sábado, 6 de junho de 2015

O desafio da tolerância: O retorno de Hagar

    Ambiente familiar é o lugar onde se desenrolam os mais diversos dramas humanas. Tanto os mais sublimes sentimentos e atitudes são observados na intimidade dos lares, quanto as mais terríveis picuinhas e demonstrações de mesquinhez e maldade, os quais  são capazes a alma humana de natureza adâmica.
   O livro dos começos, Bereshit, na língua hebraica, ou simplesmente Gênesis, como o conhecemos do grego, é cheio de narrativas familiares. As primeiras narrativas bíblicas pintam cenas que antecederam a existência de cidades e aglomerações humanas, cenas familiares. Encontraremos cenas de profunda delicadeza, na qual o homem contempla sua mulher e diz “Esta agora é osso dos meus ossos e carne da minha carne...” (Gn 2.23), romântico e sensível!  Mas encontraremos a seguir um irmão invejoso matando o seu irmão mais novo, tornando-se o primeiro homicida (Gn 4.8). O texto sagrado nos mostra que atentar contra a vida do próximo é sempre atentar contra a vida do seu irmão, afinal somos todos filhos de Adão.
     Mas não se imagine que apenas a primeira família teve seus desastres. A família de Noé também teve suas confusões (Gn 9.22). Chegamos então à família de Abraão. Tensões decorrentes de infertilidade, um sobrinho rico cujos rebanhos compartilhavam os mesmos recursos naturais (Gn 13.6)... As famílias patriarcais não podiam reclamar de tédio!

    Para resolver seu problema de infertilidade e garantir descendência a Abraão, Sara decide que sua escrava egípcia Hagar seria dada a Abraão como mulher e teria um filho em nome dela (Gn 16.1-3).

    Moça nova e bonita, com os hormônios à flor da pele, e sadia sob o ponto de vista do seu aparelho reprodutor, Hagar logo engravida.  Guardando o filho de seu senhor no ventre, coisa que sua senhora nunca havia logrado êxito, Hagar agora não se via mais como uma simples escrava, ou dama de companhia de Sara. Ela agora era tão senhora como sua senhora! Afinal trazia o filho de seu senhor dentro de si. Aquele que um dia seria herdeiro de tudo aquilo.
    Ferida em seu orgulho, Sara se sentiu diminuída, humilhada por sua escrava, que em sua juventude e prenhez lhe desprezava com o olhar (Gn 16.4). Indignada vai falar com Abraão. Grita, xinga, diz que a culpa é toda dele  (que também agora só queria ficar com a escrava novinha). Põe o seu erro no colo de Abraão (meu agravo seja sobre ti). Pede que Deus julgue entre os dois (Gn 16.5).
    Abraão conhecendo a alma feminina sabia que não valeria a pena discutir nem argumentar com a fera ferida. Devolve Hagar pra Sara, e diz que ela faça com a escrava o que bem entendesse. Furiosa, Sara aflige Hagar. Uma mulher sabe como provocar sofrimento em outra. Uma mulher sentindo-se ofendida tem muitos recursos para humilhar e fazer sofrer alguém. Não suportando as humilhações, Hagar foge de casa. 
     Um anjo do Senhor a encontra no deserto, junto à fonte no caminho de Sur (Gn 16.7), e lhe dá uma ordem pouco animadora:  “Torna-te para tua senhora e humilha-te debaixo de suas mãos”.  Como voltar para casa? Um lugar que havia se tornado de difícil convivência! Sara tornara sua vida um inferno! Como voltar? Melhor morrer que voltar ao palco do sofrimento! Mas o anjo insiste! Volta para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos.
    Uma Hagar bem resolvida e decidida precisava se humilhar. O orgulho de sua gravidez precisava dar lugar a uma humildade sincera de respeito a sua senhora. E isto tornaria possível a convivência entre as duas mulheres. Hagar retorna...
   O retorno de Hagar é sinônimo do desafio da tolerância. Viver no mesmo espaço com alguém que no passado já lhe humilhou. Viver no mesmo espaço com alguém que tem grandes reservas a sua pessoa. Esse foi o desafio imposto a Hagar, que só se tornou possível mediante a humilhação.
    Por outro lado, não foi muito simples Sara receber de volta a mulher que seria mãe de um filho que agora, ela já não mais considerava que seria seu, mas o filho de Abraão com a “Sirigaita” da Hagar. Ver Hagar andando para cima e para baixo carregando o filho que ela nunca pôde ter, continuava sendo humilhante. E constatar que a barriga estava crescendo, e Abraão de vez em quando queria notícias do “seu filho”. Para Sara também foi um exercício de tolerância. 
   Fico imaginando Abraão, ter que tolerar essas duas mulheres. Não deve ter sido fácil! Tempos depois o filho de Abraão e Hagar nasceu. Ainda conviveram juntos por mais de 15 anos... Tolerando um ao outro.
    Somos família de Deus, não muito diferente das famílias patriarcais. O apóstolo Paulo em mais de uma epístola nos traz a exortação de “suportar uns aos outros  em amor” (Ef 4.2) e Colossenses 3.  É o desafio da tolerância em pleno século XXI.
   Em nossos rompantes de mesquinhez e carnalidade, façamos como Hagar, que deu ouvidos à voz do Anjo “Volta para tua senhora, e humilha-te debaixo das suas mãos.” 
      Concluo com o texto de Paulo aos Colossenses, não precisa comentar:
    “Revesti-vos, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como Cristo os perdoou, assim fazei vós também. E sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.” (Col 3.12-14)

