce algum cristianismo, a expressão cristã “Cordeiro de Deus” dá nome à banda americana “Lamb of God”, em uma de suas canções “Walk with me in hell”, alguém é convidado a “andar com o outro no inferno”.



     Eu e Dalrymple nos perguntamos: Alguém acha que essas ideias são somente ideias? Nunca se transformarão em ação na mente de alguém menos equilibrado? O Rei está Nu, mas o Rock in Rio é o grande evento do ano... deixará marcas indeléveis em quem foi, ou em quem está acompanhando pela televisão. Semana que vem teremos os primeiros resultados: de gravidez indesejada a suicídio. É muita pobreza moral... 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Uma Lógica inversa: Um novo toque

     Todos os evangelhos sinóticos narram a história da mulher do fluxo de sangue, que constitui um incidente no caminho de Jesus para a casa de Jairo, príncipe da Sinagoga. Uma mulher que sofre por 12 anos de uma hemorragia. Que gasta tudo com médicos em busca de sua cura... sem sucesso.
     Para entender o sofrimento daquela mulher, que não é apenas físico, mas também psicológico, precisamos entender o que a Lei de Moisés previa para uma mulher numa situação daquele tipo, isto é, com fluxo constante de sangue:
   “Também a mulher, quando manar o fluxo de seu sangue, por muitos dias fora do tempo da sua separação ou quando tiver fluxo de sangue por mais tempo do que a sua separação, todos os dias do fluxo da sua imundícia será imunda, como nos dias da sua separação. Toda cama sobre que se deitar todos os dias do seu fluxo ser-lhe-á como a cama da sua separação; e toda coisa sobre que se assentar será imunda, conforme a imundícia de sua separação. E qualquer que as tocar será imundo; portanto, lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.” Lev 15.25-27

    A doença tinha um caráter de impureza, para cujas leis de higiene era exigido que a pessoa com tais sintomas tivesse que se isolar. Quem a tocasse ou em que ela tocasse seria imundo. O isolamento social traz uma angústia, uma tristeza por ter suas potencialidades tolhidas. E o seu toque transformava tudo em impuro, imundo.

   Ela então “ouve falar de Jesus”. A fama do Mestre de Nazaré em sua simplicidade, mas em seu testemunho de “Mestre vindo da parte de Deus”, chega aos ouvidos da mulher sofrida e esgotada. Surge então uma nova esperança. Stenio Marcius capta a expectativa da mulher na canção “Alegria sem medida”:
Eu vou poder amar de novo como antes
E celebrar a recompensa dos amantes
Tomar no colo os meus filhos sem receio
Voltar a ser de minha casa adorno e esteio

Quero correr feito menina entre as parreiras
E me deixar levar nas velhas corredeiras
Quero esquecer os doze anos e os tormentos
E que gastei inutilmente os meus proventos

Sinto chegar uma alegria sem medida
Sinto que agora vou saber o que é vida
Serei curada de maneira inconteste
Se eu com fé tocar na orla de suas vestes”
      A fé descortina a possibilidade do sobrenatural, abre caminho para uma nova lógica, até então nunca cogitada. A mulher crê que será curada se tocar na orla das vestes de Jesus. Ora como seria possível um toque que possibilitaria a cura, se até então tudo que ela tocasse se tornava impuro?
        Uma lógica nova, um toque que purifica, transforma, cura... o toque em Cristo.
     Os leprosos constituíam um outro grupo de pessoas isoladas. Não podiam ter contato com as pessoas, muito menos tocá-las. Jesus tocou o leproso e o curou (Mt 8.3).
     Cristo estabelece uma nova lógica: Toques que curam, que transformam, que saram... quando o que se espera são toques que transmitem impureza, imundície.
     O que transmite o nosso toque? Ou quando somos tocados, o que acontece conosco? Somos corrompidos? Nos tornamos sujos tal qual aquele que nos tocou? Somos contaminados pela impureza da maldade, maledicência, imoralidade, incredulidade...?
    Não era assim com Jesus! O seu toque ou o toque de alguém que o tocava, não mudava sua natureza e característica, isto é, não o tornava impuro, ou doente. Pelo contrário, quem o tocava, ou quem ele tocava é quem era transformado! Por isso ele podia ir à casa de Zaqueu, ou comer com os amigos publicanos de Mateus e não se transformar em um deles, em vez disso, mudar suas vidas.
     Mas Jesus sabia exatamente quem ele era, e qual era sua missão! E nós? Sabemos quem somos? Sabemos qual a nossa missão neste mundo? Isto é definitivo para o resultado de nosso toque, ou do toque de alguém. Nosso toque ou transforma alguém ou resulta em nossa transformação. O verdadeiro seguidor de Cristo pode tocar e ser tocado, porque é alguém transformado para transformar o mundo!
      

