quarta-feira, 10 de julho de 2013

O Deus que se dá a conhecer: a experiência de Moisés e Elias com a Glória (Kabod)


      Como qualquer outro conhecimento, o conhecimento de Deus não se dá de imediato, é um processo, envolve a história das pessoas, e os atos de Deus. É claro que conhecer a Deus é algo muito mais complexo de que conhecer uma casa, um livro, um vizinho. Conhecer pessoas é mais complicado do que conhecer coisas, porque as pessoas podem não mostrar-se quem de fato elas são.
     Conhecer a Deus diz respeito a um entendimento de um  Ser transcendente, a apreensão da natureza do Senhor do Universo. Não nos parece algo muito simples.
     Os agnósticos e os céticos afirmam que o conhecimento de Deus é algo impossível. Na verdade, o conhecimento de Deus só é possível, porque Ele se dá a conhecer.  Por isso Deus diz a Jeremias:  Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer... (Jer 9.23).  O Grande Deus, o Criador de todas as coisas se aproxima e começa a conversar conosco através das palavras e verdades das Escrituras, e do seu agir no nosso dia-a-dia.

     Não se trata apenas de ler a bíblia. Trata-se de ler com o desejo de nos aproximarmos de Deus.  É lendo com a seguinte indagação: Como é que Deus me fala aqui e me chama a um amor mais generoso? A uma relação diferenciada com Ele? Uma leitura da Palavra que resulte em maior conhecimento de Deus consiste em ler estando atentos interiormente às moções do Espírito de Deus na nossa vida exterior e interior... assim, estaremos nos deixando ler por Deus!
         Vejamos o que aconteceu com Moisés:
      Como um menino hebreu que cresceu no palácio do Faraó, aprendendo da ciência da época e conhecendo todas as divindades do panteão egípcio, Moisés sabia muito pouco do Deus de seus pais.
     Vivendo no deserto, parece-nos que tornou-se um homem apreciador da natureza, cuja lembrança do Deus de Israel era muito vaga em sua memória. Por isso, quando algo sobrenatural lhe é mostrado ele acha que é algo comum, e não tem discernimento para perceber que neste algo espantoso, está o mistério de Deus! (Êx 3.1-4) Mesmo assim, por pura curiosidade ele se aproxima da sarça ardente, sem saber que está dando o seu primeiro passo no conhecimento de Deus. Registre-se que Deus se revela e o ATRAI.
      A aproximação de Moisés é profana, leviana. Ele se aproxima daquele misterioso fenômeno de forma comum, como se fosse algo próprio da natureza.  De repente, percebe que há algo mais, quando ouve uma voz: “Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, pois o lugar em que estás é terra santa.” (Êx 3.5)  Moisés precisava discernir o sagrado, do profano. Diante do Deus que se revela ele não pode portar-se levianamente.
     Deus se apresenta a Moisés, e este percebe que trata-se de uma apresentação formal do Deus de seus pais, que se dá a conhecer a ele:
      Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. (Êx 3.6) Neste momento, Moisés é tomado de temor e reverência e esconde  o seu rosto, entendendo estar diante da majestade Eterna (Êx 3.6)
    Numa apresentação, saber o nome do interlocutor é importante. Moisés pergunta: Qual o nome do Deus de meus pais? (Êx 3.13) Deus responde: EU SOU O QUE SOU !! (Êx 3.14) Os israelitas indagariam:  Deus se apresentou a você? Então como ele se apresentou? Que novo conhecimento ele permitiu que dEle você tivesse?
    Eu sou o que sou, ou Eu sou aquele que é. A revelação do nome, não é apenas uma verdade teológica, é um apelo a uma resposta de fé por parte de Moisés e do povo de Israel.
   Vamos confiar nEle? Vamos entregar nossas vidas e nosso destino a Ele? Vamos obedecê-lo?
    A seguir, Deus trouxe uma maior tranqüilidade a Moisés quando realizou uma série de sinais. Os sinais endossariam a presença e o poder do Deus Invisível.
    Moisés e Aarão tornam-se porta-vozes de Deus, e entregam ao Faraó e a Israel a mensagem que o Senhor lhes manda.  Mas nem sempre os resultados são os esperados.  Quando as expectativas são frustradas, Moisés volta-se para o Senhor indagando, por que?
    A  resposta de Deus revela sua longanimidade, sua paciência com o homem.  Deus revela sua Graça e fala da história da sua caminhada com Israel, um povo que inicialmente, não lhe conhecia pelo nome (Êx 6.3), fala de sua misericórdia, de promessas de salvação...
    Mas Israel está demasiado sofrido e angustiado, para que pudesse aproveitar naquele momento, o Deus que se revela para seu povo (Êx 6.9). Moisés e o povo testemunharam a liberação por Deus das 10 pragas do Egito. Celebraram a páscoa, conforme orientação divina, prepararam-se para a partida... e puseram-se a caminho.
    Em frente ao Mar Vermelho testemunharam novamente a intervenção maravilhosa de Deus. Diante da grandeza dos feitos divinos, Israel teme e crê (Êx 14.31), enquanto Moisés louva e canta.
   Deus continua agindo, mas também entrega a Moisés determinações, orientações, ordenanças, leis escritas. O caminho do deserto é um caminho de aprendizado, de expansão do conhecimento de Deus. Moisés e os anciãos de Israel sobem o monte, e têm uma visão de Deus (Êx 24.10-11)... Depois Moisés sobe sozinho e fica com Deus, no meio da nuvem (Êx 24-12-18).
    Havia um lugar especial onde Deus conversava com Moisés. Era a Tenda do Encontro, chamada também de Tenda da Revelação, lá ocorriam as conversas de Deus com Moisés (Êx 33.7-11). A esta altura, o conhecimento de Deus que Moisés apresentava já era muito amplo. As conversas aconteciam como os diálogos entre amigos. (Êx 33.11)  
    Moisés poderia estar acomodado com o nível de conhecimento já obtido. O que já era muito considerável! (Acomodação no aprendizado, é quando atingimos um ponto no qual achamos que já dominamos todas as verdades, ou seus aspectos principais, e paramos de nos empenhar no estudo da palavra, no aprofundamento do conhecimento de Deus. Ficamos repisando as mesmas verdades desprezando a riqueza de conhecimento que nos espera em Deus e na sua Palavra).
     Mas, não!! Moisés desejava mais...
     Agora me mostres os teus caminhos para que eu te conheça..  a fim de que continue a achar favor aos teus olhos (Êx 33.13)... Deus lhe responde: Irá a minha presença contigo para te fazer descansar (Êx 33.14)... e os pedidos de Moisés para aprofundamento do seu conhecimento de Deus são atendidos pois, ele achou graça aos olhos do Senhor, e era conhecido pelo nome (Êx 33.17).