terça-feira, 26 de maio de 2015

Epichoregein, entendendo o nosso papel na Economia da Salvação


Em tempos de discussões acaloradas sobre posições soteriológicas, que fazem a festa dos seminaristas ávidos por uma boa causa, e dividem grupos anteriormente unidos tornando-os de repente combatendo em campos distintos, sem saber exatamente qual o motivo da beligerância e qual o inimigo a combater, trago do início da história da Igreja uma palavra da Segunda Epístola de Pedro, que definitivamente não conhecia de grego como nossos teólogos e exegetas modernos conhecem. Pelo menos a primeira carta ditada por Pedro foi escrita por Silvano (I Pe 5.12), a segunda não sabemos. Pelo estilo definitivamente não foi o mesmo copista.
                                           (Pedro na prisão, Rembrandt, Israel Museum)

      Epichoregein é traduzido pela ordem “associai”, em II Pe 1.5: “vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, associai à vossa fé a virtude, e à virtude, a ciência... ”  Para entendermos o que Pedro quer nos ensinar precisamos iniciar lendo o texto a partir do versículo 3:
“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude,
Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que, pela concupiscência, há no mundo,
E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, associais à vossa fé a virtude, e à virtude, a ciência...”
     Permita-nos continuar no versículo 10:
“Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis.
Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.”
     Não é necessário fazer nenhum tipo de malabarismo semântico ou hermenêutico para entender que a eleição falada no versículo 10 está descrita cuidadosamente no versículo 3: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude”. Eis um conceito simples e direto do que seja eleição. Ele nos chamou e nos deu tudo o necessário para a salvação. Não acho que Eleição seja uma palavra perigosa, ou que deva ser evitada, afinal é utilizada claramente no texto bíblico, obviamente em sintonia com os escritos paulinos de Romanos 9, Efésios 1, e outros.
      Para esclarecer melhor o termo, utilizo um trecho (pag. 53) do livro de D.A.Carson “A Difícil Doutrina do Amor de Deus” (2012), editado pela Casa Publicadora da minha denominação, com aprovação pelo Conselho de Doutrina:
 A soberania de Deus se estende à eleição. A eleição pode se referir à escolha de Deus da nação de Israel, ou à sua escolha do povo de Israel ou à escolha dos indivíduos. A escolha de Deus dos indivíduos pode ser para uma missão específica. A eleição é tão importante para Deus que ele preferiu escolher o mais jovens dos dois irmãos, Jacó e Esaú, antes deles nascerem e, portanto, antes que um deles tivesse feito algo de bom ou de ruim, “para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme” (Rm 9.11).
Até mesmo as maneiras altamente diversas pelas quais os novos convertidos são descritos no livro de Atos, refletem o modo confortável e desembaraçado pelo qual os escritores do Novo Testamento se referem à eleição. Frequentemente falamos sobre pessoas que “aceitam a Jesus como seu Salvador pessoal” palavras não encontradas nas Escrituras, embora não seja necessariamente errada como uma expressão sintética. Mas o livro de Atos pode sintetizar algum evangelismo estratégico relatando que “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (At 13.48). Escrevendo sobre os cristãos, Paulo diz que Deus “nos elegeu nEle [isto é, em Cristo] antes da fundação do mundo... [Ele] nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo”(Ef 1.4,5; cf. Ap 13.7,8; 17.8). Certamente, Deus escolheu os convertidos tessalonicenses desde o princípio para serem salvos (II Ts 2.13).