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Raabe, uma mulher de fé... precisando entender a graça


  A história de Raabe é muito conhecida entre os estudantes ou curiosos que leem a Bíblia, tanto aqueles que creem na Bíblia como Escrituras Sagradas, quanto aqueles que a estudam como Literatura Antiga. O capítulo 2 do livro de Josué relata uma história inusitada:
  Dois homens são enviados por Josué para espiarem a cidade de Jericó.  Foram e entraram na casa de uma mulher prostituta (zanah, em hebraico), cujo nome era Raabe, e dormiram ali. Embora não haja sugestão no texto que os espias israelitas tenham usufruído  dos favores sexuais da anfitriã, fica claro que o local deveria ser movimentado, por isso os espias o escolheram para passar a noite, pensando não serem percebidos na cidade.
    Mas alguém deu notícia ao Rei, de que estrangeiros israelitas estiveram na cidade e pernoitavam na casa de Raabe. Enviou então o Rei a Raabe em busca dos espias hebreus.  Ela então os escondeu no telhado, e disse aos homens do Rei que  homens estrangeiros, que ela de fato não sabia de onde eram, haviam estado em sua casa, mas haviam se retirado antes que as portas da cidade se fechassem.


    Indo embora os emissários reais, Raabe subiu ao telhado onde havia escondido os espias israelitas e fez uma declaração de fé tão profunda, que garantiu a uma prostituta cananéia um lugar entre os heróis da fé da crença judaico-cristã. Ainda hoje, cristãos lembram-se de Raabe, ao lerem o seu exemplo no livro de Hebreus (11.31):
     Pela fé, Raabe, a meretriz (he pornê, em grego) não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias.
     Vale a pena analisar novamente a argumentação de Raabe, que na verdade, é uma grande profissão de fé de uma gentia, que não acompanhara os atos de Yahweh no Egito ou no deserto, que não conhecia os meandros da lei e do culto israelita, cujo conhecimento do Deus de Israel era tão somente das notícias que se tinha acerca dos seus feitos:
    “Bem sei que o Senhor vos deu esta terra e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desfalecidos diante de vós.
    Porque temos ouvido que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito, e o que fizestes aos dois reis dos amorreus, a Siom e a Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.
    O que ouvindo, desfaleceu o nosso coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque  Yahweh vosso Deus é Deus em cima nos céus e em baixo na terra.” (Jos 2.9-11)
   Estas mesmas palavras são utilizadas por Moisés, no final de um discurso no qual ele lembrou que a Israel Yahweh foi revelado, fez ouvir a sua voz desde os céus, e através da reflexão eles chegariam à conclusão que Yahweh é Deus em cima no céu e embaixo na terra (Dt 4. 35-39).
    A fé é um elemento absolutamente claro e presente no discurso de Raabe. Ela crê, num Deus invisível, e que não houve nenhuma revelação especial dele a ela, ou a seu povo. Apenas ela ouviu dos seus feitos e creu. Que Yahweh, o Deus de Israel é Deus em cima nos céus e em baixo na terra. Que era fato que a cidade de Jericó seria capturada pelos filhos de Israel, pois Yahweh estava com eles. A demonstração de fé de Raabe foi tão marcante que o escritor da epístola aos Hebreus fez questão de relembrar sua atitude, que tão claramente ilustra o conceito de fé:  A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem (Heb 11.1).
     A história prossegue e seu desenrolar deixa-nos claro que a mulher de fé também é uma mulher de negócios. Acostumada a negociar favores sexuais, e transacionar diariamente no mercado do sexo, Raabe busca fechar um negócio com os espias israelitas. Já tinha um trunfo em sua mãos, que foi ter salvado suas vidas das mãos do Rei de Jericó.  E o negócio em questão não era sexo, nem dinheiro. Era a vida. A vida dela e de sua família estava em jogo!
     E Raabe, a meretriz, a mulher de negócios, apresenta sua proposta:
     “Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo Senhor, que, como usei de hesed/misericórdia convosco, vós também usareis de  hesed/misericórdia para com a casa de meu pai, e dai-me um sinal seguro, de que conservareis com a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos e a minhas irmãs, com tudo o que têm e de que livrareis as nossas vidas da morte”. ( Jos 2.12,13)
      Algumas traduções não utilizam misericórdia, e sim beneficência para hesed, nesse texto. Talvez beneficência seja mais adequado mesmo, porque estamos falando de um ato de bondade, mas que tem em mente um retorno, uma paga.  Raabe é uma mulher de fé, mas não entendia muito de graça!
     Talvez acostumada a receber antecipadamente por seus serviços, para fechar aquele negócio ela precisava de um sinal seguro, de verdade (emet).  Usando o mesmo linguajar de Raabe, os espias fecham o acordo, informando que usariam com Raabe de hesed/misericórdia e fidelidade (emet).