     Ainda não satisfeito, Moisés pede: Rogo-te que me mostres tua glória (Kabod)... (Êx 33.18) A que glória Moisés se referia? Afinal ele já vira a glória do Senhor (Êx 16.7), em tantas outras ocasiões!
      Tua glória (KABOD)
     Vale a pena, entender por um momento o que Moisés queria dizer por tua glória. Não há dúvidas que o termo  hebraico kabod pode ser traduzido por glória na medida em que comunica a concepção de algo ou alguém que tem “peso” ou até mesmo uma posição de honra e dignidade. O termo, como substantivo e verbo, pode ser empregado tanto em relação ao ser humano como em relação a Deus. Quando usado em relação ao ser humano expõe o valor de seus bens materiais como também seu crédito e estima. Quando relacionado a Deus revela seu poder e autoridade.
    Alguns autores concordam que Israel experimentou a  kabod de Deus como um fogo devorador sobre o cume do Sinai. O esplendor da  kabod divina era tanto que nem mesmo Moisés pôde contemplar.
    Entretanto, o pensamento de  kabod,  no Pentateuco não se resume apenas a uma coluna de fumaça ou fogo, mas também está associado a completa magnificência ou grandiosidade da  presença de Deus. Era isso que Moisés buscava... Ver Deus de forma plena!  Ampliar o seu conhecimento dEle!
    A resposta do Senhor é:
      Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o meu nome... e agirei com GRAÇA (terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e me compadecerei de quem eu quiser me compadecer)  (Êx 33.19)
     O Kabod de Deus se revela a Moisés como Graça... Bondade... Misericórdia... Não é fogo, não são demonstrações de grande força... não.  Um desfile de bondade, de graça, e do Nome Santo de Deus. Esta experiência, definitivamente bastaria, para Moisés. Séculos depois, João escreveria, que em sua essência, Deus é Amor (I Jo 4.8)
      O homem que um dia foi atraído por uma manifestação sobrenatural de Deus sobre uma sarça, que queimava e não se consumia, agora gozava do privilégio de passar diante de si, a glória (kabod) de Deus. Muito mais do que manifestação de poder, Moisés testemunhava agora a essência do Deus de Israel, Deus de Graça e de Bondade!
     Às vezes continuamos girando em torno da sarça, em nossa curiosidade e empolgação... Há algo maior, há algo mais completo... busquemos ver a Glória (Kabod)  do Senhor.
    O que aconteceu com Elias? Um novo Encontro, e um conhecimento diferente de Deus
    Elias, era um profeta com uma caminhada interessante no conhecimento de Deus.  Acabara de vencer um embate com os baalistas, e grande vitória espiritual fora obtida diante do povo de Israel.
    Mas agora, ameaçado pela rainha Jezabel, Elias teme e busca a morte em sua tristeza. No deserto um anjo vem servi-lo e após alimentá-lo convoca-o a continuar a caminhada. (I Rs 19.7). Sobe ao monte e entra numa caverna para pernoitar. Ali o Senhor lhe aparece e ele testemunha uma natureza em fúria!!!
      Terremotos, ventos, fogo...
          A passagem do Senhor pela montanha foi carregada de sinais naturais. Elias já conhecia todas essas manifestações. Deus já se mostrara para ele como o Deus que envia fogo do céu (que consumiu o altar do holocausto, na prova do Monte Carmelo, e também consumiu os capitães e soldados que foram enviados para prendê-lo), como o Deus que controla as chuvas sobre a terra, que domina sobre as aves do céu (que um dia lhe serviram pão e carne)... mas naquele momento, Elias não necessitava de mais uma demonstração sobrenatural de poder de Deus. Mas naquele momento Elias não conseguia enxergar Deus em qualquer dos sinais... por isso diz o texto: O Senhor não estava no terremoto... no vento... no fogo (I Rs 19.11-12).
     Ele também ansiava pela Kabod de Deus... Mas esta Kabod não estava ali...
     Nossa visão de Deus, às vezes é extremamente reduzida. Estamos atrás dos terremotos, do fogo, dos furacões, dos terremotos despedaçados... das demonstrações sobrenaturais de poder. Que já conhecemos, que já testificamos. Mas buscar um aprofundamento no conhecimento do  Senhor, não é a busca por estas coisas... é mais que isso.
    Para que haja um verdadeiro encontro com o Senhor, e deste encontro resulte aprendizado, um novo conhecimento de Deus, é necessário algo mais que a revelação divina. É preciso que  o homem consiga enxergar o Deus que dele se aproxima.  Tem a ver com a presente necessidade humana, e sua disponibilidade em ver o invisível!!
      Elias estava carente da presença, da essência divina...
     O Kabod de Deus se revela a Elias como um Deus acessível de forma pessoal e inteligível à necessidade humana:    Uma voz mansa e suave (I Rs 19.12). Essa voz também reflete a bondade e graça divinas...
   Elias cobriu o rosto com a capa (I Rs 19,13), ao sair da caverna e ficar frente a frente com a kabod de Deus. Por que ele fez isso?  Porque desde Jacó (Gn 32.30), passando por Moisés, sabia-se que contemplar o Senhor significaria o fim do homem.
   Mas o cobrir o rosto nos fala de reverência, de temor. Nossa relação com o Senhor precisa estar pautada na reverência.  A reverência é mais do que uma emoção; é uma maneira de compreender, é um ato de discernimento sobre um sentido maior do que nós mesmos.
    A reverência reflete-se no Ai de mim de Isaías (Is 6.5). É o que sentimos quando deparamos com o mistério e com a grandeza de Deus:
      Poderás descobrir as profundezas de Deus? Poderás descobrir a perfeição do Todo-Poderoso? A sabedoria de Deus é tão alta quanto o céu. Que poderás fazer? Ela é mais profunda do que o Sheol! Que poderás saber? Ela é mais extensa que a terra e mais larga que o mar... (Jó 11.7-9)
      Na grandeza de Deus, em sua kabod, está o sublime. Aquilo a que tudo o mais se torna pequeno se lhe for comparado!!! Essa sublimidade gera a reverência em nós.
     Elias era reverente, temente... a reverência pelo Senhor é o começo da sabedoria (Sl 111.10). A bíblia não prega a reverência como uma forma de resignação intelectual, não diz que a reverência é o propósito da sabedoria... é o caminho... o início do caminho. Um homem não temente não desfruta da companhia divina!! Ele não consegue discernir o sagrado, o mistério, a kabod de Deus.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Um Encontro... muitos confrontos...