     Parece-nos claro que Pedro falava que os irmãos para os quais ele destinara a carta foram eleitos. E não apenas foram eleitos, mas receberam uma vocação, descrita nas “grandíssimas e preciosas promessas, para que por ela fiqueis participantes da natureza divina”. A eleição tem por finalidade a vocação. Vocação de ser participante da natureza divina. Parece-nos familiar com o “Cristo que vive em mim paulino” (Gl 2.20).
     Na Economia da Salvação, Pedro está esclarecendo o que Deus faz. Praticamente tudo! Aliás é esta palavra usada pelo autor: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida...”  Elege, vocaciona, concede promessas, torna-nos participantes da natureza divina.
     Pedro então se volta para os eleitos: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e a virtude, a ciência...” Eis a parte que nos cabe neste latifúndio (no dizer de um poeta, meu conterrâneo). Algo se espera de nós, e não de forma desleixada, mas com toda a diligência: Epichoregein (Acrescentai).
     Os estudiosos fazem questão de que esclarecimentos sejam feitos a esta palavra estranha. É uma palavra que tem uma história interessante, e remonta aos tempos de Atenas. O estudioso britânico do Novo Testamento William Barclay nos esclarece no seu livro “The Promise of the Spirit” (pág. 59), que uma das maiores de todas as glórias da antiga Atenas era a apresentação das peças produzidas por grandes escritores como Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e Eurípedes. Para a montagem de tais peças altos custos eram envolvidos: os figurinos, as maquiagens, os ensaios de coral, que envolviam até cinquenta pessoas. A disponibilização para patrocinar o evento era chamada de choregia. O voluntário que se disponibilizava a ajudar era o choregos. Epichoregein, portanto era uma ação de generosidade realizada conjuntamente, entre os atores, diretores da peça, o Estado e os patrocinadores. Uma busca de suprir o necessário para a realização de algo.

        Paulo utiliza esta expressão em suas epístolas, normalmente relacionando Deus como o choregos: Em Gl 3.5 “Ele nos concede (epichoregon) o Espírito, (do verbo epichoregein)”; Em Fp 1.19 temos o “socorro (epichoregias) do Espírito de Jesus Cristo, (do substantivo epichoregia)”; Em II Co 9.10 “Aquele que dá (epichoregon) a semente”...
    Epichoregein é algo necessário a ser acrescentado, suprido. Pedro diz que Deus nos deu tudo, mas é necessário que atuemos em cooperação com ele, em epichoregein. Nossa parte não pode ser terceirizada ou esquecida.   E qual é a nossa parte?
     Acrescentar, suprir, adicionar, epichoregein à fé a virtude, à virtude a ciência... e assim continua a lista petrina. A fé já nos foi dada junto ao tudo que nos foi suprido, isto está bem de acordo com Paulo em Ef 2.8  “Porque pela graça sois salvos por meio da fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus”. Mas precisamos com toda a diligência acrescentar à fé a virtude, e à virtude a ciência... É o momento de agirmos como choregos, é a hora de fazermos a choregia. Epichoregein é a ação do cristão na Economia da Salvação. É a pequena parte que nos cabe, pequena mas muito importante.
     Se assim o fizermos estaremos firmando a nossa vocação e eleição (II Pe 1.10). A Epichoregein confirma nossa eleição. Fica claro que se diligentemente não fizermos nossa parte, isto é, Epichoregein, a eleição não se confirma. Michael Green sabiamente ressalta: “Nossa vida radiante deve ser a prova silenciosa da eleição divina” (II Pedro e Judas, Introdução e Comentário, Vida Nova, pág. 71). Quem sabe se aqui, Pedro não está esclarecendo uma passagem paulina não tão fácil de entendimento quanto “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor...” (Fp 2.12)?