     A operosidade de Raabe chama a atenção de Tiago que registra em sua epístola, Raabe como autêntico exemplo de alguém que agrega às obras, à fé: “Vedes, então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé. E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários e os despediu por outro caminho?” (Tg 2.24-25)
    Curiosamente ela tanto consta na lista de pessoas de fé, como é exemplo de praticante de obras e ação. Fica claro que suas ações decorrem de sua fé. Não poderíamos esperar de uma cananeia cuja compreensão teológica restringia-se à religião politeísta e “sensual” dos baalins, um entendimento mais amplo do que ela demonstrou de hesed, a palavra por ela usada para explicar o que  ela mesmo fez, e o que ela esperava dos espias.
     Na concepção de Raabe, a salvação de suas vidas era uma questão de troca. Eu ajo com hesed, e como retorno, você age com hesed comigo, ainda que o que esteja em questão sejam vidas. Essa é uma concepção tradicional de religiosidade.
    Mas os espias dizem uma coisa que vai além de um negócio entre pessoas humanas. Informam que para que sua contraparte no acordo seja cumprida, eles dependem de uma ação divina: Dando-nos o Senhor esta terra (Jos 2.14).
    Os homens de Israel tinham uma noção teológica mais aprofundada, que eles estariam agindo, buscando fazer sua parte, mas que havia uma dependência maior da permissão e do favor de Yahweh. Parece-nos que este entendimento faltava à meretriz cananeia, que no entanto creu, e agiu. E creu de tal forma, que confiou sua vida numa promessa atrelada a um cordão de fio de escarlata pendente à janela, no muro da cidade (Jos 2.18-21). Na destruição de Jericó, Raabe foi salva!


      Alguns pais da Igreja diziam que Raabe é uma figura da Igreja. Gentia, zanah ou porné, com concepções muitas vezes equivocada, mas cheia de fé, e pronta a agir, a abandonar o seu povo, como o Pai Abraão. Embora a salvação não esteja atrelada a um entendimento teológico plenamente correto, e sim à fé em nossos corações, e à graça daquele que a concede; que possamos ir além da compreensão de Raabe, de uma troca de hesed, e uma busca de emet (verdade, fidelidade). O relacionamento com Yahweh leva-nos a uma dependência tal com a divindade que nos faz compreender que nossa salvação advém  do fato de que “Achamos graça (hen) aos olhos do Senhor” (Gen 6.8)...  Esta noção Raabe não tinha, e sobre isto, poderemos falar depois...