   Estou participando de um encontro de líderes cristãos... ninguém pode prever o que vai acontecer num encontro. Encontros podem significar o começo de algo novo, ou o fim de algo existente. Embora existam encontros de onde se sai do mesmo jeito, nada acontece... e a gente  volta sem nada pra contar, nada foi acrescentado, nada mudou. Claro que depende muito da disposição dos que se encontram... às vezes existe coisa nova no ar, boas propostas, mas um dos lados não abre mão de suas crenças, de suas certezas, é irredutível em suas posições, é insensível em sua avaliação do que se apresenta, vê com desdém ou cinismo o outro e o que ele traz... então não nasce coisa nova do encontro... não nasce um novo momento, não nasce uma nova perspectiva, nem um novo amor, nem uma nova missão...
   Este 40º Encontro da SEPAL, definitivamente não está se mostrando um encontro insosso, uma mera formalidade, mais um evento... verdade é que eu vim com o coração e a mente aberta para algo novo... na verdade nunca consegui deixar de lado o meu (agora velho) coração de estudante... E de alguma forma este Encontro foi um re-encontro com o meu passado. Ouvir o Asaph Borba dirigindo o louvor, e ser ministrado pelo pastor Jerê, me fez voltar 20 anos antes, quando eu ainda era um seminarista cheio de sonhos, e participava do Congresso da VINDE, em Recife... talvez alguns até se escandalizem, mas eu ainda continuo o mesmo garoto ávido por conhecimento e com o senso de que pouco sabe para as tarefas que estão por vir à frente... não perdi o coração de estudante!