      Curiosamente, o escritor sagrado usa novamente a mesma palavra no versículo seguinte (1.11): “Porque assim vos será generosamente concedida (Epichoregethesetai) a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.” Quando diligentemente nos empenhamos em nosso Epichoregein, Ele  generosamente nos concede (Epichoregethesetai) a entrada no reino celeste!
      O capítulo 2 de II Pedro, traz exemplos de pessoas que foram resgatadas mas não fizeram sua parte, Epichoregein, não confirmaram sua eleição e vocação, ou nas palavras de Paulo, não desenvolveram sua salvação. Estes negarão ao Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição (2.1). Durante todo o capítulo Pedro vai falar sobre a situação destes agora falsos doutores, os quais anteriormente haviam sido resgatados pelo Senhor (2.1), haviam escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor (2.20). Aqui vale uma ressalva. Este conhecimento do Senhor (epignosei tou Kyriou) encontrado aqui, é a mesma expressão encontrada no cap. 1.3 “o conhecimento daquele que nos chamou...” (epignoseos tou kalesantos). Epignosis é um substantivo composto, diferente do simples gnosis, utilizado para conhecimento. Os especialistas concluem que epignosis é um conhecimento maior e mais eficiente do que gnosis. Estamos falando de um conhecimento mais profundo da Pessoa de Jesus!
     Concluímos portanto que, pessoas que receberam tudo, pelo divino poder e pela epignosis (conhecimento profundo) do Senhor, chamadas pela glória e virtude do Senhor, recipientes de suas promessas,  que escaparam da corrupção do mundo (II Pe 1.3-4), mas que não atentaram para Epichoregein (para acrescentar à fé a virtude, e à virtude, a ciência, e à ciência, a temperança, a paciência, e à paciência, a piedade, e à piedade, a fraternidade, e à fraternidade, o amor...II Pe 1.5-7) Enfim, não buscaram fazer firme a sua vocação e eleição (1.10)  [parece-nos que eles haviam sido eleitos!?]; O fim destes foi o envolvimento na corrupção do mundo, e seu estado foi pior do que o primeiro (2.20). Mais uma vez Pedro utiliza o termo epignousin (conhecimento profundo do Senhor) para sentenciar: “Porque melhor lhes fora não conhecerem (epignousin) o caminho da justiça do que, conhecendo-o, desviaram-se do santo mandamento que lhes fora dado” (2.21). Estamos falando de gente que de fato conhecia o Senhor, e que por não ter feito sua parte, Epichoregein, desviaram-se do santo mandamento.


    Posso ouvir Paulo dizendo a mesma coisa de outra forma: Aquele que está em pé, olhe não caia (I Co 10.12)... Não é somente uma hipótese, é uma possibilidade real! Está acontecendo hoje! Basta olhar ao redor... Que triste. Portanto, nos empenhemos na nossa Epichoregein!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Em Algum Lugar do Passado

  Fui a Recife e revi muita gente querida. Gente que me viu garoto, gente que me viu crescer. Outros que cresceram comigo. Minhas idas a Recife me deixam sempre nostálgico. O cheiro da água fedorenta do Capibaribe e a visão das pontes centenárias exercem sobre mim um efeito entorpecente e perturbador. Algo como a Sinfonia de Gustav Mahler no personagem de “Em Algum Lugar do Passado”.  Parece que de repente o passado guardado no baú das memórias num quarto dos fundos na minha casa em Fortaleza, ressurge com todo o vigor, ressuscita...

     
                                                         Em algum lugar do Passado

   Olhando o anúncio virtual de um toca-discos retrô, no embalo dessa moda que a cada dia ganha mais espaço, de produtos  visualmente antigos e tecnologicamente modernos, de repente eu senti o cheiro do toca-discos portátil PHILIPS novinho em folha que com muito orgulho meu pai trouxe para casa um dia. Era uma engenhoca fantástica. A tampa do equipamento continha o alto falante. Uma alça camuflada podia ser erguida e facilitar o transporte... Tínhamos uma radiola portátil. Eu me senti importante. Tinha uma radiola na minha casa, onde podíamos ouvir nossos próprios discos. Antes só tínhamos um gravador de fita k7. Para ouvir de novo uma mesma música era necessário apertar a tecla de recuo da fita e ficar testando até checar se estava no ponto.  A radiola era outra coisa...



      Era uma coisa mágica puxar o braço da radiola e o disco de vinil preto começar a girar. Quando quisesse ouvir uma canção novamente bastava colocar a agulha na faixa.  É dessa época que eu tenho lembrança de muitas canções tocadas em nossa radiola. Meu pai tornou-se cliente assíduo da livraria da igreja. Os sucessos evangélicos vinham rapidamente para nossa radiola. São daquela época os LPs “Sigo Cantando”, de Mara Dalila; “Jardim de Deus”, de Matheus Iensen e Irmãs Falavinha; Otoniel e Oziel...


   Lá em casa os discos de vinil estremeciam quando meu irmão Heber aparecia. Com dois ou três anos, ele era uma espécie de Gargamel que aterrorizava, não os azuizinhos, mas os negros LPs  escondidos em suas capas de papelão.  Quando os discos estavam arranhados, então a agulha topava no arranhão e a música parava e ficava repetindo o tempo todo a mesma coisa. Heber adorava esse acidente de percurso. Descobriu então que ele próprio poderia produzir essa maravilha. Então, munido de um grampo de cabelo da minha mãe, atacava os indefesos discos e arranhava-os cuidadosamente. Quando íamos ouvir as canções... Como esquecer a voz adolescente e fresca de Mara Dalila topando no estribilho da canção-tema do seu disco: Sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo, sigo... ? Era para seguir cantando, mas era muito mais interessante o sigo, sigo, sigo.


   Todo mundo em casa já sabia, artes do Heber!  Está vendo? Me lembrei de detalhes de coisas que aconteceram “Em algum lugar do passado”! Ir ao Recife tem esse efeito em mim...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Feliz Natal!!! E o que é o Natal??

        Na TV, a repórter anuncia: “O mundo se enfeita para celebrar o Natal”.  O movimento no comércio é intenso e atinge o pico de vendas não superado por nenhuma outra data comemorativa. Os ônibus e voos estão todos lotados, o vaivém de gente é também o mais intenso do calendário.  Os abraços, presentes e celebrações se espalham dos casebres das favelas das metrópoles às mansões requintadas dos condomínios fechados, só acessíveis aos muito bem favorecidos... Todos com uma palavra nos lábios: Feliz Natal!

     Os mais observadores perceberão símbolos  espalhados por todo lado: Papai Noel, com sua barba branca e roupa vermelha distribuindo presentes, vindo direto do Polo Norte... Pinheiros cobertos de neve, que reforçam o lugar de origem do velhinho e tentam reproduzir um pouco da tundra do Ártico... são as árvores de Natal!  Estes ícones setentrionais,  representantes de lugares gélidos serão reproduzidos nos lugares mais quentes do planeta onde a neve faz parte dos sonhos e da imaginação das pessoas, como os sertões do Nordeste do Brasil ou as praias ensolaradas tropicais. Alguns poucos mais favorecidos,  já experimentaram a neve seja no réveillon em Nova York, seja numa estação de esqui nos Estados Unidos, na Europa, no Chile ou na Argentina.  Ressalte-se que o exótico chama atenção, atrai, é bom de se ver e imaginar...