Com Asaph Borba       
             Pr. Jeremias Pereira, ou simplesmente pastor Jerê, como o conhecemos no século passado, continua nos trazendo uma mensagem profunda de Deus, com um carinho peculiar e com aquele senso de humor mineiro que só ele tem. Agora com os cabelos brancos...Falou-nos sobre a mensagem de Deus a Israel: Eu é que sei os planos que tenho pra vocês... desafiou-nos a ver a vida sob o prisma da inescrutável soberania de Deus. E ele pode falar disso, ele que perdeu a querida esposa ainda muito jovem há mais de 10 anos... e ficou com os filhos pequenos, na época ele escreveu "Quando as coisas vão de mal a pior"... Não é um texto de auto-ajuda!
 Pr. Jerê                            
 O tempo vai passando e a gente vai consolidando nossas ideias, nossos conceitos... e eles vão se tornando em paradigmas, que são nossa maneira de entender o mundo e agir sobre ele. (Claro que este é um conceito meu, mas que não deve ficar tão distante do conceito acadêmico proposto por Thomas Kuhn).  A repetição das coisas e a taxa de sucesso das mesmas nos fazem consolidar nossos paradigmas... talvez ele tenham se iniciado moles, flexíveis, mas vão endurecendo com o tempo. E não apenas isso, mas passamos a vê-los com carinho, passamos a protegê-los, e atacamos todos que querem alterar nossos paradigmas. É como se isso fosse roubar parte de nós. Afinal são frutos de nossas vivências, nossas reflexões, nosso aprendizado... enfim é algo nosso!
     Imagine que você vai a um encontro e chegando lá alguém lhe apresenta algo que contradiz seu paradigma, e o desafia a abraçar outro paradigma. Seu orgulho é o primeiro a protestar. Já está tudo tão arrumado na cabeça, tudo tão organizado... tá funcionando, e vem você apresentando algo que lhe confronta, que lhe move a sair da sua zona de conforto, a questionar suas crenças, a ser desafiado a abandonar seus paradigmas... Foi isso que me aconteceu nesse encontro...
   Pr. Marco Veja veio de El Salvador, magrinho, fala mansa, simples... pastoreia a igreja Elim, um organismo em células (óbvio, todo organismo tem uma estrutura celular...). Apresentou-nos um panorama do livro de Atos dos Apóstolos como eu nunca tinha percebido antes (olha que eu tive a oportunidade de lecionar durante alguns anos o livro de Atos, no meu querido STPN).  Mostrou-nos os registros de Lucas em Atos como a relutância da igreja em Jerusalém em abrir mão dos seus paradigmas da lei mosaica de relacionamento com Deus, para abraçar os novos paradigmas da graça... fez links com a carta aos Gálatas demonstrando que, de fato Pedro, não obstante toda a insistência divina, continuava agarrado aos seus velhos paradigmas...



     Pr. Jeremias e Pr. Marco Vega também trabalharam com o texto de Jer 29.4-11... um povo de Deus em Babilônia, conclamado a interceder pela cidade em que estavam, a trabalhar pelo Shalom (pela prosperidade, pela paz) daquele lugar, a plantar pomares, a fazer aumentar o povo de Deus...
    Dr. Bishara Awad veio de Belém, da Cisjordânia. Ele é palestino, cristão, fundador e diretor da Faculdade Bíblica de Belém. Começou trazendo o Salmo 11.3: “Quando os fundamentos são destruídos, que pode fazer o justo?” Falou sobre sua história... sua família. Seu pai morreu na guerra de 1948, e sua mãe foi acolhida com os filhos na casa de muçulmanos, em Jerusalém. Falou sobre a ocupação da terra pelos israelenses... como na época dos romanos... agora os judeus são os ‘opressores’. Mas falou sobre o sublime amor de um judeu chamado Jesus, amor este que constrange os cristãos palestinos a amarem seus irmãos israelenses e orar por eles. Falou sobre a segunda milha...
Pr. Bishara e Marco Cruz (da Missão Portas Abertas)
Pensei nos meus paradigmas que me faziam ver os palestinos como as pedras no sapato de Israel. Pensei na minha educação que me inculcou um Israel triunfante... e eu li as biografias dos pais da nação de Israel, como Golda Meir, Moshe Dayan, Ythzak Rabin... e vibrei com cada vitória de Israel nas guerras de 1948, do Sinai em 1956, dos Seis Dias em 1967 e do Dia do Perdão, em 1973.
     Agora estou ouvindo um cristão palestino falando do amor de Jesus (nas palavras do professor Geza Vermes, Jesus, o Judeu), falando do verdadeiro aprendizado da Segunda Milha...
     É muito confronto, é muito paradigma a ser abandonado... que Deus me ajude...
       E ainda não terminou... hoje ainda tem o Miss. Ronaldo Lidório

terça-feira, 23 de abril de 2013

Confissões (parte 2)

   Há pouco mais de um ano, eu postava a primeira parte de minhas confissões... agora vai a segunda parte. Daqui a 10 anos eu termino de confessar tudo!!!


    Hoje as pessoas participam de tantas comunidades virtuais,  mas às vezes não encontram um ser humano de carne e osso para abraçar e partilhar o dia-a-dia. Naquela época o mundo virtual ainda era um exercício de ficção científica, e nós pertencíamos à comunidade da igreja local, que curiosamente chamava-se “Acampamento”. Foi  um espaço onde fizemos amigos, nos entendemos queridos e amados, e exercitamos nossa fé. Muito do que sou hoje, devo aquelas pessoas. Gente humilde, sofrida, trabalhadora, piedosa. Gente com suas picuinhas, seus pra-que-isso, suas idiossincrasias, gente... Gente aprendendo a viver com gente. Ajudávamos e éramos ajudados, amávamos e éramos amados.
    Tínhamos um profundo senso de pertencimento. Ali estava uma comunidade na qual minha mãe crescera com outras moças, onde também havia casado, onde as pessoas conheciam não apenas o presente umas das outras mas o seu passado, e os seus antepassados. Riam, choravam e sofriam juntos...