    Os muito curiosos e criteriosos talvez encontrem  entre a floresta de árvores de Natal e os enormes sacos de presentes de Papai Noel alguns presépios ou mesmo uma grande estrela. Os presépios reproduzem uma cena modesta ocorrida num lugar mais próximo aos trópicos: Um bebê numa caminha de palha, chamada tecnicamente de manjedoura, rodeado por alguns seres humanos e animais de criação como ovelhas e bois, que são engordados para se transformarem em alimento para seus donos... o ambiente é oficialmente chamado de estrebaria.  Vocábulos e uma cena muito rural, bem estranha à comunidade urbana. A simplicidade da bucólica cena campestre não tem nem de longe o magnetismo irresistível dos exóticos ícones lá das distantes regiões próximas ao Círculo Polar Ártico.  
     As empresas há muito deixaram de decorar seus ambientes corporativos com presépios. A cena rural do bebê na manjedoura foi expurgada dos meios empresariais. Essa cena evoca lembranças religiosas. Não é interessante a vinculação da celebração da festa natalina com motivos religiosos. Por isso o Papai Noel e as árvores de Natal serão sempre os ícones escolhidos.
    O Natal, porém, não é um banquete só para os olhos. É também para os ouvidos. Quem deixar-se levar pelo embalo das canções natalinas ouvirá pela voz de Simone: Então é Natal, a festa Cristã. A constatação de Simone é inegável,  o Natal é a festa cristã. E o cristianismo não está no frio das neves distantes. O cristianismo está no relato bíblico do nascimento de Jesus numa estrebaria, em Belém da Judéia, indicado na cena do presépio. Está na natureza que se curva em adoração diante da Encarnação do Verbo Divino. O Deus que se fez homem e habitou entre nós.
    Natal é a confirmação de que Deus se importa com o homem. Natal é o convite para que os homens se reconciliem entre si, e com Deus, convite expresso nas palavras do coral de anjos que ainda ecoa em pleno século XXI:
    “Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens.”
      
      Feliz Natal!!!

sábado, 22 de novembro de 2014

Uma mensagem para cristãos pós-modernos

      Às vezes ficamos atordoados com o cristianismo vivido no século XXI. Pensamos que estamos vivenciando algo inédito, que são características dos tempos pós-modernos.  Nada me espanta mais. Percebi que, pelo menos  na história da igreja cristã pode-se aplicar plenamente a máxima bíblica “Não há nada novo debaixo do sol” (Ec 1.9).
    Gostaria de convidá-lo a ler um trecho de um livro, que achei  absolutamente atual:
“ Quão poucos são os que amam a cruz de Jesus
   Muitos encontram Jesus agora, como apreciadores de seu reino celestial; mas poucos que queiram levar a sua cruz. Tem muitos sequiosos de consolação, mas poucos da tribulação; muitos companheiros à sua mesa, mas poucos de sua abstinência. Todos querem gozar com ele, poucos sofrer por ele alguma coisa. Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos até beber o cálice da paixão. Muitos veneram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz. Muitos amam a Jesus, enquanto não encontram adversidades. Muitos O louvam e bendizem, enquanto recebem d'Ele algumas consolações; se, porém, Jesus se oculta e por um pouco os deixa, caem logo em queixumes e desânimo excessivo.
    Aqueles, porém, que amam a Jesus por Jesus mesmo e não por própria satisfação, tanto O louvam nas tribulações e angústias, como na maior consolação. E posto que nunca lhes fosse dada a consolação, sempre O louvariam e Lhe dariam graças.
    Oh! Quanto pode o amor puro de Jesus, sem mistura de interesse ou amor-próprio! Não são porventura mercenários os que andam sempre em busca de consolações? Não se amam mais a si do que a Cristo os que estão sempre cuidando de seus cômodos e interesses? Onde se achará quem queira servir desinteressadamente a Deus?”
    Onde está você neste jogo de afirmações?
    Agora vem o mais interessante: Quem escreveu este texto?
     Thomas de Kempis, há mais de 500 anos!