    A igreja mostrou-se um lugar ideal para exercício de talentos. Tão logo pude comprei minha máquina de datilografia portátil. Era uma Remington. Equivalia hoje ao notebook Itautec no qual estou digitando estas memórias. Na velha Remington eu editava o jornal mensal do nosso Grupo Vocal: Chamava-se Shalom. Eu participava de dois grupos de cântico, o Coral de Jovens e o Vocal, recitava, compunha jograis e pequenas peças, dava aulas na Escola Dominical... Ah... era colportor. Para manter meus hábitos de leitura, passei a vender livros. Foram os primeiros de minha biblioteca! E como eu devorava livros!!
    Nosso grupo de jovens era de causar inveja... éramos mais de 100 jovens numa igreja de bairro. Tínhamos algumas lideranças que nunca esqueceremos, gente que nos inspirava, gente que nós queríamos seguir...
    Fazíamos viagens evangelísticas para o interior, que nos forjaram o entendimento de um evangelho simples, que podia ser compartilhado e vivido. Meu aniversário de 15 anos foi numa dessas viagens, à cidade de Custódia, sertão de Pernambuco.
    Com 16 anos incompletos comecei a trabalhar como Menor Auxiliar de Serviços Gerais no Banco do Brasil. Trabalhava de manhã na agência Centro Recife, estudava à tarde, e fazia curso de Contabilidade à noite. Lembro-me bem do ônibus do Alto José Bonifácio/João de Barros. Vinha cheio demais, apinhado de gente... Ainda bem que indo para o Banco, eu descia no ponto final.
     Nossa farda era azul, mas um azul muito feio. A camisa era de tergal (!). Éramos muitos menores no prédio.  A Centro Recife ocupava todo o prédio da Av. Rio Branco, 240. Eram 10 andares de gente comandada por um super-gerente que era quase um semi-deus. Boas lembranças daquela época.
     Integrando a equipe BB fui forjado como profissional, e lapidado nas preferências culturais. Os colegas eram apreciadores de viagens e de arte... E o menorzinho só ouvia os relatos.
     Fui aprovado no Concurso Interno e no meu aniversário de 18 anos assumi como funcionário da carreira administrativa do Banco. Naquele ano passei no vestibular e tive a cabeça raspada. Despedi-me do Colégio no qual estudei por 12 anos, e dos amigos de infância. Fiz minha primeira viagem em férias, para João Pessoa, Natal, Campina Grande,  Taquaritinga do Norte e Paulo Afonso. Meu irmão Heber me acompanhou pelo trajeto nas capitais, depois eu continuei sozinho pelo interior.

    Comprei meu primeiro carro, uma Brasília amarela, 1980, dois carburadores... zoadenta como ela só. Foi nela que eu e meu pai aprendemos a dirigir. O Córrego, onde morávamos estava cada vez mais violento. Muitos moradores originais da rua já haviam se mudado para outros bairros em busca de mais sossego. Assim que tivemos condições, custeamos a diferença de uma outra casa, e deixamos o nosso velho Córrego da Jaqueira, e passamos a integrar a comunidade do Rio Doce, em Olinda.
    Conciliei a Faculdade com o Seminário, e toquei os cursos de Administração de Empresas e Teologia. Novos amigos em ambas as instituições. Muita leitura, muito estudo.  Perto do fim do curso de Teologia, meu amigo Leandro me levou ao Ceará, e lá na bela praia da Taíba, eu conheci minha virgem dos lábios de mel, Elynes, na época estudante de Psicologia, com a qual casei 1 ano e meio depois, e raptei para Recife.
   Concluí os cursos, fui dar aulas de Teologia, enquanto minha carreira no Banco ia progredindo. Fizemos nossa primeira viagem à Europa em 1997, e para lá retornamos algumas vezes... e as paisagens e histórias dos livros passavam diante de nós, nas catedrais góticas, nas ruas, nos museus, jardins e palácios de Paris, Toledo, Madri, Burgos, Ávila, Barcelona, Genebra, Bruges, Bruxelas, Amsterdan, Florença, Milão, Roma, Nápoli, Praga, Budapeste, Viena, Salzburg, Colônia...


      Em 1999, nasceu nosso primeiro filho, Paulo César. Eu era pai... Tia Cida, que cuidou de meu irmão Bene, quando ele nasceu, veio nos ajudar a cuidar do Paulinho. Voltei para a Faculdade para cursar uma especialização.  Quando Paulinho tinha dois anos eu fui transferido de Recife para Petrolina, no sertão do Estado... muito chororô na despedida. Novas mudanças, novas amizades, novos desafios, muito trabalho! Uma comunidade que nos abraçou com muito carinho, pessoas queridas que passaram a nos amar, e vice-versa.  Ali nasceu nossa filha, Aline Barros. O nascimento de um filho era um sinal que eu precisava voltar aos bancos escolares. Fui cursar o mestrado na Faculdade Teológica de São Paulo. Ainda me lembro do longo trajeto... ônibus de Juazeiro  a Salvador, numa estrada extremamente esburacada e um vôo de Salvador a São Paulo. Lembro  dos dias e noites trancado num quarto de um hotelzinho barato em São Paulo para terminar os trabalhos, que não conseguia fazer em casa...