        Século XV... Norte da Europa.
     A oeste, França e Inglaterra se digladiavam numa guerra sem fim, que já ia para mais de 100 anos.  Constantinopla encontrava-se sob constante ameaça dos turcos. Na Boemia, a Universidade de Praga era sacudida pela destemida pregação do Reitor Jan Huss, que em 1415 sucumbiu nas chamas da fogueira, condenado por heresia.  Durante quase quarenta anos dois papas haviam disputado o trono de Pedro, um em Roma outro em Avignon, na França. Tempos turbulentos aqueles...
    Servir a Deus significava abraçar a vida religiosa, era sinônimo de deixar a vida comum, e recolher-se no interior dos muros de um mosteiro ou de uma abadia.
    Nascido na pequena cidade de Kempen, no extremo oeste da Alemanha, em 1379 ou 1380, o jovem Thomas foi aos 13 anos estudar em Deventer, na Holanda.  Como era costume  a cidade veio a se tornar parte do seu nome, Thomas de Kempis.  Naquela época um avivamento espiritual estava em andamento nos Países Baixos. Uma nova devoção era pregada, um fervor semelhante aos primitivos cristãos de Jerusalém e Antioquia era observado. Aqueles que aderiam ao movimento eram chamados de “Irmãos e Irmãs Devotos”.  Eles não faziam votos, mas viviam uma vida de castidade, obediência e pobreza. Thomas aderiu ao movimento e trabalhou incansavelmente pelo Reino de Deus. Ajudou a estabelecer uma casa para a comunidade no Monte de Santa Ana, próximo a Zwolle. Depois tornou-se um dos religiosos regulares.

   Ele devotou sua vida à oração, ao estudo, copiar manuscritos, ensinar noviços e ouvir a confissão das pessoas que o procuravam. Quando lhe davam uma posição de autoridade na comunidade ele preferia a quietude de sua cela ao desafio da administração.  Um possível retrato autêntico seu foi preservado com o que deve ter sido seu lema, enquanto em vida: “Em todos os lugares tenho procurado descanso...  não encontrei, exceto em pequenos recantos com pequenos livros”.

      Marcou definitivamente a história com sua obra, hoje traduzida por todo o mundo, como um clássico devocional “Imitação de Cristo”. O trecho 11 do livro Segundo, dessa obra, traz a atualíssima mensagem que lemos acima.

    Morreu em 1471... mas suas percepções ainda continuam atual, no século XXI! A sede da comunidade foi destruída no período da Reforma, mas o espírito do avivamento ainda persiste hoje!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Mistura Paulista: Encerramento e mistura de emoções