     Nas férias descobertas de novos locais... nos feriados muita natureza a ser explorada na Chapada Diamantina, na Chapada do Araripe, na Serra da Capivara... Não precisava ir muito longe para fazer um passeio. Bastava pegar  o barco e atravessar o rio para Juazeiro.  Os amigos nos chamavam para as roças... uma roça à margem do Rio São Francisco, era tudo de bom! Ah... como dizia Aline, lá nós éramos celebridades, de vez em quando estávamos nas colunas sociais!
      Naquela cidade acolhedora, nossa casa na Rua da Simpatia, sombreada na frente por uma grande castanhola, era um convite para fixarmos residência ali. Fui ensinar na Faculdade local... De repente... chegou a hora de partir. Não fiz despedida, não disse adeus. Apenas fui. Por isso quando volto lá novamente, parece que eu nunca saí dali.
    O Ceará acolheu de braços abertos um forasteiro... ninguém conhecia meu passado, minha história, minha formação, meus pais... Fortaleza se tornou minha cidade, como Recife, Olinda, Petrolina... mas também como tantas outras onde estive e onde estão meus amigos... Salvador, Natal, Vitória, Brasília, Rio, São Paulo...
    São 21:00 e eu estou voando sobre algum lugar desse Brasil querido, compartilhando com vocês minhas memórias... É bom relembrar, reviver... eu estava com saudade disso!

domingo, 30 de dezembro de 2012

2013...Ano Novo... Vida Intensa e paixões


  Puxa... amanhã é o último dia do ano... foi um ano intenso, isto é, vivido intensamente. Intenso nas atividades, intenso nas exigências, intenso nos desafios, intenso nos medos, nos enfrentamentos...
   Aprendi que a vida precisa ser vivida de forma intensa. Vidinha mais ou menos, calma e serena, sem muita adrenalina, sem ter nada pra contar... pra que? A vida precisa ser vivida intensamente, e uma vida intensa quer dizer uma vida vivida apaixonadamente. Primeiro é preciso paixão pela vida, paixão que um poeta dizia que é “sorvida aos goles”, como uma boa bebida. Estar vivo neste final de 2012, aguardando 2013 é motivo de celebração!

    Mas as coisas não aconteceram do jeito que eu pensei... a tão sonhada oportunidade profissional não surgiu como prevista... ainda não consegui entrar no curso desejado na universidade... o coração ainda está confuso e “só”... as turbulências domésticas continuam rondando o cotidiano e tirando o sossego... Enfim! Celebra-se assim mesmo?

    Celebra, sim! Celebra o dom da vida, celebra a esperança que se renova a cada amanhecer, celebra o calor do sol que aquece o rosto... celebra o Criador!
    É preciso estar apaixonado por uma causa... a paixão alimenta a adrenalina, e empurra você para realizar muito mais!!!!! Edward Gibbon foi um historiador inglês do século XVIII, que quando foi à Roma e viu as ruínas do Forum Romano apaixonou-se por uma ideia, uma causa... relatar o Declínio e Queda do Império Romano. Viveu em função dessa paixão e deixou uma obra que ainda hoje continua tendo o seu valor... um livro que tem a marca da paixão.
   A gente se apaixona por um saber, por um conhecimento, que se mostra e se esconde...
   Minha esposa se apaixonou pela psicanálise lacaniana... não se mede tempo e recursos por uma paixão... enfrenta-se todo o tipo de obstáculo... e já dizia Fernando Pessoa que “tudo vale a pena se a alma não é pequena...” Ela sabe muito melhor do que eu falar sobre essas coisas.... amor, paixão.
    É preciso estar apaixonado pelas pessoas... pelos familiares, pelos filhos, pela esposa, pelo marido, pelos amigos.  Gosto de ficar observando o vaivém das pessoas nos aeroportos e rodoviárias. O fim do ano é a época de maior movimento nestes lugares. E as viagens não são de negócios...  Viaja-se para ver [e rever] pessoas amadas, viaja-se pelo prazer de estar com o outro. Não importa se vamos gastar pouco ou muito... isso não interessa para a paixão.

    O Cristianismo traz dois grandes exemplos de homens apaixonados. Homens em cuja história está condensada a paixão pela vida, por uma causa, e pelas pessoas. Estou falando em primeiro lugar de Jesus. Nem precisa falar muito, porque está nas canções, nos filmes, nos livros... A Paixão de Cristo. Uma vida curta mas intensa.  Ele disse que veio nos trazer vida, e vida com abundância. Ele era um embaixador do Reino do Céu, e esta era a causa que lhe movia. E ele era apaixonado pelas pessoas.  Lembro de uma música antiga que dizia: Marcou a história, transformou corações... perdoou inimigos e salvou multidões... Morreu numa cruz por essa paixão!

   Outro expoente do Cristianismo que não pode ficar de fora quando se fala em paixão chama-se Paulo.  Suas palavras demonstram a paixão que o motiva: Ai de mim, se não anunciar o evangelho...  De boa vontade me gastarei e me deixarei gastar... o que nos motiva é o amor de Cristo (II Co 5.14)...
 

    Pessoas que são movidas por paixões marcam sua geração!!! Vivem intensamente... como Jesus, como Paulo.  Como será 2013? Mais 12 meses de vida na nossa história, que passarão voando, e daqui a pouco vamos comentar sobre o ano que passou tão rápido?
   Não!  Faça cada momento valer a pena. Que seja marcante pra você, que seja marcante para os outros... Um 2013 intenso, e cheio de paixão pra você... Paixão pela vida, paixão por uma causa, paixão pelo Reino e pelo Senhor do Reino, paixão pelos outros, sejam estes namorados, cônjuges, pais, irmãos ou amigos. Vai ser um ano inesquecível!!! Não apenas pelo que você está esperando do ano, mas pelo que você está disposto a oferecer!!!
    

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Menino-Deus: Oportunidade de Adoração para Cultos e Incultos

Como cristãos que somos, deve estar claro pra nós que Natal é muito mais do que o ápice do consumo anual... é mais do que ir aos restaurantes para confraternizações e comprar e ganhar presentes, até porque alguns de nós não usufruímos de nenhuma dessas alternativas.  Um dia destes estava num shopping (para compras natalinas) e ouvi alguém tocando uma música numa loja, era mais ou menos uma oração ao Papai Noel:
"Papai Noel   
Traga um presente pra mim
Lá do céu..."
Era uma súplica a uma divindade gordinha e rosada, que faz a alegria da criançada chamada Papai Noel. Pensei  na teologia de muitos para os quais, Deus é uma espécie de Papai Noel onipresente.
É verdade que os magos caldeus trouxeram presentes... mas  seus  presentes faziam parte da  formalidade exigida pelo momento. O que mais nos intriga quanto a esses homens é o  seu caminho, do Oriente para a Judéia. Foi seu desprendimento em vir da Mesopotâmia, atravessando desertos e perigos para adorar o Rei dos Judeus. Fico pensando no que estamos dispostos a renunciar para adorar o Rei...

Não podemos esquecer dos pastores... não há registros de que trouxeram presentes... este protocolo era desconhecido para homens do campo, não acostumados às formalidades palacianas (ainda que o Rei estivesse numa estrebaria).  Mas foram à Belém...

Em Belém encontramos cultos e incultos reunidos em torno do Menino-Deus:
 Os  magos caldeus, cultos, esclarecidos, entendidos foram atraídos  por um sinal no céu, que as análises astronômicas, a sabedoria milenar e o seu saber científico indicavam tratar-se de algo especial... Foram então em busca de adorar ao ser  percebido através do seu conhecimento... guiados pela estrela...

Os pastores também estavam lá, como dissemos homens simples, não afeitos a leitura das mensagens da natureza, nem ao saber livresco.  Mas homens atentos ao sobrenatural. E de repente viram um coral de anjos no céu anunciando o nascimento do Salvador, e enviando-lhes a Belém.  Claro que se isso tivesse acontecido aos magos caldeus eles iriam analisar o acontecido e chegar à conclusão que estavam tendo um acesso paranoico ou um surto psicótico. Mas não para os pastores, para os quais o sobrenatural não estava descartado, o sobrenatural era manifestação divina que toca o homem. Foram então até Belém... atendendo ao chamado de um coral de anjos!

Eis o mistério do Natal. Homens cultos e incultos adorando ao mistério do Deus-Encarnado. Uns guiados por uma criteriosa análise racional, da trajetória de um astro celeste... outros guiados por uma visão de anjos. Ambos se dispuseram à adoração.  Cada um por sua vez se curvou diante da manjedoura...
Natal é isso. É atendermos ao chamado divino, que nos vem pelas mais diversas formas, e não sermos incrédulos... façamos nosso caminho em busca do Rei nascido, às vezes longo e penoso como o dos magos (para os ricos “no conhecimento”, é sempre uma trajetória complicada)... mas tão produtivo quanto o dos pastores.  E juntos, cultos e incultos nos prostremos diante do Rei que veio nos reconciliar com o Pai!!!
Feliz Natal.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O teu Deus será o meu Deus...


“Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus...”  Rute 1:16


     A decisão de Rute em ficar com Noemi, reveste-se de um mistério e indagações que merecem investigação por parte do leitor... Por que uma moabita deixaria sua pátria, seus familiares e seguiria a mãe de seu marido morto, para uma terra desconhecida?
    Em sua decisão em seguir sua sogra, Rute afirma: “o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus...”
   Rute não conhece o povo de Noemi, nunca foi na terra para onde Noemi ia... Seria então tudo que envolvia Noemi uma total incógnita? Não. Na realidade além da própria Noemi ela conhecia algo mais... e quando ela afirma: o teu Deus é o meu Deus... podemos com certeza entender que ela conhecia esse Deus! Ela demonstra que conhece o Deus de Noemi!
    Ao entendermos que Rute conhecia o Deus de Noemi estamos diante de uma realidade muito forte. Em primeiro lugar estamos falando de um Deus que é relevante na vida da pessoa. Ele não é um mero acessório, não é uma crença ou uma afirmação teórica. Este Deus faz parte da vida e da história de Noemi.
     Era um tempo em que servir e temer a Deus fazia parte do cotidiano das pessoas. Quando indagaram a Jonas quem ele era, ele respondeu: Eu sou hebreu, e temo ao Deus do céu! A relação com Deus fazia parte da identidade do homem.
    Era um tempo no qual a divindade não estava confinada aos “gaps” das explicações científicas, ou aos tratados teológicos que admitem que Feuerbach estava certo, ao afirmar que a divindade é uma projeção do desejo humano...
     Mas é preciso reconhecermos que a época de Noemi em Moabe não foi um período de muita prosperidade ou muita vitória, como falariam os triunfalistas de plantão. Foi uma época de vacas magérrimas.  Uma família longe de casa, fugindo da fome, deixou bens e propriedades na sua terra natal, e foi de mãos abanando para um outro país... Imagine uma família de retirantes nordestinos fugindo da seca (fato bem provável, hoje), cruzando a fronteira do sul penetrando em território uruguaio ou argentino... sem eira nem beira...
     Conseguem se instalar no novo país, aculturam-se, os filhos casam com moças do lugar. Mas a aculturação é parcial... Não abandonam o seu Deus. E as noras moabitas testemunham a fé num Deus invisível, que se mantem viva em  meio a tantas adversidades.
    O pior ainda está por vir... Talvez uma peste, ou uma epidemia dizimou os homens da família. Morreram o marido de Noemi e seus dois filhos, deixando três mulheres viúvas, sendo uma idosa e duas jovens.