   Às vezes eu me surpreendo como certas mudanças não afetam mais a vida das pessoas. Ou pelo menos ninguém acha relevante a ponto de comentá-la. Sexta-feira passada, dia 31 de Outubro, foi  o último dia de funcionamento do Restaurante Self-Service Mistura Paulista, no Centro de Fortaleza.  Assim que soube do encerramento das atividades de uma casa que funcionou por 22 anos fiquei triste, e fiz questão de lá almoçar os dois últimos dias, como uma espécie de despedida... uma elaboração de luto.  Pensei em escrever algumas linhas que demonstrassem meu estado de espírito. A correria cotidiana não me permitiu imediatamente fazê-lo. Porém, agora, freado compulsoriamente por força de uma conjuntivite, não pude mais adiar.
    Talvez alguém tenha escrito algo, talvez não. O Mistura Paulista, não era conhecido como um espaço de boêmios, de poetas, de literatos. Era o lugar onde almoçavam trabalhadores, empregados, executivos, gente de negócios.  Muitos que normalmente não tem tempo de refletir sobre o fechamento de um restaurante, e muito menos de escrever sobre o significado disto para suas vidas. Ou talvez, seja isto mesmo muito supérfluo, até quase imperceptível...
    Acho que sou um ser um tanto estranho, antigo, antiquado, dono de uma sensibilidade ultrapassada, que remonta a uma poesia fora-de-moda.  Por que o drama, se era apenas um restaurante?  Esta é a questão. Pra mim, não era apenas um restaurante. Foi um espaço primordialmente de encontro. Embora o simples fato de ser um restaurante, já indique sua importância para o ser humano:  um lugar de restauração... por isso restaurante, dizem que esse vocábulo, oriundo do francês, vem de “comida restauradora”.
    Além de ser um lugar onde eu era restaurado ao me alimentar com uma boa comida. Era um lugar de encontro, e que fazia me sentir em casa.  Encontro com os funcionários da casa: O mestre churrasqueiro, que já sabia que eu não gostava de carnes, mas apreciava um queijo coalho frito; a moça do caixa, que nem precisava mais perguntar se o pagamento no cartão era no débito ou no crédito, e  a tia, a senhora que nos atendia no primeiro andar, e que eu chamava de Tia.
     Eu sou um fortalezense de apenas 9 anos. Mas o Mistura Paulista foi um dos primeiros estabelecimentos gastronômicos  ao qual eu fui apresentado na cidade. Meu sogro me levou lá, quando eu ainda nem residia em Fortaleza. E vez por outra a agenda dele permitia que almoçasse com um genro assoberbado de trabalho.  Trabalhando na Praça do Carmo, minha frequência no Mistura aumentou muito, bastava virar a esquina da Rua Major Facundo e caminhar até a metade do segundo quarteirão.
    Lembro do Mistura como um lugar de celebração. Quando terminávamos alguns cursos no nosso Centro de Formação, nossa querida GEPES Fortaleza, o Mistura Paulista era o destino de todo mundo da turma no último dia do curso. Íamos celebrar juntos as novas amizades, bem como os conhecimentos adquiridos.  Reservávamos um espaço no primeiro andar, e íamos nós comermos juntos.
    Comer junto é algo sagrado, especial. Nem nos damos conta disso. Não é à toa que o cristianismo celebra sua doutrina central, a morte vicária de Jesus, com uma refeição coletiva. Em Emaús, o mestre recém-ressuscitado é reconhecido no partir do pão. Hoje comemos com tanta rapidez, e tão preocupados com o que vamos fazer depois, que não valorizamos mais este momento único, mágico.

      Ainda há outros para os quais o ato de comer junto não faz sentido, porque a hora da refeição tornou-se o momento de um balanço contábil, onde cada caloria é meticulosamente contabilizada. Então, o sabor da comida é substituído pelo terror do “engordamento”.
     Fico pensando nos amigos que precisavam compartilhar alguma coisa, e meu horário de almoço era disponibilizado, juntamente com um espaço no andar de cima do Mistura Paulista, onde éramos servidos com diligência pela Tia, que servia os mais diversos tipos de sucos, para os paladares mais exigentes.

    Na maioria das vezes eu ia sozinho mesmo. E aí eu tinha um encontro comigo mesmo, e meus pensamentos.  O lindo aquário próximo à churrasqueira trazia-me uma sensação de paz, na selva de pedra da capital cearense.  Vou lembrar sempre do aquário. Recentemente um cardume de peixinhos nasceu, e puseram uma rede no meio do aquário, separando os bebês dos adultos,  acredito que para evitar que os maiores devorassem os pequenininhos. Outro dia eu olhei e vi que a rede já havia sido retirada, os menorzinhos já nadavam junto com os grandes sem ter nada a temer...

     Mas às vezes íamos ao Mistura também nos domingos, principalmente quando nós ainda não tínhamos filhos adolescentes, e a comida por quilo não era tão dispendiosa... Depois da Escola Dominical, comíamos no Mistura e andávamos um pouco pela cidade deserta, caminhando até a Praça do Ferreira, onde dizíamos às crianças: Aqui a mamãe e o papai trocaram seu primeiro beijo de amor.

     Sexta-feira, dia 31 de Outubro foi o último dia. Conversei com a Tia, e ela falou que trabalhava lá desde quando o restaurante foi aberto, há quase 22 anos. Já estava aposentada e ia passar um tempo de”férias”.  Vou sempre lembrar do seu sorriso e presteza. Disse obrigado pela última vez à moça do caixa e fui tomar meu último chocolate quente... Delícia de chocolate quente... vou sentir falta... Mas as memórias não morrem. O Mistura Paulista da Major Facundo vai sempre existir em nossas memórias!