    Seria motivo suficiente para o desespero, para o abandono da fé nesse Deus que não poupou seus filhos, que fazia pesar sobre uma velha e sofrida mulher a sua mão...  E nesse momento é preciso registrar que não havia vitória à vista... não havia esperança...
    Mas Deus fazia parte da vida de Noemi... E não apenas quando tudo estava bem, e a alegria invadia o coração e a casa... Ou apenas quando a enfermidade exigia que se fizesse orações e súplicas a um Ser maior que pudesse socorrer o moribundo. Deus fazia parte da vida daquela mulher mesmo quando o marido e os filhos foram enterrados... mesmo depois que a última pá de areia cobriu o corpo inanimado dos entes queridos... quando não havia mais nada a fazer, a não ser chorar e lamentar. Quando todas as lágrimas estavam sendo derramadas... quando a palavra de consolo do outro parece vazia e sem qualquer sentido. Deus continuava sendo relevante para a vida daquela mulher, ainda que fosse para ela se indignar com ele e dizer: “A mão do Senhor voltou-se contra mim...” (Rt 1.13)
     Rute não entende o que está acontecendo. Por que tanto sofrimento sobre uma pobre mulher? Mas o que mais lhe chama a atenção é essa confiança nesse Deus que continua viva, forte, inabalável! Ela sente desejo de servir a esse Deus, de amar esse Deus, de tê-lo também como Senhor de sua vida... O teu Deus, será o meu Deus!

    Que Deus é esse que temos? E que relevância ele tem em nossas vidas para que as pessoas desejem servi-lo, amá-lo, como nós o amamos?
    Ele continua sendo relevante para nós mesmo quando não há sinalizações de grandes bênçãos? Ele continua sendo nosso Deus mesmo quando não entendemos o que ele está fazendo conosco? Se respondermos positivamente outros desejarão ter o nosso Deus, e dirão como Rute: O teu Deus será o meu Deus!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O que os olhos não veem o coração não sente!

   Voltei hoje de uma rápida viagem a Recife, onde fui dar um abraço nos meus pais (de dia dos Pais [no meu pai], e de Aniversário [na minha mãe])... O avião sobrevoou a cidade, foi até a zona rural da Caucaia depois aprumou para o Pinto Martins... Voltei pra casa.
    A ida a Recife também fala de um voltar pra casa. Nas palavras da canção de Alceu Valença: Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço...  Me dei conta que estou fora da minha cidade há 11 anos.  Volto pela saudade, da cidade, das pessoas... da minha história, de cada momento vivido ali.
   Às vezes  mergulho no trabalho e deixo a saudade esquecida...  Mas agora, revendo tudo, andando pelas ruas da cidade relembro da máxima: O que os olhos não veem o coração não sente.  Olhar pra cidade, as pontes, as pessoas... é sentir de novo, a dor da saudade, e a certeza  de que meu Recife não está no meu passado, está em cada momento do  meu presente!
   Abracei minha mãe, meu pai, meus irmãos, minhas tias queridas (tia Ruth, tia Moisa, Tia Madalena), meu sobrinho Pedrinho, que eu não estou vendo crescer...
   Na televisão assisto entrevistas com meus colegas de Colégio da Polícia que hoje são comandantes de unidades na Polícia Militar e no Corpo de Bombeiros. Recebo um panfleto da campanha eleitoral da cidade que anuncia que Geraldo Júlio que cursou Administração comigo na Faculdade está candidato a Prefeito, apoiado pelo Governador.
   Fui orar na igreja que participei há mais de 18 anos.  Depois subi sozinho a Cidade Alta de Olinda. Andei nas ruas da cidade velha como costumava fazer viajando nas cidades do mundo... Londres, York, Roma, Jerusalém.  Com os olhos curiosos vendo cada coisa como se fosse a primeira vez, com o olfato sentindo cada cheiro..
     Passo pelos velhos casarões... pelas casinhas espremidas entre os sobrados...  percebe-se as definições da pirâmide social nos casarões com eira, beira e tribeira... enquanto nas casas humildes não se tem  “eira nem beira”...
    Subo a Ladeira da Misericórdia... lá de cima a paisagem é soberba, fazendo valer a pena cada esforço da subida.  Lindo... O Recife visto do Alto da Sé, emoldurado pelo casario antigo de Olinda. Tantas vezes já vi essa paisagem... mas a vi novamente como se fosse a primeira vez! Para me deixar levar pelo encanto  do momento. Entardecia...
Depois de anos voltei ao Seminário que frequentei durante toda a década de 90, primeiro como estudante depois como professor.  Conversei com o velho mestre Thomas Fodor, e alguns outros que eram remanescentes do meu tempo.  Tem uma pergunta que sempre surge: E aí, quando volta?
    Tomo o avião no Aeroporto dos Guararapes, com destino a Fortaleza.  Minha esposa veio me buscar.  Voltei. Voltei pra ficar, pois aqui é o meu lugar!